quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Nossa relação com acadêmicos e religiosos: amizade em favor da diversidade!

Observamos recentemente algumas pessoas, filhos(as)-de-santo e mesmo outras que não fazem parte de minha comunidade de axé,  veicularem via redes sociais parte de nossa história e vínculo com professores acadêmicos reconhecidos. Achamos justo e importante, mas gostaríamos de esclarecer como tudo isso começou, afinal de contas, é sempre importante utilizarmos da história para demonstrar os traços do presente.
Somos sacerdote há mais de 45 anos, percorremos várias tradições espirituais, tivemos contato com muitos pais e mães-de-santo, filhos e filhas de santo, muitas histórias, muitos rituais, muito axé compartilhado. São anos de formação espiritual unicamente no terreiro, sem uso de cursos, apostilas ou qualquer outro engodo que, por ventura, exista no meio afro-brasileiro para se vender Iniciação. A nossa foi única e exclusivamente feita sob os auspícios de pais-de-santo cujas responsabilidades coletivas me faziam ter convicção na força e valência espiritual. Depois de muito viver no santo, fizemos medicina (ou seja, éramos sacerdote antes de cursar medicina), exercemo-la e, sempre, em crescente atividade espiritual. Sempre dizemos que fizemos medicina para que não nos chamassem de charlatão! Mas, o fato é que a medicina sempre nos proporcionou contato humano e um olhar apurado para o que significavam as doenças e os processos de cura, tão bem explicados no terreiro, com suas várias terapias.
No decorrer desses anos, lançamos a ideia da criação da Faculdade de Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras, única ação educativa regulamentada pelo MEC com vistas a dar voz e vez para TODAS as Escolas das Religiões Afro-brasileiras. A Faculdade, como não poderia deixar de ser, trouxe um impacto fortíssimo no campo teológico, mas, sobretudo, no campo religioso.
Academicamente, hoje somos extremamente reconhecidos e chamados a representar as religiões afro-brasileiras em eventos, justamente porque os organizadores sabem que não valorizamos apenas uma forma de pensar e praticar a religiosidade afro-brasileira. Sabem que em nossas falas esforçamo-nos para falar por todos e não por uma única voz. Religiosamente, muitos foram contrários e ainda hoje insistem em confrontar as ideias da FTU, justamente, com o argumento e práticas que lhes são usuais (ou seja, não são nossas). Tais grupos argumentam que a FTU nasceu para monopolizar as religiões afro-brasileiras. Não observam, porém, que este é o que eles pretendem fazer e não nós!
A nossa formação sacerdotal nos formou com um olhar para a diversidade. Jamais proporíamos uma carta magna, documento típico que visa estabelecer parâmetros rígidos e normas de conduta baseado em um grupo único, em apenas uma Escola afro-brasileira. Respeitamos essas pessoas, apenas, somos contrários às ideias sugeridas. Entendemos que seja uma forma de ação pela religiosidade afro, mas, segundo nossa ótica, é um movimento ultrapassado. Talvez fizesse sentido em outros momentos históricos do Brasil... mas, o que vemos hoje, aliás, o que existiu sempre foram múltiplas vozes nesse campo religioso. Basta vermos a formação do povo brasileiro, plural, diverso, miscigenado.

Então, retomando ao início do texto, o contato com os acadêmicos surgiu de uma verdadeira amizade que foi sendo tecida ao longo das várias atividades promovidas pela FTU e por outras instituições de ensino superior. Esses professores, todos os que foram citados em redes sociais sentiram que nossa amizade era sincera e, principalmente, sentiram a segurança e seriedade do nosso discurso, do nosso ideal. Não apenas sentiram como tornaram-se parceiros de nosso projeto, já que viram que nosso olhar-ação estava totalmente direcionado para a diversidade. Mais uma vez afirmamos, esse olhar não foi forjado na academia, foi construído na nossa experiência sacerdotal, no contato com várias liturgias, várias mitologias, enfim, várias cosmovisões afro-brasileiras. Foi uma aprendizagem significativa de anos de contato com pessoas, terreiros, divindades e ancestrais. Essa construção em prol da diversidade, que foi feita única e exclusivamente nos terreiros, nos faz ser uma pessoa cujo ideal de vida é percebido e sentido como verdadeiro e totalmente possível de ser realizado, já que pretende valorizar a todos. Falamos em história no início do texto, não podemos nos esquecer que as religiões afro-brasileiras nasceram desse conglomerado de etnias, culturas, religiosidades e, portanto, nada mais justo do que um discurso em prol da valorização de todos esses matizes. Um discurso-prático, como gostamos de dizer. Um discurso que promove realizações efetivas. Um ideal que não se faz pela hegemonia e homogenia, mas pelo resgate da identidade afro-brasileira, esta essencialmente plural e complexa.
Esperamos ter deixado claro onde nossa amizade com os acadêmicos começou. Amizade que se fez pelos valores compartilhados, valores estes em favor da diversidade. Finalmente, gostaríamos de convidar a todos para o Congresso de Sacerdotes e Sacerdotisas e, em seguida, participar da louvação aos exus: guardiões do destino, vencedores da morte. O ritual será dia 26 de outubro, no próximo sábado. Esperamos por todos!

Axé!

Convite oficial do Rito de Exu: https://twitter.com/rivasneto/status/382178275205726208/photo/1

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 402

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