segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Os Mabassas vencendo a Morte: depoimento de uma de minhas filhas-de-santo sobre o Toque dos Mabassas

Dedico esta publicação ao relato de uma de minhas filhas-de-santo, Yacyrê, sobre o Toque dos Mabassas:

“27 de setembro é data deveras conhecida nas religiões afro-brasileiras. E, mesmo fora delas. Dia consagrado a São Cosme e São Damião, santos católicos e que, no panteão afro-brasileiro, representam as crianças, os gêmeos, os dois-dois, candengos, tocuenis e mabassás (na angola).
É data marcante nos calendários litúrgicos de várias escolas afro-brasileiras. Ontem, juntamente com meus irmãos-de-santo, tive a oportunidade de vivenciar mais um toque dedicado à louvação dessas entidades. Toque este que viabiliza, como todos, a reatualização dos mitos religiosos. O mito dos Ibejis é esclarecido por meu Babá no vídeo que acompanha esta publicação, por isso, deixo que a voz de minha Tradição por aquele que melhor a representa, possa contar os meandros da história mítica dos gêmeos. A mim cabe, nas breves linhas a seguir, descrever parte do sentimento vivenciado no ritual.
Infelizmente, algumas de minhas tarefas profissionais impediram-me de acompanhar o desenvolvimento do ritual no decorrer da semana, mas sei que parte de minha comunidade de santo esteve envolvida nos preparos, os quais vão desde o levantamento dos materiais a serem utilizados, a lavagem ritual dos mesmos, a escolha, consagração e sacrifícios dos animais, a elaboração das oferendas, das comidas votivas, a higienização do templo, a confecção dos doces, bolos, akassás, caruru, enfim, o ritual que vimos ontem foi a concretização final de algo que já vinha sendo processado antes.
Penso que é importante destacar esse aspecto já que aqui encontram-se duas coisas fundamentais. A primeira é a “noção global e particular” do ritual. Só mesmo um sacerdote com raízes bem fincadas em fundamentos consegue visualizar o todo do ritual e conduzir os vários mini-ritos particulares que o compõem. Essa visão macro só é clara para os que entendem os aspectos míticos e místicos relativos a estas entidades e, consequentemente, conseguem construir o ritual em pequenas e densas etapas (embora etapa seja uma nomenclatura que divida, reparta e segmente, utilizo-a aqui por falta de uma mais adequada). O segundo aspecto necessário de ser enfatizado diz respeito ao entrelaçamento da comunidade terreiro. Dizem os nossos “mais velhos” que um grupo tem axé na dependência do melhor ajuste entre seus participantes, entre as várias trocas existentes, e o cumprimento de suas obrigações rituais e sociais. Muitas pessoas enfatizam, apenas, o exato momento do ritual esquecendo que ele só aconteceu porque houve uma sintonia de funções que se convergiram em prol da realização espiritual para sua comunidade e os demais envolvidos. A força da coletividade, da irmandade está, portanto, expressa no exemplo da construção do ritual ao longo dos dias.
Uma vez pontuado esses dois aspectos, penso que posso prosseguir ao ritual em si. Ao me deslocar para a casa espiritual de Yamaosilê (filha de Pai Rivas) um conhecido da cidade me disse: “Daqui a pouco estou lá, vou pegar uns doces, hein?”. Eu estava trajada com minha roupa ritualística e, embora, eu jamais tivesse trocado uma única palavra com essa pessoa, de algum modo o signo de minha saia, minhas guias, minha blusa branca comunicaram alguma mensagem de identificação. As roupas de santo falam, carregam sentido e história. Além disso, as festas de santo afro-brasileiras possuem um ar de mistério, atração e instigam. Estão no arsenal cultural-religioso brasileiro, inclusive, no inconsciente coletivo.
Pois bem, chegando ao templo, logo vi muitos irmãos(ãs)-de-santo e reparei no que havia sido cuidadosamente preparado. Um longo caminho de ervas, ao mesmo tempo que me recebia, me conduzia a outros espaços. Outros pequenos assentamentos pela casa e, no templo, uma bela oferenda, uma bela mesa para os Ibejis. A casa estava em festa. As palavras de Baba abriram a cerimônia com explicações sobre o mito. Mas, confesso que o processo de racionalização ficou em segundo plano. Foi com o soar dos tambores, das cantigas, das danças e com a presença das entidades que o mito se fez presente. Porque as palavras do sacerdote são vida, posto que são verbo em ação. Mas todas as várias ações rituais sentidas e compartilhadas em grupo criam uma corrente de força que, em síntese, é o elo de axé sendo transmitido e carreado. Senti que as palavras do Babá foram o start para que o axé fosse veiculado.
Mauss, um famoso antropólogo, costumava dizer que a palavra maná em outras sociedades era tão fortemente carreada de sentido que poderia ser um verbo, um substantivo e um adjetivo. Ontem, ao participar do rito tive esta sensação com o axé. O axé, não é só, como costumam dizer os estudiosos da religião, as flores, plantas, ervas, comidas...axé é ação, é comer, dançar, é incorporar, entrar em transe. É, também, o som por si só, as palavras proferidas, as oferendas. Axé, ontem, foi o reordenamento do mito em ação.
Assim, se nas religiões afro-brasileiras, costuma-se dizer que há muitas festas, é porque no lúdico encontramos muitos caminhos que conduzem à espiritualidade. E a linha entre a ludicidade e a seriedade é, muitas vezes, indefinida. Às vezes, elas não passam de criações e preconceitos sociais. Afinal, o que se espera de uma cerimônia religiosa? O que se deve ou não fazer? Como se portar?
 Ontem, entre risadas, alegrias, danças, pulos, comidas, bebidas, percebi (não intelectivamente) sensivelmente que o astral se apresenta sob inúmeras facetas, tantas quantas forem necessárias. Porque se a diversidade humana existe, certamente a espiritualidade se manifesta da mesma forma, plural.
O rito foi finalizado com muito alegria e amizade. Sempre quando se finda um rito, se inicia outro. Porque a vida nos ensina isso. A vida nunca para, está sempre em construção. Que possamos estar juntos no próximo ano, pois, como disse meu Babá e as entidades, isso é estar vivo e vencer a morte!”

Yacyrê (Érica Jorge)



Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 395

Um comentário:

  1. Achei este texto lindo. Muito sensível e sério.

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