segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Os Mabassas vencendo a Morte: depoimento de uma de minhas filhas-de-santo sobre o Toque dos Mabassas

Dedico esta publicação ao relato de uma de minhas filhas-de-santo, Yacyrê, sobre o Toque dos Mabassas:

“27 de setembro é data deveras conhecida nas religiões afro-brasileiras. E, mesmo fora delas. Dia consagrado a São Cosme e São Damião, santos católicos e que, no panteão afro-brasileiro, representam as crianças, os gêmeos, os dois-dois, candengos, tocuenis e mabassás (na angola).
É data marcante nos calendários litúrgicos de várias escolas afro-brasileiras. Ontem, juntamente com meus irmãos-de-santo, tive a oportunidade de vivenciar mais um toque dedicado à louvação dessas entidades. Toque este que viabiliza, como todos, a reatualização dos mitos religiosos. O mito dos Ibejis é esclarecido por meu Babá no vídeo que acompanha esta publicação, por isso, deixo que a voz de minha Tradição por aquele que melhor a representa, possa contar os meandros da história mítica dos gêmeos. A mim cabe, nas breves linhas a seguir, descrever parte do sentimento vivenciado no ritual.
Infelizmente, algumas de minhas tarefas profissionais impediram-me de acompanhar o desenvolvimento do ritual no decorrer da semana, mas sei que parte de minha comunidade de santo esteve envolvida nos preparos, os quais vão desde o levantamento dos materiais a serem utilizados, a lavagem ritual dos mesmos, a escolha, consagração e sacrifícios dos animais, a elaboração das oferendas, das comidas votivas, a higienização do templo, a confecção dos doces, bolos, akassás, caruru, enfim, o ritual que vimos ontem foi a concretização final de algo que já vinha sendo processado antes.
Penso que é importante destacar esse aspecto já que aqui encontram-se duas coisas fundamentais. A primeira é a “noção global e particular” do ritual. Só mesmo um sacerdote com raízes bem fincadas em fundamentos consegue visualizar o todo do ritual e conduzir os vários mini-ritos particulares que o compõem. Essa visão macro só é clara para os que entendem os aspectos míticos e místicos relativos a estas entidades e, consequentemente, conseguem construir o ritual em pequenas e densas etapas (embora etapa seja uma nomenclatura que divida, reparta e segmente, utilizo-a aqui por falta de uma mais adequada). O segundo aspecto necessário de ser enfatizado diz respeito ao entrelaçamento da comunidade terreiro. Dizem os nossos “mais velhos” que um grupo tem axé na dependência do melhor ajuste entre seus participantes, entre as várias trocas existentes, e o cumprimento de suas obrigações rituais e sociais. Muitas pessoas enfatizam, apenas, o exato momento do ritual esquecendo que ele só aconteceu porque houve uma sintonia de funções que se convergiram em prol da realização espiritual para sua comunidade e os demais envolvidos. A força da coletividade, da irmandade está, portanto, expressa no exemplo da construção do ritual ao longo dos dias.
Uma vez pontuado esses dois aspectos, penso que posso prosseguir ao ritual em si. Ao me deslocar para a casa espiritual de Yamaosilê (filha de Pai Rivas) um conhecido da cidade me disse: “Daqui a pouco estou lá, vou pegar uns doces, hein?”. Eu estava trajada com minha roupa ritualística e, embora, eu jamais tivesse trocado uma única palavra com essa pessoa, de algum modo o signo de minha saia, minhas guias, minha blusa branca comunicaram alguma mensagem de identificação. As roupas de santo falam, carregam sentido e história. Além disso, as festas de santo afro-brasileiras possuem um ar de mistério, atração e instigam. Estão no arsenal cultural-religioso brasileiro, inclusive, no inconsciente coletivo.
Pois bem, chegando ao templo, logo vi muitos irmãos(ãs)-de-santo e reparei no que havia sido cuidadosamente preparado. Um longo caminho de ervas, ao mesmo tempo que me recebia, me conduzia a outros espaços. Outros pequenos assentamentos pela casa e, no templo, uma bela oferenda, uma bela mesa para os Ibejis. A casa estava em festa. As palavras de Baba abriram a cerimônia com explicações sobre o mito. Mas, confesso que o processo de racionalização ficou em segundo plano. Foi com o soar dos tambores, das cantigas, das danças e com a presença das entidades que o mito se fez presente. Porque as palavras do sacerdote são vida, posto que são verbo em ação. Mas todas as várias ações rituais sentidas e compartilhadas em grupo criam uma corrente de força que, em síntese, é o elo de axé sendo transmitido e carreado. Senti que as palavras do Babá foram o start para que o axé fosse veiculado.
Mauss, um famoso antropólogo, costumava dizer que a palavra maná em outras sociedades era tão fortemente carreada de sentido que poderia ser um verbo, um substantivo e um adjetivo. Ontem, ao participar do rito tive esta sensação com o axé. O axé, não é só, como costumam dizer os estudiosos da religião, as flores, plantas, ervas, comidas...axé é ação, é comer, dançar, é incorporar, entrar em transe. É, também, o som por si só, as palavras proferidas, as oferendas. Axé, ontem, foi o reordenamento do mito em ação.
Assim, se nas religiões afro-brasileiras, costuma-se dizer que há muitas festas, é porque no lúdico encontramos muitos caminhos que conduzem à espiritualidade. E a linha entre a ludicidade e a seriedade é, muitas vezes, indefinida. Às vezes, elas não passam de criações e preconceitos sociais. Afinal, o que se espera de uma cerimônia religiosa? O que se deve ou não fazer? Como se portar?
 Ontem, entre risadas, alegrias, danças, pulos, comidas, bebidas, percebi (não intelectivamente) sensivelmente que o astral se apresenta sob inúmeras facetas, tantas quantas forem necessárias. Porque se a diversidade humana existe, certamente a espiritualidade se manifesta da mesma forma, plural.
O rito foi finalizado com muito alegria e amizade. Sempre quando se finda um rito, se inicia outro. Porque a vida nos ensina isso. A vida nunca para, está sempre em construção. Que possamos estar juntos no próximo ano, pois, como disse meu Babá e as entidades, isso é estar vivo e vencer a morte!”

Yacyrê (Érica Jorge)



Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 395

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Nossa filha de santo em debate na UFABC: as religiões afro-brasileiras e suas perspectivas sobre diversidade sexual

Hoje nossa publicação é destinada a apresentar parte do resultado da participação de nossa filha de santo e sacerdotisa Yamaracyê, Maria Elise Rivas, convidada a representar as religiões afro-brasileiras no evento promovido pela prefeitura de Santo André e a Universidade Federal do ABC intitulado: Diálogo sobre Estado laico, gênero e diversidade sexual no campo da fé e das religiões.
O evento contou com a participação de vários líderes religiosos como representantes batistas, metodistas, presbiterianos, católicos, espíritas, luteranos e muçulmanos. O debate central foi a visão dessas confessionalidades sobre a diversidade sexual e de como as comunidades religiosas vem lidando com as questões LGBT. Mais do que apresentar uma posição sobre o assunto, deixaremos que nossa filha fale por nós. Sabendo que é uma honra para o pai-de-santo quando observa isso. Sinal de que os ensinamentos-vivências não foram apenas transmitidos, mas  incorporados na cotidianidade pelos seus filhos, no caso específico de hoje, pela sacerdotisa Yamaracyê.
Abaixo é possível ver algumas fotos do evento e o vídeo, cujo conteúdo apresenta parte do debate.
Axé!









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Publicação 394

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Educação nas religiões afro-brasileiras: construindo olhares para a diversidade


Nos últimos textos temos discutido a relação entre a educação e as religiões afro-brasileiras, sob o ponto de vista dos cursos a distância. Hoje, gostaríamos de trazer uma nova perspectiva que é a relação da educação religiosa nos terreiros. Nas religiões afro-brasileiras, não há uma forma de transmissão formalizada da doutrina religiosa. Não há um processo de catecismo, dias específicos para ensinar o que são os orixás, os ancestrais, os rituais, etc.
Em todas as religiões afro-brasileiras (e há muitas), a educação religiosa se faz por meio da vivência. Isso significa que há um processo de apreensão cultural por meio da observação natural e da prática. As crianças são, naturalmente, conduzidas para os rituais por sua família consanguínea. Pelo menos, esta é a forma principal que as crianças se aproximam dos terreiros.
No entanto, gostaríamos de pontuar, há muitos pais e mães-de-santo e, mesmo filhos(as)-de-santo que não levam suas crianças para o terreiro. Não sabemos o real motivo dessa atitude, mas o fato de as crianças acompanharem seus pais sanguíneos, indica um relacionamento sadio entre a relação familiar e a religiosa. Claro que as crianças devem ter a chance de escolher o que consideram melhor para suas vidas a partir de uma determinada idade mas é importante que elas também possam vivenciar, aprender e assimilar o que seus pais entendem por vida religiosa, até para que possam saber exatamente o caminho que pretendem seguir.
Como exemplo, cito nossa própria experiência. Meus sete filhos fazem parte de nossa corrente mediúnica, nos acompanham no terreiro, nos vários rituais em São Paulo, em Itanhaém, enfim, vivenciam as religiões afro-brasileiras e seus valores, no terreiro e nas suas vidas sociais. A educação religiosa, portanto, torna-se parte integrante da vida como um todo e passa a nortear a ética de vida, nos vários círculos sociais, na construção de novas famílias, em âmbito profissional, amizades, etc. O importante é que os pais (de sangue e de santo) transmitam uma educação religiosa voltada para a diversidade e para a alteridade, sem estabelecer modos únicos de conduta e fundamentalismos. Cada vez mais nossa sociedade pede olhares plurais e flexíveis. E, nesse ponto de vista, pensamos que as religiões afro-brasileiras tem muito a contribuir uma vez que sua base é constituída pela pluralidade. De teologias, de práticas, de afetos e de arranjos familiares. Cabe a cada um de nós a tarefa de construir laços e educação que seja voltada a este propósito. E, se assim for, naturalmente as crianças estarão devidamente confortáveis e felizes em seus ambientes religiosos.
Finalmente, gostaríamos de estender um convite a todos. Na próxima quarta-feira, dia 25 de setembro, Mãe Maria Elise Rivas, iniciada por nós, representará as religiões afro-brasileiras na Universidade Federal do ABC, apresentando a visão das mesmas com relação aos aspectos sexuais e de gênero na sociedade contemporânea. Nossa filha de santo estará nessa mesa de debates, intitulada: Diálogo sobre o estado Laico, gênero
e diversidade sexual no campo da Fé e das religiões, junto com outras lideranças religiosas (de outras confessionalidades) discutindo uma temática de suma importância e que, reflete o que acabamos de apresentar no texto, a necessidade de uma educação voltada para a diversidade. O evento será na Rua da Abolição s/no, Santa Terezinha, Santo André, das 19 às 21h. Haverá emissão de certificados para participantes.
Axé!
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Publicação 393


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Cursos EaD da FTU: compromisso com o Ministério da Educação e com as várias Tradições Afro-Brasileiras

Nosso texto de hoje continua com a reflexão que temos feito sobre o uso das tecnologias educacionais com foco nas religiões afro-brasileiras. Já apontamos que tradição não é avessa à modernidade, muito ao contrário, as tradições religiosas estão, diariamente sendo atualizadas e ressignificadas. Por quem? Pela trama social que as envolvem. Quem muda a tradição não é o sacerdote, nem um filho ou filha-de-santo, apenas. As tradições mudam a partir do entrelaçamento de vários sujeitos sociais. Sim, a comunidade religiosa é fundamental, mas ela está em contato contínuo com outros grupos sociais. Aliás, o princípio de sociabilidade está intimamente vinculado ao processo de interação. Um grupo isolado está fadado a extinguir. Já os grupos que estabelecem diálogos com outras formas e práticas culturais, utilizam o processo de interação para reforçar e recriar seus próprios valores. Viver em sociedade é isto, afinal, não somos uma única massa homogênea, ao contrário, a cada dia novos grupos e identidades culturais são formadas.

Assim, as comunidades afro-brasileiras, à exceção daquelas que se assemelham a seitas fundamentalistas, todas elas estabelecem contatos e interações com a sociedade e, portanto, do ponto de vista que temos trabalhado, não devem ver a tecnologia como opositora de suas tradições.

Isto penso que conseguimos deixar claro em outros textos. Hoje, gostaríamos de diferenciar nossos cursos de extensão universitária que fazem uso das novas tecnologias da informação e comunicação (TICs) de alguns que encontramos. A principal diferença dos nossos cursos é que eles são diretamente vinculados ao Ministério da Educação, já que eles fazem parte de um projeto pedagógico maior da Faculdade de Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras (FTU). Nossos cursos não são, portanto, da qualidade de cursos livres e muito menos vinculados à alguma casa específica de iniciação afro-brasileira. Consideramos que os conteúdos religiosos devem ser transmitidos e compartilhados no interior de cada casa de santo, na relação direta entre pai/mãe-de-santo e seus filhos(as). O que propomos com nossos cursos é oferecer à comunidade uma visão clara sobre alguns elementos essenciais da teologia afro-brasileira, sem com isso ferir ou adentrar em qualquer escolha ou preferência religiosa. Como dito anteriormente, o Ministério da Educação nos possibilita ofertar esses cursos na justa medida em que os mesmos são de caráter geral, fazendo a interface entre a comunidade acadêmica e a comunidade civil como um todo.

Não nos cabe apresentar uma visão sobre esta ou aquela entidade, criticar esta ou aquela forma de ritual e, muito menos, engessar uma única forma de se fazer este ou aquele procedimento religioso. Nossa intenção tem um caráter ético: o respeito incondicional a todos os pais e mães de santo e a todas as escolas afro-brasileiras e, por isso, não fazemos proselitismo ou destacamos preferências. Até porque, todas as escolas tem seu papel e função dentro do campo religioso afro-brasileiro. No entanto, é importante pontuar que há uma série de plataformas de educação a distância criadas por casas de santo afro-brasileiras que, não apenas, unificam um fazer ritual, como apresentam interpretações pontuais sobre entidades e desqualificam todas as que assim não seguem.

Nossos cursos não possuem nenhuma afinidade com esses setores. Somos uma instituição de ensino superior, devidamente reconhecida pelo Ministério da Educação e como tal, assumimos o compromisso de levar avante conteúdos de qualidade e perspectivas teológicas que deem conta da abrangência e complexidade do cenário religioso afro-brasileiro. Não pretendemos com nossos cursos abarcar fiéis. Longe disso. Pretendemos oferecer noções claras sobre a teologia afro-brasileira e fazer com que nossa sociedade valorize e respeite este acervo cultural religioso brasileiro. Que não é de uma escola apenas, não é meu, nem de quem quer que seja, mas da coletividade brasileira.

Para maiores detalhes sobre os cursos de extensão sugerimos acessar http://ftu.eadbox.com/ ou entrar em contato pelo email extensaoead@ftu.edu.br

Axé!

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Publicação 392

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Conteúdos do curso de extensão de Ervas nas Religiões Afro-brasileiras


 Temos discutido em nossas publicações a importância de refletirmos sobre as religiões afro-brasileiras e a educação, em especial a educação a distância. No último texto falamos sobre o aparente (e falacioso) conflito entre as religiões afro-brasileiras e as inovações tecnológicas. Grande parte da literatura acadêmica e mesmo o pensamento disseminado pelas próprias comunidades religiosas enfatiza a noção de tradição como algo imediatamente relacionado às coisas de raiz, mais originais, primitivas até.

No entanto, fazer parte de uma tradição religiosa não obriga que os adeptos sejam avessos às inovações que nossa cultura nos oferece, ao contrário, as religiões cada vez mais procuram se adaptar aos elementos socioculturais, principalmente, aquelas que não fazem parte do complexo abrâmico. Com as religiões afro-brasileiras isto não é diferente. Estamos sempre procurando encontrar caminhos que nos permitam dialogar com a sociedade, afinal, religião não é exclusão. Religião é inclusão e atuação social. No nosso caso, procuramos fazer isso há mais de quarenta anos como sacerdote e também com a Faculdade de Teologia com ênfase nas religiões afro-brasileiras (FTU).

Ao falar da FTU, gostaríamos, hoje, de apresentar a vocês os conteúdos do curso de extensão universitária de ervas. O curso visa aproximar o saber científico do saber popular tradicional passando pelo saber religioso, no que se refere às ervas.

     Introduz uma visão diferenciada e amplificada do tratamento dado às ervas, formas de utilização, tanto do ponto de vista acadêmico, mas principalmente religioso, mostrando o poder de cura e atuação delas nos Cultos Afro-brasileiros.

     Torna-se patente que as ervas sempre foram utilizadas pela humanidade, inclusive pelos movimentos religiosos e especificamente as religiões afro-brasileiras possuem uma ciência particular sobre as ervas.

     O curso busca, portanto, colocar à sociedade em contato com esse olhar diferenciado das religiões afro-brasileiras mostrando que o mesmo não é alheio aos cuidados acadêmicos, muito ao contrário, apóia-se neles para melhor fundamentar sua teoria-prática.

     A proposta consiste no desenvolvimento das seguintes temáticas: 

            - noções científicas básicas das ervas, nomenclaturas e formas de classificação.

- aspectos básicos da Etnobotânica, apresentação da história de cada erva escolhida e sua adaptação ao local e sociedade de origem.

- aspectos básicos da Fitoterapia

- as ervas no cotidiano

- as ervas no cotidiano religioso dos Cultos Afro-brasileiros:

      - Banhos de ervas

      - Defumações

      - Incensos

      - Abôs

      - Boris

      - Amacys

      - Sacudimentos

      - outros 

     - a relação Ossaim – Exu – Orumilá-Ifá: as ervas no destino pessoal e coletivo

Esperamos com o curso oferecer ensino de qualidade e fomentar o interesse pelo arsenal mágico-religioso das religiões afro-brasileiras!

Maiores detalhes, acessem http://ftu.eadbox.com/ ou entrem em contato pelo email extensoaead@ftu.edu.br

Axé!

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Publicação 391

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Tradição religiosa, educação a distância e cultura digital

Em nossas últimas publicações temos discorrido sobre a educação a distância e seu uso com as religiões afro-brasileiras. O uso das novas tecnologias deixa de ser um assunto periférico e já é um elemento fundamental da nossa cultura. Vivemos inseridos na era da cultura digital. Ao escrever sobre isso, imediatamente, pensamos em um momento de transformações, tecnologias, inovações. E as religiões afro-brasileiras parecem não se adequar, de início, a este contexto. Alguns leitores poderiam nos questionar essa aparente não adaptação.
Ao falar em religiões afro-brasileiras, o povo do santo e os estudiosos da academia gostam de evocar a palavra tradição. Tradição como raiz, como origem, como princípio. Gostam de procurar os purismos, em uma busca pela “verdade”. Nós, por outro lado, pensamos a tradição de uma forma diferente, embora respeitemos a visão acima mencionada.
Tradição para nós significa valores espirituais que são passados, transmitidos e compartilhados cultural e religiosamente em um determinado espaço/tempo. Tradição, embora seja este complexo espiritual intangível (pois que não é deste plano apenas), só se faz e se vive de forma contextualizada, em um dado “local”, em um dado “momento”. Tradição é, portanto, a realidade espiritual manifesta. Mas o que gostaríamos de deixar registrado é que esta tradição não é fixa, imutável. Ao contrário, a tradição aqui em nosso “plano” está em transformação, ou como costumávamos dizer: “a constante da Tradição é a contínua mudança”.
Por isso, as religiões afro-brasileiras, suas crenças, valores e práticas não estão descontextualizadas da cultura digital. Ao contrário, as pessoas que vivem as religiões afro-brasileiras estão inseridas em uma dinâmica maior que é a vida em sociedade e, portanto, partilham também de outros processos. Conhecem e vivem, portanto, o atual momento sócio-cultural.
Se ainda é nebuloso como a cultura digital influencia o mundo religioso afro-brasileiro, o mesmo não ocorre para a academia, especialmente para a educação. Cada vez mais novas tecnologias são desenvolvidas para suprir distâncias, realizar mediações e interações. Foi com base nesse pressuposto que a FTU lançou seu projeto de extensão universitária na modalidade a distância, na certeza de que os meios digitais servem de suporte para aproximar pessoas e projetos. Ainda este ano, novos cursos serão acrescentados na plataforma e estarão acessíveis para todos aqueles que desejam conhecer, estudar e dialogar sobre as religiões afro-brasileiras. Estamos cumprindo a missão de oferecer à comunidade em geral, e não apenas à acadêmica, ensino de qualidade. Ofertar cursos de extensão universitária a distância é, enfim, adaptar-se às novas linguagens de interação e, portanto, demonstram a idoneidade, responsabilidade e compromisso de nossa instituição da FTU com a cultura brasileira.
Para maiores informações sobre os cursos a distância, sugerimos acessar http://ftu.eadbox.com/. Ou ainda, entrar em contato pelo email extensaoead@ftu.edu.br

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Publicação 390

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Iniciação e cursos a distância: delimitações fundamentais

Algumas pessoas nos perguntaram sobre a intenção da FTU em ofertar cursos a distância. Parte desse questionamento deve-se ao fato de uma crítica anterior baseada no descrédito da educação mediada pelas novas tecnologias. Esta modalidade de ensino surgiu há muito tempo, mas só agora, com o uso excessivo (e quase obrigatório) dos computadores e da rede em nossas vidas, ela parece ganhar destaque.
Muitos dos colegas que nos questionaram sobre o uso dessa modalidade alegam que nas religiões afro-brasileiras o conhecimento só pode ser transmitido via oralidade e presencialmente. No entanto, sentimos necessidade de diferenciar dois pontos: conhecimento religioso da iniciação de cada casa de santo e conhecimento acadêmico sobre a cultura religiosa afro-brasileira.  O primeiro, de fato, só deve ser transmitido, vivenciado e compartilhado no interior de cada comunidade religiosa sob os auspícios e bênçãos de cada mãe e pai de santo. A metodologia da iniciação afro-brasileira sempre foi pautada na oralidade, embora esta não sendo mais a oralidade primária (em que as pessoas não sabiam ler e escrever). Claro, muitos dos adeptos podem ter suas dificuldades em letramento, mas o que queremos enfatizar é que a iniciação se faz única e exclusivamente entre o ouvido do pai e mãe de santo e o de seus filhos(as), tendo os rituais como alicerces concretos da tradição religiosa. Já o conhecimento acadêmico pode e deve ser compartilhado por vários suportes. Aliás, este é um dos pressupostos da missão acadêmica: a divulgação das pesquisas e teorias.
O que pretendemos expor é que, de forma alguma, os cursos graduação, extensão universitária EaD e pós-graduação ofertados pela FTU expõem fundamentos religiosos das casas de santo, ao contrário, procuram de várias maneiras justificar que estes só podem ser transmitidos no círculo social das famílias-de-santo. Os cursos oferecidos possuem a intenção de apresentar conteúdos teológicos, antropológicos e sociológicos da trajetória afro-brasileira, contextualizando-os ao processo histórico de ampliação da liberdade religiosa no Brasil.
Em suma, estamos cumprindo com o compromisso assumido perante ao Ministério da Educação: oferecer ensino, pesquisa e extensão com qualidade. Essa proposta apenas reforça o que sempre almejamos para o povo de santo do ponto de vista religioso e, agora também, em âmbito acadêmico: a valorização da cultura religiosa e o reavivamento do senso de pertença de cada adepto.
Vivemos em um momento de muita discussão política no cenário nacional. Não podemos nos esquecer que a educação e cultura não vivem apartadas disso, ao contrário, estão completamente misturadas de forma que pensar em educação e religião é, também, pensar em inclusão em vários níveis.
Nossos cursos tem este objetivo último, afinal, conhecimento é mais que uma ferramenta importante de poder, é uma ferramenta de inclusão.
Axé!

Para maiores detalhes sobre os cursos de extensão na modalidade EaD, acessem http://ftu.eadbox.com/ ou pelo email extensaoead@ftu.edu.br
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Publicação 389

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

FTU abre cursos de extensão na modalidade Ead


Além da graduação em Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras, curso já reconhecido e recredenciado pelo Ministério da Educação, a FTU disponibiliza, a partir de hoje, cursos de extensão universitária na modalidade a distância. O projeto faz parte de uma das missões da Faculdade que é o acesso ao conhecimento, o que promove a inclusão social. Toda instituição de ensino superior necessita, além de sua proposta pedagógica específica de bacharelados e pós-graduações, implementar e viabilizar projetos que beneficiem a comunidade em geral.

Foi pensando nisso e valorando a importância das novas tecnologias na educação que a FTU lançou seu projeto de Educação a distância. Além dos que já estão concluídos, há vários cursos sendo preparados e, em um pequeno espaço de tempo, a gama de possibilidades será, ainda, maior.

Agora, a comunidade de santo e os(as) colegas pesquisadores(as) do país e do exterior poderão acompanhar parte das discussões realizadas pela FTU, com a vantagem de não precisarem se deslocar fisicamente e de terem liberdade para realizar as aulas no momento mais adequado de acordo com sua rotina.

O primeiro curso disponível é “O poder das ervas medicinais e rituais nas Religiões Afro-brasileiras”, cujos conteúdos abordam temas como: a introdução à botânica, a importância das ervas para a saúde física e espiritual, tópicos de fitoterapia e, especialmente, sua função mágico-ritual nas várias casas de santo espalhadas pelo Brasil e suas relações com os Orixás, Inkices, Voduns e Ancestrais (caboclos, exus, pretos-velhos, Mestres e Encantados).  O curso é ministrado por docentes da FTU e, também, por colaboradores de outras instituições, como a USP. A carga horária é de 16h e será expedido certificado de participação pela instituição.

As instituições de ensino superior gozam de autonomia para planejar, desenvolver e aplicar cursos de extensão. Isso significa refletir sobre carga horária, público-alvo, conteúdos e atividades. Podemos assegurar que os cursos ofertados possuem uma linguagem que atende ao universo religioso e ao universo acadêmico, afinal, este é um dos motes da FTU, a aproximação entre ambos. A Teologia é justamente uma disciplina privilegiada por sua posição singular de transitar entre dois saberes, historicamente, vistos como apartados.

Reforçamos que, além do bacharelado e dos cursos de extensão (presenciais e a distância), a FTU oferta, também, uma pós-graduação lato sensu (especialização) em Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras. Alguns dos módulos deste curso são: Escolas Afro-brasileiras (Umbanda, Candomblé, Tambor de Mina, Jurema, Xangôs, Batuques, entre outras), Gênero e Religião, Música nas Religiões afro-brasileiras, Semiótica religiosa, Teologia, Meio ambiente e Espiritualidade e Cultura Afro-brasileira. O curso possibilita uma visão ampla do campo religioso afro-brasileiro com discussões acadêmicas recentes sobre o mesmo.

Ficamos bastante honrados em termos escolhido o caminho da educação para incentivar a valorização da cultura religiosa afro-brasileira e do sentimento de pertencimento dos próprios adeptos, além de implementar um novo campo de estudo teológico, até então inexistente no Brasil e no mundo. Esperamos que os nossos cursos possam, de alguma maneira, favorecer o respeito à diversidade e à alteridade religiosa.

Axé!

Importante: os cursos de extensão a distância podem ser realizados por adeptos das religiões afro-brasileiras, simpatizantes, pesquisadores e leigos. Para maiores informações, acessem http://ftu.eadbox.com ou entrem em contato pelo e-mail extensaoead@ftu.edu.br
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Publicação 388

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Nossas filhas-de-santo e professoras da FTU publicam capítulo em livro de organizações da Editora Paulinas: Religião e Educação: múltiplos olhares sobre o Ensino Religioso

No último dia 22 de agosto, duas de nossas filhas de santo foram convidadas a participar do lançamento de livros da Editora Paulinas, em São Paulo. Tratava-se de um seminário acadêmico que discutia a importância das pesquisas sobre o ensino religioso nas escolas. Não por acaso, um dos livros lançados foi Religião e Educação: múltiplos olhares sobre o Ensino Religioso, organizado pelos professores Dr. Afonso Ligório Soares e Msc. Selenir Kronbauer.
Nossas filhas de santo (Érica Jorge/Yacyrê e Maria Elise Rivas/Yamaracyê) foram convidadas a escrever um capítulo neste livro sobre a visão que as religiões afro-brasileiras possuem e disseminam em suas práticas sobre a educação das crianças e o ensino religioso. Em realidade, esta não foi a primeira vez que elas (e outros filhos-de-santo) foram convidados a participar de um livro de organizações. Mas, desta vez a participação ganhou um destaque especial uma vez que o texto é um dentre vários outros que tratam sobre diferentes confessionalidades e o ensino religioso. Ou seja, não é um livro específico sobre religiões afro-brasileiras, ao contrário, como o próprio título sugere, vários olhares são contemplados.
O convite foi muito honroso pois chegou não apenas pela amizade firmada entre nossas filhas-de-santo e os organizadores mas, principalmente, pela força (e repercussão) do trabalho da Faculdade de Teologia Umbandista. Há mais de dois anos nossas filhas vem realizando pesquisas em vários encontros acadêmicos e, embora a academia exija a assinatura dos artigos (autor, co-autor), o que tem sobressaído é a imagem da FTU que elas tão bem divulgam, não por marketing, mas por crença na seriedade da proposta para a comunidade de santo e para os estudos acadêmicos sobre a temática (teologia, antropologia, sociologia, ciência da religião).
O capítulo foi, afetuosamente, intitulado Plantando raiz para colher flor: educação e aprendizado nas religiões afro-brasileiras. O nome foi inspirado no ponto cantado nos terreiros, afinal, é do interior das várias casas de santo que sai o corpo doutrinário fundamental e norteador para a educação religiosa. Diferentemente de outras religiões que possuem um instrumental já consagrado em livros, apostilas para o ensino das crianças, bem como um dia especial e separado dos rituais para o “aprendizado”, nas religiões afro-brasileiras esta pedagogia é muito mais vivenciada que “ensinada” formalmente. Enquanto são entoados orins, orikis, pontos cantados, que médiuns dançam, incorporam, entram em transe, fazem suas festas rituais, seus oros, as crianças vão assimilando este corpus cultural-religioso. A educação religiosa se faz durante a prática ritual, nos rituais, no encontro com os sacerdotes, com a família-de-santo, com as entidades, enfim, planta-se a raiz no terreiro para que as crianças possam dar frutos e flores para além dele.
Ficamos muito felizes com a publicação da obra. O texto fala das religiões afro-brasileiras de uma forma geral, não prevalecendo esta ou aquela forma de ritualizar e educar. É uma alegria quando o Mestre/Pai-de-santo vê em seus filhos-de-santo o seu trabalho de iniciação. Um capítulo como esse veiculado em uma editora católica de grande visibilidade e penetração editorial, ao lado de outros tantos bons trabalhos só nos faz ter a convicção que nosso trabalho é efetivo, que dá frutos e flores seguras para a comunidade de santo, acadêmica e sociedade civil como um todo. Já é difícil ter uma conduta singular e séria no terreiro (afinal, a iniciação lida com verdades de cada um), imagina uma conduta e trabalhos reconhecidos em outros meios. Isso só é motivo de felicidade e certeza do nosso trabalho espiritual e da FTU. Axé!


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Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 387