segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Exu e a Diversidade

Muitos foram os desdobramentos do IV Congresso Internacional de Sacerdotes e Sacerdotisas e do XXIII Rito de Exu, ambos no último mês de outubro nas dependências da Faculdade de Teologia Umbandista (FTU). Indubitavelmente ambas as atividades reforçam nossa postura a favor da diversidade nas Religiões Afro-brasileiras, portanto contrária a qualquer forma de codificação do nosso movimento religioso. Somos avessos à homogeneização e hegemonização de quaisquer tipos, a começar pelo espiritual.

Sendo assim, gostaríamos de  passar a “pena” ao nosso filho espiritual Antônio Luz (Aratish) que usou do senso crítico (acadêmico) para discutir a diversidade usando como símbolo central Exu.  Reflexões naturais pós-rito. Axé!

Exu e a diversidade

Quem teve a oportunidade de vivenciar este último rito de Exu ou acessou os excertos deste ou dos ritos anteriores, constatará facilmente a diversidade do campo religioso afro-brasileiro. Neles se apresentam diferentes concepções e representações do Sagrado, em variados enredos simbólicos tecidos por estas religiões que se ressignificaram ou surgiram aqui no Brasil. Uma diversidade que foi transbordando dos terreiros para os diferentes planos da cultura brasileira, produzindo sua riqueza, porém sem perder sua unidade, fazendo o Brasil ser Brasil.

Neste campo das diversidades há, no entanto, adversidades (desculpem-me o trocadilho). Uma delas se refere exatamente às relações interculturais e inter-religiosas de diálogo, usualmente chamado, de sincretismo ou de hibridismos, que regulam as traduções entre estes universos religiosos e culturais, que formaram e ainda formam nosso campo religioso. Faço referência aqui, especificamente, ao sincretismo de Exu com o demônio. Tal representação - o mal substantivado, personificado - não pertencia às construções teológicas dos povos africanos aqui desembarcados, e só pode ser debitado às influências cristãs impostas desde a colonização.

Assim, muito dos dissabores produzidos por este sincretismo no plano das representações sociais, na verdade, tem a ver com a aproximação de egressos do cristianismo com as Religiões Afro-Brasileiras, mas que não abandonaram a visão maniqueísta cristã. Isto teria ocorrido não apenas porque a Igreja via nele (Exu) um concorrente à interlocução entre humanidade e as divindades - contrariando o dogma católico auto promulgado de ser a “única porta” - mas também porque Exu questiona o “status quo” social, as convenções e as desigualdades. A questão originalmente teria sido de caráter hegemônico, de uma ordem social e religiosa elitistas, sobre o nosso campo religioso. Esta hegemonia só poderia ser feita pela homogenia, a aniquilação da diversidade, a completa cristianização da sociedade brasileira e, quiçá, do mundo. O problema maior é que estes egressos importaram para dentro do nosso campo religioso tal equivalência (basta olhar as representações de Exu nas casas de materiais religiosos) ou ocultada nos discursos de combate à “magia negra” e aos “macumbeiros”.

Assim, ideologias que encobrem ou negam a alteridade - daquele que é diverso - ou que negam o “outro” (hegemonia/homogenia), têm sido usadas para justificar pretensões de codificação (acadêmicas, inclusive) e de purismos religiosos que surgem, vez por outra, sob a alegação de unificar e uniformizar para melhor entender, quando não, combater o preconceito e as perseguições religiosas. O povo-de-santo precisa estar atento a estas tentativas de “padronização”, que muitas vezes são produzidos por ideologias contrárias à diversidade, importadas de outras crenças.

Por fim, seria necessário lembrar que Exu é patrono da diversidade, não das desigualdades. Sobre este tema da diversidade deixo para a reflexão do leitor uma frase que ouvimos do Exu Sr... : “as pessoas gostam de Exu, porque Exu é ele mesmo”.

Aratish




Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 409

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