segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Enjuremação de nossa filha espiritual


Na publicação de hoje, vamos comentar sobre um importante processo iniciático que está ocorrendo em nossa casa, o Ilê Funfun Awooshogun. Trata-se da iniciação na Jurema, ou enjuremação, de Mãe Fabi (Yamaosilê), nossa filha espiritual.

Importante lembrar que um dos primeiros registros literários vem de Câmara Cascudo no início do século XX. Em sua abordagem, dava grande ênfase ao Catimbó, hoje denominado culto de Jurema, como algo folclórico, por vezes pejorativo.

De certa maneira, esta perspectiva foi amenizada pela missão folclórica de 1938. Especialmente pela pena de Mário de Andrade. Não podemos deixar de registrar também a pesquisa de Luiz Assunção (UFRN) que contribui bastante para a disseminação da Jurema no meio acadêmico.

Retomando à enjuremação, Mãe Fabi, assistida pela Mestra Lindinha do Agreste, está há alguns dias aos pés da Jurema de nossa casa passando pelas mãos de Mestres que acostam ou trabalham conosco, especialmente: Mestre Canindé, Mestre Cariri, Mestre Zé Maior e Mestre Turuatã.

Sobre a enjuremação, existem basicamente dois processos. Um é no “mato”, ou seja, literalmente sob o pé de Jurema. O outro é “urbano”, dentro da camarinha e mais usual nos dias atuais. Mãe Fabi está passando pelos dois modos e dentro de poucos dias será sua saída. Em verdade, “saídas”, pois nessas ocasiões são três... Sem mais delongas, gostaríamos de disponibilizar algumas fotos. Salve Salve!




 
Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 420

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Orô Axé Exu

Gostaríamos de aproveitar a publicação de hoje para divulgarmos excertos em vídeo do rito conduzido por nós. O Orô Axé Exu em Itanhaém - SP, mais especificamente na casa de nossa filha espiritual Fabíula (Yamaosilê). Trata-se de Fundamento do Axé de Exu Odara - Ekodidé. Axé!


Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 419

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Mais uma vitória para o campo teológico afro-brasileiro!

Ontem tivemos, em Itanhém, o Orô Axé Exu fechando nosso ciclo ritual, celebrando a vida e compartilhando axé com nossa e outras comunidades de santo. Imbuídos da alegria e das vibrações positivas recebidas no ritual, recebemos, hoje, a notícia alvissareira de que uma de nossas filhas-de-santo foi aprovada, em primeiro lugar, para ingressar no doutorado acadêmico em Ciências Humanas e Sociais na Universidade Federal do ABC.
A notícia ganha relevância por alguns elementos. Primeiramente, ela vem se juntar com tantas outras notícias e realizações que temos publicizado em nosso blog de nossa comunidade de santo. É sempre motivo de regozijo quando nossos filhos espirituais realizam suas conquistas. Como sempre mencionamos, a vitória de um é um grande acréscimo para o axé coletivo da casa, em vários âmbitos. Muitos acadêmicos falam sobre família-de-santo, mas, é apenas na vivência ritual, no contato constante no terreiro que aprendemos a ver nas vitórias alheias, nossas próprias vitórias.
Em segundo lugar, destaco que o ingresso de nossa filha Yacyrê, Érica Jorge, ganha uma significância particular, pois trata-se da primeira teóloga com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras em um doutorado acadêmico. Nossa filha dará prosseguimento aos seus estudos afro-brasileiros com uma abordagem interdisciplinar que atrela teologia afro-brasileira e antropologia da religião. Essa é uma vitória que ultrapassou os limites de nossa comunidade de santo, representando um avanço para o povo de santo e para a própria consolidação do campo teológico afro-brasileiro. Este foi um exemplo fidedigno de que a formação teológica afro-brasileira (FTU) é de qualidade e incentiva seus graduandos a darem prosseguimento à pesquisa, um dos pilares da instituição. E, prosseguir na pesquisa não significa o acúmulo de titulações. Significa, antes, uma conquista política educacional já que os teólogos da FTU estão sendo, devidamente, reconhecidos por seu trabalho e dedicação.
Assim, essa notícia chega em boa hora, com os auspícios de Exu, senhores do constante movimento. Desejamos a nossa filha-de-santo caminhos abertos em sua jornada acadêmica que sabemos ser, antes de tudo, uma jornada espiritual. E que novos teólogos e teólogas com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras aventurem-se nessa seara e em tantas outros que o campo profissional possibilita.
Ibaxé a minha filha Yacyrê, Érica Jorge, por esta e tantas outras conquistas que virão. Nanã Bori ô!

Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 418

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Iniciação afro-brasileira só existe se vivenciada no terreiro!

Na publicação de hoje, gostaríamos de relembrar um vídeo que gravamos em 19 de novembro. Fizemos esta escolha pela atualidade do mesmo. Axé!



Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 417

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Novo livro sobre Teologia Afro-brasileira no prelo pela Editora Vozes!

Ao final deste ano, gostaríamos de dar o nosso Ibá aos Irunmalés (Orixás e Ancestrais Ilustres) por permitir tantas realizações à nossa comunidade de Axé. São vitórias no âmbito espiritual e acadêmico que merecem uma retrospectiva, algo que faremos tão logo.

Na publicação de hoje poderíamos citar vários de nossos filhos e filhas espirituais que, de alguma forma, contribuíram significativamente para isso. Entretanto, vou citar uma importante conquista que soubemos a pouco tempo e que terá uma ótima repercussão para a sociedade.

Nosso filho espiritual João Luiz Carneiro (Yabauara) está completando um ciclo importante da iniciação, estando dos seus 30 anos, praticamente, um terço vividos no nosso terreiro. Durante este período abriu portas importantes na Academia, concluindo seu Mestrado em Filosofia, Especialização em Teologia Afro-brasileira pela FTU, fundada por nós, e terminando sua pesquisa em Ciências da Religião pela PUC-SP, nível doutorado. Toda a sua pesquisa saiu do terreiro. Conversamos muito sobre vários aspectos das Religiões Afro-brasileiras que poderiam ser discutidas no espaço acadêmico e ele sempre buscou expressar isto em seus textos científicos.

Justamente do texto de conclusão da pós-graduação em Teologia Afro-brasileira, orientado pelo nosso amigo Reginaldo Prandi, que sai o mais novo livro de João Luiz Carneiro: “Religiões Afro-brasileiras: uma construção teológica”. O livro está no prelo e será publicado ao longo de 2014.
O interessante é que tal livro será editado pela Vozes, uma grande instituição que levou ao grande público livros de referência tanto da religião quanto da teologia. Podemos citar como exemplo: “Os nagô e a morte” de Juana Elbein dos Santos ou vários títulos de Clodovis Boff e Leonardo Boff.

Além de ser claramente uma vitória dele, portanto de toda a nossa Raiz, registro a importância para a teologia afro-brasileira e para o povo de santo. A FTU conseguiu colocar as tradições afro-brasileiras em isonomia com as demais confissões religiosas do país com o reconhecimento de curso. Agora seus alunos formados estão elevando o conteúdo produzido no terreiro para o mesmo patamar. Parabéns, Yabauara. Que os caminhos estejam sempre abertos para os que trabalham a favor do coletivo. Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 416

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Cursos de habilitação para pais e mães de santo e “cursos de formação teológica”: a prática da clandestinidade no universo afro-brasileiro

Nossas publicações mais recentes tem procurado enfatizar a diferença entre um curso de teologia reconhecido pelo Ministério da Educação e outros que se intitulam cursos livres de teologia. Além disso, discutimos também sobre os cursos de habilitação para pais e mães de santo que se proliferam, especialmente na capital do estado de São Paulo.  Sobre este último tópico, gostaríamos de comentar que, recentemente, conversamos com um rapaz que frequentou um desses cursos que “forma” sacerdotes. Ele nos disse que recebia dos “aplicadores” dos cursos algumas orientações:
O “aluno” é orientado a não seguir nenhum pai ou mãe-de-santo. Deve seguir conselhos, única e exclusivamente, dos seus guias ou conselhos que surgirem na cabeça da pessoa, a qual não precisa nem ao menos ser médium.
Quanto ao exposto, fazemos alguns desdobramentos:
a)      Qual a finalidade e/ou o sentido de fazer um curso que habilita alguém a ser pai ou mãe-de-santo se a orientação é de que ninguém procure os pais e mães de santo?!
b)      O sujeito “aplicador” do curso, ao dar esta orientação, quer, certamente, se eximir de qualquer responsabilidade e, inclusive, a de ser testado como pai-de-santo.
c)      O sujeito “aplicador” do curso não deseja que o “aluno” ou aspirante a pai/mãe-de-santo busque ou procure um pai ou mãe-de-santo, afinal, sacerdotes que se prezem sabem que as formações religiosas são feitas apenas nos terreiros, sob orientação e vivência com um pai/mãe-de-santo e sua comunidade-de-santo.

Além desses desdobramentos, mencionamos que é muito interessante que essa prática de desmerecimento do legítimo sacerdócio vivenciado, tem sido transposta para o campo teológico. Simples de explicar. Há cursos que habilitam qualquer pessoa a ser pai ou mãe-de-santo. Da mesma forma, há cursos livres e associações que tem seus trabalhos firmados para formar teólogos e teólogas sem estarem reconhecidas pelo Ministério da Educação. Aliás, sem ao menos, estarem vinculadas a uma instituição de ensino superior. Assim, a prática da falácia e do engodo no universo afro-brasileiro que antes permeava o campo religioso, agora existe também no universo acadêmico. Há duras penas, a FTU foi reconhecida pelo MEC, em função do preconceito. Felizmente, todo o trabalho realizado foi valorizado pelo MEC e a FTU recebeu nota de excelência em seu reconhecimento. No entanto, aspirantes à academia tem, apressadamente, voltado seus esforços para formarem teólogos e teólogas sem o aval para o mesmo. Ou seja, mais uma vez, a prática da enganação no ar.
Com o intuito de alertar o povo de santo, os adeptos, simpatizantes e pesquisadores, estaremos discutindo sempre tais questões, afinal, seremos sempre contra às ações que rebaixam nosso “povo” à ilegalidade, à marginalidade e à clandestinidade.
Axé!


Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 415

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Teologia Afro-brasileira: legitimidade e legalidade para o povo de santo já!

Na publicação de hoje, em nome da dignidade das Religiões Afro-brasileiras, gostaríamos de retomar a questão da teologia e suas implicações para o povo de santo em geral.
Em várias oportunidades já comentamos sobre isso, mas vale a pena posicionarmos o que é e qual o papel da Teologia. Podemos compará-la analogamente ao corpo humano. Em um braço a religião. No outro a ciência. A Teologia, por possuir estas características, pode aproximar ambas respeitando os seus saberes e fazeres. Ou seja, possui o conhecimento religioso (senso crítico) e por outro lado possui também as crenças religiosas (confessional).
Para realizar tão importante processo, lança mão de um mecanismo duplo e complementar: “decodificação e tradução”. Decodificar um conteúdo é compreender o que ele expressa. Traduzir é articular duas realidades distintas sem promover substituição, ou seja, imposição de um lado sobre o outro. Sendo assim, ela pode interfacear ambas de forma harmonizada.
No caso das religiões afro-brasileiras, apenas em 2003 conseguimos alcançar este status teológico. Teologia, desde 1999, é algo regulamentado pelo MEC (Ministério da Educação), portanto afeito ao ambiente universitário. E foi no início do século que, após fundarmos a FTU, conseguimos que seu curso teológico com ênfase nas religiões afro-brasileiras fosse reconhecido pelo poder público. Hoje podemos afirmar com grande satisfação que o povo de santo possui legalidade e legitimidade na sociedade por meio da educação. Mais do que isso, estamos em condições isonômicas quando consideramos todas as tradicionais religiões do Brasil que possuem cursos acadêmicos nos mesmos moldes legais.
Diante dos cursos livres, totalmente irregulares perante ao MEC, promovidos por instituições e associações sem o menor vínculo com a única instituição legalizada para formar teólogos com ênfase nas religiões afro-brasileiras, a FTU, perguntamos. Por que manter as religiões afro-brasileiras na clandestinidade, na marginalidade com esses cursos livres?
Tais iniciativas são formas de manter o status quo das Religiões Afro-brasileiras. Estado esse que historicamente foi marcado por perseguições, prisões, racismo e preconceitos de todas as matizes. Não há justificativa para, atualmente, manter cursos teológicos afro-brasileiras sem regulamentação do MEC. Aliás, existe apenas uma. O poder econômico. Fazer uso de cursos extremamente voltados para o ganho de um pequeno grupo em detrimento de toda a comunidade afro-brasileira que fica sendo empurrada para a marginalidade, para a criminalidade na justa medida em que esses cursos expressam atividades irregulares no nosso país e seus organizadores afirmam-se como religiosos afro-brasileiros.

Foucault descreveu com clareza as tentativas desenfreadas do homem para conquistar o poder. Norberto Bobbio afirma da segregação do poder entre fortes e fracos, ricos e pobres, sábios e ignorantes. Tentativas como as destes cursos livres são iniciativas para segregar o povo de santo, privilegiando uns excluindo outros, mas – ao final – todos sendo prejudicados. E novamente o poder em jogo... Fiquemos atentos aos desdobramentos destas questões. Na próxima publicação continuaremos com as reflexões. Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 414

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Encantaria de Mestre Canindé: Terapia da Brasilidade

No último dia 30 de novembro, realizamos no Ilê Funfun Awooshogun, toque de Jurema, Encantaria do Mestre Canindé. Gostaríamos de aproveitar o ensejo para passar a “pena” à nossa filha de santo Yacyrê sobre sua experiência ritual. Axé!

“Considero complexa a missão de, em poucas linhas, expressar meus sentimentos com relação ao Toque de Jurema de Mestre Canindé, realizado no Ile Funfun Awooshogun, Casa da Cura e do Destino, em Itanhaém, SP.
Infelizmente, não pude participar do preparo do ritual ao longo da semana passada. Sei que muitos dos fundamentos e awos são vivenciados na construção do ritual, dos elementos, assentamentos. Trazer a “Jurema” não é algo trivial, simplório. Não basta beber jurema e entoar uma ou duas louvarias. Vivenciar a Jurema, cujas raízes remontam ao nordeste brasileiro, exige que o sacerdote esteja aberto a este universo, adentre nas correntes espirituais, no imaginário coletivo, na memória ancestral e, inclusive, na própria história da constituição do que é ser brasileiro.
Uma das coisas que mais impressionou Bruno Latour (filósofo da ciência) ao vivenciar rituais de candomblé foi o fato de que seus adeptos constroem, fisicamente, suas divindades. Não falo aqui do candomblé, mas fazendo aproximações, todas as construções de rituais afro-brasileiras, sejam elas quais forem, permitem que o homem, imbuído de sua materialidade, de sua concretude, de sua organicidade construa cenários, assentamentos e espaços que são, por excelência sagrados. Os rituais religiosos são, por natureza, atividades de cosmização do mundo, em que há um processo de ordenamento de fatos, situações, conceitos para que a realidade seja significada, seja compreensível e palatável. Em outras palavras quero dizer que quando os rituais são construídos, há a oportunidade de que seus adeptos entrem em contato com suas crenças e convicções e façam com que elas deem significados à realidade. Assim, gostaria de dizer que, ainda que eu não tenha participado da construção do ritual, antes mesmo dele ocorrer, o que vivi naquela noite foi especial e deu sentido à minha existência.
Penso que a sensação que mais me marcou foi o fato de eu ter sentido uma profunda identidade com o ´ser brasileiro´. Claro que, ao afirmar isso, posso imediatamente, ser criticada por quem considera a brasilidade uma farsa. No entanto, o que vivi foi a valorização de contribuições espirituais de “linhas” diversas e que se expressam, para maior facilidade de compreensão, em caracteres regionais. Ao viver o toque da Jurema, não me sentia deslocada daquela realidade, ao contrário, tudo o que ali foi colocado, as palavras dos Mestres, as louvarias, as danças, as vestimentas eram uma parte de mim que se revelava. Este é outro ponto fundamental, os rituais afro-brasileiros favorecem que seus adeptos teçam laços entre a comunidade de santo e entre as várias comunidades espirituais. Naquele dia tive certeza que havia uma aliança firmada entre mim, meus irmãos de santo e as “raízes” da Jurema, entendendo estas como correntes espirituais.
Outro elemento essencial a ser colocado é a utilização de elementos da natureza pelos Mestres, especialmente Mestre Canindé. Naquela noite nenhum Mestre ou encantado acostou em mim e, por isso mesmo, estive atenta a diversas situações. Em uma delas, eu refletia sobre a doença, cura e terapias e, justamente, naquele momento, Mestre Canindé colocou ao seu lado um vaso de louça com água, jurubeba, erva de bicho e alecrim. Além disso, colocou uma cuia com Jurema. Disse ele que ali estavam as curas visíveis e invisíveis para todos que lá se encontravam. Imediatamente pensei em como essas entidades conseguem, com simplicidade, demonstrar um complexo processo do que representa a cura para as religiões afro-brasileiras. Elementos simples e, por isso mesmo, cheios de vida, sem tantas “manipulações”, ricos em axé. Pensei que estamos tão longe da natureza, tão desencantados, envoltos no mundo moderno, urbanizado e capitalista que pouco sabemos e apreendemos da sabedoria da natureza. Aos olhos do mundo civilizado, uma cuia com jurema e um pezinho de alecrim são adornos ou, no máximo, “coisas de benzedor velho”. Com tanta “ciência”, tanta “medicina”, nossos olhos são treinados para não ver a natureza, para não relevá-la. O fato é que a ciência da jurema se faz tão ou mais eficaz com as fumaças das marcas (cachimbos) ritmadas pela Marca Mestra (maracá). E, como escrevi anteriormente, esta ciência não é só da raiz da jurema, é um complexo mágico-terapêutico da espiritualidade que se concretiza em uma singular terapia de brasilidade.
Talvez isso resuma o que senti no ritual: a terapia da brasilidade”.
Axé,
Yacyrê
Em nome de toda a comunidade de santo de Pai Rivas.








Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 414



segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A posição da FTU sobre cursos livres e cursos de habilitação para pais e mães-de-santo.



No último texto problematizamos a questão dos cursos de habilitação para pais e mães-de-santo, os quais pretendem substituir a Iniciação. A discussão já foi densamente apresentada. Na publicação de hoje, gostaríamos de pontuar algumas questões que envolvem a Teologia e suas relações com o universo religioso afro-brasileiro.
Antes de mais nada, é importante mencionar que até o ano de 1999 havia um consenso de que os cursos livres de teologia tinham validade no cenário educacional. No entanto, neste mesmo ano, quando a Teologia foi elevada ao status de disciplina acadêmica, ela passou a seguir os mesmos parâmetros das demais disciplinas, seguindo todas as normas estabelecidas pelo Ministério da Educação, órgão responsável pela organização e regulamentação dos cursos de bacharelado, extensão e pós-graduação em nível lato e strictu sensu. Tentaremos clarear o comentário. Até 1999 os cursos livres de teologia eram cursados sem restrições de órgãos governamentais. A partir deste ano, os únicos cursos de Teologia validados são os realizados por faculdades e universidades autorizadas, credenciadas e reconhecidas pelo MEC. Assim, para se ter um título de bacharelado em teologia, extensão, especialização, mestrado e doutorado, as instituições devem passar, obrigatoriamente, pelos 3 processos acima citados do MEC. Todas as demais instituições não regulamentadas pelo MEC e que pululam no mercado vendendo cursos de teologia, até podem existir, mas jamais expedindo diplomas de teólogo e/ou especialistas em teologia, mestres ou doutores na área. Se assim fizerem, correm o risco, tanto os ofertantes como os cursistas, de serem presos! Afinal, ir contra uma regulamentação governamental é criar uma estrutura normativa que foge aos parâmetros de qualidade educacional estabelecidos pelo MEC. Para isso que o MEC existe! Para aferir a qualidade dos cursos que estão sendo oferecidos nas mais diversas modalidades. É uma ação que visa à propagação de uma educação de qualidade.
Os cursos livres, portanto, não profissionalizam ninguém. Qualquer um pode criar um curso livre informativo sobre determinada questão, mas não pode, de forma alguma, expedir diplomas de bacharelado e afins. Questionamos, então, especificamente no cenário afro-brasileiro, porque os cursos livres de Teologia afro-brasileira foram mantidos? Quem é que ganha com a proliferação dos mesmos? E quem é que faz a aferência deles? Como saber se os conteúdos ministrados seguem, minimamente, a ética e realidade deste campo religioso? Ou ainda, que não são discursos de captação de fiéis, ou pior, de dinheiro?
Nesse ponto, gostaríamos de colocar que a única Teologia com ênfase nas religiões afro-brasileiras reconhecida pelo MEC, ofertada pela FTU, não se opõe ao sacerdócio. Isso seria um contrassenso até pela própria definição do que é Teologia, uma disciplina que estabelece o intercâmbio entre o saber crítico acadêmico e o saber religioso (a “fé). A FTU recebe vários pais e mães de santo anualmente que cursam o bacharelado. Porém, não está no foco da instituição a formação sacerdotal. Esta é realizada, única e exclusivamente, nas casas de santo afro-brasileiras. O discurso da teologia, propagado pela FTU, não se baseia na hegemonia e homogenia (conceitos discutidos no texto anterior), até porque o MEC jamais daria o aval de funcionamento se assim fosse. Muito ao contrário, a FTU pauta seu discurso-prática na aproximação entre o saber acadêmico e o saber religioso, concretizando esta relação no olhar interdisciplinar nos quatro anos de faculdade. A FTU não é e nunca foi um curso livre de teologia. Ela foi reconhecida com excelência pelo MEC (bacharelado, extensão e pós-graduação) pela sua proposta em favor da diversidade afro-brasileiras, haja vista a composição dos seus componentes curriculares.
Esperamos ter deixado clara a posição política da FTU em favor da diversidade, a partir de uma discussão crítica do campo religioso afro-brasileiro Não nos interessa vender cursos de formação sacerdotal, porque isso se faz nos terreiros, ou seja, não estamos preocupados com o “mercado”, com os fiéis, com a arrecadação de dinheiro.
Mas, se a formação sacerdotal se dá no terreiro, porque cursar Teologia? Em primeiro lugar, fundamos a faculdade a fim de que essa ação somasse esforços no resgate da identidade afro-brasileira e na possibilidade de dar voz a grupos (religiosos, sociais, culturais) que sempre estiveram à margem da história. A FTU possibilita que esses agentes tornem-se, também, protagonistas. Ser teólogo com ênfase nas religiões afro-brasileiras é, portanto, mais que uma atividade educacional, é uma atividade política. O curso visava, inicialmente, uma chance desses grupos de profissionalizarem-se e ingressarem no mercado. No entanto, mais que atuarem em ONGs, em institutos educacionais, em formação continuada, em pesquisas, a FTU propicia o desenvolvimento de um olhar em favor da diversidade, da alteridade e do resgate de identidade e pertença afro-brasileira. Reiteramos, não nos interessa o mercado. Para isso já há muitas agências mercantis do santo, que veem os fiéis como dinheiro e ridicularizam a Iniciação afro-brasileira e seus sacerdotes. A nós interessa uma visão integrada entre ciência e religião, entre academia e terreiro. Hoje, são os “insiders” escrevendo sua própria história. E isso, definitivamente, não se compra, se constrói!
Axé!

 Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 413



quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Curso de habilitação para pais/mães de santo não é Iniciação!


Hoje nossa publicação visa retomar, de forma esquemática, o que temos discutidos nos textos anteriores. Muitas pessoas nos solicitaram que esclarecêssemos alguns pontos. Nesse sentido, pensamos em exposar nossos argumentos item a item para que eles ficassem mais claros.
1.       SINCRETISMO E HIBRIDISMO

As religiões afro-brasileiras passaram pelos dois processos, sincretismo e hibridismo. O sincretismo religioso pode ser entendido como a fusão de doutrinas, crenças e práticas de diversas religiões. O hibridismo cultural, por sua vez, geralmente acontece pelo choque ou contato entre culturas, as quais misturam-se, resultando em aspectos positivos e negativos.
Utilizamos esse conceitos em nossos textos a fim de demonstrar como tais processos acabaram por sincretizar o demônio católico e Exu, de modo a deturpar o segundo e privilegiar a função de “comunicador” apenas para a religiosidade cristã. Além disso, coube a nós problematizar o porquê alguns setores das religiões afro-brasileiras se interessam por manter a demonização do exu alertando para o fato de que tais grupos estão engajados nas políticas de hegemonia e homogenia, as quais falaremos à frente.

2.      HEGEMONIA E HOMOGENIA

O conceito de hegemonia é proveniente da ciência política e indica a supremacia e domínio de poder de um grupo sobre os demais. O conceito de homogenia, por sua vez, geralmente é utilizado na química para indicar uma solução homogênea, ou seja, em que não é possível distinguir seus componentes, mesmo que eles estejam presentes.
Alguns setores afro-brasileiros tem se esforçado para tomar posse do “território afro-brasileiro” a fim de serem os únicos aptos a falar sobre ele. É uma disputa política por fieis e pelo poder de discurso nesse universo. O conceito de hegemonia, de querer estabelecer a supremacia de um grupo sobre os demais, vai ao encontro do processo de homogenia, uma vez que, nessa tentativa de tomar posse do poder, de criar uma faceta una, homogênea, muitas contribuições religiosas, muitas Escolas, são invisibilizadas. O processo é ainda mais perigoso quando há tentativas de uniformização e codificação da prática religiosa afro-brasileira, como se fosse possível apagar a multiplicidade existente nos terreiros.

3.      CURSOS DE FORMAÇÃO SACERDOTAL

Os cursos de formação sacerdotal foram criados e se avolumaram, especialmente, em São Paulo na tentativa de dar cursos para que as pessoas se tornassem sacerdotes e pudessem abrir suas próprias casas. O objetivo claro é a demarcação de uma agência mercantil que lucra muito com a crendice alheia. O resultado desse processo é a desvalorização da Iniciação e dos sacerdotes afro-brasileira. Desvalorização da Iniciação porque ela passa a ser passível de compra e desvalorização sacerdotal porque o conhecimento e sabedoria de pais e mães de santo deixam de ser reconhecidos. As frases contidas nas apostilas dos cursos de formação, geralmente, de caráter imperativo, fazem uma parca tentativa de substituir os anos de convívio com sacerdotes, como se isso fosse possível. Todos que conhecem, minimamente, as religiões afro-brasileiras sabem que Iniciação não é um processo trivial e não poderá, jamais, ser submetida a contornos capitalistas.
O mais curioso dos cursos de formação sacerdotal é que eles não são dados por sacerdotes formados em terreiros! Até porque se fossem, jamais eles dariam cursos porque sacerdote que se preza sabe que Iniciação se faz nas casas de santo, nos terreiros.
Como é possível um curso de formação de sacerdotes ser ofertado por quem não é sacerdote, por quem não conviveu no axé, não cumpriu suas obrigações, não viveu em uma comunidade de santo? Para transmitir algo a alguém é necessário conhecimento, vivência. Uma analogia seria um curso de medicina dado por quem não é médico formado. Como aprender medicina dessa forma? De que maneira essa medicina seria exercida? Que medicina seria essa? É isso o que ocorre com os cursinhos para formar pais e mães de santo. Eles são dados por pessoas que fazem uso de títulos que não possuem. São Iniciações compradas da mesma maneira. E os pais de santo formados vão “atuar” sem os conhecimentos prévios do santo. Então, tais grupos não podem ser jamais considerados uma Escola Afro-brasileira (com epistemologia, método e ética próprios), trata-se de uma pseudotradição, uma tradição montada, fabricada, fictícia. Se há ética, ela é a do capital, do lucro, do poder e das facilidades.
Todo sacerdote sério sabe quantos anos levam uma Iniciação. Acontece que a ética afro-brasileira não aceita supletivo, não aceita cursos em meses. Não há supletivo no santo! Iniciação que se preze não é feita de remendos. É, sim, feita com responsabilidade, seriedade, única e exclusivamente nos terreiros, na prática e vivência constante dos fundamentos do axé.
Se os formadores dos cursos não são sacerdotes, tampouco, as apostilas representam a Iniciação. São falsos pais e mães de santo vendendo uma pseudo Iniciação e, certamente, os formados serão reprodutores dessa prática, afinal, se há quem venda, há quem compre... São os admiradores dos caminhos fáceis...
Na próxima publicação, esperamos dar continuidade a essa discussão já que todos os processos que temos discutidos são fundamentais para se compreender essas práticas políticas existentes no universo endógeno afro-brasileiro, as quais, felizmente, representam parcela mínima do mesmo.


Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 412

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A Iniciação se transforma em uma apostila


Nos últimos textos temos discorrido a respeito de algumas situações que aconteceram na formação das religiões afro-brasileiras e outras que acontecem ainda hoje neste universo. A publicação escrita pelo nosso filho de santo Aratish abordou o processo de sincretismo e hibridismo ocorrido quando do encontro do catolicismo e das religiões afro-brasileiras. Como foi discorrido, o cristianismo foi bastante perspicaz ao associar a divindade exu ao demônio, pois foi uma estratégia capaz de deturpar o conceito e tudo que envolvia essa divindade. Essa questão do sincretismo, da hibridização não foi tão espontânea e natural como algumas correntes históricas propagam, ao contrário, havia um processo anterior, seja como plano teórico, doutrinário ou prático que visava a hegemonia das religiões provenientes do cristianismo e, consequentemente, instaurar a homogenia. O cristianismo sendo o único responsável e apto a fazer a comunicação entre os dois mundos estava nos planos da colonização, uma vez que o discurso religioso assegurava formas de domínio e exclusão.
Outra questão que mencionamos, dessa vez, não foi de ordem exógena, mas, sim, endógena e contemporânea, no próprio campo religioso afro-brasileiro. Se houve um processo de hegemonia e homogenia exterior, proveniente de outro segmento religioso, não podemos negar o que ocorre dentro das religiões afro-brasileiras. Falamos dos mesmos processos, porém, de ordem interna. Pensamos ser fundamental questionarmos quem foram os responsáveis pela tentativa de hegemonia e homogenia nas religiões afro-brasileiras a partir da implementação de cursos de formação sacerdotal. Os cursos elaborados com materiais apostilados, com regras, normas de conduta, à moda “isso deve ser feito” “isso não deve ser feito” foram criados em São Paulo, cidade em que a burocratização espiritual da umbanda foi muito mais organizada. Como contraponto, basta observar as religiões afro-brasileiras no Rio de Janeiro, por exemplo, uma cidade em que há difusão dessas práticas e muito menos centralizações. As federações existem nas duas cidades, porém, em São Paulo a disputa pelo mercado de formação sacerdotal é inquestionável. Atualmente, tais cursos não necessitam nem ser presenciais. Basta que o aspirante a pai/mãe de santo faça depósito bancário e “encontre sua iniciação” a partir da interface com a tela de um computador. Após o famigerado diploma, o qual muitos gostam de ostentar nas paredes dos terreiros, os “pais” e “mães” de santo abrem suas casas. O prejuízo espiritual dessa prática é enorme, afinal, lidar com o destino de pessoas não é uma tarefa trivial. Já do ponto de vista material, esses recém sacerdotes passam a lucrar com a crendice alheia, como foi o caso do Paraná explicitado semana passada em rede televisiva.
Questionamos quem teria começado com os cursinhos de pais e mães de santo, mas, em seguida, refletimos que há necessariamente um público fiel para os mesmos. Pessoas que se interessam pelo caminho fácil e que se sentem atraídas pelo status, poder e remuneração que isso pode acarretar. O dom de sacerdote logo se transforma em profissão, afinal, em um mundo capitalista, jamais faltarão pessoas para tornar mercantil o que seria espiritual por excelência. O dom transforma-se em filão para as agências mercantis. A iniciação transforma-se em apostilas. A interação em uma família de santo transforma-se em uma tecla de computador.
Sentimos que existam, externa ou internamente movimentos a favor de codificação, de universalização de práticas e de hegemonia e homogenia. Todos eles pecam pela não valorização da diversidade e pela imposição de falsas verdades. Colocamo-nos próximos em pensamento, ideal e práticas de todas as casas de santo que esforçam-se por valorar todas as práticas iniciáticas firmadas, construídas no interior dos terreiros, pelo contato constante com a sabedoria do sacerdote e aprendizado em uma família de santo. São nessas casas, onde o olhar pela diversidade está aguçado e o axé compartilhado, que encontramos o ideal maior das religiões afro-brasileiras: a vivência da espiritualidade por uma ética própria, de responsabilidade e fortalecimento da pertença religiosa efetiva.

Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 411

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A proliferação das agências mercantis nas Religiões Afro-brasileiras



No último domingo entregamos a pena a nosso filho de santo Aratish, o qual discorreu, magistralmente, sobre a ação intencional proveniente do cristianismo em demonizar o Exu das religiões Afro-brasileiras a fim de ser a única responsável e capaz em fazer a comunicação entre dois mundos, dois sistemas cambiáveis, o transcendente e o imanente.
Na publicação de hoje gostaríamos de continuar a discorrer sobre algumas facetas da figura de exu e sua importância para o campo religioso brasileiro, tendo em vista a já pluralidade de visões e práticas mencionada no texto anterior. Nosso filho Aratish pontuou as ações da Igreja quando esta sentiu-se desafiada e ameaçada em perder fieis quando da maior visibilidade de inúmeras práticas religiosas afro-brasileiras, até então não nominadas como conhecemos hoje, mas perfeitamente vivenciadas. A associação da então divindade Exu com o demônio, com tudo que fosse negativo, ruim, desordeiro vem somar com outros pontos que gostaríamos de colocar. Isso continua acontecendo atualmente, porém, com o discurso e práticas neopentecostais cujos agentes incorporam a ideia de “guerra santa” ou “batalha do bem contra o mal”.
Partimos do mesmo dualismo antevisto por Aratish, a saber, o bem x o mal. Este dualismo, porém, comporta muitos outros conceitos opostos como a beleza e a feiura, a limpeza e a impureza, a higiene e a sujeira, saúde x doença, a ordem e a desordem. A Igreja Católica operacionalizou em suas práticas esses conceitos de forma com que os exus fossem associados aos segundos: ao que é feio, impuro, sujo, doente (maculado) e desordeiro. Seguimos parte do pensamento da antropóloga Mary Douglas, a qual articulou essas dicotomias demonstrando como o pensamento moderno ocidental foi desenvolvido nesses termos e formou uma cultura de preconceitos e desigualdades de vários matizes. O cristianismo soube fazer uso dessa construção que, mais que privilegiar apenas algumas formas de interpretação da realidade, soube deturpar tantas outras a fim de excluí-las. Como dissemos sempre, a hegemonia e homogenia.
O fato é que hoje, os assuntos ligados a pluralidade, multiculturalismo, diversidade étnica, religiosa, sexual, estão cada vez mais em pauta. Claro que ainda há muito a fazer, muita coisa ainda está apenas na teoria, nos papeis, nas leis. Mas, aos poucos sentimos um avanço para um olhar a favor da diversidade.
Muito nos estranha, porém, algumas ações que vinculam crime ao nosso movimento religioso. Pessoas que fazem uso de incorporações “montadas”, fictícias para obter dinheiro de outrem. Elas utilizam de elementos que estão presentes nos terreiros espalhados pelo país apenas para ludibriar pessoas e enriquecer às custas das mesmas. Interessante que as mesmas pessoas que cometeram tal atrocidade (pois não podemos chamar de outro nome) estão vinculadas a instituições tais como Conselho Mediúnico do Brasil e outras federações no Paraná. Entidades como essas tem promovido cursos de formação sacerdotal (pagos, é claro) e cursos de teologia sem a chancela do Ministério da Educação. São de instituições como essas que vemos cartilhas e apostilas dizendo o que é Exu, quais as entidades que se manifestam nesta ou naquela religião afro-brasileira e como as mesmas devem se portar. São ações que visam atingir um filão do mercado com objetivos essencialmente capitalistas. Colocamos tais ações no mesmo balaio das ações realizadas pelo cristianismo a fim de homogeneizar práticas religiosas na tentativa de atingir a hegemonia de um pensamento religioso.
Essas pessoas que inventam entidades espirituais para roubar outras pessoas e/ou que criam em suas federações modelos únicos a serem seguidos estão em sentido contrários a tudo o que temos vivenciado, seja em um universo menor do campo religioso afro-brasileiro, seja em uma proporção mais ampla, da sociedade mundial. A ideia de diversidade é, hoje, divulgada, teorizada e estamos no caminho de vivenciá-la. Vemos isso repercutir em assuntos vinculados a diversidade étnica, religiosa, sexual... Portanto, é evidente que tais movimentos compõem uma parcela aproveitadora desse filão mercadológico, capitalista. Infelizmente, são esses grupos que continuam a disseminar a ideia do exu em oposição ao bem, reforçam preconceitos dentro do próprio campo religioso afro-brasileiro e criam a cultura das agências mercantis. Os cursos de formação sacerdotal são exemplos disso. As pessoas que optam por fazê-los investem um valor apostando que, posteriormente, poderão abrir suas casas de santo e terem uma renda proveniente dessa ação. São pessoas ou descontentes com suas profissões ou desempregadas e que apostam suas fichas em uma iniciação, literalmente, comprada e fazem desta um negócio. Esses cursos, portanto, são muito mais prejudiciais que podemos imaginar. Além de imporem modelos únicos a serem seguidos (mais uma vez a homogenia e hegemonia), são cursos que criam, disseminam e fortalecem as agências mercantis do santo, onde tudo é fácil e rentável.
Sabemos que há muito mais pessoas íntegras nas religiões afro-brasileiras, pais e mães de santo que vivenciam suas práticas com dignidade e responsabilidade. Esperamos, também, que nossa atuação religiosa, como sacerdote responsável, e acadêmica, com a criação da Faculdade de Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras representem contribuições significativas em prol da valorização da ética no universo afro-brasileiro.
Axé!


Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 410


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Exu e a Diversidade

Muitos foram os desdobramentos do IV Congresso Internacional de Sacerdotes e Sacerdotisas e do XXIII Rito de Exu, ambos no último mês de outubro nas dependências da Faculdade de Teologia Umbandista (FTU). Indubitavelmente ambas as atividades reforçam nossa postura a favor da diversidade nas Religiões Afro-brasileiras, portanto contrária a qualquer forma de codificação do nosso movimento religioso. Somos avessos à homogeneização e hegemonização de quaisquer tipos, a começar pelo espiritual.

Sendo assim, gostaríamos de  passar a “pena” ao nosso filho espiritual Antônio Luz (Aratish) que usou do senso crítico (acadêmico) para discutir a diversidade usando como símbolo central Exu.  Reflexões naturais pós-rito. Axé!

Exu e a diversidade

Quem teve a oportunidade de vivenciar este último rito de Exu ou acessou os excertos deste ou dos ritos anteriores, constatará facilmente a diversidade do campo religioso afro-brasileiro. Neles se apresentam diferentes concepções e representações do Sagrado, em variados enredos simbólicos tecidos por estas religiões que se ressignificaram ou surgiram aqui no Brasil. Uma diversidade que foi transbordando dos terreiros para os diferentes planos da cultura brasileira, produzindo sua riqueza, porém sem perder sua unidade, fazendo o Brasil ser Brasil.

Neste campo das diversidades há, no entanto, adversidades (desculpem-me o trocadilho). Uma delas se refere exatamente às relações interculturais e inter-religiosas de diálogo, usualmente chamado, de sincretismo ou de hibridismos, que regulam as traduções entre estes universos religiosos e culturais, que formaram e ainda formam nosso campo religioso. Faço referência aqui, especificamente, ao sincretismo de Exu com o demônio. Tal representação - o mal substantivado, personificado - não pertencia às construções teológicas dos povos africanos aqui desembarcados, e só pode ser debitado às influências cristãs impostas desde a colonização.

Assim, muito dos dissabores produzidos por este sincretismo no plano das representações sociais, na verdade, tem a ver com a aproximação de egressos do cristianismo com as Religiões Afro-Brasileiras, mas que não abandonaram a visão maniqueísta cristã. Isto teria ocorrido não apenas porque a Igreja via nele (Exu) um concorrente à interlocução entre humanidade e as divindades - contrariando o dogma católico auto promulgado de ser a “única porta” - mas também porque Exu questiona o “status quo” social, as convenções e as desigualdades. A questão originalmente teria sido de caráter hegemônico, de uma ordem social e religiosa elitistas, sobre o nosso campo religioso. Esta hegemonia só poderia ser feita pela homogenia, a aniquilação da diversidade, a completa cristianização da sociedade brasileira e, quiçá, do mundo. O problema maior é que estes egressos importaram para dentro do nosso campo religioso tal equivalência (basta olhar as representações de Exu nas casas de materiais religiosos) ou ocultada nos discursos de combate à “magia negra” e aos “macumbeiros”.

Assim, ideologias que encobrem ou negam a alteridade - daquele que é diverso - ou que negam o “outro” (hegemonia/homogenia), têm sido usadas para justificar pretensões de codificação (acadêmicas, inclusive) e de purismos religiosos que surgem, vez por outra, sob a alegação de unificar e uniformizar para melhor entender, quando não, combater o preconceito e as perseguições religiosas. O povo-de-santo precisa estar atento a estas tentativas de “padronização”, que muitas vezes são produzidos por ideologias contrárias à diversidade, importadas de outras crenças.

Por fim, seria necessário lembrar que Exu é patrono da diversidade, não das desigualdades. Sobre este tema da diversidade deixo para a reflexão do leitor uma frase que ouvimos do Exu Sr... : “as pessoas gostam de Exu, porque Exu é ele mesmo”.

Aratish




Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 409