quinta-feira, 27 de setembro de 2012

ORO - CANTANDO A TRADIÇÃO


Nesta publicação postamos um álbum de fotos do último Toque de Encantados e Exus no Templo de Mãe Fabi de Yemanjá (Ominojudê) na cidade de Itanhaém – a Terra que canta e encanta.
No Toque observamos a comunidade de Santo de nossa Tradição unida, pois pais, filhos, netos, bisnetos, tios, tias e sobrinhos reunidos renovando o axé e ao mesmo tempo intensificando e adensando os laços fraternos e de estilo de vida das Religiões afro-brasileiras.
O próximo evento em Itanhaém será Oro Ibeji em que a comunidade de Santo de todas as Tradições e a sociedade geral de Itanhaém se irmanarão em busca de paz, saúde, fartura, alegria e prosperidade a todos. Axé!





Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 291

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

I SIMPÓSIO DA FACULDADE DE SAÚDE PÚBLICA DE SÃO PAULO


Disponibilizamos Convite da Faculdade de Saúde Pública de São Paulo em que fomos convidados para proferir a palestra Saúde e Espiritualidade na visão das Religiões Afro-brasileiras no I Símpósio Ciência, Espiritualidade e Saúde.

As inscrições podem ser feitas no site www.fsp.usp.br. As vagas são limitadas!

Axé!





Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 290




quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A TRADIÇÃO VIVENCIADA E RENOVADA DIA-A-DIA


Transmissão de práticas, fundamentos e mesmo de valores espirituais de geração em geração é o que se denomina Tradição.
Possivelmente encontraremos outras definições como: transmissão oral de lendas, fatos; conhecimento ou prática resultante da transmissão oral, entre outros.
Nas Religiões Afro-brasileiras todas as formas citadas como sendo Tradição se entrelaçam e se complementam. Por dentro das Religiões Afro-brasileiras há várias Tradições, todas nobres em seus propósitos mas que precisam ser vivenciadas não só no terreiro mas na vida...
Para conhecer e viver a Tradição é necessário, antes de qualquer coisa, saber sua origem, memória e reatualização. Este conhecimento-vivência faz com que o indivíduo-pessoa entenda como funciona e qual o mote, o que propõe seu pai ou mãe de santo e sua Comunidade Terreiro.
Sim, em cada Tradição há uma memória (história) e origem, ambas constantemente reatualizadas. Em cada tempo há um detentor da “Coroa da Tradição” que é o transmissor dos fundamentos aprendidos e vivenciados em uma sequência de transmissão de pai/mãe para filho desde os tempos imemoriais. Isto equivale a pessoa (filho/a de santo) perceber e sentir-se parte desta Tradição, que de fato o é. A isto denominamos pertença.
É muito grave, falo pelo lado do sacerdote, do pai-de-santo, introduzir ou transmitir a Tradição a qualquer um, pois é um ato irrevogável. Mesmo que o pai/mãe de santo não desejasse não poderá dizer que este ou aquele não foi seu filho/a-de santo, pois foi algo concretizado na Ancestralidade. Se assim o fizer, estará infringindo a lei que rege sua raiz da qual é detentor, mas principalmente um guardião.
É óbvio que há exceções, mas aqui nos referimos à regra e alicerçado nela afirmamos que o pai/mãe de santo incorpora e absorve a Tradição de seus iniciadores, sendo ele/a o elemento reatualizador da mesma. Isto promove a identidade dos membros de sua comunidade, sua cosmovisão, seu estilo de vida, ou seja, a maneira de encarar a vida, de vivenciá-la.
Pode-se questionar como incorporar a Tradição? Fui iniciado por um Mestre e após 7 anos de práticas e vivências no terreiro que me escolheu como seu sucessor, antes de fazer sua passagem para o outro lado da vida,. Sim, teríamos de levar a Tradição não só como Iniciado (tive com ele uma convivência iniciática de 18 anos) mas como Mestre-raiz – o pai-de-santo da raiz.
Toda vez que temos a oportunidade explicamos que como Mestre-raiz falamos em nosso nome (Tradição reatualizada) e de todos os demais que nos antecederam na Tradição da qual faço parte.
No encerramento, queremos salientar que a Tradição para muitos tem como pedra fundamental a continuação ad-aeternun de seus princípios categoriais, com o qual discordamos. Transmitimos e vivenciamos na teoria e principalmente na prática que Tradição tem uma pequena parcela que deve ser continuada, não mudada, mas a grande parcela deve ser transformada continuamente, requer mudanças.
Por isto afirmamos que a constante da Tradição é a contínua mudança, mormente por aquele que sabe e tem as chaves de sua Tradição, caso contrário, uns e outros poderiam invertê-la. Como sempre toda Tradição tem sabedoria e mecanismos de defesa para impedir a ação autodestrutiva ou de outrem.
Nesta publicação disponibilizamos vídeo: Reconhecendo a Raiz pela sua Linhagem. No vídeo observaremos mais de uma dezena de nossos filhos espirituais que possuem seus próprios Templos. Muitos deles cumprem há muito a tarefa, sendo iniciados há algum tempo, e outros estando nas obrigações finais de sua iniciação. É a raiz e sua reatualização por meio da linhagem por nós conduzida. Axé!



Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 289

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A EXPERIÊNCIA-VIVÊNCIA DO COMPLEXO AXÉ-IWÁ-ABÁ PROMOVE SAÚDE


Nas últimas postagens nos ativemos a discutir como as Religiões Afro-brasileiras conceituam indivíduo, saúde e doença e suas relações com o axé (Princípio Vital), “maná” fundamental na manutenção do equilíbrio, da harmonia e estabilidade do complexo mente-corpo-sociedade ou dos aspectos naturais e sobrenaturais.
Explicitamos que não se desdenha de conceitos da biomedicina que, embora, honoráveis em suas aspirações de prevenção, promoção e cura, diferem dos conceitos das Religiões Afro-brasileiras, principalmente de sua cosmovisão.
A cosmovisão das religiões afro-brasileiras afirma que vive-se ao mesmo tempo em duas dimensões diferentes: Orun (espaço sobrenatural) e Aiyê (espaço natural), mas que são apenas visões e percepções diferentes da mesma realidade, ou seja, o Aiyê (corpo físico) é manifestação do Orun (mente). Não há dualidade.
Discutimos, segundo nossa visão, como se entende saúde (corpo fechado) e doença (corpo aberto), sua relação com o indivíduo (o doente que manifesta a doença ou produz a doença) e sua capacidade de absorver, manter, multiplicar e renovar constantemente o axé.
O indivíduo quando não absorve a contento, o mesmo acontecendo com a manutenção, multiplicação e a renovação do axé, perde o equilíbrio da mente (enfraquece o Ori), perde a estabilidade afetivo-emocional (enfraquece o Okan e tudo que dele decorre) e a harmonia física e social (O Ará propriamente dito como um todo e seu convívio salutar com a sociedade é profundamente prejudicado).
O desequilíbrio, a instabilidade e a desarmonia deflagrados pelo indivíduo carente de axé (do relacionamento efetivo com seu Genitor Divino) são as causas das doenças, portanto, devida aos doentes (indivíduos) que desencadeiam doenças via mente, para o organismo todo e para a desastrosa convivência em sociedade (carência afetiva, econômico-financeira, etc).
Embora mantenhamos o respeito irrestrito com a biomedicina, nas religiões afro-brasileiras a visão de saúde e doença difere bastante. Entendemos que não há doença e sim doente, o qual nessa condição está de “corpo aberto” sem imunidade para as doenças físicas, mentais ou sociais, sendo o tratamento completamente diferente.
Tratamos o indivíduo não esquecendo ser ele uma unidade biopsicossocial e que está afeto a determinada cultura. Acreditamos que há necessidade de aspectos profiláticos ou preventivos, os de manutenção e os de, quando necessário, de reparação ou tratamento não só nos efeitos, mas fundamentalmente nas causas (no próprio indivíduo carente de axé, com repercussões mais ou menos sérias ou agravadas pela não atenção ao seu Iwá (destino) desencadeando um equivocado sentido a vida (Abá).
Adiamos para as próximas publicações os aspectos da etiologia das doenças segundo as Religiões Afro-brasileiras (não hegemônicos), prevenção e tratamento não olvidando ou excluindo outras possibilidades, inclusive aquelas proporcionadas pela biomedicina. Na próxima postagem discutiremos a relação saúde-equilíbrio-axé.
Axé!
Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 288

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

FTU FAZENDO GRASSAR AS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS



Pedimos aos amigos que acompanham nosso blog uma pequena licença para interromper a linha de pensamento que vínhamos traçando há algumas semanas sobre a visão de saúde e doença nas religiões afro-brasileiras. Tão importante quanto nossos apontamentos sobre essas questões é a notícia que vamos destacar nessa publicação.
Há vários anos a Faculdade de Teologia Umbandista vem participando de eventos acadêmicos de outras instituições além de organizar o congresso brasileiro das religiões afro-brasileiras que este ano completará sua quinta edição.
Inicialmente a trajetória trilhada pelos professores da FTU foi muito dura sendo que eles enfrentaram muita resistência não só acadêmica como do próprio universo religioso afro-brasileiro, mesmo que o discurso da diversidade religiosa se faça presente tanto na vertente acadêmica quanto religiosa. Felizmente, os anos passaram e o que poderia enfraquecer a luta pela visibilidade das religiões afro-brasileiras resultou em um processo contrário. Atualmente a Faculdade de Teologia Umbandista tem sido convidada a participar de eventos, não apenas como ouvinte, mas sobretudo, com poder de fala garantido.
Foi o que ocorreu no último dia 11 de setembro na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/Rio) no seminário intitulado O censo e as religiões no Brasil. Com uma programação bastante diversa o seminário propôs que algumas teologias abordassem os dados publicados no Censo 2010 sobre as religiões de forma a refletir sobre a noção do atual campo religioso brasileiro. Assim, a Faculdade de Teologia Umbandista foi convidada a falar sobre as religiões afro-brasileiras e foi representada pela sacerdotisa, teóloga (FTU/SP) e mestranda em Ciências da Religião (PUC/SP) Maria Elise Rivas.
A FTU ficou bastante honrada com o convite! A fala girou em torno dos dados trazidos pelo censo sobre a manutenção do número de 0,3% da população de adeptos afro-brasileiros, mesmo número de dez anos atrás. Assim, mais do que apresentar questões definidas, uma vez que o universo religioso é muito amplo e rotativo, e sabendo das dificuldades metodológicas do próprio Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para traçar um quadro claro das religiões e seus adeptos, Maria Elise optou por apresentar hipóteses para a manutenção do número. Ao contrário de alguns sociólogos que consideraram este resultado um significado de perda de adeptos, a teóloga propôs uma interpretação que levasse em conta a mudança na forma com que as pessoas se autodonominam religiosamente e que, portanto, deve ser analisada em termos estruturais da história das religiões afro-brasileiras no Brasil.
Dois momentos são marcantes nessa história. O primeiro de marginalização, criminalização e repressão das práticas religiosas afro-brasileiras principalmente pelo discurso médico-jurídico, sendo que seus adeptos tinham medo de afirmarem-se com tais. E o segundo momento que aponta para uma inversão desse quadro onde a ideologia da diversidade religiosa principalmente nas sociedades “multirraciais” teve de ser reprensada. Assim, algumas questões entraram na análise como as estratégias históricas para sobrevivência dos rituais afro-brasileiras, a identidade dos mesmos e o senso de pertença.
Apresentamos abaixo algumas fotos e um trecho da fala da sacerdotisa e teóloga Maria Elise Rivas, bem como o link da programação do evento:

Vídeo da teóloga Maria Elise Rivas:


Fotos do evento: 






Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 287


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

SAÚDE E DOENÇA: COSMOVISÃO NAS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS


Temos destinado as últimas publicações a discutir as questões que envolvem os conceitos de saúde e doença para as religiões afro-brasileiras. Longe de negar os fundamentos e práticas da medicina tradicional (biomedicina) queremos apenas apresentar uma visão diferente, particular do povo que vivencia a tradição religiosa afro-brasileira.

A saúde é um processo. A não efetivação do processo promove doença. Não há saúde ou doença, há sim indivíduos saudáveis ou doentes. O processo da saúde está relacionado ao trânsito normal de equilíbrio enquanto o processo da doença relaciona-se ao trânsito anormal ou desequilíbrio da parte psíquica (mente), afetiva, física e social. O equilíbrio mencionado relaciona-se ao indivíduo sadio (corpo fechado), imune às doenças psicossomáticas e mesmo as sobrenaturais. A grande diferença com outras propostas de cura, como a da medicina tradicional, é que para as religiões afro-brasileiras saúde se relaciona à boa articulação do axé, conceito definido como o princípio e poder de realização (energia vital).

Os vários rituais das religiões afro-brasileiras visam que o indivíduo absorva, mantenha e multiplique o axé, sendo que este pode estar presente nos minerais, vegetais, animais, objetos simbólicos, nos encantamentos, falas dos sacerdotes, rezas, orações, cânticos, etc. Quando o indivíduo não possui uma boa conduta social e ritual, certamente ele não estará com um bom trânsito de axé (corpo aberto), sendo que este se manifestará em sua economia psicossomática (mental, física e social = desarmonia com a sociedade vigente – aspectos econômicos/financeiros, afetivos/emocionais, saúde e espiritual).

Um indivíduo em dia com suas obrigações sociais e rituais estará equilibrado e saberá reter e multiplicar o seu axé, o que possibilitará saúde psíquica, afetiva e física. O contrário também é verdadeiro. Um indivíduo que está em débito com suas obrigações sociais e rituais sofrerá consequências, estará desequilibrado, o que repercutirá em sua saúde psíquica, afetiva e física. O axé é manifestação do poder espiritual (Orun) no Ayiê e é no Aiyê que encontra-se o corpo físico, o indivíduo inserido em sua sociedade e cultura. Quando ele não é imune às doenças, aos “infortúnios” e às desavenças, às demandas e ao contato, por exemplo, com eguns, tudo isso propiciará “doença” e o indivíduo é considerado como um indivíduo doente, de “corpo aberto”.

Há teorias que afirmam, por exemplo, que algumas doenças são de responsabilidades dos Orixás. As doenças de pele se relacionariam a Obaluaiê, as doenças venéreas femininas a Oxum, a impotência a Xangô e Exu, entre outras. Não discordamos disso, mas possuímos uma interpretação que leva em consideração a relação do indivíduo como ser diferenciado com sua Massa Genitora Divina (Orixás). Achamos que o homem precisa se harmonizar com as forças sutis da natureza, forças essas que são concretizações das vibrações dos Orixás aqui no Aiyê. Assim, os elementos ar, fogo, água e terra que determinam a massa genitora de cada Orixá e, por consequência de seus filhos, estão na natureza, estão também em nossos corpos físicos e, portanto, deve haver um processo de equilíbrio entre essas forças, uma sintonia fina que só é possível pelos vários processos rituais e sociais que o indivíduo precisa cumprir.

Quando um órgão está doente, cremos que o indivíduo como um todo já estava doente. Para que nossa assertiva se torne mais clara faremos uma analogia com a harmonia da mecânica celeste em que todos os corpos cósmicos se encontram em posições específicas, em movimento, mas “suspensos” no espaço, não se chocando uns com os outros. É desse equilíbrio, harmonia e estabilidade que cogitamos para o homem. Como isto ocorre? Os corpos cósmicos estão todos em equilíbrio e não “caem” (gravidade), ou seja, não desativam o sistema graças aos Orixás que mantém linhas de forças coordenadas pelos Exus. Os Orixás e Exus, portanto, mantém o equilíbrio da mecânica celeste. Em nível microcosmo isto não é diferente. Precisamos constantemente buscar o equilíbrio com os Orixás, buscar entrar em sintonia com as forças sutis da natureza e com suas leis, caso contrário, nosso complexo psicossomático estará comprometido o que, propiciará desequilíbrio, desarmonia, instabilidade como um todo e, portanto, doença.

Nas religiões afro-brasileiras há vários rituais que visam a cura do indivíduo como ebós, boris, sacudimentos, banhos de descarrego (processos emergenciais). A partir do momento que o indivíduo percebe todo esse processo, chamamos de autocura, propiciada unicamente pela Iniciação em seus vários níveis. No próximo texto, abordaremos os aspectos terapêuticos do transe e sua relação com a articulação indivíduo – axé – Orixás, além da Iniciação como Autocura. Axé!



Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 286

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A UNIDADE ORI-BARÁ-UMA VISÃO NÃO FRAGMENTÁRIA


As religiões afro-brasileiras possuem maneiras específicas de lidar com as questões relativas ao equilíbrio e desequilíbrio do indivíduo. Para melhor entendermos a perspectiva afro-brasileira convém destacarmos que acima de tudo elas não possuem uma visão fragmentária da realidade, ao contrário, compreendem a realidade espiritual e material como uma só, sendo esta última manifestação da primeira.
As doenças físicas são resultados da instabilidade, desequilíbrio e desarmonia do indivíduo consigo mesmo, com sua ancestralidade, com seus Orixás e, principalmente com seu Ori (destino). Nesse sentido, as doenças podem ser entendidas como a não percepção da integração do homem com ele próprio, com seus pares, com a natureza física e o sobrenatural.
Ao remontarmos a questão da não percepção do homem é importante pontuarmos que para as religiões afro-brasileiras os indivíduos sabem que estão vivos porque possuem o “exu no corpo” – princípio de individualização (Baraiye). Mencionamos na última publicação que no corpo físico a cabeça é a manifestação da mente e cada região está associada a um período de nossas vivências (passado, presente e futuro), ou seja, embora o Ori seja um só, temos em nós mesmos o passado, presente e futuro. Exu, o que dá o poder dinâmico da vida, é responsável por ajustar o trânsito do passado, presente e futuro com a finalidade de reuni-los, ou seja, ir ao encontro da Origem, ou, dos nossos Genitores Divinos, Orixás, Inkices e Voduns.
No painel das religiões afro-brasileiras, embora não se fale em mente e corpo, ao grassar a unidade Ori-Bará, reforça-se a não dualidade e também que a energia da mente não provém do corpo. Nós não saberíamos onde começa o Espírito e termina a matéria e vice-versa já que para as religiões afro-brasileiras, há planos de existência para uma mesma realidade (continuum).
Atualmente os processos mente-corpo vem sendo estudados de forma transversal pela psicologia, antropologia, neurociências, filosofia, em suas várias teorias e também por religiosos nas teorias ditas dualistas. A teoria relacionada com a ciência afirma que tudo provém do corpo, já as dualistas afirmam que a coisa mente é de uma substância diferente da coisa corpo. Nós não contrariamos as teorias, mas em nossas especulações afirmamos que não há dualidade. Para as religiões afro-brasileiras o corpo é manifestação da mente via sistema nervoso central onde o cérebro, embora seja um órgão nobre, é somente um instrumento (efeito) da mente (causa). Nas próximas publicações continuaremos as especulações aqui citadas. Axé! 


Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 285

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Efeitos terapêuticos dos rituais de fundamento das Religiões Afro-brasileiras


Dando continuidade aos textos sobre a visão de doença e saúde nas religiões afro-brasileiras gostaríamos de abordar que o corpo é manifestação da mente, ou seja, são planos diferentes de uma mesma realidade (Espírito). No corpo físico a cabeça é “sede” da mente.  Segundo as religiões afro-brasileiras, a cabeça relaciona-se ao Ori. A região posterior occipital (nuca) relaciona- se ao passado. Chama-se ipako ori e está relacionada ao Inconsciente manifesto nas experiências adquiridas.
A região frontal da cabeça relaciona-se ao futuro. Chama-se oju ori e está relacionada ao Supraconsciente, “contendo” as atividades sublimes que iremos conquistar.
Entre as duas regiões citadas encontra-se o ori propriamente dito e está relacionado ao presente. É nessa região que é feita a raspagem e cura (corte da Iniciação, em algumas Escolas) justamente porque relaciona-se ao nosso Consciente e, portanto, com tudo que diz respeito ao poder da nossa vontade para as aquisições de hoje.
Se colocássemos os três tempos míticos em sequência em um círculo veríamos que o passado e o futuro “se tocam”, ou seja, o Inconsciente que guarda nossa origem é o mesmo do nosso futuro. Assim, vários rituais das religiões afro-brasileiras tem por objetivo fazer com que o indivíduo atinja “espaços” mais profundos do seu Inconsciente, mais próximos de sua origem (seu estado de equilíbrio, harmonia e estabilidade), pois cremos que nele (Inconsciente profundo) está a Espiritualidade latente, porém, esquecida ou encoberta por tantos sedimentos sobrepostos durante séculos de nossas existências (Inconsciente superficial).
Os sonhos são também momentos de remontar ao passado de cada um. A fim de corroborarmos nossa assertiva trazemos para a discussão o sociólogo Roger Bastide, cuja abordagem adquirida do famoso psicanalista vienense, Freud, afirma que o inconsciente teria se formado “com o passar das eras de sedimentos lentamente sobrepostos uns aos outros e compactados pelo peso de todos os séculos; como se houvesse, em nossa alma desconhecida, camadas análogas às camadas geológicas, onde jazem, fósseis, as lembranças de vidas extintas. E então, durante o sono, desceríamos até a caverna, cavaríamos com paciente picareta um poço, a cada noite mais fundo (...)” (Bastide, 2006, p. 33).
Os rituais afro-brasileiros tem a capacidade de agir como a picareta, cavando nossas vivências do inconsciente superficial.
Os rituais específicos pensados e oficiados pelos sacerdotes e sacerdotisas afro-brasileiros para cada indivíduo tem por finalidade rebaixar, neutralizar o conteúdo negativo do inconsciente superficial (“espaço” dos nossos hábitos, vivências e automatismos) para descortinar o Inconsciente profundo, sede da Espiritualidade. Tais rituais decodificam e traduzem as mensagens do Inconsciente profundo de modo não abrupto, mas naturalmente, sem choques. Alguns médiuns ou iniciados tem acesso às suas vivências passadas, sem nenhum dano à consciência ou ao psicossomatismo, pois estas são percebidas via estados superiores de consciência por alguns rituais de fundamento.
Os sacudimentos ou ebós seguidos de Bori são exemplos de rituais destinados a esse fim. Os sacudimentos e ebós limpam, descarregam todas as negatividades do indivíduo. Após essa limpeza, em um segundo momento, o ritual de Bori visa reconstruir um Ori fortalecido. Tais rituais são constantemente refeitos pois os indivíduos, mesmo os já iniciados, precisam aprofundar-se em seu Inconsciente (penetrando e refazendo o destino). A cura e autocura afro-brasileira, portanto, não visam a um indivíduo apenas, pois ainda que cada ritual seja pensado e aplicado na dependência das particularidades de cada indivíduo, ao final de cada ritual, toda a comunidade sai fortalecida uma vez que estão irmanados em uma comunidade de santo e, pelo princípio de interdependência (pela redistribuição de axé) que rege a ética dos terreiros afro-brasileiros, todos recebem um saldo positivo.
Nas próximas publicações continuaremos a discutir o tema.

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 284