quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Nossos filhos e filhas-de-santo na academia: FTU no Simpósio Internacional da Associação Brasileira de História das Religiões na USP!

Esta semana a Faculdade de Teologia Umbandista foi representada no I Simpósio Internacional da Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR) na USP por vários dos meus filhos e filhas-de-santo. A começar pela primazia da FTU conquistar a coordenação do primeiro grupo de trabalho (GT) com enfoque exclusivo para a teologia afro-brasileira. Apesar dos trabalhos apresentados contemplarem metodologias e abordagens de outras disciplinas acadêmicas como sociologia, antropologia e ciências da religião, podemos dizer que a força era proveniente da teologia uma vez que o nome do GT intitulava-se Escolas das Religiões Afro-brasileiras, cujo conceito foi elaborado por nós teologicamente.
O conceito de escolas foi pensado na tentativa de apontar academicamente alguns princípios que norteiam o pensar-fazer afro-brasileiro, a saber: uma epistemologia, uma ética e um método próprios. Cada terreiro pode, portanto, ser ou fazer parte de uma Escola afro-brasileira desde que tenha elaborado esses princípios e vivenciem-nos. Temos várias Escolas como, por exemplo: umbanda branca, umbanda traçada, candomblé de caboclo, jurema, tambor de mina, jarê, tore, babassuê, batuque do sul, xangôs do nordeste, umbanda iniciática entre tantas outras. O que há em comum a todas elas? Por estranho que possa parecer, há muitas semelhanças! Há o processo iniciático, a vivência do transe, a transmissão de conhecimentos via oralidade, a família ou comunidade-de-santo, a crenças em divindades, em ancestrais etc.
Essas e outras questões foram discutidas terça, quarta e findará nesta quinta-feira. Muitos poderiam nos questionar qual a importância disso para as religiões afro-brasileiras, afinal, não seria melhor discutir essas coisas apenas nos terreiros? Respondemos que não. Respondemos que a iniciação se dá única e exclusivamente no interior dos terreiros, porém, a discussão acadêmica sobre as temáticas afro-brasileiras devem ser cada vez mais discutidas.
Ressaltamos que no início dos estudos sobre as religiões afro-brasileiras quem pesquisava eram homens, inseridos em uma perspectiva eurocêntrica e que não viviam cotidianamente as “coisas do santo”. A diferença agora (e talvez aí resida a excelência da conquista desse GT) é o fato de que ele foi constituído por pessoas que se inserem na vida religiosa de terreiro e todos os demais pesquisadores (não apenas os coordenadores) são “insiders”, são os “desde dentro”. Estar inserido em um simpósio internacional na USP podendo falar livremente das convicções religiosas sob a perspectiva acadêmica, com muito debate e discussão é, portanto, uma conquista. É romper com uma tradição em que se deixava falar livremente sobre as práticas afro-brasileiras, categorizando e teorizando sobre rituais e cotidianos não vividos. É romper a tradição em que o povo de santo estava passivo “assistindo” e “lendo” os acadêmicos. Agora, o povo de santo lê, escreve e se posiciona religiosa e politicamente. E, claro, o papel dos teólogos formados na FTU é de vital importância. Esse GT marca, enfim, um momento histórico para a teologia afro-brasileira. Se já havia reconhecimento do meio acadêmico do trabalho da FTU, este foi devidamente concretizado neste simpósio. Sejam como pesquisadores sejam como coordenadores do GT, nossos filhos e filhas espirituais vem batalhando pela visibilidade afro-brasileira. As funções, aliás, não importam. A relevância vem da atuação, da mobilização, do posicionamento religioso-político a favor da diversidade. E isto, tenho certeza, foi desenvolvido no interior do terreiro e agora caminha, crescentemente, para outros espaços.
Meus respeitos aos meus filhos e filhas espirituais que, corajosa e dignamente, levam o terreiro para a academia. Isto, como disse acima é mobilização...mobilização de axé!
Abaixo, disponibilizamos algumas fotos do evento!

Axé.






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Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 404

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Celebrando a vida no XXIII Rito de Exu: Guardião do Destino, Vencedor da Morte!

Gostaríamos de destinar esta publicação ao agradecimento aos quarenta e três pais e mães-de-santo que estiveram presentes em nossa celebração anual aos exus! A esses queridos sacerdotes e sacerdotisas gostaríamos de agradecer pela presença, pela vinda de seus filhos e filhas-de-santo, mas, principalmente, por termos compartilhado, trocado e potencializado o axé das religiões afro-brasileiras.
Antes de o rito começar houve a realização do IV Congresso Internacional de Sacerdotes e Sacerdotisas em que o tema DIVERSIDADE foi debatido mais uma vez. A proposta do congresso foi trazer a visão dos pais e mães espirituais sobre a diversidade nas religiões afro-brasileiras e como ela é vivenciada dentro e fora do terreiro. Como sempre, o debate foi rico de contribuições e mostrou que a força das religiões afro-brasileiras encontra-se no diálogo. Este, pode até não ser consensual, aliás a proposta não é encontrar respostas únicas, mas sim, abrir espaço para que haja trocas entre os vários pensamentos-práticas das religiões afro-brasileiras. E isto ocorreu com muita propriedade, respeito e alegria!
Após o congresso, o templo da faculdade ficou lotado e, juntos, realizamos um xirê, principalmente em homenagem ao grande caçador Odé! A dança em torno do assentamento para Odé marcou o enredo do nosso rito a partir dos movimentos, orikis e orins entoados. Nossa casa estava em festa! Aí sim, após a dança recebemos a presença de Sr. Exu Capa Preta e todos os exus que vieram trazer seu poder de realização, força, vitalidade e liberdade a todos nós. Celebramos com os exus a vida!
Contam algumas historietas de Ifá que se não fosse Exu não saberíamos que estávamos vivos, afinal, ele é o grande Senhor da Vida, comunicador entre os mundos, o Dono do Mercado e propiciador de destinos. Ele é Obara, Elegbara, Odara, Lonan e tantos mais!
Mais uma vez nosso ritual foi carreado de muita alegria e louvação verdadeira. Sabemos que as religiões afro-brasileiras saem fortalecidas quando pais, mães-de-santo e suas comunidades de axé se reúnem para, juntos, viverem a religiosidade na diversidade!
Um axé a todos os sacerdotes e sacerdotisas que estiveram presentes. Que os Exus possam acobertar seus destinos e fortalecer, ainda mais, as comunidades de santo de cada um!

Axé!




















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Publicação 403

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Nossa relação com acadêmicos e religiosos: amizade em favor da diversidade!

Observamos recentemente algumas pessoas, filhos(as)-de-santo e mesmo outras que não fazem parte de minha comunidade de axé,  veicularem via redes sociais parte de nossa história e vínculo com professores acadêmicos reconhecidos. Achamos justo e importante, mas gostaríamos de esclarecer como tudo isso começou, afinal de contas, é sempre importante utilizarmos da história para demonstrar os traços do presente.
Somos sacerdote há mais de 45 anos, percorremos várias tradições espirituais, tivemos contato com muitos pais e mães-de-santo, filhos e filhas de santo, muitas histórias, muitos rituais, muito axé compartilhado. São anos de formação espiritual unicamente no terreiro, sem uso de cursos, apostilas ou qualquer outro engodo que, por ventura, exista no meio afro-brasileiro para se vender Iniciação. A nossa foi única e exclusivamente feita sob os auspícios de pais-de-santo cujas responsabilidades coletivas me faziam ter convicção na força e valência espiritual. Depois de muito viver no santo, fizemos medicina (ou seja, éramos sacerdote antes de cursar medicina), exercemo-la e, sempre, em crescente atividade espiritual. Sempre dizemos que fizemos medicina para que não nos chamassem de charlatão! Mas, o fato é que a medicina sempre nos proporcionou contato humano e um olhar apurado para o que significavam as doenças e os processos de cura, tão bem explicados no terreiro, com suas várias terapias.
No decorrer desses anos, lançamos a ideia da criação da Faculdade de Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras, única ação educativa regulamentada pelo MEC com vistas a dar voz e vez para TODAS as Escolas das Religiões Afro-brasileiras. A Faculdade, como não poderia deixar de ser, trouxe um impacto fortíssimo no campo teológico, mas, sobretudo, no campo religioso.
Academicamente, hoje somos extremamente reconhecidos e chamados a representar as religiões afro-brasileiras em eventos, justamente porque os organizadores sabem que não valorizamos apenas uma forma de pensar e praticar a religiosidade afro-brasileira. Sabem que em nossas falas esforçamo-nos para falar por todos e não por uma única voz. Religiosamente, muitos foram contrários e ainda hoje insistem em confrontar as ideias da FTU, justamente, com o argumento e práticas que lhes são usuais (ou seja, não são nossas). Tais grupos argumentam que a FTU nasceu para monopolizar as religiões afro-brasileiras. Não observam, porém, que este é o que eles pretendem fazer e não nós!
A nossa formação sacerdotal nos formou com um olhar para a diversidade. Jamais proporíamos uma carta magna, documento típico que visa estabelecer parâmetros rígidos e normas de conduta baseado em um grupo único, em apenas uma Escola afro-brasileira. Respeitamos essas pessoas, apenas, somos contrários às ideias sugeridas. Entendemos que seja uma forma de ação pela religiosidade afro, mas, segundo nossa ótica, é um movimento ultrapassado. Talvez fizesse sentido em outros momentos históricos do Brasil... mas, o que vemos hoje, aliás, o que existiu sempre foram múltiplas vozes nesse campo religioso. Basta vermos a formação do povo brasileiro, plural, diverso, miscigenado.

Então, retomando ao início do texto, o contato com os acadêmicos surgiu de uma verdadeira amizade que foi sendo tecida ao longo das várias atividades promovidas pela FTU e por outras instituições de ensino superior. Esses professores, todos os que foram citados em redes sociais sentiram que nossa amizade era sincera e, principalmente, sentiram a segurança e seriedade do nosso discurso, do nosso ideal. Não apenas sentiram como tornaram-se parceiros de nosso projeto, já que viram que nosso olhar-ação estava totalmente direcionado para a diversidade. Mais uma vez afirmamos, esse olhar não foi forjado na academia, foi construído na nossa experiência sacerdotal, no contato com várias liturgias, várias mitologias, enfim, várias cosmovisões afro-brasileiras. Foi uma aprendizagem significativa de anos de contato com pessoas, terreiros, divindades e ancestrais. Essa construção em prol da diversidade, que foi feita única e exclusivamente nos terreiros, nos faz ser uma pessoa cujo ideal de vida é percebido e sentido como verdadeiro e totalmente possível de ser realizado, já que pretende valorizar a todos. Falamos em história no início do texto, não podemos nos esquecer que as religiões afro-brasileiras nasceram desse conglomerado de etnias, culturas, religiosidades e, portanto, nada mais justo do que um discurso em prol da valorização de todos esses matizes. Um discurso-prático, como gostamos de dizer. Um discurso que promove realizações efetivas. Um ideal que não se faz pela hegemonia e homogenia, mas pelo resgate da identidade afro-brasileira, esta essencialmente plural e complexa.
Esperamos ter deixado claro onde nossa amizade com os acadêmicos começou. Amizade que se fez pelos valores compartilhados, valores estes em favor da diversidade. Finalmente, gostaríamos de convidar a todos para o Congresso de Sacerdotes e Sacerdotisas e, em seguida, participar da louvação aos exus: guardiões do destino, vencedores da morte. O ritual será dia 26 de outubro, no próximo sábado. Esperamos por todos!

Axé!

Convite oficial do Rito de Exu: https://twitter.com/rivasneto/status/382178275205726208/photo/1

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Publicação 402

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Entidades das Religiões Afro-brasileiras: um olhar sobre estados “prisionais” e marginalização

Em nossa última publicação comentamos sobre o enredo do ritual de exu que será com Odé, senhor da caça, provedor e protetor da família. Este ano dramatizaremos um dos mitos e o vincularemos ao Orixá de Exu. Se Odé foi capaz de vencer o poder maligno do passáro das feiticeiras, Exu vem com sua valência mostrar a força,  axé e destino em ação. Daí o nome do ritual Exu: Guardião do Destino, Vencedor da Morte.
Recentemente, estive conversando com uma de minhas filhas que está inserida no meio acadêmico sobre uma de suas aulas no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais. A aula versava sobre sistema prisional, exclusão e desigualdade social. Segundo ela mesma me contou, uma série de teorias e debates de autores estavam sendo articulados por mais de 20 pessoas na ocasião. Todos aparentemente muito engajados no “problema” colocado. Minha filha, como não poderia ser diferente, começou a se questionar sobre a verdadeira eficácia da discussão, já que muitos dos que lá se encontravam jamais pisaram sequer em um colégio público. O debate que parecia caloroso ficava em âmbito das paredes da sala de aula porque do ponto de vista prático, nenhuma das pessoas parecia engajar-se com a proposta para além de uma disciplina de pós-graduação. Com este comentário de minha filha, logo fiz minhas associações com as religiões afro-brasileiras e, especialmente, com os exus, os quais em breve estaremos louvando (26 de outubro).
As entidades cultuadas nas religiões afro-brasileiras são figuras que, não raras vezes, fizeram parte como personagens da história brasileira: o preto-velho, os caboclos mestiçados, baianos, boiadeiros, marinheiros, encantados, também os Orixás, Inkices e Voduns, os marginalizados de todos os matizes que construíram um arsenal de experiências concretas, hoje são elevados a personagens míticos e constituem a centralidade do pensamento afro-brasileiro. No entanto, este olhar sócio-antropológico não é capaz de explicar esse movimento: do personagem histórico ao personagem mítico. Para isso, é preciso fazer uso da linguagem teológica, da linguagem religiosa, vivenciada dos adeptos das nossas religiões. Todas as entidades são cultuadas mais do que para encenar um mito, mas para que a realidade social, vivida para além do terreiro seja transformada. Muito mais do que um isolamento, as entidades estão interessadas que a vivência de terreiro esteja para além dos rituais. Ainda mais evidente nesse processo é a figura do Exu. Exu que na África era adorado como um benfazejo, realizador de destinos, comunicador entre Aiyê e Orun, no Brasil torna-se, por influência direta do pensamento católico, a entidade que personifica o mal. E não apenas o mal, o desvio, a contra-regra, o pensamento fora do padrão, as atitudes não morais, enfim, o trickster, o contraventor, o transgressor.
É justamente essa entidade que é a mais criticada, e que ainda é amplamente utilizada por outros setores religiosos (para justificar o embate da luta do bem contra o mal) que milita diuturnamente em prol da exclusão da desigualdade em vários níveis, chegando até o nível social e econômico (no caso dos sistemas prisionais no Brasil). Para Exu nunca houve o bem ou o mal tal como esses conceitos são operacionalizados pelas religiões cristãs. Exu preza pela justiça e pela liberdade. Por isso é mal compreendido, porque desde suas apresentações nos médiuns ele desafia os padrões convencionais. Além disso, Exu está a todo momento dizendo que todos são capazes e podem conquistar as coisas, que nenhum filho das religiões afro-brasileiras veio à Terra para perder, ser injustiçado ou, ainda, pagar por determinados “karmas”. Estar em um sistema prisional não é um karma que deva ser cumprido rigidamente. Entendemos que deve haver, minimamente, um sistema penal e jurídico para balizar a convivência em sociedade, mas devemos tomar cuidado para de quem maneira a sociedade e as religiões lidam com essas questões. Ainda hoje, passados mais de um século, a grande massa das pessoas que estão presas é composta por negros, pobres, mulheres marginalizadas e prostitutas, que vivem em condição miserável. Já viviam fora e passam a viver, também, dentro das prisões. Não estamos aqui negando a necessidade de sanções, mas sim, problematizando que se essas coisas acontecem, significa que nossa sociedade está doente. O sistema prisional fez-me pensar em outros estados de prisões... e são com essas prisões que as entidades das religiões afro-brasileiras e, os exus, em potencial trabalham. Na tentativa de conduzir a sociedade a destinos mais justos.
Por isso, não apenas neste nosso ritual anual, mas durante todos os dias de nosso ano ritual, nós louvamos os exus, ritualizamos os mitos e entramos em contato com eles. Essa é uma forma e viver o terreiro nele e além dele. Teorias são excelentes mas se estiveram desvinculadas da prática, elas também aprisionam. Talvez seja um dos motivos pelos quais a Faculdade de Teologia das Religiões Afro-brasileiras sensibilize os que ela conhecem. Porque a proposta é, justamente, a aproximação entre um saber acadêmico (fruto de um pensamento ordenado, racionalizado e teorético) e um saber religioso (fruto da experiência sensível e vivência dos fundamentos do axé dos terreiros). Trata-se de um discurso conciliador entre saberes, jamais visto. As salas de aula estão, afinal, a passos do terreiro, elemento esse reconhecido pelos avaliadores do MEC como ponto de excelência de uma Teologia que se pretende eficaz.
Enfim, esperamos ter deixado claro a atuação das entidades das religiões afro-brasileiras. Essas sim, seres que não aparecem, invisíveis, marginais (seja em âmbito social como religioso) que militam verdadeiramente contra a marginalização e exclusão social.
Laroyê Exu!
Meus respeitos às várias comunidades de axé espalhadas pelo Brasil e fora dele!

Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Preparativos para o Rito de Exu: Guardião do Destino, Vencedor da Morte

Em nossa última publicação comentamos sobre alguns rituais preparatórios que foram realizados no Ile Funfun Awoshogun – Casa de Axé da Cura e do Destino em Itanhaém. Basicamente, tratava-se de dinamizar o axé coletivo de nossa comunidade, atentando-se, obviamente, para as particularidades de cada um de meus filhos e filhas espirituais. Nesta publicação gostaríamos de comentar sobre outro ritual importante que envolve nossa comunidade, o ritual anual de Exu. Este ano, a celebração ganha o nome de Exu: Guardião do Destino, Vencedor da Morte e faremos uma importante reunião com tantas outras comunidades de axé.
Antes de penetrar no enredo de nosso ritual, gostaria apenas de mencionar novamente a relevância do conceito de axé. Este termo que se tornou usual no linguajar do santo, (corriqueiro até) é, na verdade, pedra angular da teologia afro-brasileira. O axé é a energia vital que anima tudo e pode ser transformado em densidades e níveis diferenciados. O axé se “adquire” por introjeção ou contato. Ele é renovado a partir do cumprimento das obrigações rituais e sociais. Isso feito há, consequentemente, um fortalecimento do axé individual e coletivo. Podemos dizer que cada filho(a) espiritual possui seu axé individual que soma-se ao axé do sacerdote e ao axé dos demais irmãos(ãs) de santo. Este ritual de exu, que realizamos anualmente, é uma oportunidade de nossa comunidade de santo entrar em contato com outras comunidades de santo. Isso é reforçar o axé das religiões afro-brasileiras, pois, independente de cada tradição, todos comungam do ideal (que se faz real) de estabelecer uma constante relação com o mundo espiritual. Falar em axé é falar em equilíbrio. Lidar com o axé é movimentar forças sutis em determinadas proporções. Nada melhor que os exus para fazerem esse trabalho!
Este ano o enredo de nosso rito é com um grande Osho do panteão de deuses: Oxóssi. Oxóssi é o caçador, o provedor, aquele que guarda a comunidade, a família. Sua cor fundamental é o azul. Tem como características a agilidade, destreza, habilidade para entrar e sair das situações da vida. Em uma palavra, lépido.
 Existem vários itans, mas – um em especial – fala de como Oxóssi se torna o senhor de Ketu, o Alaketu ao matar com uma flecha só o pássaro das Yami que trazia morte para a comunidade. Este enredo será dramatizado, ritualizado no próximo rito de exu, dia 26/10/2013 as 23hs nas dependências da FTU. Esperamos todos lá! Axé!

 Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Axé, destino e equilíbrio nas Religiões Afro-brasileiras


Estamos nos aproximando de um ritual importante para nossa comunidade de santo e, como sempre, fazemos determinados rituais preparatórios. Alguns deles foram realizados semana passada e tiveram a finalidade de manter o equilíbrio e higidez da nossa comunidade. Equilíbrio para nós é estar no caminho certo do seu destino, ou melhor, é cumprir o seu destino. Claro, cabe ressaltar, que o destino nas religiões afro-brasileiras não é pré-determinado ou estático, ao contrário, estamos fazendo destino constantemente. Porém, quando a pessoa não está ciente e responde por outros destinos, não os que lhe eram afins, isso gera um desequilibro. Daí a necessidade de restituição de axé. Qualquer desequilíbrio no banco do axé precisa de uma restituição para que o axé possa, novamente ser absorvido, condensado, multiplicado e potencializado. Deixo, então, nas linhas a seguir um breve depoimento de uma de minhas filhas-de-santo sobre sua vivência em um desses rituais. Sua palavra, certamente, expressa o sentimento de toda a comunidade:


“Os rituais afro-brasileiros são formados por uma série de elementos. Muitos pais e mães-de-santo, acadêmicos e apreciadores dessas religiões, ao escreverem suas obras, discorrem bastante sobre o amplo arsenal simbólico existente nos rituais. Poucos, porém, falam sobre os fundamentos referentes a estes elementos. Há, sim, um respeito grande sobre a transmissão dos fundamentos nas religiões afro-brasileiras, sobre o segredo, sobre a passagem de conhecimentos religiosos. Isto porque, segundo as várias Escolas Afro-brasileiras (todas elas apregoam), a transmissão se dá única e exclusivamente via contato com o sacerdote, pai ou mãe-de-santo. Não existe outra forma reconhecida para a aprendizagem religiosa, para a iniciação.
É sobre este ponto que gostaria de discorrer hoje. Pai Rivas ofereceu-me espaço em seu blog e não vejo outro tema a comentar que não a “pedagogia do santo”. Tão teorizada, tão comentada, pouco entendida, pouco vivida. Os amigos poderiam me perguntar porque esta pedagogia do santo não foi bem assimilada pelo olhar acadêmico. Respondo. Por falta de vivência e de compreensão efetiva e afetiva do que seja o axé. Falar em iniciação e aprendizagem religiosa é, necessariamente, falar do axé.
Esta palavra, cujo sentido, função, significado escapam ao nosso processo intelectivo só é, verdadeiramente apreendida, pela vivência. Como diria Mauss ao falar sobre o maná, o axé é substantivo, adjetivo e verbo. Ele é um elemento, uma qualidade, uma ação. É por meio do axé que a comunidade de santo e mantida. Pelo axé do sacerdote e pelas várias práticas rituais por ele(a) realizadas.
Durante a semana passada, Pai Rivas, meu pai-de-santo há 18 anos, realizou uma série de rituais em grupos específicos mas que, contabilizaram, ao final, mais de 250 pessoas. O ritual que ora não descreverei por respeito e fidelidade à minha Tradição tinha por objetivo reforçar o axé da comunidade com ações específicas. Mas, como este axé pode ser reforçado? Segundo meu pai-de-santo, por introjeção ou contato. São as duas únicas maneiras de transmissão de axé. E o axé da comunidade é um composto do axé individual e, claro, do axé do sacerdote (que detém, naturalmente, a maior porcentagem). Vemos, nesse caso, a importância e responsabilidade do pai e mãe-de-santo já que eles precisam ajustar seu próprio axé, o do terreiro, de cada filho(a)-de-santo e, consequentemente, da comunidade. O fato é que manter esse ciclo de axé não é uma tarefa fácil. E não depende única exclusivamente das lideranças religiosas. Depende da atuação de cada filho(a) espiritual. Depende, segundo Pai Rivas, de estar em dia com nossas obrigações rituais e sociais. Qualquer desajuste dessas “obrigações” afetarão o axé individual e coletivo e, portanto, o destino individual e coletivo.
Daí também a associação do axé com a ética das religiões afro-brasileiras. Podemos dizer que o axé é o motor das casas de santo espelhadas pelo Brasil e fora dele. E o axé, para os que bem sabem o que ele significa e vivenciam-no, de fato, vincula-se imediatamente à alteridade. Estar em dia com seu axé é ser responsável com o axé de seus irmãoes-de-santo, de sua comunidade. É, portanto, uma atitude ética.
A “pedagogia do santo”, termo que gosto de utilizar, está intimamente relacionada ao axé. Ser iniciado no santo depende da completa imersão nesta vivência. E cada ritual oferece a oportunidade desta imersão, afinal, eles são os mitos dramatizados. São as possibilidades de rever as histórias do mundo, de entrar com contato com sua ancestralidade e introjetar e receber axé por contato, com seu pai e mãe-de-santo, com seus irmãos(ãs)-de-santo, com o ar do terreiro, enfim, para mim os rituais são como os jogos oraculares, cada um deles é uma determinada caída de coquinhos de dendê no tabuleiro de Ifá, fazem nosso destino acontecer.
Meus pedidos sinceros de bênçãos ao meu Pai. Meu eterno agradecimento por oferecer a mim e à minha comunidade a possibilidade de reatualizar nossos destinos. A cada palavra sua (que são nossos ofós), a cada cântico entoado (as histórias narradas), a cada dança (o ritmo e ciclo do universo em encaixe), a cada transe/incorporação com a valência da nossa ancestralidade.
Nossa raiz está viva. Não porque está bem fincada (porque isto é certeza), mas porque dá frutos incessantemente, como diz o ponto “plantou raiz, colheu flor...”
 Salve, então, nossa Tradição!
Axé Baba Mi!”

Yacyrê e toda a comunidade do axé do Pai Rivas .

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Publicação 399

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Nossa filha de santo na Academia: CONINTER 2013

É com grande alegria e satisfação que informamos da participação da nossa filha espiritual, professora da FTU e Mestra em Ciências Sociais Érica Jorge (Yacyrê) no II CONINTER (Congresso Internacional Interdisciplinar em Socias e Humanidades). O evento deste ano ocorreu nas dependências da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Em sua fala, Érica Jorge fala sobre políticas públicas nos terreiros de Candomblé. Algo de suma importância para todos nós das Religiões Afro-brasileiras. Encerramos nossa publicação disponibilizando as palavras da própria Érica, bem como algumas fotos. Axé!

"Registros da minha apresentação que pretendeu discutir a mudança de um olhar universalista para um olhar para e pela diferença, principalmente pós Conferência de Durban (2001). O foco de análise foi o Projeto Mapeamento de Terreiros em Salvador, pretensa política pública que visava a valorização fundiária das casas de santo, mas que não atingiu resultado final. Tivemos, sim, um quadro mais claro das características religiosas, sociais, demográficas dos terreiros. Mas, muito ainda está por ser feito pelas instâncias públicas, movimentos sociais e acadêmicos em prol do resgate do arsenal cultural-religioso afro-brasileiro"



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Publicação 398

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Nova reimpressão de Escolas das Religiões Afro-brasileiras – Tradição Oral e Diversidade!

Escolas das Religiões Afro-brasileiras – Tradição Oral e Diversidade foi a última obra que escrevemos. A motivação para a escrita dessa obra deveu-se à nossa experiência como sacerdote há mais de 45 anos e, recentemente, na última década com as experiências acadêmicas, principalmente, a partir da fundação e consolidação da Faculdade de Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras.
Ao longo de muitos anos convivemos com diversas tradições religiosas afro-brasileiras, mantivemos contato com personagens espirituais e históricos (orixás, ancestrais, Mestres, pais e mães-de-santo, filhos(as)-de-santo) que nos proporcionaram muitas vivências e, consequentemente, muita felicidade. Viver as várias tradições foi reviver a própria história da formação do povo brasileiro e sua religiosidade. Mais tarde quando idealizamos e consolidamos o Projeto FTU foi, justamente, com a intenção de dar voz às múltiplas vozes existentes nas religiões afro-brasileiras. A realização da FTU vem recuperar o senso de pertencimento, identidade dessas tradições (juntamente com a vida religiosa que cada Escola vivencia) e, serve como um instrumento legítimo de contato com a sociedade civil, por meio da educação.
O livro Escolas das Religiões Afro-brasileiras – Tradição Oral e Diversidade é prova de nosso trabalho de anos e uma tentativa de ofertar uma literatura condizente com o atual momento deste campo religioso: o da pluralidade efetiva, não só discursiva.
A obra, que foi lançada em 2012 no Simpósio Internacional da Associação Brasileira de História das Religiões na Universidade Federal do Maranhão – ABHR/UFMA, recebeu grande aceite da comunidade religiosa e acadêmica. A edição foi esgotada e, agora, teráreimpressão. A publicação, editada novamente pela Arché Editora, será lançada no I Simpósio Internacional da ABHR, na Universidade de São Paulo entre 29 e 31 de outubro.
A obra contou com a honrosa participação na 4ª capa do Prof. Dr. Reginaldo Prandi, amigo e grande estudioso das religiões afro-brasileiras. Prandi, como é conhecido, destaca a importância do conceito de Escolas Afro-brasileiras e da atuação da FTU no intuito de promover a autonomia dessas tradições religiosas. Além disso, demonstra a importância do olhar “desde dentro” já que grande parte dos que falaram e teorizaram sobre as religiões afro-brasileiras eram, na verdade, acadêmicos que pouco conheciam do modus de vida das casas de santo.
Apresentamos abaixo a capa e 4ª capa da obra e convidamos, desde já, todos os colegas para participarem do lançamento desta e de tantas outras no Simpósio da ABHR na USP Para conhecimento sobre a obra, sugerimos acessar o facebook da Arché Editora
Que a diversidade seja um caminho mais que possível, um caminho realizável em nossas práticas rituais e sociais!

Axé!


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Publicação 397

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Convite! XXIII Rito de Exu: Guardião do Destino, Vencedor da Morte

Esta publicação destina-se a apresentar aos amigos colegas do blog, pesquisadores, praticantes, adeptos, pais e mães-de-santo o convite para o XXIII Rito de Exu: Guardião do Destino, Vencedor da Morte.
Há muitos anos a Faculdade de Teologia Umbandista conjuntamente com a Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino realiza os ritos anuais de exu, sempre em outubro. Este ritual fecha e, ao mesmo tempo, inicia um novo ano litúrgico de nossa comunidade. Assim como todos os rituais afro-brasileiros carrega um enredo específicos e possui uma simbologia própria que dá significação ao complexo místico-mítico. Exu é uma entidade de suma importância no panteão afro-brasileiro. Orixá mensageiro, elo de comunicação entre os reinos espirituais e materiais, Exu é o grande concretizador de destinos. Nossos rituais, porém, não visam apenas à louvação aos exus que poderiam, como são, ser realizados no interior de cada casa de santo. Nossa proposta foi a de possibilitar que os vários terreiros tivessem a chance de comungar e compartilhar o axé de exu, em suas várias facetas em um mesmo ritual. É, na verdade, uma tentativa (que vem sempre realizada com êxito) de convivência entre as várias formas de se pensar e praticar as religiões afro-brasileiras, especificamente, a visão sobre exu. É uma excelente oportunidade de aproximação entre pais e mães-de-santo, bem como de suas comunidades. Isso só faz fortalecer o senso de pertencimento e de união entre as casas de santo. Ninguém deixa de fazer ou valorizar suas práticas, ao contrário, todas as "visões" são igualmente cultuadas, em harmonia de ações, em sincronia de vibrações e axé.
Na próxima publicação explicaremos o enredo do ritual deste ano, mas, de todo modo, convidamos, desde já,  todos a participarem mais uma vez (ou pela primeira vez) do nosso ritual. Nosso, porque ele não é do Pai Rivas. É de todos nós!

Axé

Obs: Clique para ampliar o convite

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 396