quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A proliferação das agências mercantis nas Religiões Afro-brasileiras



No último domingo entregamos a pena a nosso filho de santo Aratish, o qual discorreu, magistralmente, sobre a ação intencional proveniente do cristianismo em demonizar o Exu das religiões Afro-brasileiras a fim de ser a única responsável e capaz em fazer a comunicação entre dois mundos, dois sistemas cambiáveis, o transcendente e o imanente.
Na publicação de hoje gostaríamos de continuar a discorrer sobre algumas facetas da figura de exu e sua importância para o campo religioso brasileiro, tendo em vista a já pluralidade de visões e práticas mencionada no texto anterior. Nosso filho Aratish pontuou as ações da Igreja quando esta sentiu-se desafiada e ameaçada em perder fieis quando da maior visibilidade de inúmeras práticas religiosas afro-brasileiras, até então não nominadas como conhecemos hoje, mas perfeitamente vivenciadas. A associação da então divindade Exu com o demônio, com tudo que fosse negativo, ruim, desordeiro vem somar com outros pontos que gostaríamos de colocar. Isso continua acontecendo atualmente, porém, com o discurso e práticas neopentecostais cujos agentes incorporam a ideia de “guerra santa” ou “batalha do bem contra o mal”.
Partimos do mesmo dualismo antevisto por Aratish, a saber, o bem x o mal. Este dualismo, porém, comporta muitos outros conceitos opostos como a beleza e a feiura, a limpeza e a impureza, a higiene e a sujeira, saúde x doença, a ordem e a desordem. A Igreja Católica operacionalizou em suas práticas esses conceitos de forma com que os exus fossem associados aos segundos: ao que é feio, impuro, sujo, doente (maculado) e desordeiro. Seguimos parte do pensamento da antropóloga Mary Douglas, a qual articulou essas dicotomias demonstrando como o pensamento moderno ocidental foi desenvolvido nesses termos e formou uma cultura de preconceitos e desigualdades de vários matizes. O cristianismo soube fazer uso dessa construção que, mais que privilegiar apenas algumas formas de interpretação da realidade, soube deturpar tantas outras a fim de excluí-las. Como dissemos sempre, a hegemonia e homogenia.
O fato é que hoje, os assuntos ligados a pluralidade, multiculturalismo, diversidade étnica, religiosa, sexual, estão cada vez mais em pauta. Claro que ainda há muito a fazer, muita coisa ainda está apenas na teoria, nos papeis, nas leis. Mas, aos poucos sentimos um avanço para um olhar a favor da diversidade.
Muito nos estranha, porém, algumas ações que vinculam crime ao nosso movimento religioso. Pessoas que fazem uso de incorporações “montadas”, fictícias para obter dinheiro de outrem. Elas utilizam de elementos que estão presentes nos terreiros espalhados pelo país apenas para ludibriar pessoas e enriquecer às custas das mesmas. Interessante que as mesmas pessoas que cometeram tal atrocidade (pois não podemos chamar de outro nome) estão vinculadas a instituições tais como Conselho Mediúnico do Brasil e outras federações no Paraná. Entidades como essas tem promovido cursos de formação sacerdotal (pagos, é claro) e cursos de teologia sem a chancela do Ministério da Educação. São de instituições como essas que vemos cartilhas e apostilas dizendo o que é Exu, quais as entidades que se manifestam nesta ou naquela religião afro-brasileira e como as mesmas devem se portar. São ações que visam atingir um filão do mercado com objetivos essencialmente capitalistas. Colocamos tais ações no mesmo balaio das ações realizadas pelo cristianismo a fim de homogeneizar práticas religiosas na tentativa de atingir a hegemonia de um pensamento religioso.
Essas pessoas que inventam entidades espirituais para roubar outras pessoas e/ou que criam em suas federações modelos únicos a serem seguidos estão em sentido contrários a tudo o que temos vivenciado, seja em um universo menor do campo religioso afro-brasileiro, seja em uma proporção mais ampla, da sociedade mundial. A ideia de diversidade é, hoje, divulgada, teorizada e estamos no caminho de vivenciá-la. Vemos isso repercutir em assuntos vinculados a diversidade étnica, religiosa, sexual... Portanto, é evidente que tais movimentos compõem uma parcela aproveitadora desse filão mercadológico, capitalista. Infelizmente, são esses grupos que continuam a disseminar a ideia do exu em oposição ao bem, reforçam preconceitos dentro do próprio campo religioso afro-brasileiro e criam a cultura das agências mercantis. Os cursos de formação sacerdotal são exemplos disso. As pessoas que optam por fazê-los investem um valor apostando que, posteriormente, poderão abrir suas casas de santo e terem uma renda proveniente dessa ação. São pessoas ou descontentes com suas profissões ou desempregadas e que apostam suas fichas em uma iniciação, literalmente, comprada e fazem desta um negócio. Esses cursos, portanto, são muito mais prejudiciais que podemos imaginar. Além de imporem modelos únicos a serem seguidos (mais uma vez a homogenia e hegemonia), são cursos que criam, disseminam e fortalecem as agências mercantis do santo, onde tudo é fácil e rentável.
Sabemos que há muito mais pessoas íntegras nas religiões afro-brasileiras, pais e mães de santo que vivenciam suas práticas com dignidade e responsabilidade. Esperamos, também, que nossa atuação religiosa, como sacerdote responsável, e acadêmica, com a criação da Faculdade de Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras representem contribuições significativas em prol da valorização da ética no universo afro-brasileiro.
Axé!


Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 410


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