quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Curso de habilitação para pais/mães de santo não é Iniciação!


Hoje nossa publicação visa retomar, de forma esquemática, o que temos discutidos nos textos anteriores. Muitas pessoas nos solicitaram que esclarecêssemos alguns pontos. Nesse sentido, pensamos em exposar nossos argumentos item a item para que eles ficassem mais claros.
1.       SINCRETISMO E HIBRIDISMO

As religiões afro-brasileiras passaram pelos dois processos, sincretismo e hibridismo. O sincretismo religioso pode ser entendido como a fusão de doutrinas, crenças e práticas de diversas religiões. O hibridismo cultural, por sua vez, geralmente acontece pelo choque ou contato entre culturas, as quais misturam-se, resultando em aspectos positivos e negativos.
Utilizamos esse conceitos em nossos textos a fim de demonstrar como tais processos acabaram por sincretizar o demônio católico e Exu, de modo a deturpar o segundo e privilegiar a função de “comunicador” apenas para a religiosidade cristã. Além disso, coube a nós problematizar o porquê alguns setores das religiões afro-brasileiras se interessam por manter a demonização do exu alertando para o fato de que tais grupos estão engajados nas políticas de hegemonia e homogenia, as quais falaremos à frente.

2.      HEGEMONIA E HOMOGENIA

O conceito de hegemonia é proveniente da ciência política e indica a supremacia e domínio de poder de um grupo sobre os demais. O conceito de homogenia, por sua vez, geralmente é utilizado na química para indicar uma solução homogênea, ou seja, em que não é possível distinguir seus componentes, mesmo que eles estejam presentes.
Alguns setores afro-brasileiros tem se esforçado para tomar posse do “território afro-brasileiro” a fim de serem os únicos aptos a falar sobre ele. É uma disputa política por fieis e pelo poder de discurso nesse universo. O conceito de hegemonia, de querer estabelecer a supremacia de um grupo sobre os demais, vai ao encontro do processo de homogenia, uma vez que, nessa tentativa de tomar posse do poder, de criar uma faceta una, homogênea, muitas contribuições religiosas, muitas Escolas, são invisibilizadas. O processo é ainda mais perigoso quando há tentativas de uniformização e codificação da prática religiosa afro-brasileira, como se fosse possível apagar a multiplicidade existente nos terreiros.

3.      CURSOS DE FORMAÇÃO SACERDOTAL

Os cursos de formação sacerdotal foram criados e se avolumaram, especialmente, em São Paulo na tentativa de dar cursos para que as pessoas se tornassem sacerdotes e pudessem abrir suas próprias casas. O objetivo claro é a demarcação de uma agência mercantil que lucra muito com a crendice alheia. O resultado desse processo é a desvalorização da Iniciação e dos sacerdotes afro-brasileira. Desvalorização da Iniciação porque ela passa a ser passível de compra e desvalorização sacerdotal porque o conhecimento e sabedoria de pais e mães de santo deixam de ser reconhecidos. As frases contidas nas apostilas dos cursos de formação, geralmente, de caráter imperativo, fazem uma parca tentativa de substituir os anos de convívio com sacerdotes, como se isso fosse possível. Todos que conhecem, minimamente, as religiões afro-brasileiras sabem que Iniciação não é um processo trivial e não poderá, jamais, ser submetida a contornos capitalistas.
O mais curioso dos cursos de formação sacerdotal é que eles não são dados por sacerdotes formados em terreiros! Até porque se fossem, jamais eles dariam cursos porque sacerdote que se preza sabe que Iniciação se faz nas casas de santo, nos terreiros.
Como é possível um curso de formação de sacerdotes ser ofertado por quem não é sacerdote, por quem não conviveu no axé, não cumpriu suas obrigações, não viveu em uma comunidade de santo? Para transmitir algo a alguém é necessário conhecimento, vivência. Uma analogia seria um curso de medicina dado por quem não é médico formado. Como aprender medicina dessa forma? De que maneira essa medicina seria exercida? Que medicina seria essa? É isso o que ocorre com os cursinhos para formar pais e mães de santo. Eles são dados por pessoas que fazem uso de títulos que não possuem. São Iniciações compradas da mesma maneira. E os pais de santo formados vão “atuar” sem os conhecimentos prévios do santo. Então, tais grupos não podem ser jamais considerados uma Escola Afro-brasileira (com epistemologia, método e ética próprios), trata-se de uma pseudotradição, uma tradição montada, fabricada, fictícia. Se há ética, ela é a do capital, do lucro, do poder e das facilidades.
Todo sacerdote sério sabe quantos anos levam uma Iniciação. Acontece que a ética afro-brasileira não aceita supletivo, não aceita cursos em meses. Não há supletivo no santo! Iniciação que se preze não é feita de remendos. É, sim, feita com responsabilidade, seriedade, única e exclusivamente nos terreiros, na prática e vivência constante dos fundamentos do axé.
Se os formadores dos cursos não são sacerdotes, tampouco, as apostilas representam a Iniciação. São falsos pais e mães de santo vendendo uma pseudo Iniciação e, certamente, os formados serão reprodutores dessa prática, afinal, se há quem venda, há quem compre... São os admiradores dos caminhos fáceis...
Na próxima publicação, esperamos dar continuidade a essa discussão já que todos os processos que temos discutidos são fundamentais para se compreender essas práticas políticas existentes no universo endógeno afro-brasileiro, as quais, felizmente, representam parcela mínima do mesmo.


Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 412

2 comentários:

  1. Excelente texto, é de suma importância que esse tema seja esclarecido, debatido e divulgado para que cada vez mais pessoas possam ter conhecimento e separar o joio do trigo. É com muita tristeza que vejo pessoas sendo enganadas e iludidas com esses cursos de sacerdote e, ainda pior, cursos de magias diversas. Meu profundo Saravá!

    ResponderExcluir
  2. Soy alumno de la FTU radicado en Montevideo Uruguay. Mi nombre es Morubixaba Casildo de Caboclo Pena Verde. No dejo de ver con cierto estupor esta publicación. En Uruguay (hasta donde estoy enterado) no tenemos aún ese tipo de problemas. Concuerdo totalmente con todos los aspectos sobre iniciación que vertió el Pae Rivas. Sin embargo, en Uruguay tenemos otros problemas similares en lo que respecta a iniciación y es el hecho de algunos Sacerdotes que "aprontan o preparan" a sus iniciados en 1 o 2 años, mediante pagos suntuosos. Como he leído en algún artículo por ahí: "el capitalismo ha prostituido hasta las propias religiones" y nosotros no somos la excepción, lamentablemente. Un saravá fraterno para ese Instituto..

    ResponderExcluir