segunda-feira, 10 de setembro de 2012

SAÚDE E DOENÇA: COSMOVISÃO NAS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS


Temos destinado as últimas publicações a discutir as questões que envolvem os conceitos de saúde e doença para as religiões afro-brasileiras. Longe de negar os fundamentos e práticas da medicina tradicional (biomedicina) queremos apenas apresentar uma visão diferente, particular do povo que vivencia a tradição religiosa afro-brasileira.

A saúde é um processo. A não efetivação do processo promove doença. Não há saúde ou doença, há sim indivíduos saudáveis ou doentes. O processo da saúde está relacionado ao trânsito normal de equilíbrio enquanto o processo da doença relaciona-se ao trânsito anormal ou desequilíbrio da parte psíquica (mente), afetiva, física e social. O equilíbrio mencionado relaciona-se ao indivíduo sadio (corpo fechado), imune às doenças psicossomáticas e mesmo as sobrenaturais. A grande diferença com outras propostas de cura, como a da medicina tradicional, é que para as religiões afro-brasileiras saúde se relaciona à boa articulação do axé, conceito definido como o princípio e poder de realização (energia vital).

Os vários rituais das religiões afro-brasileiras visam que o indivíduo absorva, mantenha e multiplique o axé, sendo que este pode estar presente nos minerais, vegetais, animais, objetos simbólicos, nos encantamentos, falas dos sacerdotes, rezas, orações, cânticos, etc. Quando o indivíduo não possui uma boa conduta social e ritual, certamente ele não estará com um bom trânsito de axé (corpo aberto), sendo que este se manifestará em sua economia psicossomática (mental, física e social = desarmonia com a sociedade vigente – aspectos econômicos/financeiros, afetivos/emocionais, saúde e espiritual).

Um indivíduo em dia com suas obrigações sociais e rituais estará equilibrado e saberá reter e multiplicar o seu axé, o que possibilitará saúde psíquica, afetiva e física. O contrário também é verdadeiro. Um indivíduo que está em débito com suas obrigações sociais e rituais sofrerá consequências, estará desequilibrado, o que repercutirá em sua saúde psíquica, afetiva e física. O axé é manifestação do poder espiritual (Orun) no Ayiê e é no Aiyê que encontra-se o corpo físico, o indivíduo inserido em sua sociedade e cultura. Quando ele não é imune às doenças, aos “infortúnios” e às desavenças, às demandas e ao contato, por exemplo, com eguns, tudo isso propiciará “doença” e o indivíduo é considerado como um indivíduo doente, de “corpo aberto”.

Há teorias que afirmam, por exemplo, que algumas doenças são de responsabilidades dos Orixás. As doenças de pele se relacionariam a Obaluaiê, as doenças venéreas femininas a Oxum, a impotência a Xangô e Exu, entre outras. Não discordamos disso, mas possuímos uma interpretação que leva em consideração a relação do indivíduo como ser diferenciado com sua Massa Genitora Divina (Orixás). Achamos que o homem precisa se harmonizar com as forças sutis da natureza, forças essas que são concretizações das vibrações dos Orixás aqui no Aiyê. Assim, os elementos ar, fogo, água e terra que determinam a massa genitora de cada Orixá e, por consequência de seus filhos, estão na natureza, estão também em nossos corpos físicos e, portanto, deve haver um processo de equilíbrio entre essas forças, uma sintonia fina que só é possível pelos vários processos rituais e sociais que o indivíduo precisa cumprir.

Quando um órgão está doente, cremos que o indivíduo como um todo já estava doente. Para que nossa assertiva se torne mais clara faremos uma analogia com a harmonia da mecânica celeste em que todos os corpos cósmicos se encontram em posições específicas, em movimento, mas “suspensos” no espaço, não se chocando uns com os outros. É desse equilíbrio, harmonia e estabilidade que cogitamos para o homem. Como isto ocorre? Os corpos cósmicos estão todos em equilíbrio e não “caem” (gravidade), ou seja, não desativam o sistema graças aos Orixás que mantém linhas de forças coordenadas pelos Exus. Os Orixás e Exus, portanto, mantém o equilíbrio da mecânica celeste. Em nível microcosmo isto não é diferente. Precisamos constantemente buscar o equilíbrio com os Orixás, buscar entrar em sintonia com as forças sutis da natureza e com suas leis, caso contrário, nosso complexo psicossomático estará comprometido o que, propiciará desequilíbrio, desarmonia, instabilidade como um todo e, portanto, doença.

Nas religiões afro-brasileiras há vários rituais que visam a cura do indivíduo como ebós, boris, sacudimentos, banhos de descarrego (processos emergenciais). A partir do momento que o indivíduo percebe todo esse processo, chamamos de autocura, propiciada unicamente pela Iniciação em seus vários níveis. No próximo texto, abordaremos os aspectos terapêuticos do transe e sua relação com a articulação indivíduo – axé – Orixás, além da Iniciação como Autocura. Axé!



Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 286

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