segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Discussão teológica: A dinâmica e versatilidade do Sacerdócio nas Religiões Afro-brasileiras

Na publicação de hoje, excepcionalmente, passamos a pena para os professores da FTU: Dsc. João Luiz Carneiro e Esp. Antônio Luz.

Discussão teológica: A dinâmica e versatilidade do Sacerdócio nas Religiões Afro-brasileiras

As religiões afro-brasileiras são marcadas por um gradiente de ritos que receberam influências de, praticamente, todos os lugares do planeta. Essa rica e importante diversidade está expressa de múltiplas formas. Como pesquisadores destas religiões, interessa compreender a dinâmica que possibilita, mesmo no contraste, perceber as religiões afro-brasileiras como uma unidade integrada de alta interação endógena.
Um ponto de partida pode ser a análise comparada destes ritos afro-brasileiros. Ao acessar o acervo fotográfico da FTU, faculdade de teologia com ênfase nas religiões afro-brasileiras, e de F. Rivas Neto, sacerdote desta mesma tradição, foi possível levantar uma nova questão. Como se dá a performance sacerdotal de um mesmo sujeito em diferentes cultos onde fora iniciado?
Esta problematização inicial será fruto de trabalho vindouro. Interessa-nos neste documento apresentar algumas das fotos que marcam a versatilidade sacerdotal de Pai Rivas nas tradições afro-brasileiras procurando discutir quais são suas implicações e impactos. O trabalho indica que ao desbravar este estudo de caso é possível inferir a mobilidade interativa e integrativa citada acima das religiões afro-brasileiras.
Especificamente sobre F. Rivas Neto, desde o início da sua vida, esteve ligado ao culto de nação, por conta de seus pais biológicos. Depois de ser iniciado nele por Pai Ernesto de Xangô (Babalawo Obá Omolokan Adê Ojubá) que também fazia sua encantaria e candomblé de caboclo, Rivas Neto foi para umbanda traçada onde foi iniciado também por Pai Antônio Romero e Pai Roberto de Guarantan. Depois de passar por essas escolas das religiões afro-brasileiras, encontra-se com seu derradeiro mestre – W. W. da Matta e Silva (Mestre Yapacani), permanecendo com ele por décadas. Com Mestre Yapacani recebeu sua iniciação na Umbanda Esotérica e mais foi alçado a sucessor dessa raiz no final da década de 80, sendo atualmente responsável por tal escola.
A sequência de fotos foi classificada na seguinte ordem:
1.       Quimbanda
2.       Umbanda Traçada
3.       Umbanda Esotérica
4.       Candomblé de Caboclo
5.       Encantarias – Jurema
6.       Culto a Ifá
7.       Candomblé
Nas linhas seguintes, faremos um breve descritivo de cada Grupo selecionado levando em consideração que – em todos – Rivas Neto recebera a respectiva iniciação. Não houve neste processo mistura, mas diferentes formas de estabelecer contato com as divindades afro-brasileiras por meio de uma iniciação constituída dentro do terreiro, de pai para filho. Este é um ponto importante e comum a todos os cultos que serão comentados.

Quimbanda










O culto relacionado diretamente com os Exus estabelece um contato sui generis do sacerdote com a sua comunidade de axé e a sociedade civil como um todo. O ancestral no processo do transe costuma usar curiadores (bebidas), roupas que rememoram o mito africano relacionado ao enredo ritual a ser realizado, e um discurso marcado em solucionar problemas de ordem emergencial e estrutural. Em todos os casos é construído um poderoso símbolo de exercício e distribuição do poder dos Orixás.
Nas fotos podemos observar a distribuição do alimento (ajeum) produzido a partir dos sacrifícios animais realizados em contexto ritual, a celebração da vida e da felicidade dentro do terreiro, a simbolização de Exu como Olojá (Senhor do Mercado) e momentos onde o rito de Exu foi para a rua de onde está estabelecida a FTU, reforçando a ideia de exu como povo da rua, pois transita em todos os caminhos. Inclusive no espaço público.

Umbanda Traçada









A umbanda traçada representa uma das modalidades mais populares das religiões afro-brasileiras. Por meio do transe, apresentam-se Caboclos, Pretos-Velhos, Crianças, Boiadeiros, Marinheiros, Baianos, Ciganos e tantas outras entidades que representam os ancestrais ilustres de nossa terra.
As fotos registram alguns desses ancestrais manifestados em Pai Rivas em diferentes locais e momentos da sua história sacerdotal que perdura há meia década. Na amostra estão o Caboclo Urubatão da Guia, entidade chefe de cabeça do sacerdote, preto-velho, criança e boiadeiro.

Umbanda Esotérica










A Umbanda Esotérica é uma das escolas afro-brasileiras fundada por W. W. da Matta e Silva (Mestre Yapacani) e que fora transmitida ao seu filho espiritual F. Rivas Neto (Mestre Araphiagha), o qual é atual detentor da Raiz. Essa escola umbandista possui uma cosmovisão própria que foi amplamente difundida tanto nas obras dos dois sacerdotes como, e principalmente, pelas atividades ritualísticas nas cidades de Itacurussá, São Paulo e, mais recentemente, Itanhaém.
As fotos antigas e recentes mostram várias fases da Umbanda Esotérica pelas mãos de Mestre Araphiagha. O terreiro de areia, algo característico desta escola, localizado em São Paulo foi espaço eleito para vários momentos importantes da história da Umbanda Esotérica. Em uma das fotos é possível ver a proximidade que existia entre mestre e discípulo.
Afinal, Mestre Yapacani e sua esposa, Mestre Araphiagha e sua primeira esposa, reunidos com todos os médiuns do templo de Rivas Neto reforçam os laços de amizade entre ambos. Em outras fotos, Mestre Araphiagha ora está em transe específico desta escola afro-brasileira, ora está fora do transe iniciando filhos e filhas de seu santé. As iniciações de 1º e 2º ciclo na Umbanda Esotérica são realizadas pelo próprio sacerdote. Já as de 3º ciclo, diretamente pelo Ancestral Ilustre manifestado no Mestre de Iniciação de igual envergadura. Até o presente momento, este rito só ocorreu uma vez pelas mãos de Mestre Yapacani à cabeça de Mestre Araphiagha. Recentemente a T.U.O. está sendo erigida em Itanhaém pelas mãos do atual Mestre.

Candomblé de Caboclo










O Candomblé de Caboclo representa uma escola complexa das religiões afro-brasilieras por estar situada na zona limítrofe das Umbandas e dos Candomblés. Seu ritual próprio cria especificidades interessantíssimas. Por exemplo, o culto ao Orixá nos moldes do Candomblé ao mesmo tempo em que o Ancestral consegue dar consulta aos que acorrem ao terreiro por meio do transe.
Nas fotos acima, é possível ver alguns assentamentos do Candomblé de Caboclo dedicados a Xoroquê e Oguian. Babalorixá Iwin Ayotola dando transe com o Caboclo Malembá e o Caboclo 7 Estradas, além de uma filha de santo (Yalorixá Obalolá) em transe com Xangô.

Encantarias – Jurema










 As Encantarias são um dos três grupos das religiões afro-brasileiras, ao lado dos candomblés e umbandas. Existem vários cultos importantes originários na região norte e nordeste do país, mas que hoje estão espalhados por todo o Brasil praticamente. Neste bloco de fotos, foi escolhida a Jurema, um toque conduzido por Mestres dos dois lados da vida. Nesses ritos “acostam” (similar à ideia de incorporação) Reis, Rainhas, Mestres, Mestras, Príncipes, Princesas, Caboclos e Caboclas num dinâmica de transe bem diferente de outras religiões afro-brasileiras.
O Mestre de chão Arapiaga aparece em várias situações nas fotos acostado. Seja com o arco e flecha, seja com a erva em chamas, seja com o couro da cobra ou o fornilho fumado ao contrário, o foco destes ritos é o atendimento praticamente individual de seus consulentes. Existe um apelo muito grande à cura em aspectos naturais, sobrenaturais e sociais. Em uma das fotos é possível ver o Mestre Arapiaga tomando o vinho de Jurema, certamente o elemento central deste culto que – inclusive – dá nome ao mesmo.

Culto a Ifá








O que caracteriza um Oluwo como tal, certamente, é sua habilidade e capacidade de entrar em contato com Orunmilá Ifá, o Orixá do Destino. Para tanto, um Iniciado nesta tradição aprende a fazer uso de instrumentos oraculares, como o opolê ifá, oponifá, entre outros.
As fotos mostram o Oluwo Fatosh’ogun - sacerdote de Ifá que tem o poder de curar – tanto em seu ilê ifá, quanto apresentando o jogo. Neste conjunto de fotos também é possível verificar a condução de terapias breves e continuadas com seus clientes por meio dos mesmos instrumentos rituais de culto a Ifá.

Candomblé











O Candomblé é uma das religiões afro-brasileiras mais marcantes no imaginário popular. Dentro da tradição jeje-nagô é comum o culto aos Orixás por preceitos e rituais bem específicos. Foi nesta escola afro-brasileira que Babalorixá Iwin Ayotola deu início a sua trajetória religiosa. Atualmente dirige o Ilê Funfun Axé Awo Oxogun em Itanhaém, templo dedicado ao culto a Ifá e aos Orixás.
Nas fotos, o sacerdote assenta Xangô em uma das suas casas, faz o Bori de uma cliente, atua na construção de elementos ritualísticos no Ilê Exu, dá o transe para Oguian (foto raríssima). As primeiras fotos são visões externas da casa de fundamentos do Babalorixá Iwin Ayotola.

Ao final desta primeira parte do texto, gostaríamos de publicar novamente o vídeo onde mostra a atuação sacerdotal em 5 dos 7 grupos aqui expostos.




Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 540

Um comentário:

  1. Gostaria de conhecer melhor as matérias utilizadas na FTU como curriculum para que se possa analisar para poder se ter uma teoria maior dos cursos em andamentos, pois a linguagem é bem complexa, gostaria de poder definir quem é quem no mundo espiritual.

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