segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Enjuremação de nossa filha espiritual


Na publicação de hoje, vamos comentar sobre um importante processo iniciático que está ocorrendo em nossa casa, o Ilê Funfun Awooshogun. Trata-se da iniciação na Jurema, ou enjuremação, de Mãe Fabi (Yamaosilê), nossa filha espiritual.

Importante lembrar que um dos primeiros registros literários vem de Câmara Cascudo no início do século XX. Em sua abordagem, dava grande ênfase ao Catimbó, hoje denominado culto de Jurema, como algo folclórico, por vezes pejorativo.

De certa maneira, esta perspectiva foi amenizada pela missão folclórica de 1938. Especialmente pela pena de Mário de Andrade. Não podemos deixar de registrar também a pesquisa de Luiz Assunção (UFRN) que contribui bastante para a disseminação da Jurema no meio acadêmico.

Retomando à enjuremação, Mãe Fabi, assistida pela Mestra Lindinha do Agreste, está há alguns dias aos pés da Jurema de nossa casa passando pelas mãos de Mestres que acostam ou trabalham conosco, especialmente: Mestre Canindé, Mestre Cariri, Mestre Zé Maior e Mestre Turuatã.

Sobre a enjuremação, existem basicamente dois processos. Um é no “mato”, ou seja, literalmente sob o pé de Jurema. O outro é “urbano”, dentro da camarinha e mais usual nos dias atuais. Mãe Fabi está passando pelos dois modos e dentro de poucos dias será sua saída. Em verdade, “saídas”, pois nessas ocasiões são três... Sem mais delongas, gostaríamos de disponibilizar algumas fotos. Salve Salve!




 
Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 420

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Orô Axé Exu

Gostaríamos de aproveitar a publicação de hoje para divulgarmos excertos em vídeo do rito conduzido por nós. O Orô Axé Exu em Itanhaém - SP, mais especificamente na casa de nossa filha espiritual Fabíula (Yamaosilê). Trata-se de Fundamento do Axé de Exu Odara - Ekodidé. Axé!


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Publicação 419

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Mais uma vitória para o campo teológico afro-brasileiro!

Ontem tivemos, em Itanhém, o Orô Axé Exu fechando nosso ciclo ritual, celebrando a vida e compartilhando axé com nossa e outras comunidades de santo. Imbuídos da alegria e das vibrações positivas recebidas no ritual, recebemos, hoje, a notícia alvissareira de que uma de nossas filhas-de-santo foi aprovada, em primeiro lugar, para ingressar no doutorado acadêmico em Ciências Humanas e Sociais na Universidade Federal do ABC.
A notícia ganha relevância por alguns elementos. Primeiramente, ela vem se juntar com tantas outras notícias e realizações que temos publicizado em nosso blog de nossa comunidade de santo. É sempre motivo de regozijo quando nossos filhos espirituais realizam suas conquistas. Como sempre mencionamos, a vitória de um é um grande acréscimo para o axé coletivo da casa, em vários âmbitos. Muitos acadêmicos falam sobre família-de-santo, mas, é apenas na vivência ritual, no contato constante no terreiro que aprendemos a ver nas vitórias alheias, nossas próprias vitórias.
Em segundo lugar, destaco que o ingresso de nossa filha Yacyrê, Érica Jorge, ganha uma significância particular, pois trata-se da primeira teóloga com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras em um doutorado acadêmico. Nossa filha dará prosseguimento aos seus estudos afro-brasileiros com uma abordagem interdisciplinar que atrela teologia afro-brasileira e antropologia da religião. Essa é uma vitória que ultrapassou os limites de nossa comunidade de santo, representando um avanço para o povo de santo e para a própria consolidação do campo teológico afro-brasileiro. Este foi um exemplo fidedigno de que a formação teológica afro-brasileira (FTU) é de qualidade e incentiva seus graduandos a darem prosseguimento à pesquisa, um dos pilares da instituição. E, prosseguir na pesquisa não significa o acúmulo de titulações. Significa, antes, uma conquista política educacional já que os teólogos da FTU estão sendo, devidamente, reconhecidos por seu trabalho e dedicação.
Assim, essa notícia chega em boa hora, com os auspícios de Exu, senhores do constante movimento. Desejamos a nossa filha-de-santo caminhos abertos em sua jornada acadêmica que sabemos ser, antes de tudo, uma jornada espiritual. E que novos teólogos e teólogas com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras aventurem-se nessa seara e em tantas outros que o campo profissional possibilita.
Ibaxé a minha filha Yacyrê, Érica Jorge, por esta e tantas outras conquistas que virão. Nanã Bori ô!

Axé!

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Publicação 418

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Iniciação afro-brasileira só existe se vivenciada no terreiro!

Na publicação de hoje, gostaríamos de relembrar um vídeo que gravamos em 19 de novembro. Fizemos esta escolha pela atualidade do mesmo. Axé!



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Publicação 417

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Novo livro sobre Teologia Afro-brasileira no prelo pela Editora Vozes!

Ao final deste ano, gostaríamos de dar o nosso Ibá aos Irunmalés (Orixás e Ancestrais Ilustres) por permitir tantas realizações à nossa comunidade de Axé. São vitórias no âmbito espiritual e acadêmico que merecem uma retrospectiva, algo que faremos tão logo.

Na publicação de hoje poderíamos citar vários de nossos filhos e filhas espirituais que, de alguma forma, contribuíram significativamente para isso. Entretanto, vou citar uma importante conquista que soubemos a pouco tempo e que terá uma ótima repercussão para a sociedade.

Nosso filho espiritual João Luiz Carneiro (Yabauara) está completando um ciclo importante da iniciação, estando dos seus 30 anos, praticamente, um terço vividos no nosso terreiro. Durante este período abriu portas importantes na Academia, concluindo seu Mestrado em Filosofia, Especialização em Teologia Afro-brasileira pela FTU, fundada por nós, e terminando sua pesquisa em Ciências da Religião pela PUC-SP, nível doutorado. Toda a sua pesquisa saiu do terreiro. Conversamos muito sobre vários aspectos das Religiões Afro-brasileiras que poderiam ser discutidas no espaço acadêmico e ele sempre buscou expressar isto em seus textos científicos.

Justamente do texto de conclusão da pós-graduação em Teologia Afro-brasileira, orientado pelo nosso amigo Reginaldo Prandi, que sai o mais novo livro de João Luiz Carneiro: “Religiões Afro-brasileiras: uma construção teológica”. O livro está no prelo e será publicado ao longo de 2014.
O interessante é que tal livro será editado pela Vozes, uma grande instituição que levou ao grande público livros de referência tanto da religião quanto da teologia. Podemos citar como exemplo: “Os nagô e a morte” de Juana Elbein dos Santos ou vários títulos de Clodovis Boff e Leonardo Boff.

Além de ser claramente uma vitória dele, portanto de toda a nossa Raiz, registro a importância para a teologia afro-brasileira e para o povo de santo. A FTU conseguiu colocar as tradições afro-brasileiras em isonomia com as demais confissões religiosas do país com o reconhecimento de curso. Agora seus alunos formados estão elevando o conteúdo produzido no terreiro para o mesmo patamar. Parabéns, Yabauara. Que os caminhos estejam sempre abertos para os que trabalham a favor do coletivo. Axé!

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Publicação 416

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Cursos de habilitação para pais e mães de santo e “cursos de formação teológica”: a prática da clandestinidade no universo afro-brasileiro

Nossas publicações mais recentes tem procurado enfatizar a diferença entre um curso de teologia reconhecido pelo Ministério da Educação e outros que se intitulam cursos livres de teologia. Além disso, discutimos também sobre os cursos de habilitação para pais e mães de santo que se proliferam, especialmente na capital do estado de São Paulo.  Sobre este último tópico, gostaríamos de comentar que, recentemente, conversamos com um rapaz que frequentou um desses cursos que “forma” sacerdotes. Ele nos disse que recebia dos “aplicadores” dos cursos algumas orientações:
O “aluno” é orientado a não seguir nenhum pai ou mãe-de-santo. Deve seguir conselhos, única e exclusivamente, dos seus guias ou conselhos que surgirem na cabeça da pessoa, a qual não precisa nem ao menos ser médium.
Quanto ao exposto, fazemos alguns desdobramentos:
a)      Qual a finalidade e/ou o sentido de fazer um curso que habilita alguém a ser pai ou mãe-de-santo se a orientação é de que ninguém procure os pais e mães de santo?!
b)      O sujeito “aplicador” do curso, ao dar esta orientação, quer, certamente, se eximir de qualquer responsabilidade e, inclusive, a de ser testado como pai-de-santo.
c)      O sujeito “aplicador” do curso não deseja que o “aluno” ou aspirante a pai/mãe-de-santo busque ou procure um pai ou mãe-de-santo, afinal, sacerdotes que se prezem sabem que as formações religiosas são feitas apenas nos terreiros, sob orientação e vivência com um pai/mãe-de-santo e sua comunidade-de-santo.

Além desses desdobramentos, mencionamos que é muito interessante que essa prática de desmerecimento do legítimo sacerdócio vivenciado, tem sido transposta para o campo teológico. Simples de explicar. Há cursos que habilitam qualquer pessoa a ser pai ou mãe-de-santo. Da mesma forma, há cursos livres e associações que tem seus trabalhos firmados para formar teólogos e teólogas sem estarem reconhecidas pelo Ministério da Educação. Aliás, sem ao menos, estarem vinculadas a uma instituição de ensino superior. Assim, a prática da falácia e do engodo no universo afro-brasileiro que antes permeava o campo religioso, agora existe também no universo acadêmico. Há duras penas, a FTU foi reconhecida pelo MEC, em função do preconceito. Felizmente, todo o trabalho realizado foi valorizado pelo MEC e a FTU recebeu nota de excelência em seu reconhecimento. No entanto, aspirantes à academia tem, apressadamente, voltado seus esforços para formarem teólogos e teólogas sem o aval para o mesmo. Ou seja, mais uma vez, a prática da enganação no ar.
Com o intuito de alertar o povo de santo, os adeptos, simpatizantes e pesquisadores, estaremos discutindo sempre tais questões, afinal, seremos sempre contra às ações que rebaixam nosso “povo” à ilegalidade, à marginalidade e à clandestinidade.
Axé!


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Publicação 415

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Teologia Afro-brasileira: legitimidade e legalidade para o povo de santo já!

Na publicação de hoje, em nome da dignidade das Religiões Afro-brasileiras, gostaríamos de retomar a questão da teologia e suas implicações para o povo de santo em geral.
Em várias oportunidades já comentamos sobre isso, mas vale a pena posicionarmos o que é e qual o papel da Teologia. Podemos compará-la analogamente ao corpo humano. Em um braço a religião. No outro a ciência. A Teologia, por possuir estas características, pode aproximar ambas respeitando os seus saberes e fazeres. Ou seja, possui o conhecimento religioso (senso crítico) e por outro lado possui também as crenças religiosas (confessional).
Para realizar tão importante processo, lança mão de um mecanismo duplo e complementar: “decodificação e tradução”. Decodificar um conteúdo é compreender o que ele expressa. Traduzir é articular duas realidades distintas sem promover substituição, ou seja, imposição de um lado sobre o outro. Sendo assim, ela pode interfacear ambas de forma harmonizada.
No caso das religiões afro-brasileiras, apenas em 2003 conseguimos alcançar este status teológico. Teologia, desde 1999, é algo regulamentado pelo MEC (Ministério da Educação), portanto afeito ao ambiente universitário. E foi no início do século que, após fundarmos a FTU, conseguimos que seu curso teológico com ênfase nas religiões afro-brasileiras fosse reconhecido pelo poder público. Hoje podemos afirmar com grande satisfação que o povo de santo possui legalidade e legitimidade na sociedade por meio da educação. Mais do que isso, estamos em condições isonômicas quando consideramos todas as tradicionais religiões do Brasil que possuem cursos acadêmicos nos mesmos moldes legais.
Diante dos cursos livres, totalmente irregulares perante ao MEC, promovidos por instituições e associações sem o menor vínculo com a única instituição legalizada para formar teólogos com ênfase nas religiões afro-brasileiras, a FTU, perguntamos. Por que manter as religiões afro-brasileiras na clandestinidade, na marginalidade com esses cursos livres?
Tais iniciativas são formas de manter o status quo das Religiões Afro-brasileiras. Estado esse que historicamente foi marcado por perseguições, prisões, racismo e preconceitos de todas as matizes. Não há justificativa para, atualmente, manter cursos teológicos afro-brasileiras sem regulamentação do MEC. Aliás, existe apenas uma. O poder econômico. Fazer uso de cursos extremamente voltados para o ganho de um pequeno grupo em detrimento de toda a comunidade afro-brasileira que fica sendo empurrada para a marginalidade, para a criminalidade na justa medida em que esses cursos expressam atividades irregulares no nosso país e seus organizadores afirmam-se como religiosos afro-brasileiros.

Foucault descreveu com clareza as tentativas desenfreadas do homem para conquistar o poder. Norberto Bobbio afirma da segregação do poder entre fortes e fracos, ricos e pobres, sábios e ignorantes. Tentativas como as destes cursos livres são iniciativas para segregar o povo de santo, privilegiando uns excluindo outros, mas – ao final – todos sendo prejudicados. E novamente o poder em jogo... Fiquemos atentos aos desdobramentos destas questões. Na próxima publicação continuaremos com as reflexões. Axé!

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Publicação 414

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Encantaria de Mestre Canindé: Terapia da Brasilidade

No último dia 30 de novembro, realizamos no Ilê Funfun Awooshogun, toque de Jurema, Encantaria do Mestre Canindé. Gostaríamos de aproveitar o ensejo para passar a “pena” à nossa filha de santo Yacyrê sobre sua experiência ritual. Axé!

“Considero complexa a missão de, em poucas linhas, expressar meus sentimentos com relação ao Toque de Jurema de Mestre Canindé, realizado no Ile Funfun Awooshogun, Casa da Cura e do Destino, em Itanhaém, SP.
Infelizmente, não pude participar do preparo do ritual ao longo da semana passada. Sei que muitos dos fundamentos e awos são vivenciados na construção do ritual, dos elementos, assentamentos. Trazer a “Jurema” não é algo trivial, simplório. Não basta beber jurema e entoar uma ou duas louvarias. Vivenciar a Jurema, cujas raízes remontam ao nordeste brasileiro, exige que o sacerdote esteja aberto a este universo, adentre nas correntes espirituais, no imaginário coletivo, na memória ancestral e, inclusive, na própria história da constituição do que é ser brasileiro.
Uma das coisas que mais impressionou Bruno Latour (filósofo da ciência) ao vivenciar rituais de candomblé foi o fato de que seus adeptos constroem, fisicamente, suas divindades. Não falo aqui do candomblé, mas fazendo aproximações, todas as construções de rituais afro-brasileiras, sejam elas quais forem, permitem que o homem, imbuído de sua materialidade, de sua concretude, de sua organicidade construa cenários, assentamentos e espaços que são, por excelência sagrados. Os rituais religiosos são, por natureza, atividades de cosmização do mundo, em que há um processo de ordenamento de fatos, situações, conceitos para que a realidade seja significada, seja compreensível e palatável. Em outras palavras quero dizer que quando os rituais são construídos, há a oportunidade de que seus adeptos entrem em contato com suas crenças e convicções e façam com que elas deem significados à realidade. Assim, gostaria de dizer que, ainda que eu não tenha participado da construção do ritual, antes mesmo dele ocorrer, o que vivi naquela noite foi especial e deu sentido à minha existência.
Penso que a sensação que mais me marcou foi o fato de eu ter sentido uma profunda identidade com o ´ser brasileiro´. Claro que, ao afirmar isso, posso imediatamente, ser criticada por quem considera a brasilidade uma farsa. No entanto, o que vivi foi a valorização de contribuições espirituais de “linhas” diversas e que se expressam, para maior facilidade de compreensão, em caracteres regionais. Ao viver o toque da Jurema, não me sentia deslocada daquela realidade, ao contrário, tudo o que ali foi colocado, as palavras dos Mestres, as louvarias, as danças, as vestimentas eram uma parte de mim que se revelava. Este é outro ponto fundamental, os rituais afro-brasileiros favorecem que seus adeptos teçam laços entre a comunidade de santo e entre as várias comunidades espirituais. Naquele dia tive certeza que havia uma aliança firmada entre mim, meus irmãos de santo e as “raízes” da Jurema, entendendo estas como correntes espirituais.
Outro elemento essencial a ser colocado é a utilização de elementos da natureza pelos Mestres, especialmente Mestre Canindé. Naquela noite nenhum Mestre ou encantado acostou em mim e, por isso mesmo, estive atenta a diversas situações. Em uma delas, eu refletia sobre a doença, cura e terapias e, justamente, naquele momento, Mestre Canindé colocou ao seu lado um vaso de louça com água, jurubeba, erva de bicho e alecrim. Além disso, colocou uma cuia com Jurema. Disse ele que ali estavam as curas visíveis e invisíveis para todos que lá se encontravam. Imediatamente pensei em como essas entidades conseguem, com simplicidade, demonstrar um complexo processo do que representa a cura para as religiões afro-brasileiras. Elementos simples e, por isso mesmo, cheios de vida, sem tantas “manipulações”, ricos em axé. Pensei que estamos tão longe da natureza, tão desencantados, envoltos no mundo moderno, urbanizado e capitalista que pouco sabemos e apreendemos da sabedoria da natureza. Aos olhos do mundo civilizado, uma cuia com jurema e um pezinho de alecrim são adornos ou, no máximo, “coisas de benzedor velho”. Com tanta “ciência”, tanta “medicina”, nossos olhos são treinados para não ver a natureza, para não relevá-la. O fato é que a ciência da jurema se faz tão ou mais eficaz com as fumaças das marcas (cachimbos) ritmadas pela Marca Mestra (maracá). E, como escrevi anteriormente, esta ciência não é só da raiz da jurema, é um complexo mágico-terapêutico da espiritualidade que se concretiza em uma singular terapia de brasilidade.
Talvez isso resuma o que senti no ritual: a terapia da brasilidade”.
Axé,
Yacyrê
Em nome de toda a comunidade de santo de Pai Rivas.








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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A posição da FTU sobre cursos livres e cursos de habilitação para pais e mães-de-santo.



No último texto problematizamos a questão dos cursos de habilitação para pais e mães-de-santo, os quais pretendem substituir a Iniciação. A discussão já foi densamente apresentada. Na publicação de hoje, gostaríamos de pontuar algumas questões que envolvem a Teologia e suas relações com o universo religioso afro-brasileiro.
Antes de mais nada, é importante mencionar que até o ano de 1999 havia um consenso de que os cursos livres de teologia tinham validade no cenário educacional. No entanto, neste mesmo ano, quando a Teologia foi elevada ao status de disciplina acadêmica, ela passou a seguir os mesmos parâmetros das demais disciplinas, seguindo todas as normas estabelecidas pelo Ministério da Educação, órgão responsável pela organização e regulamentação dos cursos de bacharelado, extensão e pós-graduação em nível lato e strictu sensu. Tentaremos clarear o comentário. Até 1999 os cursos livres de teologia eram cursados sem restrições de órgãos governamentais. A partir deste ano, os únicos cursos de Teologia validados são os realizados por faculdades e universidades autorizadas, credenciadas e reconhecidas pelo MEC. Assim, para se ter um título de bacharelado em teologia, extensão, especialização, mestrado e doutorado, as instituições devem passar, obrigatoriamente, pelos 3 processos acima citados do MEC. Todas as demais instituições não regulamentadas pelo MEC e que pululam no mercado vendendo cursos de teologia, até podem existir, mas jamais expedindo diplomas de teólogo e/ou especialistas em teologia, mestres ou doutores na área. Se assim fizerem, correm o risco, tanto os ofertantes como os cursistas, de serem presos! Afinal, ir contra uma regulamentação governamental é criar uma estrutura normativa que foge aos parâmetros de qualidade educacional estabelecidos pelo MEC. Para isso que o MEC existe! Para aferir a qualidade dos cursos que estão sendo oferecidos nas mais diversas modalidades. É uma ação que visa à propagação de uma educação de qualidade.
Os cursos livres, portanto, não profissionalizam ninguém. Qualquer um pode criar um curso livre informativo sobre determinada questão, mas não pode, de forma alguma, expedir diplomas de bacharelado e afins. Questionamos, então, especificamente no cenário afro-brasileiro, porque os cursos livres de Teologia afro-brasileira foram mantidos? Quem é que ganha com a proliferação dos mesmos? E quem é que faz a aferência deles? Como saber se os conteúdos ministrados seguem, minimamente, a ética e realidade deste campo religioso? Ou ainda, que não são discursos de captação de fiéis, ou pior, de dinheiro?
Nesse ponto, gostaríamos de colocar que a única Teologia com ênfase nas religiões afro-brasileiras reconhecida pelo MEC, ofertada pela FTU, não se opõe ao sacerdócio. Isso seria um contrassenso até pela própria definição do que é Teologia, uma disciplina que estabelece o intercâmbio entre o saber crítico acadêmico e o saber religioso (a “fé). A FTU recebe vários pais e mães de santo anualmente que cursam o bacharelado. Porém, não está no foco da instituição a formação sacerdotal. Esta é realizada, única e exclusivamente, nas casas de santo afro-brasileiras. O discurso da teologia, propagado pela FTU, não se baseia na hegemonia e homogenia (conceitos discutidos no texto anterior), até porque o MEC jamais daria o aval de funcionamento se assim fosse. Muito ao contrário, a FTU pauta seu discurso-prática na aproximação entre o saber acadêmico e o saber religioso, concretizando esta relação no olhar interdisciplinar nos quatro anos de faculdade. A FTU não é e nunca foi um curso livre de teologia. Ela foi reconhecida com excelência pelo MEC (bacharelado, extensão e pós-graduação) pela sua proposta em favor da diversidade afro-brasileiras, haja vista a composição dos seus componentes curriculares.
Esperamos ter deixado clara a posição política da FTU em favor da diversidade, a partir de uma discussão crítica do campo religioso afro-brasileiro Não nos interessa vender cursos de formação sacerdotal, porque isso se faz nos terreiros, ou seja, não estamos preocupados com o “mercado”, com os fiéis, com a arrecadação de dinheiro.
Mas, se a formação sacerdotal se dá no terreiro, porque cursar Teologia? Em primeiro lugar, fundamos a faculdade a fim de que essa ação somasse esforços no resgate da identidade afro-brasileira e na possibilidade de dar voz a grupos (religiosos, sociais, culturais) que sempre estiveram à margem da história. A FTU possibilita que esses agentes tornem-se, também, protagonistas. Ser teólogo com ênfase nas religiões afro-brasileiras é, portanto, mais que uma atividade educacional, é uma atividade política. O curso visava, inicialmente, uma chance desses grupos de profissionalizarem-se e ingressarem no mercado. No entanto, mais que atuarem em ONGs, em institutos educacionais, em formação continuada, em pesquisas, a FTU propicia o desenvolvimento de um olhar em favor da diversidade, da alteridade e do resgate de identidade e pertença afro-brasileira. Reiteramos, não nos interessa o mercado. Para isso já há muitas agências mercantis do santo, que veem os fiéis como dinheiro e ridicularizam a Iniciação afro-brasileira e seus sacerdotes. A nós interessa uma visão integrada entre ciência e religião, entre academia e terreiro. Hoje, são os “insiders” escrevendo sua própria história. E isso, definitivamente, não se compra, se constrói!
Axé!

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