segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Dia do Orunkó: O marco do renascimento de uma nova vida

O Egbé de Babá Rivas T’Ogyion está em festa! Passados 17 dias de recolhimento no barco e os últimos dias do panan, ainda em curso, o Ile Funfun  Aşé Awo Oş'oogun foi o espaço sagrado da feitura de santo de queridas irmãs. Entraram abyians, saíram Iyawos. O que dizer?
Diria que foram muitos dias de aprendizado. Não me refiro só as iyawos, mas a todos e todas indistintamente. Respiramos fundamento, força, renovação e tantas quantas forem as palavras para expressar a valência ancestral dos Orisás africanos em nossas vidas. Deuses e Deusas que vi, senti e vivi com meus irmãos sob os auspícios do Babá Rivas T’Ogyion.
O ápice para nosso egbé, certamente, foi a saída do 17º dia. Nesse dia como reza a tradição, filhos e filhas, pais e mães de santo se reuniram para o Siré. Uma roda, uma exortação aos nossos genitores divinos como uma brincadeira, uma festa, uma verdadeira celebração. Rezamos com canto, exercitamos a nossa fé com a dança. Cantando e dançando para todos os Orisás, ansiávamos para o momento da saída pública das iyawos.
E elas saíram. Todas pintadas, o efun, com sinais que foram feitos desde o início da nossa linhagem e agora são mais uma vez evocados para marcar no ori e no bará que aquelas Iyawos pacientemente gestadas no útero em que se transformou a camarinha são manifestações dos próprios Orisás. Após, os orins que versam sobre esses enredos, os paós recebidos pelos Orisás nos pontos específicos do Ile, algo sabido de sobejo pelos Babás e Yás, elas são recolhidas.
Retomamos o Siré já na expectativa da derradeira saída com as roupas e paramentos próprias de cada Orisá. Dançavamos em torno do opá de Ogyion, os Babás e Yás em suas cadeiras, a comunidade, os familiares e amigos mais próximos dentro do barracão olhando tudo com grande entusiasmo. Eis que o Babá sai da camarinha chamando os Deuses e Deusas vivos, realizados e presentes nas iyawos. As palmas, as saudações, o sorriso, as lágrimas de felicidade, uma profusão de sentimentos tomou conta do Ile. Nesse momento, o tempo parou. As barreiras entre o Orun e o Àiyé se apagaram momentaneamente. E os Orisás dançaram, marcaram presença, firmando seu Asé em nós.
Mas o momento mais emocionante estava para se processar. Foram instantes depois desse registro fotográfico:



Nessa ordem Dofona, Dofonitinha, Fomo e Fomitinha, em transe com os Orisás, sentados, depois de ouvir tanto os nossos cânticos, nossos paós, nossos sentimentos, resolveram falar. Era a hora do orunkó. Cada Babá e Yá pela ordem do barco abraçava o Orisá e saía para uma pequena volta no barracão. Assim como realizado em tantas e tantas vezes de África ao Brasil, o Orisá falava baixinho no pé do ouvido o nome para o sacerdote/sacerdotisa. Esses últimos com adjá na mão, pediam para o Orisá falar bem alto seu nome. Eis que o Orisá falava e pela primeira vez todo o público ouvia...
O Ile se encheu de emoção. A alegria era arrebatadora. Todos nós entramos num grande êxtase coletivo, o Asé era tão forte que podíamos sentir seu cheiro, ouvir seu som, estava nas Iyawos, no Babá. Estava em nós. Algo que não esquecerei jamais em minha existência. Os Orisás chegaram, dançaram, usaram suas ervas, seus instrumentos, nos abençoaram, tiraram o orunkó. Tudo isso em horas de toque que entrou madrugada a dentro, mas que passou em um piscar de olhos. Piscar esse que viu o retorno das iywaos para a camarinha. Instantes depois, com o Siré terminado, já estava me fartando no ajeum. Conversando, rindo com meus irmãos e irmãs. Aquele dia já passou, ficou na história. Entretanto, o que vi e vivi ainda reverbera na minha alma. Isso é o Santo, isso é o Candomblé em sua plenitude.
Não tenho palavras para agradecer. A tudo isso que experenciei, Ibá Babá Mi. Adupé O. Ibá Gbogbo Orisá, Ibá Onilé!


João Luiz Carneiro (Yabauara)

Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 638

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