quinta-feira, 16 de abril de 2015

Reflexões sobre a história religiosa na ABHR

Na publicação de hoje passamos nossa pena para João Luiz Carneiro, nosso filho de santo e docente da FTU, para apresentar algumas reflexões sobre sua presença no XIV Simpósio Nacional da ABHR (Associação Brasileira de História das Religiões). Axé!


Olhando a história vejo como se faz História

Acabo de sair do segundo dia de congresso. Refiro-me ao XIV Simpósio Nacional da ABHR. Por volta das 17hs, fizemos o lançamento do livro “Religiões Afro-brasileiras: Uma construção teológica” e foi inevitável constatar como as pessoas estão interessadas na proposta da FTU – Faculdade de Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras. Mulheres e homens, literalmente de Norte a Sul, querendo saber o que tem por de trás desse livro. Como é a FTU, como surgiu, quem participa do projeto? Após um final de tarde muito agradável, fomos para a conferência “Chico Xavier e a palavra escrita na Umbanda da primeira metade do século XX” do prof. Dr. Artur Isaia (UFSC).
Em sua interessante fala, o professor afirma como o discurso umbandista vai ao longo do século XX se apropriando da ideologia espírita e cristã na tentativa de legitimar suas práticas e seu espaço social. Notadamente a figura de Chico Xavier se destaca em vários textos umbandistas não só na primeira metade, como atravessa a segunda metade do século passado. Cita Diamantino Trindade, Lourenço Braga, Cavalcanti Bandeira, entre outros intelectuais de umbanda que foram ao encontro desse discurso. Comenta que o primeiro congresso de umbanda tinha como autodenominação “espiritismo de umbanda”, algo que deixou de ser usado no segundo congresso (década de 60), mas que ainda reforçava (e muito) essas aproximações. Na segunda metade do século XX, evoca a figura de W. W. da Matta e Silva como esse importante intelectual umbandista reproduzira o discurso de Chico Xavier ao considerar o Brasil uma pátria especial, “coração do mundo”. Justifica o argumento com um dos capítulos de “Doutrina Secreta da Umbanda”.
Após sua fala, a plenária ficou aberta para perguntas. Fiz o primeiro questionamento. Apenas um detalhe: ao afirmar que era docente da FTU, fui recebido pelo prof. Isaia com um verdadeiro sorriso, algo que demonstra como a Faculdade de Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras está cada vez mais conhecida no meio. Pois bem, perguntei como ficariam as outras umbandas, tendo em vista que o discurso era majoritariamente de autores e intelectuais de umbanda “branca”. O que fazer com a umbanda traçada, umbanda omolocô? Até mesmo a umbanda esotérica, citada na fala, já possuía em Matta e Silva influências africanas, sendo que seu sucessor Rivas Neto daria e vem dando total ênfase às influências africanas, deixando os elementos espíritas e cristãs totalmente inviabilizados nessa nova fase.
O professor respondeu concordando que esse discurso codificado da umbanda cristã nem de longe reproduz a realidade. Ele mesmo como pesquisador não admite tais propostas, que reforçavam o racismo, usando o sincretismo como poderosa arma para diluir as influências africanas no universo umbandista que exaltava o espiritismo para serem aceitas por camadas mais abastadas da sociedade.
Minha primeira satisfação foi em reconhecer como o discurso de Rivas Neto é coerente, academicamente falando. O que o professor respondeu, sinceramente, já tinha ouvido do meu Babá há mais de ano. Teologicamente e historicamente a análise dos fatos aponta para as mesmas questões. Não podemos “tapar o sol com a peneira”. Principalmente os que se dizem umbandistas. Olhar para esse passado e naturalizar o que fora feito é sinônimo de conivência com preconceitos vários, do religioso ao étnico.
Isso não ficou vago na Umbanda Esotérica. Pai Rivas mostra como a primeira fase com seu antecessor foi importante, vide a questão de Ifá de seu Mestre, mas não nega os erros que essa escola cometeu. Ao contrário, assume e tem a coragem de retificar tudo que for preciso. Inclusive o afastamento da doutrina espírita e centralizando as origens africanas do principal fundamento da Umbanda Esotérica, ou seja, nas palavras Dele, “colocando Ifá na sala de estar”. Esse movimento com Ifá promovido nessa segunda fase da Umbanda Esotérica exige uma série de mudanças. Nos aspectos sociais é a total aversão e repúdio ao racismo, misoginia, etnocentrismo, evolucionismo social e espiritual, entre outros.
Alguns olham a história para reproduzir nos dias atuais. Meu Babá fez e está fazendo história, entre outras coisas, por assumir todas as retificações e ratificações necessárias. Isso é a ética de Ifá viva e atuante! Mojubá, Babá!


 João Luiz Carneiro

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 613

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