segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A posição da FTU sobre cursos livres e cursos de habilitação para pais e mães-de-santo.



No último texto problematizamos a questão dos cursos de habilitação para pais e mães-de-santo, os quais pretendem substituir a Iniciação. A discussão já foi densamente apresentada. Na publicação de hoje, gostaríamos de pontuar algumas questões que envolvem a Teologia e suas relações com o universo religioso afro-brasileiro.
Antes de mais nada, é importante mencionar que até o ano de 1999 havia um consenso de que os cursos livres de teologia tinham validade no cenário educacional. No entanto, neste mesmo ano, quando a Teologia foi elevada ao status de disciplina acadêmica, ela passou a seguir os mesmos parâmetros das demais disciplinas, seguindo todas as normas estabelecidas pelo Ministério da Educação, órgão responsável pela organização e regulamentação dos cursos de bacharelado, extensão e pós-graduação em nível lato e strictu sensu. Tentaremos clarear o comentário. Até 1999 os cursos livres de teologia eram cursados sem restrições de órgãos governamentais. A partir deste ano, os únicos cursos de Teologia validados são os realizados por faculdades e universidades autorizadas, credenciadas e reconhecidas pelo MEC. Assim, para se ter um título de bacharelado em teologia, extensão, especialização, mestrado e doutorado, as instituições devem passar, obrigatoriamente, pelos 3 processos acima citados do MEC. Todas as demais instituições não regulamentadas pelo MEC e que pululam no mercado vendendo cursos de teologia, até podem existir, mas jamais expedindo diplomas de teólogo e/ou especialistas em teologia, mestres ou doutores na área. Se assim fizerem, correm o risco, tanto os ofertantes como os cursistas, de serem presos! Afinal, ir contra uma regulamentação governamental é criar uma estrutura normativa que foge aos parâmetros de qualidade educacional estabelecidos pelo MEC. Para isso que o MEC existe! Para aferir a qualidade dos cursos que estão sendo oferecidos nas mais diversas modalidades. É uma ação que visa à propagação de uma educação de qualidade.
Os cursos livres, portanto, não profissionalizam ninguém. Qualquer um pode criar um curso livre informativo sobre determinada questão, mas não pode, de forma alguma, expedir diplomas de bacharelado e afins. Questionamos, então, especificamente no cenário afro-brasileiro, porque os cursos livres de Teologia afro-brasileira foram mantidos? Quem é que ganha com a proliferação dos mesmos? E quem é que faz a aferência deles? Como saber se os conteúdos ministrados seguem, minimamente, a ética e realidade deste campo religioso? Ou ainda, que não são discursos de captação de fiéis, ou pior, de dinheiro?
Nesse ponto, gostaríamos de colocar que a única Teologia com ênfase nas religiões afro-brasileiras reconhecida pelo MEC, ofertada pela FTU, não se opõe ao sacerdócio. Isso seria um contrassenso até pela própria definição do que é Teologia, uma disciplina que estabelece o intercâmbio entre o saber crítico acadêmico e o saber religioso (a “fé). A FTU recebe vários pais e mães de santo anualmente que cursam o bacharelado. Porém, não está no foco da instituição a formação sacerdotal. Esta é realizada, única e exclusivamente, nas casas de santo afro-brasileiras. O discurso da teologia, propagado pela FTU, não se baseia na hegemonia e homogenia (conceitos discutidos no texto anterior), até porque o MEC jamais daria o aval de funcionamento se assim fosse. Muito ao contrário, a FTU pauta seu discurso-prática na aproximação entre o saber acadêmico e o saber religioso, concretizando esta relação no olhar interdisciplinar nos quatro anos de faculdade. A FTU não é e nunca foi um curso livre de teologia. Ela foi reconhecida com excelência pelo MEC (bacharelado, extensão e pós-graduação) pela sua proposta em favor da diversidade afro-brasileiras, haja vista a composição dos seus componentes curriculares.
Esperamos ter deixado clara a posição política da FTU em favor da diversidade, a partir de uma discussão crítica do campo religioso afro-brasileiro Não nos interessa vender cursos de formação sacerdotal, porque isso se faz nos terreiros, ou seja, não estamos preocupados com o “mercado”, com os fiéis, com a arrecadação de dinheiro.
Mas, se a formação sacerdotal se dá no terreiro, porque cursar Teologia? Em primeiro lugar, fundamos a faculdade a fim de que essa ação somasse esforços no resgate da identidade afro-brasileira e na possibilidade de dar voz a grupos (religiosos, sociais, culturais) que sempre estiveram à margem da história. A FTU possibilita que esses agentes tornem-se, também, protagonistas. Ser teólogo com ênfase nas religiões afro-brasileiras é, portanto, mais que uma atividade educacional, é uma atividade política. O curso visava, inicialmente, uma chance desses grupos de profissionalizarem-se e ingressarem no mercado. No entanto, mais que atuarem em ONGs, em institutos educacionais, em formação continuada, em pesquisas, a FTU propicia o desenvolvimento de um olhar em favor da diversidade, da alteridade e do resgate de identidade e pertença afro-brasileira. Reiteramos, não nos interessa o mercado. Para isso já há muitas agências mercantis do santo, que veem os fiéis como dinheiro e ridicularizam a Iniciação afro-brasileira e seus sacerdotes. A nós interessa uma visão integrada entre ciência e religião, entre academia e terreiro. Hoje, são os “insiders” escrevendo sua própria história. E isso, definitivamente, não se compra, se constrói!
Axé!

 Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 413



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