quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Propostas da FTU: permeando o terreiro e a academia


Em nossa última publicação disponibilizamos fotos do último toque do ano destinado à louvação de Exu-Ossaim-Ifá. Explicamos a importância e o significado desta louvação não apenas para nossa família de santo mas para a grande teia que é tecida entre os vários terreiros afro-brasileiros. Exu é o senhor dos caminhos, elo de comunicação entre a humanidade e os Orixás. Exu é o senhor dos limites e nos mostra que podemos conquistar aquilo que desejamos, desde que com muito esforço e determinação.
Amparados sempre no pensamento-ação de Exu, o qual está sempre em movimento, fundamos em 2004 a primeira Faculdade de Teologia Umbandista, mesmo ano que o Ministério da Educação assinou seu credenciamento. Foi uma grande vitória para as religiões afro-brasileiras, porque, ainda que com o nome da instituição carregue mais a vertente umbandista, não é apenas ela privilegiada nos estudos da faculdade. Ao contrário, o bacharel em Teologia formado pela FTU diploma-se com ênfase nas religiões afro-brasileiras. Durante os quatro anos do curso os alunos tem a possibilidade de se aprofundar na multiplicidade de escolas afro-brasileiras, inclusive, várias delas são representadas por pais e mães de santo que, gentilmente e por acreditar no propósito da faculdade, conversam com os alunos sobre suas tradições.
Alguns poderiam nos perguntar porque fundamos uma instituição com esse caráter. Respondemos a estes colegas que algumas razões nos nortearam. A primeira delas é porque a faculdade possibilita recuperar o sistema de pertença e identidade das religiões afro-brasileiras e de seus adeptos. Isso aproxima o povo de santo, um caráter de fortalecimento interno das religiões afro-brasileiras. A segunda, é porque cremos que a educação é um caminho auxiliador para diminuir com a marginalização destas religiões, consideradas “menores”, “infantis”, “mágicas”, “maléficas”, “folclore”, etc. Trata-se de um caráter que fortalece as religiões afro-brasileiras, não mais para seu povo de santo, mas para a sociedade civil como um todo, garantindo a isonomia destas perante outras.
Assim, pensando no povo de santo e em como a sociedade civil poderia melhorar seu olhar e respeito perante as religiões afro-brasileiras que fundamos a FTU. Por intermédio da Teologia, é possível pensar em religião, cultura, política, economia. É uma proposta que prioriza os direitos humanos e espirituais.
Após dez anos de funcionamento da instituição, começamos a repensar sua importância  e consideramos que é algo que deve ultrapassar as barreiras regionais e se expandir para outros estados brasileiros, para a comunidade de santo de todo o Brasil. Em pouquíssimo tempo a FTU conseguiu muitas vitórias. Constituída por um corpo docente capacitado, juntamente com a produção de seus alunos, a faculdade foi representada em vários eventos acadêmicos nacionais e internacionais. Conseguiu uma visibilidade e respeito antes inimaginados, graças à competência dos trabalhos e da maneira natural e salutar com que os teólogos com ênfase nas religiões afro-brasileiras tratam seus pares.
A partir da vitoriosa experiência da FTU-SP pensamos em expandi-la para outros estados, os quais já possuem até representantes interessados em dar continuidade. Ressaltamos, porém, que a FTU nasceu da experiência religiosa de terreiro. E não queremos de maneira alguma deslocá-la disso. Ao contrário, seu êxito maior e único é por aproximar tão sabiamente os saberes religiosos (popular tradicional dos terreiros) ao saberes acadêmicos. Sendo assim, em todos os estados que se interessarem pela manutenção de uma sede da FTU, deveremos contar com um colegiado de sacerdotes e sacerdotisas que possam também prover os alunos e o povo de santo de vivências religiosas.
Os vários toques que temos feitos e divulgados via blog fazem parte dessa proposta maior, de entrelaçar a experiência religiosa dos vários terreiros, fortificar a teia afro-brasileira e levar avante o esforço de resgatar o senso de pertença e identidade do povo de santo, para então, em um segundo momento, que a sociedade civil passe a respeitar essas tradições entendendo-nas, não mais como “inferiores”, mas como sistemas complexos de significação religiosa, assim como todos os outros segmentos possuem.
Foi o que aconteceu no último sábado, um toque destinado a cumprir com essas propostas. E foi muito vitorioso! Um paó profundo para minha filha Mãe Fabi de Yemanjá (Itanhaém-SP) e todas as lideranças religiosas que estiveram presentes compartilhando de seu axé.
Abaixo disponibilizamos vídeo do toque realizado em Itanhaém.
Axé!



Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 315

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