quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Diversidade afro-brasileira em pauta: na academia e no terreiro!


Nas últimas publicações apresentamos aos colegas do blog algumas realizações. Primeiramente, falamos sobre o Simpósio Internacional Associação Brasileira de História das Religiões – ABHR, cujo evento, sediado na Universidade de São Paulo (USP), contou com a participação da Faculdade de Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras (FTU) como coordenadora de um Grupo de Trabalho intitulado Escolas das Religiões Afro-brasileiras e diálogos. No último domingo, apresentamos excertos do Congresso Internacional de Sacerdotes e Sacerdotisas das Religiões Afro-brasileiras que é um evento que concretiza, presencialmente, as discussões alimentadas no Fórum Internacional Permanente de Sacerdotes e Sacerdotisas (http://religiaoediversidade.blogspot.com.br/) em prol da diversidade religiosa. Além do congresso, foram apresentados no vídeo trechos do ritual de Exu em que várias comunidades de santo vivenciaram o mito de Odé e de Exu e celebraram a vida e o axé!
Compartilhamos esses eventos como forma de disseminar algumas das ações formuladas pela nossa casa de santo e pela FTU. Os colegas devem notar que as últimas realizações postadas foram, respectivamente, acadêmica e religiosa. Infelizmente, nossa sociedade ainda não está devidamente acostumada com uma abordagem interdisciplinar e esses campos acabam ficando bem definidos, quando não incentivados ao “apartheid disciplinar”. No entanto, o que pretendemos mostrar é que é possível que exista diálogo entre saber acadêmico e saber religioso. Tanto isso é real que a própria FTU só foi pensada, concretizada e, posteriormente, avaliada, credenciada e reconhecida pelo Ministério da Educação, a partir de nossa vivência múltipla de terreiro.
Como sempre falamos, felizmente, tivemos a oportunidade de entrar em contato com várias tradições espirituais e todas elas nos fizeram compreender a relevância de reprensar o campo religioso afro-brasileiro, na tentativa de contribuir para que o mesmo seja mais fortalecido, reconhecido e visibilizado socialmente. Importante frisar que isso não significa tornar o campo homogêneo e hegemônico. Ao contrário, nossa contribuição vai justamente ao oposto dessa ação. Pensamos, religiosa e academicamente, que devemos valorar a diversidade das religiões afro-brasileiras, recuperar seu senso de identidade e pertencimento.
Ao falarmos isso, muitos podem nos questionar, mas como é que um campo como esse pode ter identidade? Nossa resposta é simples, porém complexa. Pensamos a identidade não como uma categoria enrijecida. Pensamos identidade como a capacidade de um ou mais grupos de, ao interagirem socialmente, estabelecerem hábitos culturais que os façam sentir próximos possibilitando, assim, seu reconhecimento. Daí a palavra pertença ou pertencimento. Ao me identificar com um sistema cultural, simbólico, no caso, o universo afro-brasileiro, seus adeptos sentem-se como iguais, mesmo que pratiquem práticas rituais diversas. Pensamos, portanto, a identidade não como fórmulas e padrões pré-determinados. Um exemplo é o da língua, fator determinante para a criação de uma identidade. Nos terreiros afro-brasileiros, há uma linguagem própria, peculiar ao nosso universo. Não é, porém, uma linguagem que se faça pela contribuição de apenas um grupo linguístico, ao contrário, as expressões do ritual de angola, do candomblé ketu e mesmo os pontos cantados da umbanda, jurema, batuques, guardam contribuições de várias “fontes” linguísticas. Nossa identidade é, portanto, plural.
É com esse olhar voltado para a pluralidade que pensamos o campo afro-brasileiro, seja em âmbito acadêmico ou religioso. Sabemos que nosso olhar encontra eco na maioria das casas de santo do Brasil ou, pelo menos, naquelas em que se deseja manter a integridade da formação da religiosidade afro-brasileira: diversa por natureza, ressignificada pela construção social constantemente.

Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 408

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