segunda-feira, 30 de julho de 2012

EXPANSÃO DAS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS-NASCE MAIS UM TERREIRO!!


Aproveitando a última publicação em que comentávamos sobre a relação pai e filho espiritual, tendo como exemplo o vínculo estabelecido entre mim e Mestre Yapacani, gostaríamos de falar sobre um ritual interno destinado à louvação de exus e pomba-giras realizado no Templo de Mãe Fabíola no litoral paulista no último dia 27 de julho.
Mãe Fabíola é nossa filha há menos de um ano quando nos pediu orientações para guiar seu caminho espiritual e, desde então, tem sido orientada por nós para ajustar seu templo. Neste final de semana alguns de meus filhos espirituais já haviam sido convidados para nos auxiliar em nosso outro templo, que está sendo estruturado também no litoral. Assim, aproveitando a ocasião principal de acertar alguns detalhes de nosso templo, levamos nossos filhos ao ritual interno conduzido por Mãe Fabíola.
Descreveremos rapidamente o encontro pois todos sabem que nas religiões afro-brasileiras nada é possível de ser totalmente compreendido apenas em livros e, muito menos, em manuais. Uma característica fundamental de nossa cosmovisão é a transmissão oral vivenciada, ou seja, a apreensão se dá a partir de vivências de anos no universo “do santo”. De qualquer forma, aproveitamos o blog para compartilhar parte desse encontro com nossos amigos.
O ritual foi simples, sendo composto pelos filhos espirituais de Mãe Fabíola mais os filhos de nossa Casa de Fundamentos raiz, localizada em São Paulo. Após os rituais preparatórios como defumação, bater a cabeça para o Orixá a Pomba-gira que trabalha com Mãe Fabíola “desceu” em Terra. Nós estávamos participando, mas não tínhamos a intenção de incorporar, mas logo em seguida Sr. Capa Preta baixou e direcionou os trabalhos da Casa. Mãe Fabíola e a entidade Sra. Pomba-gira pediram que Sr. Capa Preta ordenasse a gira. Todos os exus trabalham em uníssono, com bastante sintonia em prol do bem estar coletivo dos que estavam e também daqueles que não estavam presentes.
O ritual se estendeu por algumas horas de bastante alegria e trabalho. Sabemos que a mediunidade e o comando de uma casa não são tarefas fáceis e requerem muita dedicação, trabalho, determinação, honestidade e convicção no astral superior.
Assim, desejamos que Mãe Fabíola tenha sucesso espiritual, mente lúcida e coração serenos para levar avante sua tarefa. Com certeza, mais uma luz brilha no céu do litoral paulista com o templo de Mãe Fabíola, que ora se estrutura nos fundamentos do axé. Axé!






Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 274


quinta-feira, 26 de julho de 2012

A INICIAÇÃO E A BOA RELAÇÃO ENTRE MESTRE E DISCIPULO


Ao adentrar no processo de iniciação nas Religiões Afro-brasileiras, os filhos espirituais criam certas expectativas naturais para quem inicia um novo projeto de vida. A iniciação nas Religiões Afro-brasileiras visa um processo de reestruturação espiritual, mental e sentimental no indivíduo e, portanto, não é um caminho tão comum como muitos podem imaginar.
Infelizmente, a visão reduzida que muitos tem acerca das religiões afro-brasileiras partiu do que foi escrito pela antropologia e sociologia desde o início do século passado. Os vários rituais que foram descritos são apenas uma parte ínfima do que acontece em um processo de iniciação.
É natural que as pessoas imaginem coisas e criem expectativas mas o iniciante deve procurar ficar sereno pois o pai de santo sabe como orientar esse processo. Toda vez que escrevemos sobre isso é impossível não relembrar da nossa própria caminhada, como nossos vários mestres e que culminou com aquele que me alçoou ao encontro dos ancestrais, W.W.da Matta e Silva, com quem tive a honra de viver 18 anos.
Sempre tive respeito pela figura ímpar de Mestre Yapacani, pessoa honesta, simples, cujas características passei a querer também para minha pessoa. Nunca vi a Iniciação como degrau para poder porque sempre a entendi como algo transcendente, algo de extrema redenção espiritual.
Tive a felicidade de receber vários presentes de Mestre Yapacani, visíveis e invisíveis. Um deles que muito me marcou foi quando recebi sua visita em meu templo quando tinha 33 anos e ele me ofertou os sinais que Pai Guiné havia riscado em perfeita incorporação nele em 1946. Foi um grande presente e que só fui entender em dezembro de 1987 quando Pai Guiné fez um ritual de transmissão da raiz, tornando-me Mestre de Iniciação de 7º grau 3º ciclo, sucessor de sua Linhagem. Tal tarefa que me foi delegada eu honro todos os dias na certeza e convicção de que o mundo espiritual ordena e orienta pelo bem de todos.
Nunca pedi nada a Mestre Yapacani, mas posso dizer hoje que só é bom mestre aquele que foi um bom discípulo. E mais, um mestre não se faz de mãos vazias, mas com muito trabalho e realizações pelo coletivo. Uma dessas realizações foi a criação da 1ª Faculdade de Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras.
Agradeço a todos os meus discípulos que entendem e participam ativamente desta tarefa inovadora. A todos luz na mente e paz no coração!
Dedico todas as realizações a Mestre Yapacani e ao Astral de nossa Linhagem.Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 273

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O CONCEITO DE ESCOLAS: REVIRAVOLTA NO PROCESSO HISTÓRICO DAS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS


Destinamos nossa última publicação a discorrer sobre as particularidades existentes em cada processo de iniciação das Religiões Afro-brasileiras e como o conceito de Escolas instaura uma nova prática de respeito incondicional a todas elas.
Gostaríamos no texto de hoje de ressaltar alguns pontos, justamente para esclarecer o amigo leitor a fim de que não venhamos a ser mal interpretados. No texto anterior dissemos que cada Escola tinha seu próprio estilo de iniciação segundo sua ética e fundamentos específicos.
Mais uma vez gostaríamos de deixar claro que não somos contrários a qualquer modelo de iniciação, desde que este seja verdadeiro, honesto, siga sua Tradição e Linhagem. Não colocamos nesse universo apenas aqueles grupos que escrevem em nome dos Ancestrais cometendo erros científicos de teorias já amplamente divulgadas pela nossa Ciência. Assim, os grupos que responsabilizam entidades espirituais por erros de seus médiuns não entram em nossa análise. Todos os outros, porém, merecem nossa atenção.
Gostaríamos de chamar a atenção para um ponto de suma importância e que muitas vezes passa despercebido, a crítica que a Umbanda Esotérica sofre por ter preconceituado outras formas de se pensar e praticar as religiões afro-brasileiras. Longe de defender cegamente tal Escola, lembramos que todas as religiões de matrizes africanas e ameríndias, independente de qual sua denominação, sofreram entre os anos 30 e 40 do século passado (ditadura getulista) forte perseguição. Na época o modelo vigente e aceito como de “bom costume” era a prática católica, justamente, pelos vários períodos de acordo entre Igreja e Estado.
Práticas rituais com danças, tambores, oferendas rituais, bebidas, sacrifícios, eram vistas como feitiçaria, macumba ou “baixo espiritismo”, não apenas pelas práticas em si, mas pelo preconceito e racismos contra quem as praticava, até o momento majoritariamente negros, índios e descendentes. Para que pudessem funcionar os terreiros eram obrigados a pagar o que ficou conhecido como “Taxas de Proteção”, valores altíssimos. Claro está que poucos o faziam porque negros, índios, mestiços, mamelucos tinham condições econômicas desfavoráveis, eram excluídos e viviam em condições precárias. Assim, grande parcela dos terreiros era obrigada a viver na clandestinidade, sofrendo o risco de serem surpreendidos a qualquer momento pelas batidas policiais, às quais levavam muitos para a prisão.
Após esse período triste de nossa história as religiões afro-brasileiras foram aos poucos se disseminando e “aparecendo” por todos os cantos do país. Era um processo ainda tímido de praticar sua crença sem que fossem rechaçados e preconceituados. Assim, não fica difícil entender porque após um período de forte repressão, e após tal período, cada terreiro tenha caminhado com suas próprias pernas, tentando levar avante aquilo em que acreditavam e fechando-se em grupos pequenos. Foi um movimento de resistência e preservação. Para prosseguir no campo religioso foi preciso se fechar, criar barreiras para melhor criar sua identidade e força, para melhor enfrentar as várias lutas interreligiosas. Foi um momento em que todos os terreiros, de todas as Escolas afro-brasileiras, buscavam se legitimar e para isso diziam que suas práticas eram melhores que as dos demais terreiros.
 Assim, a Umbanda Esotérica é um entre muitos exemplos que podemos citar de Escola que sentiu necessidade de fechar-se para melhor se estruturar, amparar seus fundamentos e legitimar-se, já que anteriormente havia sofrido combates, ataques e enfrentamentos, os quais, poderiam ter levado ao fim de tal prática.
Dessa forma, levamos o leitor e ver o outro lado da moeda, o lado de quem observa o jogo religioso mediante o processo histórico e vendo neste a possibilidade de compreensão de muitos discursos. Se em algum momento a Umbanda Esotérica julgou outras formas de cultuar o Sagrado nas Religiões Afro-brasileiras, certamente o fez, para dar conta de um processo repressivo imposto. Isso não justifica o preconceito e a falta de respeito com os demais, mas possibilita que nós analisemos o arranjo intrarreligioso a partir dos fatos históricos. Assim, tomando emprestado de um grande pensador do século passado Karl Marx, penso que devemos utilizar o materialismo histórico ou a dialética materialista para analisar o processo de legitimação das religiões afro-brasileiras no Brasil, vendo nesse processo lutas postas em jogo mas que podem ser revistas já que a dialética nos força à transformação.
Finalizando, o conceito de Escolas discutido e difundido por nós é a grande mola propulsora para a reviravolta nesse percurso histórico, abrindo espaço para um olhar equânime entre as religiões afro-brasileiras e que só foi possível, graças ao amadurecimento da sociedade como um todo e do povo de santo em particular para compreender que todas as religiões afro-brasileiras fazem parte do acervo espiritual do Brasil e tem seu motivo de existir. Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 272

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O CONCEITO DE ESCOLAS LEGITIMA E VALORIZA OS PROCESSOS DE INICIAÇÃO NAS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS


Esta semana nosso filho espiritual Antonio Luz foi apresentar um trabalho acadêmico em um Congresso Internacional sediado na Universidade de Viena (Áustria). Na ocasião, aproveitou e divulgou nossa obra recém editada Escolas das Religiões Afro-brasileiras – Tradição Oral e Diversidade. Escrevemos esse livro na expectativa de apresentar o conceito de Escolas e seus fundamentos dentro da epistemologia teológica afro-brasileira, mas principalmente para disseminar um valor, o do respeito incondicional a todas as formas de se praticar e viver as religiões afro-brasileiras.
Pensando sobre o conceito de Escolas é impossível não refletir sobre a importância da iniciação nas várias Escolas Afro-brasileiras, cujos processos são particulares e diferenciados.
Em paralelo a outras leituras, líamos recentemente as teorias antropológicas de Louis Dumont, cuja análise principal remonta às origens do individualismo na sociedade moderna. Para realizar tal intento, Dumont (1985) pesquisou a sociedade indiana e percebeu que os indivíduos que pleiteiam a iniciação o fazem renunciando ao mundo hodierno. Não existe processo de iniciação indiana sem a abstenção dos valores do meio social. O social visto como um óbice à escala individual rumo à libertação. Outra característica pontuada por Dumont é que o indivíduo que aspira e adentra em um processo de iniciação pensa apenas em sua iniciação, em como proceder para conseguir atingir sua meta de redenção espiritual, ainda que possa viver com outros iniciantes em mosteiros ou outras moradias coletivas religiosas. Em função disso, Dumont chama esse indivíduo indiano de “indivíduo-fora-do-mundo” a fim de compará-lo com o tipo de individualismo existente na sociedade moderna ocidental, em que os indivíduos vivem em seus meios sociais e, portanto, denomina-os de “indivíduos-no-mundo”.
A partir dessa leitura que ocasionalmente nos chegou às mãos, refletimos sobre os processos de iniciação nas religiões afro-brasileira não a fim de estabelecermos um marco diferencial qualitativo entre um e outro, apenas para mostrar suas características.
A Umbanda Esotérica, por exemplo, possui um modelo de iniciação bastante semelhante ao analisado por Louis Dumont na sociedade indiana. Ainda que a iniciação seja realizada dentro de uma comunidade de santo, com rituais coletivos, inclusive, o pensamento vigente é que o indivíduo busque sua libertação da forma de vida profana estabelecida pela sociedade contemporânea. Ainda que orientado por uma mãe ou pai espiritual, o iniciante conta consigo próprio para atingir seu intento, a partir de uma prática de conduta quase ascética. O iniciante na umbanda esotérica assemelha-se ao iniciante indiano, ele é um “indivíduo-fora-do-mundo”, esse é o modelo que ele busca pensando na sua iniciação e, portanto, libertação espiritual.
Já as iniciações de outras Escolas umbandistas, por exemplo, assemelham-se mais ao modelo da sociedade moderna ocidental, cujo indivíduo mantém-se no mundo, não fica apartado dessa realidade. Assim, nesses processos, o indivíduo não visa separar-se dos valores da sociedade, mas buscar sua iniciação, apesar deles e junto a eles. Da mesma forma que na umbanda esotérica, o indivíduo faz parte de uma comunidade de santo, mas o senso de pertença coletiva e pelo emaranhado de relações que estabelece com a sociedade em nível macrossocial, não pensa apenas no seu processo de iniciação, mas no processo de iniciação coletivo. Muitos integrantes da umbanda esotérica afirmam que seu processo de iniciação é muito mais árduo, difícil. Mas questionemos, não será mais difícil quando a iniciação é processada e praticada em meio ao turbilhão de valores sociais anti-espirituais? E seria justo pensarmos apenas no nosso processo de iniciação, seria possível ser liberto quando muitos seres ainda sofrem, penam e gemem de mazelas materiais?
Assim, muitas pessoas costumavam disseminar a superioridade da iniciação da umbanda esotérica frente a outras, em um discurso neo-evolucionista e preconceituoso com outras práticas. Porém, a introdução do conceito de Escolas faz com que revejamos e repensemos todos os nossos conceitos uma vez que não é possível estabelecermos uma perspectiva comparativa em termos qualitativos. Assim como não podemos mais comparar e escalonar culturas, não o podemos fazer com as práticas religiosas afro-brasileiras.
Assim, nossa intenção não é diminuir o processo de iniciação da umbanda esotérica, até porque o respeitamos muito e sabemos de sua eficácia. Mas convém alertarmos para o cuidado que alguns praticantes da mesma devem ter em seus discursos que podem inferir uma prática discriminatória e, inclusive, elitista.
O conceito de Escolas foi paradigmático pois se tornou impossível privilegiarmos uma prática em detrimento de outras. O conceito de Escolas rompe com toda forma de homogenia e hegemonia, possibilitando que todas as cosmovisões afro-brasileiras sejam valorizadas e respeitadas. Mais uma vez ressaltamos que não pretendemos criticar nenhum processo de iniciação, apenas alertar para a forma com que seus praticantes o entendem e disseminam seus discursos.
Aproveitamos o final da publicação para agradecer a todos os professores doutores em suas áreas do conhecimento que ministraram aulas na pós graduação lato sensu na Faculdade de Teologia Umbandista no módulo Escolas das Religiões Afro-brasileiras, em que abordaram a ampla diversidade religiosa afro-brasileira e sua plêiade de rituais, cumprindo a missão de FTU em formar teólogos e especialistas com uma visão humanizada da sociedade como um todo e do próprio campo religioso afro-brasileiro.
Finalmente, agradecemos ao mundo espiritual pela benção de ofertar variados caminhos para que todos os seres humanos possam encontrar-se em espíritos. Axé!



Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 271

segunda-feira, 16 de julho de 2012

FTU NO XXV CONGRESSO INTERNACIONAL DA SOCIEDADE DE TEOLOGIA E CIÊNCIAS DA RELIGIÃO (SOTER): DANDO VOZ AO POVO DE SANTO



Recentemente disponibilizamos texto de nosso filho espiritual João Luiz Carneiro sobre a divulgação dos dados do censo 2010. Neste último censo as religiões afro-brasileiras não perderam número de adeptos pela primeira vez em todos os recenseamentos, fato bastante inovador. Na ocasião nosso filho espiritual apresentou a hipótese de que a Faculdade de Teologia Umbandista possibilitou que muitos filhos espirituais que antes não denominavam-se de umbandistas, pudessem se afirmar sem “medo” do preconceito.
Seguindo esse caminho aproveitamos essa publicação para relatar a presença de três teólogas com ênfase nas religiões afro-brasileiras no XXV Congresso Internacional da SOTER – Sociedade de Teologia e Ciências da Religião que ocorreu na PUC-BH, pessoas que além de profissionalizarem-se teólogas estão disseminando a epistemologia afro-brasileira, abrindo espaço para este campo teológico.
As teólogas foram apresentar trabalhos acadêmicos sobre o universo afro-brasileiro em um campo “tradicionalmente” cristão. Além de divulgarem seus trabalhos acadêmicos elas passaram dois dias em um retiro católico. Muitas pessoas ficaram extremamente felizes pela presença das teólogas afro-brasileiras neste evento, como foi o caso da Profª Dra Sandra Duarte da UMESP-SP, cuja fala em um dos GTs incentivou a participação de outras confessionalidades e, principalmente, a divulgação das experiências religiosas alheias.
A Faculdade de Teologia Umbandista tem várias funções. Uma delas, sem dúvida, foi ter possibilitado que os adeptos das religiões afro-brasileiras se afirmassem como tal, já que uma instituição de ensino superior credenciada pelo Ministério da Educação é algo que inspira respeito e legitimidade. Aliás, antes mesmo da FTU, os terreiros tinham legitimidade e legalidade, mas uma instituição de ensino superior dá respaldo e força aos seus praticantes.
Aproveitamos para esclarecer que a Faculdade de Teologia Umbandista possibilita a união dos terreiros, dá força às religiões afro-brasileiras e nunca teve o caráter de elitizar ou criar um grupo seleto de pensamento afro-brasileiro. O mote da FTU, desde sua criação, foi a de dar voz e vez a todos os adeptos das religiões afro-brasileiras, garantindo sua isonomia religiosa.
Esperamos que nos próximos censos mais pessoas sintam-se abertas e confortáveis para dizerem-se afro-brasileiras, independente de qual Escola façam parte. E também que vários amigos que ainda não conheçam a FTU venham conhecê-la, será um prazer!Axé!

 Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 270

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A resistência das Religiões Afro-brasileiras em números: Construindo uma hipótese


Na presente publicação, disponibilizamos um texto interessante sobre os números do CENSO-2010 do nosso filho espiritual Yabauara (João Luiz Carneiro) que também é acadêmico e pesquisa sobre as Religiões Afro-brasileiras. Axé!


A resistência das Religiões Afro-brasileiras em números:
Construindo uma hipótese

No dia 29 de junho deste ano, o IBGE disponibilizou a participação percentual das religiões no total da população brasileira. Eis o número atual, ano 2010, e a comparação com o censo de 2000:



Diante do exposto, as Religiões Afro-brasileiras são 0,3% do número total de habitantes do nosso país. Este número é difícil de digerir para quem é adepto e estuda estas religiões. Afinal, este questionário possui deficiências na hora de retratar a múltipla ou dupla pertença e o fato de um adepto das Religiões Afro-brasileiras se autodenominar como católico ou espírita em nada invalida a sua filiação a este universo religioso afro-brasileiro[i].

Contudo, na condição de acadêmico não posso negar que este levantamento oferecido pelo Censo do IBGE é o retrato mais próximo do real. Logo, os números que o estudo oferece não podem ser olvidados. Sendo assim, convido ao leitor que analise a evolução das religiões afro-brasileiras nas últimas décadas:



Ao constatar a evolução dos números (1980 até 2010), as Religiões Afro-brasileiras pela primeira vez não caíram na medição do IBGE. Isto não deixa de representar uma importante resistência, tendo em vista os avanços de igrejas eletrônicas no Brasil com braços significativos no poder político, econômico e social. Lembro que pessoas de referência no meio apontaram que justamente estes avanços de setores mais radicais do protestantismo/(neo)pentecostalismo seriam os responsáveis diretos pela dizimação ou até mesmo aniquilamento das Religiões Afro-brasileiras.

Ocorre que, de fato, nos últimos dez anos só têm aumentado os ataques às Religiões Afro-brasileiras e mesmo assim, após uma década, o número de adeptos das Religiões Afro-brasileiras se manteve.

Uma nova questão surge: O que aconteceu de significativo nas Religiões Afro-brasileiras em nível nacional que possibilitou ou, pelo menos, auxiliou esta resistência?

Ainda é muito recente a publicação destes números e em dez anos muita coisa aconteceu no Brasil. Mas já podemos levantar hipóteses. Diante do que venho pesquisando, sugiro uma: a criação e consolidação da Faculdade de Teologia Umbandista (FTU) com ações religiosas e acadêmicas de cunho presencial, telepresencial, internet, sem falar dos ritos de aproximação das várias comunidades da nossa religião no país e fora dele. Este é o fato novo e expressivo na última década neste cenário religioso que, portanto, não pode ser deixado de lado.

As iniciativas da FTU, instituição concebida e criada pelo sacerdote F. Rivas Neto (Pai Rivas), continuam a repercutir na sociedade mesmo depois desta primeira década. Destacamos a rede mundial de computadores. Apenas para ilustrar, citamos o Blog Espiritualidade e Ciência[ii] que neste início de ano superou os 100.000 acessos[iii] e o seu canal de vídeos gratuitos no Youtube[iv] com mais de 223.000 acessos[v].

Além disto, ainda neste ano, acontecerá nas dependências da FTU o III Congresso Internacional de Sacerdotisas e Sacerdotes das Religiões Afro-brasileiras/Americanas. O maior encontro de Escolas[vi] das Religiões Afro-brasileiras no ano passado resultou em um blog[vii] com a contribuição de mais de 300 pais e mães espirituais, além de superar os 60.000 acessos[viii] em apenas 8 meses.

Por tudo que esta instituição fez e está fazendo, entendo que é plenamente possível levantar a FTU como hipótese para justificar a resistência das Religiões Afro-brasileiras quando consideramos o número de seus adeptos na última década.

João Luiz Carneiro
Doutorando em Ciências da Religião (PUC-SP)
Mestre em Filosofia
Professor da Faculdade de Teologia Umbandista


[i] Prandi discorda desta colocação, mas reconhece dificuldades nos números oferecidos pelo Censo do IBGE quando analisa a dinâmica religiosa afro-brasileira. Cf. PRANDI, R. As Religiões afro-brasileiras e seus seguidores. Civitas – Revista de Ciências Sociais v. 3, nº 1, jun. 2003. Disponível em <http://revistaseletronicas.pucrs.br/civitas/ojs/index.php/civitas/article/viewFile/108/104> acesso 11 de julho de 2012.
[ii] RIVAS NETO, F. Blog Espiritualidade e Ciência: A Interdependência entre Espiritualidade, Saúde e Sustentabilidade. Disponível em: <http://espiritualidadeciencia.wordpress.com> acesso 11 de julho de 2012.
[iii] Fonte: Google Analytics
[iv] RIVAS NETO, F. Canal Espiritualidade e Ciência. Disponível em: <http://www.youtube.com/pairivas> acesso 11 de julho de 2012.
[v] Fonte: Youtube
[vi] O conceito de Escolas das Religiões Afro-brasileiras foi desenvolvido por F. Rivas Neto. O autor sustenta, por exemplo, que na Umbanda: “(...) pela diversidade dos seus adeptos, há também uma diversidade de ritos e de formas de transmissão do conhecimento. A essas várias formas de entendimento e vivência da Umbanda denominamos escolas ou segmentos. (...) As várias escolas correspondem a visões, umas voltadas mais aos aspectos míticos e outras mais voltadas à essência espiritual, abstrata. Embora não haja consenso quanto à ritualística, que são várias formas de interpretar e manifestar a doutrina, a essência de todos é a mesma e todos são legitimamente denominados umbandistas”. RIVAS NETO, F. Sacerdote, Mago e Médico: cura e autocura umbandista. São Paulo: Ícone. 2003, p. 459-460.
[vii] FTU. III Congresso Internacional de Sacerdotisas e Sacerdotes das Religiões Afro-brasileiras/Americanas. Disponível em: < http://religiaoediversidade.blogspot.com.br/s> acesso 11 de julho de 2012.
[viii] Fonte: Google Analytics


Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 269

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Magia, Psicurgia e Teurgia: Reflexões nas Religiões Afro-Brasileiras


Esta publicação é destinada a rever alguns aspectos da relação entre o Homem com a Natureza e suas manifestações: Reino Mineral – Vegetal – Animal, atuando sobre os elementos sensíveis e latentes, físicos e hiperfísicos. Em suma, falaremos rapidamente sobre a magia.
O texto-base que deu origem a esta publicação está em Fundamentos Herméticos de Umbanda, cuja obra está sendo reeditada e será lançada em breve.
As religiões afro-brasileiras foram categorizadas como mágicas de forma pejorativa pela literatura sócio-antropológica e apenas nas últimas décadas foram reinterpretadas. Em uma das análises mais recentes Vagner Gonçalves da Silva mostrou como a umbanda e candomblé apresentam-se como religiões em termos weberianos e não apenas mágicas (Silva, 1995). Assim, o universo afro-brasileiro deixa de ser apenas magia para elevar-se ao status de religião, assim como todas as demais. Outro fator que contribuiu para um olhar mais equânime com as religiões afro-brasileiras foi o surgimento da Faculdade de Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras, possibilitando o viés acadêmico da cosmovisão afro-brasileira aos seus adeptos e não adeptos também.
A magia foi analisada por vários antropólogos mas muito pouco esmiuçada em termos teológicos e são nesse termos que pretendemos abordar aqui.
A Magia, a Psicurgia e a Teurgia, podem ser associadas aos aspectos positivos, relativos e superlativos, respectivamente, são Artes Dinâmicas.
A magia é mais afeta aos elementos, elementais e elementares. A psicurgia é afeta aos elementos de ordem astral e suas egrégoras consonantes (aspectos psicológicos), atuando mais diretamente no psiquismo, na “alma”. A teurgia é um aprofundamento da magia e psicurgia. Seus elementos mentais-espirituais atuam mais diretamente nas várias potências espirituais.
A magia é básica, a teurgia é o corolário da movimentação da energia em seus diversos graus de densidade e dos diversos graus hierárquicos das potências espirituais.
Para não reinventar a roda, utilizaremos a nomenclatura indo-védica no esquema abaixo, elucidando as Artes Dinâmicas:
No organismo físico (grau positivo – magia):
O mantra associa-se aos Cânticos Sagrados, pontos cantados, louvarias, orikis.
O yantra associa-se aos Movimentos: danças sagradas
O tantra associa-se aos vários rituais, ebó, bori, feituras.
No organismo astral (grau relativo – psicurgia):
O mantra associa-se à voz do coração, ao sentimento trazido pelas entidades.
O yantra associa-se à escrita dos Orixás, como as pembas, por exemplo.
O tantra associa-se ao poder criativo gerado a partir do axé dos rituais.
No organismo mental (grau superlativo – teurgia):
O mantra associa-se à vontade de lutar pelos valores espirituais.
O yantra associa-se à expansão da consciência gerada a partir do contato com as entidades nos rituais.
O tantra associa-se à luz consciencial, às vibrações e axé trazidos diretamente pelos Orixás e entidades. Em verdade, axé – iwá – abá.
Apresentamos os esquemas acima como forma de trazer a reflexão sobre as formas que os Orixás se manifestam: mantra, yantra e tantra, pela nomenclatura indo-védica. Em realidade, todas elas são possibilidades de manter o contato com as divindades, com os ancestrais e toda a plêiade de seres espirituais, sendo a magia, a psicurgia e a teurgia, artes específicas manipuladas por sacerdotes responsáveis com as tarefas espirituais visando o auxílio de todos.

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 268

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Continuando os aspectos iconográficos do Rito de Mestre Canindé e Encantaria dos Mabaças



Como afirmamos na última publicação, no dia 29 de junho realizamos o rito de Mestre Canindé e Encantaria dos Mabaças.

As fotos abaixo mostram outras perspectivas do enredo completo do rito, desde a chegada da divindade Xangô em uma iniciada da Casa, passando pela incorporação de Caboclo Malembá, de Mestre Canindé, dos candengos e do Rei da Turquia.

Viva a diversidade das Religiões Afro-brasileiras! Axé!







Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 267

segunda-feira, 2 de julho de 2012

MESTRE CANINDÉ E ENCANTARIA DOS MABAÇAS


No último dia 29 de junho nossa Casa de Fundamentos realizou o rito de Mestre Canindé e Encantaria dos Mabaças. O ritual foi realizado no templo da Chebl Massud e foi preparado durante toda a semana pela comunidade de santo interna. Nossa publicação destina-se a apresentar parte do material iconográfico registrado  a fim de que os amigos do blog e toda a comunidade de santo possam visualizar os elementos rituais e simbólicos. Sabemos que as fotos não são capazes de transmitir o sentimento vivenciado mas afloram a sensibilidade e registram momentos já eternizados na nossa retina espiritual, que esperamos compartilhar.
O ritual foi composto por 5 fases e as fotos abaixo seguem a sequência e contam o enredo completo do rito, desde a chegada da divindade Xangô em uma iniciada da Casa, passando pela incorporação de Caboclo Malembá, de Mestre Canindé, dos candengos e do Rei da Turquia.
Viva a diversidade das Religiões Afro-brasileiras! Axé!





Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 266