segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Entidades das Religiões Afro-brasileiras: um olhar sobre estados “prisionais” e marginalização

Em nossa última publicação comentamos sobre o enredo do ritual de exu que será com Odé, senhor da caça, provedor e protetor da família. Este ano dramatizaremos um dos mitos e o vincularemos ao Orixá de Exu. Se Odé foi capaz de vencer o poder maligno do passáro das feiticeiras, Exu vem com sua valência mostrar a força,  axé e destino em ação. Daí o nome do ritual Exu: Guardião do Destino, Vencedor da Morte.
Recentemente, estive conversando com uma de minhas filhas que está inserida no meio acadêmico sobre uma de suas aulas no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais. A aula versava sobre sistema prisional, exclusão e desigualdade social. Segundo ela mesma me contou, uma série de teorias e debates de autores estavam sendo articulados por mais de 20 pessoas na ocasião. Todos aparentemente muito engajados no “problema” colocado. Minha filha, como não poderia ser diferente, começou a se questionar sobre a verdadeira eficácia da discussão, já que muitos dos que lá se encontravam jamais pisaram sequer em um colégio público. O debate que parecia caloroso ficava em âmbito das paredes da sala de aula porque do ponto de vista prático, nenhuma das pessoas parecia engajar-se com a proposta para além de uma disciplina de pós-graduação. Com este comentário de minha filha, logo fiz minhas associações com as religiões afro-brasileiras e, especialmente, com os exus, os quais em breve estaremos louvando (26 de outubro).
As entidades cultuadas nas religiões afro-brasileiras são figuras que, não raras vezes, fizeram parte como personagens da história brasileira: o preto-velho, os caboclos mestiçados, baianos, boiadeiros, marinheiros, encantados, também os Orixás, Inkices e Voduns, os marginalizados de todos os matizes que construíram um arsenal de experiências concretas, hoje são elevados a personagens míticos e constituem a centralidade do pensamento afro-brasileiro. No entanto, este olhar sócio-antropológico não é capaz de explicar esse movimento: do personagem histórico ao personagem mítico. Para isso, é preciso fazer uso da linguagem teológica, da linguagem religiosa, vivenciada dos adeptos das nossas religiões. Todas as entidades são cultuadas mais do que para encenar um mito, mas para que a realidade social, vivida para além do terreiro seja transformada. Muito mais do que um isolamento, as entidades estão interessadas que a vivência de terreiro esteja para além dos rituais. Ainda mais evidente nesse processo é a figura do Exu. Exu que na África era adorado como um benfazejo, realizador de destinos, comunicador entre Aiyê e Orun, no Brasil torna-se, por influência direta do pensamento católico, a entidade que personifica o mal. E não apenas o mal, o desvio, a contra-regra, o pensamento fora do padrão, as atitudes não morais, enfim, o trickster, o contraventor, o transgressor.
É justamente essa entidade que é a mais criticada, e que ainda é amplamente utilizada por outros setores religiosos (para justificar o embate da luta do bem contra o mal) que milita diuturnamente em prol da exclusão da desigualdade em vários níveis, chegando até o nível social e econômico (no caso dos sistemas prisionais no Brasil). Para Exu nunca houve o bem ou o mal tal como esses conceitos são operacionalizados pelas religiões cristãs. Exu preza pela justiça e pela liberdade. Por isso é mal compreendido, porque desde suas apresentações nos médiuns ele desafia os padrões convencionais. Além disso, Exu está a todo momento dizendo que todos são capazes e podem conquistar as coisas, que nenhum filho das religiões afro-brasileiras veio à Terra para perder, ser injustiçado ou, ainda, pagar por determinados “karmas”. Estar em um sistema prisional não é um karma que deva ser cumprido rigidamente. Entendemos que deve haver, minimamente, um sistema penal e jurídico para balizar a convivência em sociedade, mas devemos tomar cuidado para de quem maneira a sociedade e as religiões lidam com essas questões. Ainda hoje, passados mais de um século, a grande massa das pessoas que estão presas é composta por negros, pobres, mulheres marginalizadas e prostitutas, que vivem em condição miserável. Já viviam fora e passam a viver, também, dentro das prisões. Não estamos aqui negando a necessidade de sanções, mas sim, problematizando que se essas coisas acontecem, significa que nossa sociedade está doente. O sistema prisional fez-me pensar em outros estados de prisões... e são com essas prisões que as entidades das religiões afro-brasileiras e, os exus, em potencial trabalham. Na tentativa de conduzir a sociedade a destinos mais justos.
Por isso, não apenas neste nosso ritual anual, mas durante todos os dias de nosso ano ritual, nós louvamos os exus, ritualizamos os mitos e entramos em contato com eles. Essa é uma forma e viver o terreiro nele e além dele. Teorias são excelentes mas se estiveram desvinculadas da prática, elas também aprisionam. Talvez seja um dos motivos pelos quais a Faculdade de Teologia das Religiões Afro-brasileiras sensibilize os que ela conhecem. Porque a proposta é, justamente, a aproximação entre um saber acadêmico (fruto de um pensamento ordenado, racionalizado e teorético) e um saber religioso (fruto da experiência sensível e vivência dos fundamentos do axé dos terreiros). Trata-se de um discurso conciliador entre saberes, jamais visto. As salas de aula estão, afinal, a passos do terreiro, elemento esse reconhecido pelos avaliadores do MEC como ponto de excelência de uma Teologia que se pretende eficaz.
Enfim, esperamos ter deixado claro a atuação das entidades das religiões afro-brasileiras. Essas sim, seres que não aparecem, invisíveis, marginais (seja em âmbito social como religioso) que militam verdadeiramente contra a marginalização e exclusão social.
Laroyê Exu!
Meus respeitos às várias comunidades de axé espalhadas pelo Brasil e fora dele!

Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 401

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