segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Educação nas religiões afro-brasileiras: construindo olhares para a diversidade


Nos últimos textos temos discutido a relação entre a educação e as religiões afro-brasileiras, sob o ponto de vista dos cursos a distância. Hoje, gostaríamos de trazer uma nova perspectiva que é a relação da educação religiosa nos terreiros. Nas religiões afro-brasileiras, não há uma forma de transmissão formalizada da doutrina religiosa. Não há um processo de catecismo, dias específicos para ensinar o que são os orixás, os ancestrais, os rituais, etc.
Em todas as religiões afro-brasileiras (e há muitas), a educação religiosa se faz por meio da vivência. Isso significa que há um processo de apreensão cultural por meio da observação natural e da prática. As crianças são, naturalmente, conduzidas para os rituais por sua família consanguínea. Pelo menos, esta é a forma principal que as crianças se aproximam dos terreiros.
No entanto, gostaríamos de pontuar, há muitos pais e mães-de-santo e, mesmo filhos(as)-de-santo que não levam suas crianças para o terreiro. Não sabemos o real motivo dessa atitude, mas o fato de as crianças acompanharem seus pais sanguíneos, indica um relacionamento sadio entre a relação familiar e a religiosa. Claro que as crianças devem ter a chance de escolher o que consideram melhor para suas vidas a partir de uma determinada idade mas é importante que elas também possam vivenciar, aprender e assimilar o que seus pais entendem por vida religiosa, até para que possam saber exatamente o caminho que pretendem seguir.
Como exemplo, cito nossa própria experiência. Meus sete filhos fazem parte de nossa corrente mediúnica, nos acompanham no terreiro, nos vários rituais em São Paulo, em Itanhaém, enfim, vivenciam as religiões afro-brasileiras e seus valores, no terreiro e nas suas vidas sociais. A educação religiosa, portanto, torna-se parte integrante da vida como um todo e passa a nortear a ética de vida, nos vários círculos sociais, na construção de novas famílias, em âmbito profissional, amizades, etc. O importante é que os pais (de sangue e de santo) transmitam uma educação religiosa voltada para a diversidade e para a alteridade, sem estabelecer modos únicos de conduta e fundamentalismos. Cada vez mais nossa sociedade pede olhares plurais e flexíveis. E, nesse ponto de vista, pensamos que as religiões afro-brasileiras tem muito a contribuir uma vez que sua base é constituída pela pluralidade. De teologias, de práticas, de afetos e de arranjos familiares. Cabe a cada um de nós a tarefa de construir laços e educação que seja voltada a este propósito. E, se assim for, naturalmente as crianças estarão devidamente confortáveis e felizes em seus ambientes religiosos.
Finalmente, gostaríamos de estender um convite a todos. Na próxima quarta-feira, dia 25 de setembro, Mãe Maria Elise Rivas, iniciada por nós, representará as religiões afro-brasileiras na Universidade Federal do ABC, apresentando a visão das mesmas com relação aos aspectos sexuais e de gênero na sociedade contemporânea. Nossa filha de santo estará nessa mesa de debates, intitulada: Diálogo sobre o estado Laico, gênero
e diversidade sexual no campo da Fé e das religiões, junto com outras lideranças religiosas (de outras confessionalidades) discutindo uma temática de suma importância e que, reflete o que acabamos de apresentar no texto, a necessidade de uma educação voltada para a diversidade. O evento será na Rua da Abolição s/no, Santa Terezinha, Santo André, das 19 às 21h. Haverá emissão de certificados para participantes.
Axé!
 Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 393


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