segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Teologia Afro-brasileira: legitimidade e legalidade para o povo de santo já!

Na publicação de hoje, em nome da dignidade das Religiões Afro-brasileiras, gostaríamos de retomar a questão da teologia e suas implicações para o povo de santo em geral.
Em várias oportunidades já comentamos sobre isso, mas vale a pena posicionarmos o que é e qual o papel da Teologia. Podemos compará-la analogamente ao corpo humano. Em um braço a religião. No outro a ciência. A Teologia, por possuir estas características, pode aproximar ambas respeitando os seus saberes e fazeres. Ou seja, possui o conhecimento religioso (senso crítico) e por outro lado possui também as crenças religiosas (confessional).
Para realizar tão importante processo, lança mão de um mecanismo duplo e complementar: “decodificação e tradução”. Decodificar um conteúdo é compreender o que ele expressa. Traduzir é articular duas realidades distintas sem promover substituição, ou seja, imposição de um lado sobre o outro. Sendo assim, ela pode interfacear ambas de forma harmonizada.
No caso das religiões afro-brasileiras, apenas em 2003 conseguimos alcançar este status teológico. Teologia, desde 1999, é algo regulamentado pelo MEC (Ministério da Educação), portanto afeito ao ambiente universitário. E foi no início do século que, após fundarmos a FTU, conseguimos que seu curso teológico com ênfase nas religiões afro-brasileiras fosse reconhecido pelo poder público. Hoje podemos afirmar com grande satisfação que o povo de santo possui legalidade e legitimidade na sociedade por meio da educação. Mais do que isso, estamos em condições isonômicas quando consideramos todas as tradicionais religiões do Brasil que possuem cursos acadêmicos nos mesmos moldes legais.
Diante dos cursos livres, totalmente irregulares perante ao MEC, promovidos por instituições e associações sem o menor vínculo com a única instituição legalizada para formar teólogos com ênfase nas religiões afro-brasileiras, a FTU, perguntamos. Por que manter as religiões afro-brasileiras na clandestinidade, na marginalidade com esses cursos livres?
Tais iniciativas são formas de manter o status quo das Religiões Afro-brasileiras. Estado esse que historicamente foi marcado por perseguições, prisões, racismo e preconceitos de todas as matizes. Não há justificativa para, atualmente, manter cursos teológicos afro-brasileiras sem regulamentação do MEC. Aliás, existe apenas uma. O poder econômico. Fazer uso de cursos extremamente voltados para o ganho de um pequeno grupo em detrimento de toda a comunidade afro-brasileira que fica sendo empurrada para a marginalidade, para a criminalidade na justa medida em que esses cursos expressam atividades irregulares no nosso país e seus organizadores afirmam-se como religiosos afro-brasileiros.

Foucault descreveu com clareza as tentativas desenfreadas do homem para conquistar o poder. Norberto Bobbio afirma da segregação do poder entre fortes e fracos, ricos e pobres, sábios e ignorantes. Tentativas como as destes cursos livres são iniciativas para segregar o povo de santo, privilegiando uns excluindo outros, mas – ao final – todos sendo prejudicados. E novamente o poder em jogo... Fiquemos atentos aos desdobramentos destas questões. Na próxima publicação continuaremos com as reflexões. Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 414

Um comentário:

  1. Axé. Permitam-me sugerir este texto como leitura complementar: http://culturayoruba.wordpress.com/olodumare-deus-na-crenca-ioruba-e-o-problema-teista-do-mal/

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