segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

TEOLOGIA DAS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS

Da OICD à FTU: diálogo teórico-prático entre as religiões afro-brasileiras

Dedicamos nosso segundo texto do ano para iniciar algumas discussões sobre as religiões afro-brasileiras, sua formação e composição bem como sobre os processos de reelaboração e adaptação sofridos a partir dos vários contatos religiosos ocorridos no Brasil desde o século XV.
Basicamente as religiões afro-brasileiras são formadas pelos componentes ameríndios, africanos e indo-europeus. Destacamos, porém, que ao falarmos nas contribuições europeias, estas foram em sua grande maioria de católicos. Posteriormente as religiões afro-brasileiras sofreram influências de elementos, judaicos, budistas, islâmicos, kardecistas, entre outros.
Na atualidade, segundo nossa abordagem, entendemos que basicamente temos 3 grandes conjuntos nas religiões afro-brasileiras: o primeiro sendo composto pelas "Umbandas", o segundo pelas "Encantarias" e o terceiro pelo Culto de Nação Africano (Candomblé ketu, jeje e angola-congo). O que ocorre é que estes conjuntos não são estanques e nem se colocam como intocados, ao contrário, há poros que possibilitam que tais conjuntos dialoguem, sem com isso perder a identidade de cada um deles.
A título de explanação colocamos dois diagramas abaixo:
1º Diagrama: 3 grandes conjuntos das religiões afro-brasileiras
"Umbandas" (Conjunto 1) ↔ "Encantarias" (Conjunto 2) ↔ Culto de Nação Africano (Conjunto 3)
As "Encantarias" fazem a conexão entre as várias "Umbandas" (dentre as quais citamos algumas: Umbanda Branca, Umbanda Mista, Umbanda Cristã, Umbanda Mística, Umbanda Esotérica, Umbanda Oriental, Umbanda tTraçada ou Omolocô) com o Culto de Nação Africano.
2º Diagrama: diálogo entre o conjunto "Umbandas" e o conjunto Culto de Nação Africano
Este diagrama demonstra a relação entre as "Umbandas" e o Culto de Nação Africano, apontando quais escolas afro-brasileiras fazem a interface que possibilita o diálogo entre o Conjunto 1 e o Conjunto 3:
"Umbandas" (Conjunto 1) ↔ Umbanda traçadaCandomblé de Caboclo ↔ Culto de Nação Africano (Conjunto 3)
A Umbanda Traçada ou Omolocô é o reduto avançado das "Umbandas" e procura fazer uma ponte com o Culto de Nação já que possui elementos significativos para este último. Da mesma forma, o Candomblé de Caboclo é o reduto avançado do Culto de Nação Africano em sentido oposto. A Umbanda Traçada ou Omolocô dá ênfase ao Caboclo (o "Orixá" do Brasil), mas já cultua os Orixás. Já o Candomblé de Caboclo dá ênfase ao Culto dos Orixás, mas os Caboclos também são cultuados, em segundo plano.
O que observamos é que essas duas escolas afro-brasileiras: Umbanda Traçada ou Omolocô e o Candomblé de Caboclo são interfaces entre os conjuntos "Umbandas" e Culto de Nação Africano. Isso só demonstra que há um trânsito entre as várias escolas afro-brasileiras e que, naturalmente, a própria dinâmica religiosa se estrutura de forma a ajustar as múltiplas crenças e práticas.
Ao fundarmos a Faculdade de Teologia Umbandista há uma década tínhamos esse processo em mente. Fomos incompreendidos na época porque havíamos passados 18 anos na Umbanda Esotérica e, por isso, as pessoas nos questionavam como poderíamos montar uma faculdade sobre Umbanda com apenas o viés da Umbanda Esotérica. A grande questão é que nossa bagagem ritualística não era proveniente apenas da Umbanda Esotérica, ao contrário, esta foi uma das nossas últimas passagens da Iniciação. Utilizamos o nome Umbanda para fundar a Faculdade de Teologia Umbandista porque é uma das escolas afro-brasileiras menos preconceituada e possui um histórico de ser a religião brasileira. Para isso, em 2000 iniciamos um projeto em nossa Casa de Fundamentos que visava a realização de "sete tipos de rituais" em que privilegiávamos as várias "Umbandas" e suas interfaces com outras religiões afro-brasileiras. Foi um processo no interior de nossa Casa, a Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino e que culminou com a FTU.
Tal clareza nesta ação foi conquistada em função dos vários anos de pesquisas sobre este campo religioso e principalmente de décadas como sacerdote percorrendo e vivenciando em profundidade os 3 grandes conjuntos citados. Assim, nosso objetivo com a fundação da FTU (a primeira e única faculdade de Teologia afro-brasileira autorizada e credenciada pelo MEC) era dar visibilidade às religiões afro-brasileiras, fazer com que tivéssemos isonomia perante outros setores, criar e fortificar uma teologia voltada para o universo afro-brasileiro e fazer com que os alunos da instituição estivessem em contato com essa realidade de trânsito religioso afro-brasileiro. Muitas vezes a dinâmica religiosa se encarrega de demonstrar que as escolas afro-brasileiras não são sectárias e fechadas. Mas quisemos discutir isso de uma outra lente, a acadêmica, fazendo com que, por meio da educação, os adeptos, simpatizantes e estudiosos das religiões afro-brasileiras se aprofundassem com um universo em que o trânsito religioso torna-se explícito.
Isso só foi possível porque como sacerdote vivenciamos as tradições provenientes em primeiro lugar (historicamente) do Culto de Nação Africano, passando pelas várias "Encantarias" e chegando às "Umbandas", porque mesmo quando fomos vivenciar a Umbanda, não encontramos apenas uma forma de fazê-la. Ou seja, a fundação da FTU só foi possível porque possuíamos um histórico de contato e vivência com várias tradições. Ninguém pode falar, imagina ensinar caminhos que não tenha percorrido.
Nesse sentido, esperamos que os leitores do blog entendam que a fundação da FTU sempre esteve envolta em princípios muito maiores e bastante estruturados. Princípios espirituais por fazer grassar e disseminar as várias tradições espirituais afro-brasileiras. Princípios culturais e sociais por valorizar o senso de pertença e identidade dessas comunidades religiosas. Princípios políticos e econômicos por permitir, por meio de educação de qualidade, que muitos adeptos e simpatizantes afro-brasileiros conquistassem uma formação de ensino superior, muitas vezes com bolsas integrais durante os quatro anos do bacharelado e conseguissem, por consequência, melhores condições de trabalho e qualidade de vida.
Nas próximas publicações daremos continuidade à discussão sobre as escolas afro-brasileiras e as interfaces existentes entre elas.
Axé!


Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 320

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