segunda-feira, 4 de maio de 2015

Run de Ogiyan: filosofia e ética do corpo no candomblé

No último dia 25 de abril nossa comunidade de santo vivenciou o Rum de Ogiyan no Ile Funfun Axé Awo Osogun. Em postagens anteriores nosso Babá publicizou um trecho do run aqui no blog. Hoje, disponibilizará mais um deles.
Estive presente neste toque. Dias antes como membro da comunidade do egbé trabalhando ativamente na construção dos espaços do ilê. No dia do toque como participante. Hoje, pedi licença ao meu Babá para que pudesse compartilhar aqui algumas das experiências sensíveis e outras intelectivas (e não dissociadas do afeto) derivadas de minhas reflexões como pesquisadora das religiões afro-brasileiras. Em meu doutorado, uma das frentes de trabalho na antropologia da religião é estudar a constituição de laços fortes em uma família de santo. Para uma filha de santo o toque foi inesquecível. Para a pesquisadora, um verdadeiro laboratório vivo do candomblé!
Que oportunidade poder entrelaçar essas duas facetas de mim mesma: a religiosa e a científica e é isso que pretendo, humildemente, delinear nas linhas a seguir.
Pessoas que convivem com o candomblé, seja como filho de santo, como pesquisador, simpatizante, sabem que ele é uma religião com fortes raízes africanas (de “Áfricas” diversas) e que se constituiu em solo brasileiro de maneira sui generis. Em situação de resistência e opressão, africanos e afrodescendentes estruturavam uma contracultura religiosa que se fazia presente e evidente por meio dos seus corpos. Nada mais visível do que o corpo. Paradoxalmente, nada mais oculto do que o corpo. É ele que expressava e, ao mesmo tempo, velava as tradições. Por meio das danças os africanos e afrodescendentes mantinham comunicação entre eles (independente das várias línguas), conseguiam recuperar e vivenciar suas terras natal diminuindo a dor da diáspora. Fortaleciam sua força para viver quando externavam a dor reprimida. E, principalmente, conseguiam romper o silêncio que a escravidão imputava-os. Silêncio de raça. Silêncio de classe. Silêncio de religião.
Nas danças africanas e afrodescendentes um repertório de experiências era acumulado e os laços entre todos fortalecidos. Não se trata de uma visão inocente e idealizada dos hábitos africanos em solo brasileiro, mas da constatação de vários pesquisadores (historiadores, sociólogos, antropólogos, linguistas e teólogos) de que a expressividade do corpo fazia falar várias vozes.
Foi impossível não lembrar desse histórico ao presenciar o Rum de Ogiyan. É imprescindível recuperar a dicotomia ante as visões ocidental e oriental de mundo. A história da civilização ocidental foi elaborada sob o sustentáculo de práticas racionalizadas cuja lógica norteou as condutas morais de cada grupo. Weber já destacava isso há muito tempo. As filosofias e religiões ocidentais criaram um modus de enxergar e estar no mundo em que o corpo é renegado ao domínio do mundo profano, um mero instrumento invisibilizado perante a figura hiperatrofiada do Deus cristão. Os corpos sociais e individuais respondem aos chamados divinos, mas não falam, não se expressam e não aparecem.
Já as filosofias e religiões descentralizadas da ordem ocidental europeizada construíram uma outra via de conhecimento e interação no mundo. Nelas, o corpo não é instrumento, é centro fundamental para a expressão religiosa. Não por acaso, a iniciação no candomblé exige um contato íntimo e específicos com cada parte do corpo. Ficou conhecida, por exemplo, a expressão “fazer a cabeça”. Vulgarizada pela linguagem comum, fazer a cabeça é um processo delongado de constituição do Ori, do destino propiciando a ligação efetiva com o Orixá. Mas isso jamais poderia escrever aqui, só quem esteve no “silêncio” de uma camarinha para saber, sentir...
Obviamente, a experiência viva no dia do toque é impossível de ser transmitida, mas posso assegurar o cuidado de nosso Babá para o que viria a acontecer: a chegada de Ogiyan. Filhos e filhas de santo trabalhando em funções variadas para o preparo do Ilê. Laços fortes de uma comunidade de santo, comunidade esta que é inserida na dinâmica maior da sociedade brasileira, pautada na lógica do tempo cronológico, dos afazeres profissionais, do individualismo...mas, o axé do terreiro é capaz de criar outros estilos de vida orientados ao Orixá, um Deus presente, próximo, que dança, que tem sua vestimenta própria, suas ferramentas, sua linguagem, seu axé!
É isso que vi em Ogiyan! Ao mesmo tempo uma leveza incrível proveniente de seus passos, sua dança, seu ritmo e também a força e vitalidade de um guerreiro! Leveza e força, suavidade e vigor. Ogiyan era robusto, um general! Era vivacidade e também frescor. Fazendo uso das palavras de nosso Babá, o momento da presença do Orixá é único e especial. Ele não existe na virtualidade. Mas, pedimos que o Babá autorizasse a divulgação desse pequeno trecho para que as pessoas que acompanham o blog pudessem sentir, ainda que minimamente, o grande Ogiyan envolvendo a todos com sua atmosfera fresca e todos os filhos do egbé saudando verdadeiramente aquele que conhece os segredos do culto.
Em todos os dias que se seguiram depois do Rum de Ogiyan, não houve um em que eu não pensasse e sentisse o que vivi. Sentimento de alegria, honra e saudades. Muitas saudades. Desejo íntimo de reviver e estar próxima de Ogiyan. Sentir o cheiro do axé do Ilê Funfun, beijar a mão de meu Babá, ouvir os orins e toques, dançar para nossos deuses e deusas, estar próxima do meu egbé. Depois de Ogiyan seus filhos não são mais os mesmos.
Xeuê Babá dimula igbin!
Axé!

Yacyrê.





Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 616

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