quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Curso de habilitação para pais/mães de santo não é Iniciação!


Hoje nossa publicação visa retomar, de forma esquemática, o que temos discutidos nos textos anteriores. Muitas pessoas nos solicitaram que esclarecêssemos alguns pontos. Nesse sentido, pensamos em exposar nossos argumentos item a item para que eles ficassem mais claros.
1.       SINCRETISMO E HIBRIDISMO

As religiões afro-brasileiras passaram pelos dois processos, sincretismo e hibridismo. O sincretismo religioso pode ser entendido como a fusão de doutrinas, crenças e práticas de diversas religiões. O hibridismo cultural, por sua vez, geralmente acontece pelo choque ou contato entre culturas, as quais misturam-se, resultando em aspectos positivos e negativos.
Utilizamos esse conceitos em nossos textos a fim de demonstrar como tais processos acabaram por sincretizar o demônio católico e Exu, de modo a deturpar o segundo e privilegiar a função de “comunicador” apenas para a religiosidade cristã. Além disso, coube a nós problematizar o porquê alguns setores das religiões afro-brasileiras se interessam por manter a demonização do exu alertando para o fato de que tais grupos estão engajados nas políticas de hegemonia e homogenia, as quais falaremos à frente.

2.      HEGEMONIA E HOMOGENIA

O conceito de hegemonia é proveniente da ciência política e indica a supremacia e domínio de poder de um grupo sobre os demais. O conceito de homogenia, por sua vez, geralmente é utilizado na química para indicar uma solução homogênea, ou seja, em que não é possível distinguir seus componentes, mesmo que eles estejam presentes.
Alguns setores afro-brasileiros tem se esforçado para tomar posse do “território afro-brasileiro” a fim de serem os únicos aptos a falar sobre ele. É uma disputa política por fieis e pelo poder de discurso nesse universo. O conceito de hegemonia, de querer estabelecer a supremacia de um grupo sobre os demais, vai ao encontro do processo de homogenia, uma vez que, nessa tentativa de tomar posse do poder, de criar uma faceta una, homogênea, muitas contribuições religiosas, muitas Escolas, são invisibilizadas. O processo é ainda mais perigoso quando há tentativas de uniformização e codificação da prática religiosa afro-brasileira, como se fosse possível apagar a multiplicidade existente nos terreiros.

3.      CURSOS DE FORMAÇÃO SACERDOTAL

Os cursos de formação sacerdotal foram criados e se avolumaram, especialmente, em São Paulo na tentativa de dar cursos para que as pessoas se tornassem sacerdotes e pudessem abrir suas próprias casas. O objetivo claro é a demarcação de uma agência mercantil que lucra muito com a crendice alheia. O resultado desse processo é a desvalorização da Iniciação e dos sacerdotes afro-brasileira. Desvalorização da Iniciação porque ela passa a ser passível de compra e desvalorização sacerdotal porque o conhecimento e sabedoria de pais e mães de santo deixam de ser reconhecidos. As frases contidas nas apostilas dos cursos de formação, geralmente, de caráter imperativo, fazem uma parca tentativa de substituir os anos de convívio com sacerdotes, como se isso fosse possível. Todos que conhecem, minimamente, as religiões afro-brasileiras sabem que Iniciação não é um processo trivial e não poderá, jamais, ser submetida a contornos capitalistas.
O mais curioso dos cursos de formação sacerdotal é que eles não são dados por sacerdotes formados em terreiros! Até porque se fossem, jamais eles dariam cursos porque sacerdote que se preza sabe que Iniciação se faz nas casas de santo, nos terreiros.
Como é possível um curso de formação de sacerdotes ser ofertado por quem não é sacerdote, por quem não conviveu no axé, não cumpriu suas obrigações, não viveu em uma comunidade de santo? Para transmitir algo a alguém é necessário conhecimento, vivência. Uma analogia seria um curso de medicina dado por quem não é médico formado. Como aprender medicina dessa forma? De que maneira essa medicina seria exercida? Que medicina seria essa? É isso o que ocorre com os cursinhos para formar pais e mães de santo. Eles são dados por pessoas que fazem uso de títulos que não possuem. São Iniciações compradas da mesma maneira. E os pais de santo formados vão “atuar” sem os conhecimentos prévios do santo. Então, tais grupos não podem ser jamais considerados uma Escola Afro-brasileira (com epistemologia, método e ética próprios), trata-se de uma pseudotradição, uma tradição montada, fabricada, fictícia. Se há ética, ela é a do capital, do lucro, do poder e das facilidades.
Todo sacerdote sério sabe quantos anos levam uma Iniciação. Acontece que a ética afro-brasileira não aceita supletivo, não aceita cursos em meses. Não há supletivo no santo! Iniciação que se preze não é feita de remendos. É, sim, feita com responsabilidade, seriedade, única e exclusivamente nos terreiros, na prática e vivência constante dos fundamentos do axé.
Se os formadores dos cursos não são sacerdotes, tampouco, as apostilas representam a Iniciação. São falsos pais e mães de santo vendendo uma pseudo Iniciação e, certamente, os formados serão reprodutores dessa prática, afinal, se há quem venda, há quem compre... São os admiradores dos caminhos fáceis...
Na próxima publicação, esperamos dar continuidade a essa discussão já que todos os processos que temos discutidos são fundamentais para se compreender essas práticas políticas existentes no universo endógeno afro-brasileiro, as quais, felizmente, representam parcela mínima do mesmo.


Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 412

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A Iniciação se transforma em uma apostila


Nos últimos textos temos discorrido a respeito de algumas situações que aconteceram na formação das religiões afro-brasileiras e outras que acontecem ainda hoje neste universo. A publicação escrita pelo nosso filho de santo Aratish abordou o processo de sincretismo e hibridismo ocorrido quando do encontro do catolicismo e das religiões afro-brasileiras. Como foi discorrido, o cristianismo foi bastante perspicaz ao associar a divindade exu ao demônio, pois foi uma estratégia capaz de deturpar o conceito e tudo que envolvia essa divindade. Essa questão do sincretismo, da hibridização não foi tão espontânea e natural como algumas correntes históricas propagam, ao contrário, havia um processo anterior, seja como plano teórico, doutrinário ou prático que visava a hegemonia das religiões provenientes do cristianismo e, consequentemente, instaurar a homogenia. O cristianismo sendo o único responsável e apto a fazer a comunicação entre os dois mundos estava nos planos da colonização, uma vez que o discurso religioso assegurava formas de domínio e exclusão.
Outra questão que mencionamos, dessa vez, não foi de ordem exógena, mas, sim, endógena e contemporânea, no próprio campo religioso afro-brasileiro. Se houve um processo de hegemonia e homogenia exterior, proveniente de outro segmento religioso, não podemos negar o que ocorre dentro das religiões afro-brasileiras. Falamos dos mesmos processos, porém, de ordem interna. Pensamos ser fundamental questionarmos quem foram os responsáveis pela tentativa de hegemonia e homogenia nas religiões afro-brasileiras a partir da implementação de cursos de formação sacerdotal. Os cursos elaborados com materiais apostilados, com regras, normas de conduta, à moda “isso deve ser feito” “isso não deve ser feito” foram criados em São Paulo, cidade em que a burocratização espiritual da umbanda foi muito mais organizada. Como contraponto, basta observar as religiões afro-brasileiras no Rio de Janeiro, por exemplo, uma cidade em que há difusão dessas práticas e muito menos centralizações. As federações existem nas duas cidades, porém, em São Paulo a disputa pelo mercado de formação sacerdotal é inquestionável. Atualmente, tais cursos não necessitam nem ser presenciais. Basta que o aspirante a pai/mãe de santo faça depósito bancário e “encontre sua iniciação” a partir da interface com a tela de um computador. Após o famigerado diploma, o qual muitos gostam de ostentar nas paredes dos terreiros, os “pais” e “mães” de santo abrem suas casas. O prejuízo espiritual dessa prática é enorme, afinal, lidar com o destino de pessoas não é uma tarefa trivial. Já do ponto de vista material, esses recém sacerdotes passam a lucrar com a crendice alheia, como foi o caso do Paraná explicitado semana passada em rede televisiva.
Questionamos quem teria começado com os cursinhos de pais e mães de santo, mas, em seguida, refletimos que há necessariamente um público fiel para os mesmos. Pessoas que se interessam pelo caminho fácil e que se sentem atraídas pelo status, poder e remuneração que isso pode acarretar. O dom de sacerdote logo se transforma em profissão, afinal, em um mundo capitalista, jamais faltarão pessoas para tornar mercantil o que seria espiritual por excelência. O dom transforma-se em filão para as agências mercantis. A iniciação transforma-se em apostilas. A interação em uma família de santo transforma-se em uma tecla de computador.
Sentimos que existam, externa ou internamente movimentos a favor de codificação, de universalização de práticas e de hegemonia e homogenia. Todos eles pecam pela não valorização da diversidade e pela imposição de falsas verdades. Colocamo-nos próximos em pensamento, ideal e práticas de todas as casas de santo que esforçam-se por valorar todas as práticas iniciáticas firmadas, construídas no interior dos terreiros, pelo contato constante com a sabedoria do sacerdote e aprendizado em uma família de santo. São nessas casas, onde o olhar pela diversidade está aguçado e o axé compartilhado, que encontramos o ideal maior das religiões afro-brasileiras: a vivência da espiritualidade por uma ética própria, de responsabilidade e fortalecimento da pertença religiosa efetiva.

Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
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Publicação 411

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A proliferação das agências mercantis nas Religiões Afro-brasileiras



No último domingo entregamos a pena a nosso filho de santo Aratish, o qual discorreu, magistralmente, sobre a ação intencional proveniente do cristianismo em demonizar o Exu das religiões Afro-brasileiras a fim de ser a única responsável e capaz em fazer a comunicação entre dois mundos, dois sistemas cambiáveis, o transcendente e o imanente.
Na publicação de hoje gostaríamos de continuar a discorrer sobre algumas facetas da figura de exu e sua importância para o campo religioso brasileiro, tendo em vista a já pluralidade de visões e práticas mencionada no texto anterior. Nosso filho Aratish pontuou as ações da Igreja quando esta sentiu-se desafiada e ameaçada em perder fieis quando da maior visibilidade de inúmeras práticas religiosas afro-brasileiras, até então não nominadas como conhecemos hoje, mas perfeitamente vivenciadas. A associação da então divindade Exu com o demônio, com tudo que fosse negativo, ruim, desordeiro vem somar com outros pontos que gostaríamos de colocar. Isso continua acontecendo atualmente, porém, com o discurso e práticas neopentecostais cujos agentes incorporam a ideia de “guerra santa” ou “batalha do bem contra o mal”.
Partimos do mesmo dualismo antevisto por Aratish, a saber, o bem x o mal. Este dualismo, porém, comporta muitos outros conceitos opostos como a beleza e a feiura, a limpeza e a impureza, a higiene e a sujeira, saúde x doença, a ordem e a desordem. A Igreja Católica operacionalizou em suas práticas esses conceitos de forma com que os exus fossem associados aos segundos: ao que é feio, impuro, sujo, doente (maculado) e desordeiro. Seguimos parte do pensamento da antropóloga Mary Douglas, a qual articulou essas dicotomias demonstrando como o pensamento moderno ocidental foi desenvolvido nesses termos e formou uma cultura de preconceitos e desigualdades de vários matizes. O cristianismo soube fazer uso dessa construção que, mais que privilegiar apenas algumas formas de interpretação da realidade, soube deturpar tantas outras a fim de excluí-las. Como dissemos sempre, a hegemonia e homogenia.
O fato é que hoje, os assuntos ligados a pluralidade, multiculturalismo, diversidade étnica, religiosa, sexual, estão cada vez mais em pauta. Claro que ainda há muito a fazer, muita coisa ainda está apenas na teoria, nos papeis, nas leis. Mas, aos poucos sentimos um avanço para um olhar a favor da diversidade.
Muito nos estranha, porém, algumas ações que vinculam crime ao nosso movimento religioso. Pessoas que fazem uso de incorporações “montadas”, fictícias para obter dinheiro de outrem. Elas utilizam de elementos que estão presentes nos terreiros espalhados pelo país apenas para ludibriar pessoas e enriquecer às custas das mesmas. Interessante que as mesmas pessoas que cometeram tal atrocidade (pois não podemos chamar de outro nome) estão vinculadas a instituições tais como Conselho Mediúnico do Brasil e outras federações no Paraná. Entidades como essas tem promovido cursos de formação sacerdotal (pagos, é claro) e cursos de teologia sem a chancela do Ministério da Educação. São de instituições como essas que vemos cartilhas e apostilas dizendo o que é Exu, quais as entidades que se manifestam nesta ou naquela religião afro-brasileira e como as mesmas devem se portar. São ações que visam atingir um filão do mercado com objetivos essencialmente capitalistas. Colocamos tais ações no mesmo balaio das ações realizadas pelo cristianismo a fim de homogeneizar práticas religiosas na tentativa de atingir a hegemonia de um pensamento religioso.
Essas pessoas que inventam entidades espirituais para roubar outras pessoas e/ou que criam em suas federações modelos únicos a serem seguidos estão em sentido contrários a tudo o que temos vivenciado, seja em um universo menor do campo religioso afro-brasileiro, seja em uma proporção mais ampla, da sociedade mundial. A ideia de diversidade é, hoje, divulgada, teorizada e estamos no caminho de vivenciá-la. Vemos isso repercutir em assuntos vinculados a diversidade étnica, religiosa, sexual... Portanto, é evidente que tais movimentos compõem uma parcela aproveitadora desse filão mercadológico, capitalista. Infelizmente, são esses grupos que continuam a disseminar a ideia do exu em oposição ao bem, reforçam preconceitos dentro do próprio campo religioso afro-brasileiro e criam a cultura das agências mercantis. Os cursos de formação sacerdotal são exemplos disso. As pessoas que optam por fazê-los investem um valor apostando que, posteriormente, poderão abrir suas casas de santo e terem uma renda proveniente dessa ação. São pessoas ou descontentes com suas profissões ou desempregadas e que apostam suas fichas em uma iniciação, literalmente, comprada e fazem desta um negócio. Esses cursos, portanto, são muito mais prejudiciais que podemos imaginar. Além de imporem modelos únicos a serem seguidos (mais uma vez a homogenia e hegemonia), são cursos que criam, disseminam e fortalecem as agências mercantis do santo, onde tudo é fácil e rentável.
Sabemos que há muito mais pessoas íntegras nas religiões afro-brasileiras, pais e mães de santo que vivenciam suas práticas com dignidade e responsabilidade. Esperamos, também, que nossa atuação religiosa, como sacerdote responsável, e acadêmica, com a criação da Faculdade de Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras representem contribuições significativas em prol da valorização da ética no universo afro-brasileiro.
Axé!


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Publicação 410


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Exu e a Diversidade

Muitos foram os desdobramentos do IV Congresso Internacional de Sacerdotes e Sacerdotisas e do XXIII Rito de Exu, ambos no último mês de outubro nas dependências da Faculdade de Teologia Umbandista (FTU). Indubitavelmente ambas as atividades reforçam nossa postura a favor da diversidade nas Religiões Afro-brasileiras, portanto contrária a qualquer forma de codificação do nosso movimento religioso. Somos avessos à homogeneização e hegemonização de quaisquer tipos, a começar pelo espiritual.

Sendo assim, gostaríamos de  passar a “pena” ao nosso filho espiritual Antônio Luz (Aratish) que usou do senso crítico (acadêmico) para discutir a diversidade usando como símbolo central Exu.  Reflexões naturais pós-rito. Axé!

Exu e a diversidade

Quem teve a oportunidade de vivenciar este último rito de Exu ou acessou os excertos deste ou dos ritos anteriores, constatará facilmente a diversidade do campo religioso afro-brasileiro. Neles se apresentam diferentes concepções e representações do Sagrado, em variados enredos simbólicos tecidos por estas religiões que se ressignificaram ou surgiram aqui no Brasil. Uma diversidade que foi transbordando dos terreiros para os diferentes planos da cultura brasileira, produzindo sua riqueza, porém sem perder sua unidade, fazendo o Brasil ser Brasil.

Neste campo das diversidades há, no entanto, adversidades (desculpem-me o trocadilho). Uma delas se refere exatamente às relações interculturais e inter-religiosas de diálogo, usualmente chamado, de sincretismo ou de hibridismos, que regulam as traduções entre estes universos religiosos e culturais, que formaram e ainda formam nosso campo religioso. Faço referência aqui, especificamente, ao sincretismo de Exu com o demônio. Tal representação - o mal substantivado, personificado - não pertencia às construções teológicas dos povos africanos aqui desembarcados, e só pode ser debitado às influências cristãs impostas desde a colonização.

Assim, muito dos dissabores produzidos por este sincretismo no plano das representações sociais, na verdade, tem a ver com a aproximação de egressos do cristianismo com as Religiões Afro-Brasileiras, mas que não abandonaram a visão maniqueísta cristã. Isto teria ocorrido não apenas porque a Igreja via nele (Exu) um concorrente à interlocução entre humanidade e as divindades - contrariando o dogma católico auto promulgado de ser a “única porta” - mas também porque Exu questiona o “status quo” social, as convenções e as desigualdades. A questão originalmente teria sido de caráter hegemônico, de uma ordem social e religiosa elitistas, sobre o nosso campo religioso. Esta hegemonia só poderia ser feita pela homogenia, a aniquilação da diversidade, a completa cristianização da sociedade brasileira e, quiçá, do mundo. O problema maior é que estes egressos importaram para dentro do nosso campo religioso tal equivalência (basta olhar as representações de Exu nas casas de materiais religiosos) ou ocultada nos discursos de combate à “magia negra” e aos “macumbeiros”.

Assim, ideologias que encobrem ou negam a alteridade - daquele que é diverso - ou que negam o “outro” (hegemonia/homogenia), têm sido usadas para justificar pretensões de codificação (acadêmicas, inclusive) e de purismos religiosos que surgem, vez por outra, sob a alegação de unificar e uniformizar para melhor entender, quando não, combater o preconceito e as perseguições religiosas. O povo-de-santo precisa estar atento a estas tentativas de “padronização”, que muitas vezes são produzidos por ideologias contrárias à diversidade, importadas de outras crenças.

Por fim, seria necessário lembrar que Exu é patrono da diversidade, não das desigualdades. Sobre este tema da diversidade deixo para a reflexão do leitor uma frase que ouvimos do Exu Sr... : “as pessoas gostam de Exu, porque Exu é ele mesmo”.

Aratish




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Publicação 409

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Diversidade afro-brasileira em pauta: na academia e no terreiro!


Nas últimas publicações apresentamos aos colegas do blog algumas realizações. Primeiramente, falamos sobre o Simpósio Internacional Associação Brasileira de História das Religiões – ABHR, cujo evento, sediado na Universidade de São Paulo (USP), contou com a participação da Faculdade de Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras (FTU) como coordenadora de um Grupo de Trabalho intitulado Escolas das Religiões Afro-brasileiras e diálogos. No último domingo, apresentamos excertos do Congresso Internacional de Sacerdotes e Sacerdotisas das Religiões Afro-brasileiras que é um evento que concretiza, presencialmente, as discussões alimentadas no Fórum Internacional Permanente de Sacerdotes e Sacerdotisas (http://religiaoediversidade.blogspot.com.br/) em prol da diversidade religiosa. Além do congresso, foram apresentados no vídeo trechos do ritual de Exu em que várias comunidades de santo vivenciaram o mito de Odé e de Exu e celebraram a vida e o axé!
Compartilhamos esses eventos como forma de disseminar algumas das ações formuladas pela nossa casa de santo e pela FTU. Os colegas devem notar que as últimas realizações postadas foram, respectivamente, acadêmica e religiosa. Infelizmente, nossa sociedade ainda não está devidamente acostumada com uma abordagem interdisciplinar e esses campos acabam ficando bem definidos, quando não incentivados ao “apartheid disciplinar”. No entanto, o que pretendemos mostrar é que é possível que exista diálogo entre saber acadêmico e saber religioso. Tanto isso é real que a própria FTU só foi pensada, concretizada e, posteriormente, avaliada, credenciada e reconhecida pelo Ministério da Educação, a partir de nossa vivência múltipla de terreiro.
Como sempre falamos, felizmente, tivemos a oportunidade de entrar em contato com várias tradições espirituais e todas elas nos fizeram compreender a relevância de reprensar o campo religioso afro-brasileiro, na tentativa de contribuir para que o mesmo seja mais fortalecido, reconhecido e visibilizado socialmente. Importante frisar que isso não significa tornar o campo homogêneo e hegemônico. Ao contrário, nossa contribuição vai justamente ao oposto dessa ação. Pensamos, religiosa e academicamente, que devemos valorar a diversidade das religiões afro-brasileiras, recuperar seu senso de identidade e pertencimento.
Ao falarmos isso, muitos podem nos questionar, mas como é que um campo como esse pode ter identidade? Nossa resposta é simples, porém complexa. Pensamos a identidade não como uma categoria enrijecida. Pensamos identidade como a capacidade de um ou mais grupos de, ao interagirem socialmente, estabelecerem hábitos culturais que os façam sentir próximos possibilitando, assim, seu reconhecimento. Daí a palavra pertença ou pertencimento. Ao me identificar com um sistema cultural, simbólico, no caso, o universo afro-brasileiro, seus adeptos sentem-se como iguais, mesmo que pratiquem práticas rituais diversas. Pensamos, portanto, a identidade não como fórmulas e padrões pré-determinados. Um exemplo é o da língua, fator determinante para a criação de uma identidade. Nos terreiros afro-brasileiros, há uma linguagem própria, peculiar ao nosso universo. Não é, porém, uma linguagem que se faça pela contribuição de apenas um grupo linguístico, ao contrário, as expressões do ritual de angola, do candomblé ketu e mesmo os pontos cantados da umbanda, jurema, batuques, guardam contribuições de várias “fontes” linguísticas. Nossa identidade é, portanto, plural.
É com esse olhar voltado para a pluralidade que pensamos o campo afro-brasileiro, seja em âmbito acadêmico ou religioso. Sabemos que nosso olhar encontra eco na maioria das casas de santo do Brasil ou, pelo menos, naquelas em que se deseja manter a integridade da formação da religiosidade afro-brasileira: diversa por natureza, ressignificada pela construção social constantemente.

Axé!

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Publicação 408

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Excertos do vídeo "IV Congresso Internacional de Sacerdotes e Sacerdotisas" e "XXIII Rito de Exu"

Na publicação de hoje, disponibilizamos vídeo com excertos do IV Congresso Internacional de Sacerdotes e Sacerdotisas. A proposta do congresso foi dar voz aos pais e mães espirituais sobre a diversidade nas religiões afro-brasileiras e como ela é vivenciada dentro e fora do terreiro. Após o congresso, o terreiro ficou lotado e, juntos, realizamos um xirê, principalmente em homenagem ao grande caçador Odé! Nossa casa estava em festa! Celebramos com os exus a vida!




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Publicação 407

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Parceria editorial: Arché e FTU juntas promovendo as Religiões Afro-brasileiras

Além do paradigmático GT das Escolas das Religiões Afro-brasileiras na ABHR, a FTU também marcou história com sua parceira, a Arché Editora, na publicação de 4 obras durante o mesmo evento. São livros de filhas espirituais, de uma mãe de santo teóloga formada pela FTU e a nova edição do renomado prof. Dsc. Sérgio Ferretti. Com a palavra, a editora Arché! Axé!

Umbanda e teologia da felicidade, de Fernanda L. Ribeiro, aluna formada teóloga pela FTU - Faculdade de Teologia Umbandista. O livro trata de um assunto conhecido de todos nós: a felicidade. Mas o que é felicidade? Como esse conceito mudou ao longo do tempo e como um adepto das religiões afro-brasileiras concilia a busca por felicidade com sua prática religiosa e seu dia a dia? É o que a autora investiga, dos templos gregos aos terreiros afro-brasileiros, a partir dos resultados de pesquisa de campo.

Fernanda L. Ribeiro apresenta bibliografia rica e exposições claras e sinceras de uma pesquisadora da academia, de uma filha de santo, enfim, de uma pessoa como todos nós.

Obs: Clique para ampliar

O Mito de Origem: uma revisão do ethos umbandista no discurso histórico, de Maria Elise. G. B. M. Rivas, sacerdotisa das Religiões Afro-brasileiras, teóloga formada pela Faculdade de Teologia Umbandista, da qual é vice-diretora.

Sobre o livro:

Zélio Fernandino de Morais foi o fundador da Umbanda. Verdade ou mito? Para tratar desse assunto, Maria Elise G. B. M. Rivas recorre à formação da identidade brasileira, ou das identidades, investigando relações entre suas matrizes constituintes e questionando momentos históricos estabelecidos como verdades imutáveis. Assim, a pesquisadora e sacerdotisa das religiões afro-brasileiras traz à tona os preconceitos e interesses de determinadas classes do tecido social que levaram ou - por quê não? - forçaram a história a demarcar dia, hora, lugar e profeta para a revelação de uma religião que não é única nem una, mas muitas e diversas, aduzindo argumentos e provas de sua prática antes mesmo de sua propalada fundação, por meio de personagens pouco conhecidos, como João de Camargo e Juca Rosa. 

Obs: Clique para ampliar

 "Afinal o que é Macumba?", da teóloga formada pela pela FTU - Faculdade de Teologia Umbandista, Michelle Esteves Soares.

Este livro aborda sucintamente este tema ainda polêmico para muitos: a Macumba. Religião, instrumento ou feitiço? A autora responde a essas e outras questões partindo de análise etimológica e analisando as mudanças sócio-históricas que permeiam o conceito de Macumba, em um texto fluido e informativo sobre o assunto.

Obs: Clique para ampliar

Relançamento da obra que se mostra cada vez mais atual no cenário dos estudos de ciências da religião, teologia, ciências sociais e antropologia: de 1995, Repensando o Sincretismo, de Sérgio Ferretti, ganha segunda edição, em trabalho conjunto da Arché Editora e Edusp.

O livro apresenta a pesquisa do autor e pesquisador sobre o tambor de mina na Casa das Minas e suas relações com origens africanas e o catolicismo: confluência de diversidades em uma só palavra, qual seja, o sincretismo, cada vez mais atual no universo das religiões afro-brasileiras.

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Publicação 406

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A FTU no Simpósio Internacional da Associação Brasileira de História das Religiões na USP: a participação da nossa comunidade de Axé!


Dando continuidade à publicação anterior, gostaríamos de apresentar vídeo com excertos da participação de alunos e professores, filhos e netos espirituais da nossa comunidade de Axé no I Simpósio Internacional da Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR). O evento ocorreu nas dependências da USP entre os dias 29 e 31 de outubro. Gostaríamos de comentar questões importantes antes de passar ao vídeo.
Reiteramos o que já afirmamos na publicação passada. A Faculdade de Teologia Umbandista (FTU), primeira faculdade com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras, autorizada, credenciada e reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC), coordenou o primeiro grupo de trabalho com enfoque na teologia afro-brasileira. O nome do GT foi “Escolas das Religiões Afro-brasileiras e Diálogos”, tema pesquisado há muito tempo por nós, que fora discutido amplamente na FTU e que deu origem, inclusive, ao nosso livro de mesmo nome lançado durante o Simpósio da ABHR.
A participação de pesquisadores no nosso GT de várias regiões do país: Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo, Pará. Inclusive de vários setores acadêmicos: História, Etnobotânica, Ciências da Religião, Sociologia, Medicina, Antropologia e, claro, Teologia Afro-brasileira. Os temas pesquisados também tocaram várias Escolas das Religiões Afro-brasileiras. Durante os três dias foram discutidos Umbanda, Culto de Nação, Candomblé de Caboclo, cultos específicos do Pará, Catimbó. Essa diversidade, dentro de um conceito amplo como Escolas, demonstra como é possível conciliar a pluralidade afro-brasileira sem perder a identidade.
Nossa comunidade de Axé também participou em peso. Tanto os coordenadores, quantos os comunicadores, tanto os pôsteres, como os ouvintes, reforçaram a participação expressiva no evento. Gostaríamos de parabenizar a todas e todos pela militância. Vocês, meus filhos e netos espirituais, mostraram pelo exemplo próprio que é possível um diálogo pacífico e construtivo entre os saberes acadêmico e religioso, passando pela saber popular.
Este profícuo diálogo entre Ciência e Religião fortalece os dois espaços sem solução de continuidade. No caso da Academia, a Teologia Afro-brasileira apresenta novas possibilidades de leitura e compreensão do campo religioso. Novos dados, novas reflexões, novas interações humanas são materiais importantíssimos para o avançar da ciência. Ao mesmo tempo, os religiosos começam a consolidar uma nova forma de interagir com os acadêmicos. Somos produtores de conhecimento, não com adaptações à história, psicologia ou ciências sociais, mas um conteúdo próprio, portanto teológico.

Vamos assistir agora os trechos das comunicações. Axé!


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Publicação 405