segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras promovendo o diálogo com a Sociedade, Academia e Religião


Antes de dar início ao texto que versará sobre o público alvo das Religiões Afro-brasileiras/americanas mais uma vez entregamos a pena a Pierre Bourdieu, sociólogo francês que muito contribuiu para a sociedade com seus estudos e conclusões.

Enfaticamente afirmou: O homem oficial é um ventríloquo que fala em nome do Estado: assume uma postura oficial – com todo o teatro do oficial – fala para e se coloca no lugar do grupo ao qual se dirige, fala para e se coloca no lugar de todos, fala como representante universal (Bourdieu 1930 – 2002).

A crítica de Bourdieu deve-se ao fato de as pessoas além de falar por elas, quererem falar pelos outros (universalizar ou homogeneizar o discurso). Óbvio que os que assim procedem não são “democráticos”, na verdadeira acepção do termo, querem ser hegemônicos, deterem o poder, por isso negam a diversidade.

São os mesmos que afirmaram que sou pela particularidade, quando deveria ser pela universalização. Ou esses não me entenderam ou deliberadamente querem confundir os outros, pois é cristalino que ser pela particularidade é o mesmo que dizer pela diversidade (de cada Templo) e um sonoro não para a hegemonia e homogenia que defendem.

No que concerne à FTU, sempre foi pólo de diálogo, pelo processo dialógico em vários níveis. O primeiro foi o intra-religioso (respeito incondicional à diversidade religiosa dos terreiros). O segundo diálogo, inter-religioso, faz a aproximação verdadeira com o diferente, o diverso, as várias religiões disponíveis na sociedade (plural). Dialogando com elas com respeito incondicional, convivendo pacificamente, promovendo com todas uma cultura de paz.

O terceiro diálogo – interdisciplinar – fez com que a Teologia das Religiões Afro-brasileiras pudesse dialogar com as várias disciplinas acadêmicas, propiciando ensino teológico de qualidade, pesquisa (iniciação científica) e diálogo com a sociedade.

Isso só foi possível pela visão plural da FTU, por perceber e ser sensível quanto ao público ao qual se dirige.

A FTU – Faculdade de Teologia Umbandista – tem seu curso de graduação, bacharelado em Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras desde que foi autorizada e credenciada pelo MEC em 2003.

A primeira e a única faculdade de Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras, que faz grassar a diversidade respeitando todas as tradições de sabedoria por dentro destas religiões, não homogeneizando, isto é, não tendo ênfase em uma só tradição mas em todas, sendo a que inaugurou esta nova fase por dentro deste universo. A FTU é a primeira e a única, por não ser hegemônica (poder central) que faz grassar que é para todos, o que tem sido provado e comprovado pelas suas atividades nos níveis: Sociedade, Academia e Comunidade Afro-brasileira.

A FTU é uma instituição de ensino superior, autorizada e credenciada pelo MEC. Tem sido elogiada por vários acadêmicos, inclusive por teólogos de outras confessionalidades, pelo fato, também inédito, de possuir dois braços fundamentais.

Suas atividades, por intermédio de seus dois braços ou vertentes tem servido de modelo a outras instituições, pois no mesmo local de funcionamento da FTU (aspectos acadêmicos) há também o Templo que permite, além do conhecimento acadêmico (saber religioso), a práxis, a experiência vivenciada por intermédio de vários rituais, das várias Tradições de Sabedoria das Religiões Afro-brasileiras/americanas.

Esta atividade da FTU, de forma insofismável, demonstra que ela valoriza a cultura do pluralismo, da diversidade das tradições religiosas. Tem no pluralismo, na diversidade um enriquecimento fundamental da condição humana. Defende e faz grassar um pluralismo que obrigatoriamente inclui a afirmação de verdades e dos critérios públicos para tal defesa e publicização.

Encerrando, espero ter deixado claro as duas atividades: religiosa e acadêmica.

A religiosa defende a particularidade, ou seja, a livre expressão dos terreiros, se possível, de todos, por isso se opõe à universalização, ou seja, homogenia (todos doutrinando e praticando a mesma coisa) que invariavelmente termina no processo hegemônico (quer dominar ou centralizar o poder em detrimento de todos).

Eis o porquê em defendermos a particularidade e não a universalização. Todavia, isto não impede a aproximação, amizade e diálogo que todos os terreiros devam ter, contribuindo assim, por um mundo melhor, demonstrando que as Religiões Afro-brasileiras/americanas tem propostas sérias para a comunidade de santo e para toda a sociedade.

Quanto a focar o terreiro, uma única “comunidade terreiro”, apesar das pessoas serem diferentes, todos estão imbuídos em seguir uma Tradição de Sabedoria mediada por sacerdote/sacerdotisa consumado, que tem sua raiz, ou seja, conhece seus ascendentes (Tradição e os transmissores da mesma). No terreiro onde se preconiza uma tradição de sabedoria fortalece-se a identidade do indivíduo e a pertença do grupo, e isto, nessa ocasião, universaliza-se na medida do possível a vivência ritual e estilo de vida de seus prosélitos ou filhos de santo.

Quanto à Teologia defendida pela FTU, ela manifesta-se de forma pública, ou seja, procura atingir três públicos: sociedade, academia e religião.

Público Sociedade: dialoga com aspectos sociais, econômicos, políticos, culturais e do cotidiano, procurando adaptar seu discurso aos seculares, aqueles que não são adeptos das Religiões Afro-brasileiras/americanas, aos ateus, enfim, a todos.

Público Academia: promove o diálogo com as várias disciplinas acadêmicas, por intermédio do saber religioso. Defende o diálogo inter-disciplinar, pois reconhece a necessidade de dialogar com todas as disciplinas, com as ciências várias, filosofias e outras Teologias, portanto, seu discurso deve ser e é público e não privado. Entende-se por público não ser confessional apenas, mas promover diálogos com todos os setores do conhecimento, seja acadêmico ou religioso. Por isso não sou pelo discurso privado, de uma só Teologia.

Público Religião/Terreiro: As Religiões Afro-brasileiras/americanas são de Tradição Oral, doutrinam e defendem, tal qual a diversidade cultural brasileira, o respeito incondicional às diferenças, que não são deficiências ou mistura, muito menos falta de tecnologias. É uma forma inteligente e espiritualizada de prevenir e, se possível, erradicar as discriminações e preconceitos vários. A Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras/americanas dialoga, publiciza com a Sociedade e Academia, todavia, é também uma teologia do terreiro, da Tradição da Sabedoria do Orishá (Ancestral Divino) e dos Ancestrais Ilustres, sendo seus sacerdotes e terreiros considerados sagrados, pois ambos são agraciados em si, dentro de si com a presença das Divindades (Orisha, Vodun, Inquice, Caboclo). Toda Tradição de Sabedoria está calcado na tradição de transe de possessão ou mediúnico, portanto, além do discurso acadêmico e com a sociedade. Assim, além dos discursos anteriormente mencionados, há também o discurso com as divindades do Terreiro. ??

O público Terreiro é um dos mais importantes, ressaltando a fala do Prof Dr. Volney Berkenbrock (UFJF) no I Congresso Internacional das Religiões Afro-americanas realizado pela FTU em 2011 quando bem afirmou que os rituais, fé, crença (terreiro) são os atos primeiros do campo teológico. Com isto, não estamos negando o saber religioso (ato sagrado) que conecta seu discurso com a Sociedade e as disciplinas acadêmicas.

As demais amarrações deixarei para futura discussão, mas reitero que a FTU promove o imbricamento dos três discursos: sociedade, academia e terreiro.

Concluindo, a Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras/americanas torna-se particularista (confessional), sem que com isso se afaste de sua missão maior, qual seja a de demonstrar que toda Teologia tem um compromisso com a Sociedade, e para isso acontecer promove e defende a interdependência inter-teológica, a Teologia como discurso público e não privado ou particular e exclusivo.

Precisamos estar atentos para não sermos vilipendiados e logrados pelos que desejam elevar à categoria de verdades definitivas e absolutas conhecimentos provisórios e parciais afirmando serem de Teologia ou Tradição das Religiões Afro-brasileiras. Acautelem-se os interessados na manutenção da ética e da consistência das verdades das Religiões Afro-brasileiras/americanas. Felizmente estamos noutros tempos! Tempos de luz, do Sagrado presente e atuante em tudo e em todos. Axé!


Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 222

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A diversidade imuniza contra o discurso hegemônico


A pluralidade cultural caracteriza a contemporaneidade sendo um desafio a ser enfrentado pelas diversas teologias. Qual desafio?

O desafio seria devido a uma visão preocupada em captar as particularidades e as diversidades do real? Seria ao respeito à diferença do outro – a alteridade?

Talvez consista no imbricamento das possíveis causas aventadas e seus desdobramentos.

Apesar de remeter várias vezes à pluralidade, a diversidade, a particularidade, seriam elas realmente aceitas e vivenciadas? Acredito que não. Por quê?

Porque todas as religiões e suas teologias desejam ser hegemônicas, homogêneas, logo, universalistas. E como tal cada uma deseja e espera representar as demais.

O que não podemos olvidar é que há quem deseja possuir acesso ao privilégio do universal, mas não é possível ter o universal, isto seria monopolizá-lo.

Pierre Bourdieu afirmou claramente: “O homem oficial é um ventríloquo que fala em nome do Estado: assume uma postura oficial – com todo o teatro do oficial – fala para e se coloca no lugar do grupo ao qual se dirige, fala para e se coloca no lugar de todos, fala como representante universal”.

Consequentemente pode-se concluir a consonância com as religiões afro-brasileiras que defendem a diversidade, pois a mesma realça a particularidade de cada “terreiro”, torna-os legítimos, imuniza-os da homogenia e hegemonia promovida pela universalidade.

Pelo aventado parece evidente que os “terreiros” na diversidade estão imbricados num processo relacional e nunca numa linguagem universal (código seja ele qual for).

Quando me propus a elaborar um Fórum[1] Internacional Permanente sobre Diversidade nas Religiões Afro-brasileiras era para que todos que desejassem, sem nenhuma seleção, pudessem opinar, melhor, contribuir. Portanto, não estou falando por nossa comunidade (Religiões Afro-brasileiras/Americanas), apenas fui um canal facilitador para que todos pudessem se expressar, suas particularidades terem voz, uma característica da diversidade, da diferença do outro (alteridade), da pluralidade.

A “verdade” não é minha, mas de todos, eis, pois a diferença. Não quis a opinião de escolhidos, dos melhores (como se isto fosse possível), mas de todos os interessados, que auguro votos, sejam todos os sacerdotes/sacerdotisas do povo de santo.

Não coopto ninguém. Os que se interessaram em contribuir o fizeram de livre e espontânea vontade, pois pregam e vivenciam a diversidade como forma de aproximar a todos, reunindo e remindo a “comunidade de santo”. Discordo in tótum dos que doutrinam e divulgam à socapa: “A verdade dos dominantes se transforma na verdade de todos”.

Sou pela particularidade e não pela universalidade, pois alguns pequenos grupos querem homogeneizar, claro, para terem o poder hegemônico (o grupo – parte falando pela comunidade – todo).

Creio que cada Religião Afro-brasileira/americana precisa dar sentido à sua verdade, e para isto não pode olvidar que o público alvo ou públicos podem ser:
  1. Filhos de santo (linguagem específica ou iniciática) com uma linguagem peculiar à cada religião afro-brasileira.
  2. Clientes ou simpatizantes – linguagem em geral, mágico-religiosa. A seguir, aproximação com a filosofia do “terreiro”.
  3. Sociedade como um todo. Discurso decodificado e traduzido sobre como são entendidos os problemas existenciais, cosmológicos, ecológicos, culturais, sociais, políticos e econômicos.
Tanto teólogos quanto sacerdotes podem imbricar a comunicação aos três públicos, isto é, um discurso que atende a todos, que é o que se deseja.

Só por estes primeiros objetivos melhor pode se entender quando se afirma que a Tradição das Religiões Afro-brasileiras/americanas tem como constante a contínua mudança. Sim, a Tradição é algo que nos remete à continuação, todavia se não houver transformação ou mudança estará fadada a desaparecer. Eis a tarefa de todos os sacerdotes das Religiões Afro-brasileiras/americanas, observar a necessidade do respeito à diversidade, onde não mais haverá eu e outro, mas sim nós, nossa Tradição. Axé!


Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 221



[1] A ideia do Fórum foi além da contribuição de cada sacerdote, um estímulo à aproximação, diálogo e amizade entre todos.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Religiões Afro-brasileiras - Tradição do Saber




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Publicação 220

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Religiões Afro-brasileiras / Americanas: Pai Antonio de Oxalá fala para o Blog






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Publicação 219

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Religiões Afro-brasileiras/Americanas - Diversidade como Inclusão Total

Resumo
 

No que concernem às religiões afro-brasileiras/americanas, respeitam todas as formas de pensamento humano, todavia não concordam com a linha mestra da pós-modernidade caracterizada pelo anti-humanismo (abandono do sujeito) e ceticismo que se aproxima do irracional. Não obstante, não se nega que a ação humana está sob os guantes da estrutura socioeconômica, como de há muito tem sido denunciada pelas religiões afro-brasileiras/americanas.

Nas religiões afro-brasileiras/americanas não se mantêm a esperança passiva, mas a atividade de uma militância constante na certeza de possibilidade real de mudanças substanciais, manifestas em novos projetos de emancipação da humanidade, onde prevaleça o diálogo como forma de convivência pacífica e justiça social, política e econômica.
 

Palavras-chave: Diversidade, Inclusão Total, Pós-modernidade, Religiões Afro-americanas, Religiões Afro-brasileiras.

Abstract
 

Afro-brazilians/americans religions respect all forms of human thought, however disagree with the mainstream of post-modernity characterized by anti-humanism (abandonment of the subject) and skepticism that approaches the irrational. Nevertheless, there is no denying that human action is under the socioeconomic structure, as has long been denounced by religions afro-brazilians/americans.
In afro-brazilians/americans religions there is no passive hope, but the activity of an ongoing militancy in certain real possibility of substantial changes, manifested in new projects for the emancipation of humanity, where dialogue prevails as a form of peaceful coexistence and social, political and economic justice.

Keywords: Diversity, Total Inclusion, post-modernity, Afro American, Afro-Brazilian Religions



Nas Religiões Afro-brasileiras/Americanas valorizam-se a diversidade, a multiculturalidade, o respeito, o reconhecimento e a valorização da diferença e do outro (alteridade).

Muitos supõem ser esta valorização uma forma de crítica à modernidade, pois a mesma não conseguiu emancipar o homem e sua sociedade por intermédio da razão.

Os críticos, os intelectuais, são tidos como pós-modernistas; sentenciam a falência da razão, pois a mesma não favoreceu a liberação humana, ao contrário racionalizou o controle dos indivíduos, deflagrando formas de opressão que se estabelecem no cotidiano.

No que concernem às religiões afro-brasileiras/americanas, respeitam todas as formas de pensamento humano, todavia não concordam com a linha mestra da pós-modernidade caracterizada pelo anti-humanismo (abandono do sujeito) e ceticismo que se aproxima do irracional. Não obstante, não se nega que a ação humana está sob os guantes da estrutura socioeconômica, como de há muito tem sido denunciada pelas religiões afro-brasileiras/americanas.

Nas religiões afro-brasileiras/americanas não se mantêm a esperança passiva, mas a atividade de uma militância constante na certeza de possibilidade real de mudanças substanciais, manifestas em novos projetos de emancipação da humanidade, onde prevaleça o diálogo como forma de convivência pacífica e justiça social, política e econômica.

Numa ação crescente e madura, os adeptos das religiões afro-brasileiras/americanas têm promovido a divulgação de que  sua vertente principal é a diversidade, é repensar e reatualizar  suas práticas de relacionamentos endógeno e exógeno.

Sim, é histórico que os adeptos das religiões afro-brasileiras/americanas sempre estiveram (mantiveram-nos) apartados, separados, algo que os fragilizava e, ainda na atualidade enfraquecem sua mobilidade social, e principalmente, sua real importância no cenário da cultura e sociedade brasileiras. Nos aspectos religiosos são, ideologicamente, expostos como mero folclore.

Recentemente uma das emissoras da mídia televisiva aberta, reportou-se a Lavagem das Escadas (enredo religioso) da Igreja do Senhor do Bonfim, associando-a de forma pejorativa a uma escola de samba. O pior estava por vir, pois na reportagem anterior haviam mostrado alguns presidentes de escolas de samba sendo detidos em delegacia policial por crime de contravenção. Conclusão: associaram às religiões afro-brasileiras/americanas com o crime, como algo alheio ao bom senso e aos “bons costumes”. Mais uma vez, o preconceito...

Este descaso para os adeptos das religiões afro-brasileiras/americanas tem sua gênese no Brasil colônia. Naquela época não se permitia o encontro de indivíduos de etnias diferentes, pois o que se desejava era conveniente na manutenção do status quo. Aumentavam-se as rivalidades entre eles impedindo que se unissem e combatessem o escravismo. Era só isso!...

Na atualidade não é diferente. Vez por outra se estimula rivalidades entre os adeptos das religiões afro-brasileiras/americanas, pretendendo manter as coisas como sempre foram.

Incita-se discussões estéreis, improducentes e improcedentes que impedem a união, o sentido de pertença e identidade das religiões afro-brasileiras/americanas, adiando a tarefa que a elas competem no cenário de incentivar e proporcionar a mudança social, na defesa dos discriminados e excluídos de todos os matizes da sociedade brasileira.

Mais uma vez a pergunta que não quer se calar: a quem pode interessar tal estado de coisas? A quem? Com toda a certeza não são aqueles que desejam a união (não codificação) a pacificação e uma cultura de paz, com respeito irrestrito a todas as religiões afro-brasileiras/americanas.

Para esses promotores de cizânias deve-se afirmar que não há esse ou aquele “Terreiro”, melhor que os demais. Apenas são diferentes, somente isso. E isso é muito bom. Não há necessidade de concorrência, mas de convivência pacífica que fortalece a amizade, a fraternidade, a identidade (vendo- se no outro) e a pertença.

Reitera-se que não se pode olvidar que variações regionais (espaço) e de várias épocas (tempo) proporcionariam e proporcionam a diversidade, ou seja, diferenças. Há de frisar-se que diferenças são apenas variações de uma mesma coisa, portanto naturais.

Todas as religiões afro-brasileiras/americanas são formas de manifestação da diversidade, e isto significa ter a liberdade de fazer o seu culto segundo seus fundamentos e não desprezar o culto e os fundamentos do outro. O respeito, o reconhecimento de que o outro existe e tem sua real importância no processo da religiosidade.

Aceitar, respeitar e vivenciar a diversidade não significa o individuo mudar seus conceitos ou fundamentos que aprendeu e vivenciou em sua Tradição na Iniciação, pois deve perceber que também ele mesmo, seu ritual faz parte da diversidade, tal qual todos os demais. Portanto viver a diversidade é aceitar e reconhecer o real valor do outro no contexto das religiões afro-brasileiras/americanas.

Todos podem e devem continuar fazendo seus cultos e seguir seus fundamentos o que deve ser natural, todavia não se pode achar que se é melhor que este ou aquele e muito menos alardear que “revelou”, ou resgatou isso ou aquilo, como forma de desejar a hegemonia na religião. Isso é contrário à diversidade, ao reconhecimento do outro e a ética que norteia essa religião.

Tomando como exemplo de religiões afro-brasileiras/americanas, a Umbanda, tem-se na verdade várias “Umbandas”, pois há várias Escolas, cada uma com seus rituais próprios, segundo sua (s) vertente (s) formadora (s) preponderante (s).

A vertente denominada Umbanda Cristã se alicerça em fundamentos próximos ou retirados do kardecismo e Catolicismo. Claro está que há influências de matriz ameríndia ou africana.
A Escola Umbandista (forma de pensar e cultuar os Orixás e Ancestrais) denominada Omolocô tem como vertente principal a matriz africana (mistura angola jejê nagô) tendo laivos do Catolicismo e menor influência Kardecista.

O mesmo acontece com a Umbanda Iniciática ou Esotérica que tem aspectos balanceados das três matrizes formadoras, mas com predominância ritualística da matriz ameríndia, sem descartar a matriz africana e a indo européia.

O mais maravilhoso é que todas têm o mesmo grau de importância, sendo apenas diferentes, atraindo para suas práticas as pessoas mais afinizadas com essa ou aquela matriz. Portanto, não há nexo descaracterizar a Umbanda tentando uniformizá-la ou desejar que uma vertente seja superior ou hegemônica. Isso é impossível na Umbanda, felizmente.

Mais uma vez conclui-se que diversidade é diferença e não desigualdade (hegemonia). Permite que cada um tenha a liberdade de cultuar suas convicções doutrinárias e mágico-liturgicas (toques, rituais), respeitando e reconhecendo a importância de outros grupos.

Os adeptos das religiões afro-brasileiras/americanas estão no inicio do processo do entendimento da diversidade, que deve ser um desafio a ser vencido, um exercício constante, principalmente de não se julgar melhor do que ninguém, ou mesmo querer impor a todos os demais uma forma de ritual.

É necessário, repisa-se, reconhecimento e valorização do ritual dos outros, da forma que cada um deseja fazer e vivenciar as religiões afro-brasileiras/americanas.

Não se pode olvidar que as mesmas são uma idéia que se manifestam em várias linguagens (cultos) e todos com a mesma importância. Isso nos incita a perceber, aceitar e reconhecer como legítimas as múltiplas linguagens das religiões afro-brasileiras/americanas.

No término desse texto em que reiterou-se a necessidade de se vivenciar a diversidade (falou-se demais sobre ela, é hora de vivenciá-la) e para não abortá-la, recordemos a história recente que afirma não ser a sociedade tão democrática como deveria. Portanto, defender a diversidade é assumir uma atitude humanista e política em favor dos que sempre foram marginalizados do poder de se expressar e de se mostrar.

É momento de diversidade sem adversidades. Vamos vivenciá-la? Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 218

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Religiões Afro-brasileiras - diversidade não é alienação




Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
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Publicação 217

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Religiões Afro-brasileiras - A diversidade de cultos neutralizando violência


Resumo
Tudo é um processo, inclusive a cultura. Sim, a mudança incide igualmente na cultura, na sua essência: idéia, abstrações e comportamentos.
No Brasil tivemos uma amostra de que a cultura esta em constante mudança, que teve início desde o encontro de indo-europeus, indígenas autóctones e africanos.
São estas as três matrizes formadoras do povo brasileiro, povo mestiço, plural, macroétnico que promovem a busca constante do respeito à alteridade, à cultura do outro como forma de resistência, às injustiças sociais, à discriminação e ao preconceito de várias matizes
Palavras-chave: cultura, diversidade, Religiões Afro-brasileiras, Sacerdócio, seitas

Abstract
Everything is a process, including culture. Yes, the change also focus on culture, in essence: ideas, abstractions and behaviors.
In Brazil we had a sample that the culture is changing, which started from the meeting of Indo-Europeans, indigenous and Africans.
These are the three matrices forming the Brazilian people, mixed people, plural, macroétnic that promote the constant pursuit of respect for otherness, the other's culture as a form of resistance to social injustice, discrimination and prejudice in many forms.
Keywords: culture, diversity, Afro-Brazilian Religions, Priesthood, sects



Tudo é um processo, inclusive a cultura. Sim, a mudança incide igualmente na cultura, na sua essência: idéia, abstrações e comportamentos.

No Brasil tivemos uma amostra de que a cultura esta em constante mudança, que teve início desde o encontro de indo-europeus, indígenas autóctones e africanos.

São estas as três matrizes formadoras do povo brasileiro, povo mestiço, plural, macroétnico que promovem a busca constante do respeito à alteridade, à cultura do outro como forma de resistência, às injustiças sociais, à discriminação e ao preconceito de várias matizes.

O relativismo cultural foi precocemente percebido pela maioria (oprimidos) do povo brasileiro, mas tardiamente reivindicado, pois todos sabem que não há cultura certa ou errada, e sim, que elas diferem uma das outras em relação a princípios básicos, todavia tem características comuns.

“Toda cultura é considerada como configuração saudável para os indivíduos que a praticam. Todos os povos formulam juízos em relação aos modos de vida diferente dos seus. Por isso, o relativismo cultural não concorda com a idéia de normas e valores absolutos e defende o pressuposto de que as avaliações devem ser sempre relativas à própria cultura onde surgem”. (Lakatos)

O conceito acima tomado como pressuposto justifica a necessidade e o porquê das religiões afro-brasileiras terem como emblema a diversidade, como forma de reconhecimento e legitimação da identidade de cada uma delas, pois são formas diferentes de percepção e vivência de mesmos princípios.

Tomadas analogicamente como cultura, todas as religiões afro-brasileiras são certas (dentro de sua forma de vivenciar e cultuar o Sagrado), e formam sua identidade própria na observação das outras.

É o famoso aforismo: o que sabe de sua cultura quem só conhece a sua cultura? O aforismo é auto-explicativo e joga luzes sobre o porquê da diversidade ser o mote das religiões afro-brasileiras/americanas.

O escopo em voga libera as religiões afro-brasileiras do etnocentrismo, que em ultima instância seria a supervalorização de uma religião afro-brasileira sobre as demais, algo que fere, por princípio, a ética formadora das mesmas.

O que pode ocorrer é a valorização “endógena”, do próprio grupo, algo que favorece o bem estar individual e a integração social na sociedade-terreiro.

Concluímos que todas as religiões afro-brasileiras devem ser entendidas como sendo apenas diferentes e não na relação superior/inferior. Se houver alguma religião que se ache superior ou melhor que as demais, com toda a certeza, não é uma religião afro-brasileira.

Com esta assertiva negamos a possibilidade de fundamentalismos ou absolutismos nas religiões afro-brasileiras, pois sendo pela diversidade jamais podem ser manifestadas por intermédio de comportamento agressivo ou em atitudes de superioridade e até de hostilidade. Também não há esse ou aquele que deseja homogeneizar e muito menos ser hegemônico, um “patriarca” a ser seguido por todos os demais (o que seria absurdo), algo que fere a base formadora e ética das religiões afro-brasileiras.

Não são das religiões afro-brasileiras lideres de seitas inflamados pelo egocentrismo e narcisismo, que desejam ajustar o mundo segundo suas convicções.

Assim precisamos expressar, não porque desrespeitamos tais líderes, mas para reiterar que não são das religiões afro-brasileiras.

Segundo a psiquiatria que tomaremos como pressuposto, se é defrontado com muitos lideres de seita que desejam controlar as ações de seus discípulos, com uma visão delirante de mundo.
É necessário estar atento ao fato de alguém se declarar líder, mormente quando se diz divino, e quando afirma ser o único a conversar com Deus, sendo necessário, pois, destruir esse mundo para criar um novo mundo (Armagedon?!!).

A maioria, segundo alguns tratados de psiquiatria, em especial a psicanálise, possui ego inflado e um desprezo geral pela humanidade. Valoriza somente seu grupo, que segundo eles é privilegiado, em detrimento do “restante” da população planetária.

O ego narcísico (narciso nega tudo que não for espelho) leva os líderes de seita a cometerem várias atrocidades, marcas de uma psicopatia evidente.

No passado recente, tivemos no Japão Shoto Asarrara que tentou envenenar com gás letal os usuários do metrô de Tókio.

O interessante é que todos os líderes de seita têm as mesmas características no inicio de suas pregações milenaristas, salvacionistas e hegemônicas. Todos afirmam ter tido uma revelação divina, julgando-se, pois ipso facto, melhores que os demais mortais. Dizem que precisam espalhar seus ensinamentos, chegando ao ponto de se acharem os únicos enviados de Deus, quando não, o próprio “Deus” (ego inflado).

Muitos deles levados pelo narcisismo distribuem à socapa crueldade, tortura e brutalidade (extremismo) que chocam a sociedade.

A megalomania é um dos fatores que os distingue. Procuram discípulos que inflam ainda mais seus egos, que os adorem como um verdadeiro Deus.

O líder de seita em geral é narcisista que deseja ser elogiado, mas que reage com violência quando contrariado, algo identificador de sua personalidade. Acredita que merece ser tratado de forma especial, pois é melhor que os outros, é o escolhido do próprio Deus (mesmo que na aparência demonstrem o contrário).

Quando citamos tais escolhos à religiosidade imediatamente nos vem à consciência o Templo do Povo, fundado e dirigido por Jim Jones, que infelizmente, induziu mais de 900 pessoas, entre crianças, jovens e idosos a se suicidarem com cianureto.

Após os infortunados acontecimentos que vez por outra assolam, violentando a sociedade planetária, queremos reiterar que as religiões afro-brasileiras são pela diversidade de cultos não havendo, pois, culto melhor ou pior, apenas diferente Por esse motivo sacerdotisas e sacerdotes de todas as religiões afro-brasileiras não fomentam e nem se afinizam a formar dissidências religiosas, e, portanto, felizmente se encontram distanciados de desejarem serem líderes de seitas. Axé!

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Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 216

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Religiões afro-brasileiras - na diversidade encontramos nossa identidade




Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 215

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Religiões afro-brasileiras-diversidade- do ateísmo ao teísmo




Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
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Publicação 214