quinta-feira, 13 de junho de 2013

A FILOSOFIA DAS MASSAS PENETRA AS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS



Nas últimas publicações discutimos epistemologia, métodos e algumas incursões à ética das/ nas religiões afro-brasileiras. Também fizemos algumas incursões em vídeo sobre a filosofia das massas e outras categorias correlatas. Retomamos o tema filosofia das massas afirmando que a mesma é sustentada pelos meios de comunicação e indústria cultural. Assim a filosofia das massas é produto do “avanço” da tecnologia e ciência (vertente tecno-científica) e claro pedra angular do capitalismo vigente (Adam Smith).
Com ela consegue-se manter o sistema, manipulando as pessoas e garante o status quo de uma elite dominante de capitalistas inveterados.
É essa mesma filosofia das massas, que como dissemos leva as pessoas ao hiperconsumismo (Lipovetsky), a sociedade do consumo, onde há o engodo da criação de necessidades artificiais e não necessárias, que se tornam necessárias e naturais, e uma série infindáveis de falácias que sustentam a economia capitalista, mesmo que isto não seja tão ético, pois gera sociedades desiguais, sem justiça social, que discrimina, preconceitua a maior parte da comunidade planetária (globalização da miséria em vários níveis).
Bem não estamos discutindo política econômica e sociedade, mas introduzindo tal discussão, que tudo tem de há ver com as religiões afro-brasileiras, que é nosso foco de estudo e ação vivencial há mais de cinco décadas.
Estamos nos colocando, pois, além dos vários anos de vivência no dia-a-dia do terreiro como sacerdote desde 1968, também fundamos a FTU, a primeira Faculdade de Teologia das Religiões afro-brasileiras, que apesar do “sistema” sinalizar negativamente, foi autorizada, credenciada e reconhecida pelo MEC. É verdade! Pode parecer mentira, mas conseguimos, apesar de todos os óbices. Uma vitória inquestionável e inestimável para as religiões afro-brasileiras que conseguiram sua senioridade.
Mas o “sistema” tem seus esquemas, pois apesar de perder algumas batalhas, tenta de todas as maneiras exterminar a boa semente, valorizando as sementes doentes, mesmo que para isso utilize sua arma principal: a mentira e sua irmã gêmea, a adulação.
Toda essa introdução para confirmar como o sistema, a manutenção do status quo pode se fazer presente nas religiões afro-brasileiras, principalmente pelo egoísmo e narcisismo patológico, exacerbado pela lógica do oprimido e opressor e pela manutenção da zona de conforto proporcionada pela filosofia das massas como afirmamos, mantenedora da filosofia liberal que dia após dia faz vítimas, decorrência de homens insensatos que são tidos como “sábios”, entronados pela lógica do capitalismo aviltante de que são os primeiros mantenedores e contumazes manipuladores e divulgadores da criação de necessidades artificiais e não necessárias que são tornadas necessárias e naturais, enfim, invertem a ordem natural da vida em suas diversas dimensões.
Vejamos como isto pode ocorrer nos vários terreiros das religiões afro-brasileiras, para tal faremos um recorte trazido há alguns anos pela pesquisa de Claude Lepine, constante no livro Oloorixá - escritos sobre a religião dos Orixás, coordenado e traduzido por Carlos Eugenio Marcondes de Moura.
No seu artigo – os Estereótipos da Personalidade no Candomblé Nagô – na pagina 25 ele enfatiza os que aderem ao Candomblé:
Observamos que aderem ao Candomblé numerosos elementos brancos do sexo masculino, que são integrados ao culto na qualidade de ogan. Estes elementos não pertencem às classes de baixa renda, as pessoas sem perspectiva de ascensão social costumam buscar consolo, de preferência, o sofrimento, prometendo recompensas no além, como é o caso da Umbanda e das seitas cristãs. Os novos ogans pertencem, em sua maioria às classes privilegiadas. Antigamente recrutados na comunidade negra e na classe social em que eles se inserem, os ogans são cada vez mais escolhidos nos estratos mais altos da sociedade baiana. As mães de santo atribuem cada vez mais este título a industriais, comerciantes, profissionais liberais, artistas e intelectuais de renome, fato aliás que vem criando certo distanciamento entre estes membros masculinos e o corpo das filhas de santo, que são humildes, lavadeiras, empregadas domésticas, costureiras”
A visão do autor, suas constatações, muitas vezes, ou a maioria, suas deduções e conclusões continuam na mesma toada. No final há uma conclusão inesperada de que o elemento branco busca no Candomblé sua identidade perdida relacionando-a com o arquétipo do Orixá ao qual é devoto. (?!?)
Fazendo-se uma análise, chegamos a conclusão que mais uma vez tentou-se minar o sentimento de pertença e identidade natural dos adeptos dos cultos afro-brasileiros, pois há uma intromissão, esta sim, artificial, que segue  a filosofia liberal, a lógica do Capitalismo, pois recruta-se somente os privilegiados, as elites dominantes. Mais um grave malefício, pois o que se pretende é descaracterizar o povo de santo. Há aqueles que “compram” cargos, pois são bem sucedidos, não tendo problemas socioeconômicos que os motivem a buscar o Candomblé.
A posição social deles é privilegiada, não necessitam de nada, são comprometidos por interesses econômicos com a ordem vigente, que eles não pensam em questionar.
Queremos enfatizar que as mães de santo na época, talvez buscassem uma visibilidade e uma mobilidade ao culto e ao povo de santo, e não perceberam que estavam colocando em seus templos, justamente aqueles que no passado fomentaram a escravidão e criticaram com veemência os cultos africanos e tudo o que deles decorria.
Afinal, uma intromissão malfazeja dos mantenedores do status quo que desejam marginalizar e aviltar a naturalidade e a devida necessidade do Orixá no seio do povo de santo. É a filosofia das massas que segue o tom da filosofia liberal que deseja minar a grandiosidade do Orixá na sociedade, algo que sabemos de sobejo é pela igualdade e justiça em todos os níveis.
Encerrando, queremos salientar que o autor constatou isto nos terreiros da Bahia há décadas. E na atualidade, será que a alta tecnologia e cientificismo, pedra angular do capitalismo, vigente entraram portas adentro nos terreiros para ficar?

No final queremos deixar ao leitor que tire suas conclusões, todavia, queremos lembrar a terceira versão do filme “Matrix” em que no final do filme, o personagem Neo, que tanto lutou contra o sistema, buscando a igualdade e justiça social, viu-se perseguido por toda a sociedade que preferiram a zona de conforto e não alçar voos à liberdade. Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 364

Um comentário:

  1. Eu fico muito feliz de poder receber do Mestre Araphiaga sua visão do porque a nossa sociedade, se encontra com tanta desarmonia partindo do incentivo que fomenta as grandes massas . As quais alimentam o capitalismo pelo consumo como sendo, o ponto de poder das pessoas.
    As quais, para serem importantes e respeitadas no meio social. precisam serem alimentadas pelo consumo, valores esses, que as pessoas valem o que tem, ou seja, quem não tem nada, não vale nada. sendo essa a filosofia que contribui para gerar a violência. Porque quem não tem não vai ficar satisfeito em ser lançado fora do grupo do poder no caso, "consumo" assim o individuo, acreditando ser inferior, parte para tirar dos que se julgam superiores, "poder de consumo" condições que lhe
    possibilite fazer parte do grupo de poder, novamente, consumo.

    Tudo isso, é exatamente o oposto do que acredita e se preocupa as religiões afro-brasileiras. As quais entendem, que a natureza é a forca do Orixá, ou seja, a natureza é a emanação do Orixa, O qual possibilita a harmonia , a paz e a saúde ao homem. O homem precisa da natureza para ser feliz e precisa das coisas materiais para viver, mas as coisas materiais não estão acima do ser humano, e a paz e a felicidade não estão na soma do salario que o individuo ganha, esta na qualidade , de como esse dinheiro foi ganhado e como é usado. As manobras capitalistas levaram o homem a se afastarem das coisas divinas, da natureza e dele mesmo,, com isso , ontem , hoje e manhã, se não conseguirmos buscarmos outros valores. A sociedade continuara vivendo em um mundo de dor e sofrimento, pelos seus próprios valores que nós as humanas criaturas construímos.
    Axé Babá mi , Meu Mestre
    sua filha de Santo Marilene

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