quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Encantaria de Mestre Canindé: Terapia da Brasilidade

No último dia 30 de novembro, realizamos no Ilê Funfun Awooshogun, toque de Jurema, Encantaria do Mestre Canindé. Gostaríamos de aproveitar o ensejo para passar a “pena” à nossa filha de santo Yacyrê sobre sua experiência ritual. Axé!

“Considero complexa a missão de, em poucas linhas, expressar meus sentimentos com relação ao Toque de Jurema de Mestre Canindé, realizado no Ile Funfun Awooshogun, Casa da Cura e do Destino, em Itanhaém, SP.
Infelizmente, não pude participar do preparo do ritual ao longo da semana passada. Sei que muitos dos fundamentos e awos são vivenciados na construção do ritual, dos elementos, assentamentos. Trazer a “Jurema” não é algo trivial, simplório. Não basta beber jurema e entoar uma ou duas louvarias. Vivenciar a Jurema, cujas raízes remontam ao nordeste brasileiro, exige que o sacerdote esteja aberto a este universo, adentre nas correntes espirituais, no imaginário coletivo, na memória ancestral e, inclusive, na própria história da constituição do que é ser brasileiro.
Uma das coisas que mais impressionou Bruno Latour (filósofo da ciência) ao vivenciar rituais de candomblé foi o fato de que seus adeptos constroem, fisicamente, suas divindades. Não falo aqui do candomblé, mas fazendo aproximações, todas as construções de rituais afro-brasileiras, sejam elas quais forem, permitem que o homem, imbuído de sua materialidade, de sua concretude, de sua organicidade construa cenários, assentamentos e espaços que são, por excelência sagrados. Os rituais religiosos são, por natureza, atividades de cosmização do mundo, em que há um processo de ordenamento de fatos, situações, conceitos para que a realidade seja significada, seja compreensível e palatável. Em outras palavras quero dizer que quando os rituais são construídos, há a oportunidade de que seus adeptos entrem em contato com suas crenças e convicções e façam com que elas deem significados à realidade. Assim, gostaria de dizer que, ainda que eu não tenha participado da construção do ritual, antes mesmo dele ocorrer, o que vivi naquela noite foi especial e deu sentido à minha existência.
Penso que a sensação que mais me marcou foi o fato de eu ter sentido uma profunda identidade com o ´ser brasileiro´. Claro que, ao afirmar isso, posso imediatamente, ser criticada por quem considera a brasilidade uma farsa. No entanto, o que vivi foi a valorização de contribuições espirituais de “linhas” diversas e que se expressam, para maior facilidade de compreensão, em caracteres regionais. Ao viver o toque da Jurema, não me sentia deslocada daquela realidade, ao contrário, tudo o que ali foi colocado, as palavras dos Mestres, as louvarias, as danças, as vestimentas eram uma parte de mim que se revelava. Este é outro ponto fundamental, os rituais afro-brasileiros favorecem que seus adeptos teçam laços entre a comunidade de santo e entre as várias comunidades espirituais. Naquele dia tive certeza que havia uma aliança firmada entre mim, meus irmãos de santo e as “raízes” da Jurema, entendendo estas como correntes espirituais.
Outro elemento essencial a ser colocado é a utilização de elementos da natureza pelos Mestres, especialmente Mestre Canindé. Naquela noite nenhum Mestre ou encantado acostou em mim e, por isso mesmo, estive atenta a diversas situações. Em uma delas, eu refletia sobre a doença, cura e terapias e, justamente, naquele momento, Mestre Canindé colocou ao seu lado um vaso de louça com água, jurubeba, erva de bicho e alecrim. Além disso, colocou uma cuia com Jurema. Disse ele que ali estavam as curas visíveis e invisíveis para todos que lá se encontravam. Imediatamente pensei em como essas entidades conseguem, com simplicidade, demonstrar um complexo processo do que representa a cura para as religiões afro-brasileiras. Elementos simples e, por isso mesmo, cheios de vida, sem tantas “manipulações”, ricos em axé. Pensei que estamos tão longe da natureza, tão desencantados, envoltos no mundo moderno, urbanizado e capitalista que pouco sabemos e apreendemos da sabedoria da natureza. Aos olhos do mundo civilizado, uma cuia com jurema e um pezinho de alecrim são adornos ou, no máximo, “coisas de benzedor velho”. Com tanta “ciência”, tanta “medicina”, nossos olhos são treinados para não ver a natureza, para não relevá-la. O fato é que a ciência da jurema se faz tão ou mais eficaz com as fumaças das marcas (cachimbos) ritmadas pela Marca Mestra (maracá). E, como escrevi anteriormente, esta ciência não é só da raiz da jurema, é um complexo mágico-terapêutico da espiritualidade que se concretiza em uma singular terapia de brasilidade.
Talvez isso resuma o que senti no ritual: a terapia da brasilidade”.
Axé,
Yacyrê
Em nome de toda a comunidade de santo de Pai Rivas.








Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 414



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