quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Religiões Afro-brasileiras: festa, solidariedade e responsabilidade


O fim do ano é sempre uma época para reflexão, pelo menos é o discurso corrente em nossa sociedade. Momentos em que as famílias se encontram, os amigos se falam, mesmo a distância, enfim, as redes de relacionamento são, de alguma maneira mais ativadas e acirradas. Um dos alicerces da religião sempre foi fazer com que as pessoas refletissem sobre sua existência, sobre seu local e motivo no mundo, sobre suas ações, reações, enfim, entender os porquês maiores da humanidade. Ao que parece, o fim do ano é uma época que as pessoas se predispõem mais a essas reflexões. Ora porque não tem o tempo necessário durante o ano para esses pensamentos, ora porque as mensagens subliminares da mídia incitam as pessoas a agirem de uma maneira pacífica, amorosa, companheira, fraterna e solidária. Achamos que essa conduta deveria ser diária mas...
Como sacerdote e como membro da sociedade civil nos colocamos favoráveis às celebrações e aos encontros, mas questionamos se tais atos não fazem parte de uma estrutura maior pensada e articulada ideologicamente pelos grupos dominantes (políticos e religiosos) para a manutenção de um status quo, fazendo girar aceleradamente a roda da economia (favorecendo sobretudo os mais ricos) e alguns grupos religiosos que aproveitam o momento para reverberar suas mensagens e atrair ainda mais fiéis.
Sabemos que estamos todos inseridos na sociedade e acabamos passando pelos mesmos rituais de passagem que ela, mas não somos coniventes com o processo meramente consumista que essas datas reproduzem. Nem todas as Escolas das Religiões Afro-brasileiras são cristãs, mas temos certeza que todas as Escolas respeitam essa data em seu sentido mais profundo, no caso do Natal, pelo fato dele representar o renascimento (mesmo que os próprios cristãos se esqueçam desse significado). Nas religiões afro-brasileiras, seus adeptos são senhores do seu destino, pois este não é fixo, imutável, ao contrário, ele é passível de mudança a todo instante, desde que exista predisposição do indivíduo para tal e que ele esteja em dia com suas obrigações rituais e sociais. Ou seja, não são nessas datas que o indivíduo se modificará repentinamente, mas a transformação faz parte de um processo maior que chamamos Iniciação.
O que queremos registrar é que as religiões afro-brasileiras são religiões festivas sim, mas estas estão a serviço de um propósito maior e de uma cosmovisão religiosa que se afirma com responsabilidade, pela interrelação entre adeptos – pai/mãe de santo – comunidade de santo – Orixás. Todas as festas afro-brasileiras, na verdade, celebram o axé compartilhado e a união com as divindades, é o mito da ancestralidade reatualizado sempre. No caso das festas de fim de ano, lamentamos pelos efeitos condicionados, convencionais e comerciais que preponderam sobre todas as outras instâncias, inclusive a afetiva, entre amigos e familiares. Mas não somos contrários à reunião entre colegas, amigos e parentes, ainda que vejamos a família não apenas pelo seu vínculo consanguíneo, mas sobretudo pelas afinidades espirituais, religiosas, culturais, além de crermos na família maior, a família planetária.  
Esperamos assim ter deixado claro a posição das religiões afro-brasileiras no que se refere às datas de final de ano. Com muito respeito pela prática religiosa cristã mas com desgosto em ver a sociedade manipulada pelos fins comerciais, os quais geram atos esporádicos de afeto e solidariedade e não educam a sociedade para um agir coletivo estrutural e constante.

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 317

Nenhum comentário:

Postar um comentário