segunda-feira, 15 de outubro de 2012

PAI MATTA – MESTRE JUREMEIRO E MESTRE DE INICIAÇÃO




Esta postagem praticamente às vésperas do Rito de Exu, que realizamos há muitos anos em parceria com muitas respeitáveis associações da Tradição de Santo, faz com que reflitamos sobre o presente momento auspicioso que vivemos, todos nós sacerdotes, iniciados, prosélitos e simpatizantes em vários níveis, nas religiões afro-brasileiras.
Explicitamos o presente, mas o mesmo é relativo. Imaginemos uma experiência iniciática em que o adepto vivencia, experimenta, sinta junto de seu Pai ou Mãe de Santo, embora fique registrado reforçando a valência do conhecimento, sentimento e identidade com sua Tradição, ela passa, torna-se arquivo vivo, ou seja, passado.
Para outros que não a vivenciaram é futuro, ou seja, no próprio presente temos o passado e o futuro. Temos em nós não apenas o tempo linear, cíclico ou mítico, mas o tempo próprio que marca o ritmo de cada individuo como sendo único, óbvio sem desprezar-se o “temporal”. Assim pensando e sentindo num célere átimo de “tempo” rodei o mosaico do tempo.  O ontem é agora, daqui a pouco amanhã, não importa. Sou criança, adolescente, jovem, maduro, velho (é o meu presente, que é passado e futuro).
Quando criança lembro-me de várias vivências no Culto de Nação, Candomblé de Caboclo  e a  Encantaria, com o Pai Ernesto de Xangô.
Na adolescência a vivência das várias “Umbandas”. Umbanda do Sr. Toninho (médium ímpar do Caboclo Pedra Branca), de Roberto Getúlio (médium de Caboclo Guarantan) e de tantos outros que embora anônimos me foram muito importantes para minha formação como pessoa  e posteriormente como sacerdote.
No final da adolescência tive a honra de conhecer o arauto, o transformador, idealizador e realizador do presente futuro W.W.da Matta e Silva – Mestre Yapacany ou somente Pai Matta para seus discípulos que mesmo iniciados nunca deixaram de ser apenas seus filhos e pai da Matta e Silva para os forâneos.
Em 1971, já com terreiro aberto desde 1968, tendo sido iniciado (coroado) após 7 anos de vivências e convivências várias com meu pai de santo e sua tradição experienciada no terreiro, meu âmago espiritual sinalizou-me que “precisaria” de mais fundamentos, por dentro da Umbanda.
A priori acreditei estar aumentando a amplitude de meu conhecimento e ação por estar dentro do terreiro, de seus erós e mandingas, enfim a busca de maiores fundamentos.
Foi assim que (re) encontrei W.W.da Matta e Silva, que era tido como fundador da Umbanda, em sua vertente esotérica, o qual afirmava que para tudo havia uma explicação.
Até então havia experienciado o fundamento de santo na vivência do terreiro, da comunidade afim e do axé do Pai de Santo.
Conhecer Pai Matta foi um impacto em minha vida, em minha “convivência” com a espiritualidade livre e imiscuída de meus pontos cegos.
Quanto mais vivenciava o terreiro em seu aspecto esotérico, mais percebia, apesar de parecer paradoxal, a conexão entre as várias formas de manifestação das Religiões afro-brasileiras.
Pode parecer incoerente, pois a Umbanda Esotérica  tinha seus próprios métodos que eram muito diferentes  de tudo aquilo conhecido como religião afro-brasileira.
Isso fez com que muitos criticassem a Umbanda Esotérica, que apesar de na aparência ser austera e  culta , nada mais fazia do que balizar a todos os processos da Umbandização.
Umbandização era o fenômeno em que as várias religiões afro-brasileiras, de forma passiva, por vontade própria, buscaram os métodos práticos da Umbanda (a essência da miscigenação das três matrizes formadoras do povo brasileiro).
O pesquisador e estudioso W.W. da Matta e Silva era oriundo da Encantaria (Catimbó do Agreste) nascido em Pernambuco, ainda jovem foi iniciado sob as cantorias e louvarias dos Mestres, Mestras, Príncipes e Princesas nos fundamentos do Culto de Jurema, tornando-se um grande Juremeiro, mateiro, erveiro,  benzedeiro, rezadeiro, raizeiro e feiticeiro.
Por intermédio de seus Mestres, em especial Juremá (que no terreiro de Umbanda se denominou Caboclo Juremá) conheceu várias pajelanças e seus erós. No seu terreiro na Pavuna-RJ, onde dirigia mais de cem médiuns, segundo seu próprio relato foi idealizado a Umbanda Esotérica, que na aparência, e, somente na aparência era uma inaceitável incursão de fundamentos afro-brasileiros/americanas aos do orientalismo.
Não se percebeu que ele apenas justificava e explicava à luz do fundamento a união as três raízes formadoras da Umbanda, como de todas as demais manifestações afro-brasileiras/americanas.
Muitos podem achar que forçamos, que queremos justificar. Por nossa vez afirmamos apenas o que observamos na vivência iniciática tida com ele em quase duas décadas.
Como várias vezes, pronunciamos, reiteramos que somos bem aventurado de tê-lo conhecido, e pelas dádivas que me ofertou, sendo a maior delas, a de ser seu sucessor da Raiz que se não fundou-a, estruturou-a, deu-lhe corpo e alma.
Para os que não o conheceram, e tem uma ideia estereotipada, achando-o, percebendo-o pelo que escreveu em suas nove obras, infelizmente, não o conhecem, nem superficialmente.
Pai Matta, Mestre Yapacany nunca deixou de ser ele mesmo. Quem o conheceu pessoalmente há de lembrar-se que ele não largava por nada deste mundo seu cachimbo (marca mestra), utilizando-o em tempo integral, algo que é recorrente, comum a todo Mestre Juremeiro.
E suas cantigas de terreiro (desconhecidas em outros terreiros) eram cantadas em forma de cantilenas, sem atabaques, tal qual acontecia na Jurema e em vários cultos correlatos. Com isso não estamos afirmando que ele construiu uma nova Umbanda, mas uniu as várias umbandas em suas vertentes estruturais (apologia a diversidade).
O processo de Umbandização teve início com seu sacerdócio inovador e ao mesmo tempo futurista, pois na aparência era uma nova Umbanda que descartava as demais. Esta era a primeira fase do processo. Ele estruturou para quem deveria segui-lo, o processo de Umbandização que demonstraria que todas as expressões umbandistas ou mesmo das demais Religiões afro-brasileiras eram diferentes, mas de igual importância.
Este processo de valorização equânime a todas as religiões afro-brasileiras, por nós defendido por intermédio do conceito de “Escolas” teve seu embrião com W.W. da Matta e Silva em 1953, e veio à luz, sob seus auspícios em Dezembro de 1987, quando me ordenou e consagrou como sucessor de sua Raiz, mas principalmente de seu trabalho. Haveríamos de continuar a tarefa por ele iniciada. Esperamos estar honrando o insigne Mestre com realizações, e entre elas não podemos olvidar a fundação da FTU, em 2004, a primeira e única instituição do ensino superior, credenciada e autorizada pelo MEC.
A FTU é um local de ampla e irrestrita inclusão sócio cultural e espiritual da Comunidade afro-brasileira, apesar de nem todos perceberem tal espaço ocupado pelas religiões afro-brasileiras como um avanço no processo democrático, de visibilidade e mobilidade, na medida que ela aproximou e continuará, até quando for necessário, o saber religioso com o saber acadêmico, passando, sem desdenhar pelo saber popular tradicional.
Na próxima publicação esperamos continuar desdobrando o que afirmamos. Axé!
Obs: Aproveitamos esta publicação para registrar publicamente a denúncia que recebemos sobre a possível tentativa de alguns grupos em invadir o templo da Faculdade (Av. Santa Catarina) e também o Templo da rua Chebl Massud, os quais sediarão o rito de exu no próximo sábado (20 de outubro). A invasão seria seguida de furto de objetos materiais da pessoas que estariam participando do ritual, sejam estas meus filhos de santo ou irmãos de outros templos. Sentimos muito pela índole dessas pessoas, pois as mesmas não conseguem entender a necessidade deste ritual e a importância da convivência entre irmãos de santo. Mas consideramos importante dar publicidade a esta denúncia.

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 296



Um comentário:

  1. Taleban diz que atentado contra menina Malala foi justificado!!
    Será que são as mesmas justificativas que justificam essa tipo de ameaça ao Rito??!!
    Não saber ser livre é extremamente triste.
    Shamnará

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