segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A Iniciação se transforma em uma apostila


Nos últimos textos temos discorrido a respeito de algumas situações que aconteceram na formação das religiões afro-brasileiras e outras que acontecem ainda hoje neste universo. A publicação escrita pelo nosso filho de santo Aratish abordou o processo de sincretismo e hibridismo ocorrido quando do encontro do catolicismo e das religiões afro-brasileiras. Como foi discorrido, o cristianismo foi bastante perspicaz ao associar a divindade exu ao demônio, pois foi uma estratégia capaz de deturpar o conceito e tudo que envolvia essa divindade. Essa questão do sincretismo, da hibridização não foi tão espontânea e natural como algumas correntes históricas propagam, ao contrário, havia um processo anterior, seja como plano teórico, doutrinário ou prático que visava a hegemonia das religiões provenientes do cristianismo e, consequentemente, instaurar a homogenia. O cristianismo sendo o único responsável e apto a fazer a comunicação entre os dois mundos estava nos planos da colonização, uma vez que o discurso religioso assegurava formas de domínio e exclusão.
Outra questão que mencionamos, dessa vez, não foi de ordem exógena, mas, sim, endógena e contemporânea, no próprio campo religioso afro-brasileiro. Se houve um processo de hegemonia e homogenia exterior, proveniente de outro segmento religioso, não podemos negar o que ocorre dentro das religiões afro-brasileiras. Falamos dos mesmos processos, porém, de ordem interna. Pensamos ser fundamental questionarmos quem foram os responsáveis pela tentativa de hegemonia e homogenia nas religiões afro-brasileiras a partir da implementação de cursos de formação sacerdotal. Os cursos elaborados com materiais apostilados, com regras, normas de conduta, à moda “isso deve ser feito” “isso não deve ser feito” foram criados em São Paulo, cidade em que a burocratização espiritual da umbanda foi muito mais organizada. Como contraponto, basta observar as religiões afro-brasileiras no Rio de Janeiro, por exemplo, uma cidade em que há difusão dessas práticas e muito menos centralizações. As federações existem nas duas cidades, porém, em São Paulo a disputa pelo mercado de formação sacerdotal é inquestionável. Atualmente, tais cursos não necessitam nem ser presenciais. Basta que o aspirante a pai/mãe de santo faça depósito bancário e “encontre sua iniciação” a partir da interface com a tela de um computador. Após o famigerado diploma, o qual muitos gostam de ostentar nas paredes dos terreiros, os “pais” e “mães” de santo abrem suas casas. O prejuízo espiritual dessa prática é enorme, afinal, lidar com o destino de pessoas não é uma tarefa trivial. Já do ponto de vista material, esses recém sacerdotes passam a lucrar com a crendice alheia, como foi o caso do Paraná explicitado semana passada em rede televisiva.
Questionamos quem teria começado com os cursinhos de pais e mães de santo, mas, em seguida, refletimos que há necessariamente um público fiel para os mesmos. Pessoas que se interessam pelo caminho fácil e que se sentem atraídas pelo status, poder e remuneração que isso pode acarretar. O dom de sacerdote logo se transforma em profissão, afinal, em um mundo capitalista, jamais faltarão pessoas para tornar mercantil o que seria espiritual por excelência. O dom transforma-se em filão para as agências mercantis. A iniciação transforma-se em apostilas. A interação em uma família de santo transforma-se em uma tecla de computador.
Sentimos que existam, externa ou internamente movimentos a favor de codificação, de universalização de práticas e de hegemonia e homogenia. Todos eles pecam pela não valorização da diversidade e pela imposição de falsas verdades. Colocamo-nos próximos em pensamento, ideal e práticas de todas as casas de santo que esforçam-se por valorar todas as práticas iniciáticas firmadas, construídas no interior dos terreiros, pelo contato constante com a sabedoria do sacerdote e aprendizado em uma família de santo. São nessas casas, onde o olhar pela diversidade está aguçado e o axé compartilhado, que encontramos o ideal maior das religiões afro-brasileiras: a vivência da espiritualidade por uma ética própria, de responsabilidade e fortalecimento da pertença religiosa efetiva.

Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 411

Um comentário:

  1. Esse comércio religioso está acabando com a religião,onde curiosos acham que fazendo um curso conseguirão se tornar "pais e mães de santo",como dizem popularmente;repito,comércio religioso...

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