segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Efeitos terapêuticos dos rituais de fundamento das Religiões Afro-brasileiras


Dando continuidade aos textos sobre a visão de doença e saúde nas religiões afro-brasileiras gostaríamos de abordar que o corpo é manifestação da mente, ou seja, são planos diferentes de uma mesma realidade (Espírito). No corpo físico a cabeça é “sede” da mente.  Segundo as religiões afro-brasileiras, a cabeça relaciona-se ao Ori. A região posterior occipital (nuca) relaciona- se ao passado. Chama-se ipako ori e está relacionada ao Inconsciente manifesto nas experiências adquiridas.
A região frontal da cabeça relaciona-se ao futuro. Chama-se oju ori e está relacionada ao Supraconsciente, “contendo” as atividades sublimes que iremos conquistar.
Entre as duas regiões citadas encontra-se o ori propriamente dito e está relacionado ao presente. É nessa região que é feita a raspagem e cura (corte da Iniciação, em algumas Escolas) justamente porque relaciona-se ao nosso Consciente e, portanto, com tudo que diz respeito ao poder da nossa vontade para as aquisições de hoje.
Se colocássemos os três tempos míticos em sequência em um círculo veríamos que o passado e o futuro “se tocam”, ou seja, o Inconsciente que guarda nossa origem é o mesmo do nosso futuro. Assim, vários rituais das religiões afro-brasileiras tem por objetivo fazer com que o indivíduo atinja “espaços” mais profundos do seu Inconsciente, mais próximos de sua origem (seu estado de equilíbrio, harmonia e estabilidade), pois cremos que nele (Inconsciente profundo) está a Espiritualidade latente, porém, esquecida ou encoberta por tantos sedimentos sobrepostos durante séculos de nossas existências (Inconsciente superficial).
Os sonhos são também momentos de remontar ao passado de cada um. A fim de corroborarmos nossa assertiva trazemos para a discussão o sociólogo Roger Bastide, cuja abordagem adquirida do famoso psicanalista vienense, Freud, afirma que o inconsciente teria se formado “com o passar das eras de sedimentos lentamente sobrepostos uns aos outros e compactados pelo peso de todos os séculos; como se houvesse, em nossa alma desconhecida, camadas análogas às camadas geológicas, onde jazem, fósseis, as lembranças de vidas extintas. E então, durante o sono, desceríamos até a caverna, cavaríamos com paciente picareta um poço, a cada noite mais fundo (...)” (Bastide, 2006, p. 33).
Os rituais afro-brasileiros tem a capacidade de agir como a picareta, cavando nossas vivências do inconsciente superficial.
Os rituais específicos pensados e oficiados pelos sacerdotes e sacerdotisas afro-brasileiros para cada indivíduo tem por finalidade rebaixar, neutralizar o conteúdo negativo do inconsciente superficial (“espaço” dos nossos hábitos, vivências e automatismos) para descortinar o Inconsciente profundo, sede da Espiritualidade. Tais rituais decodificam e traduzem as mensagens do Inconsciente profundo de modo não abrupto, mas naturalmente, sem choques. Alguns médiuns ou iniciados tem acesso às suas vivências passadas, sem nenhum dano à consciência ou ao psicossomatismo, pois estas são percebidas via estados superiores de consciência por alguns rituais de fundamento.
Os sacudimentos ou ebós seguidos de Bori são exemplos de rituais destinados a esse fim. Os sacudimentos e ebós limpam, descarregam todas as negatividades do indivíduo. Após essa limpeza, em um segundo momento, o ritual de Bori visa reconstruir um Ori fortalecido. Tais rituais são constantemente refeitos pois os indivíduos, mesmo os já iniciados, precisam aprofundar-se em seu Inconsciente (penetrando e refazendo o destino). A cura e autocura afro-brasileira, portanto, não visam a um indivíduo apenas, pois ainda que cada ritual seja pensado e aplicado na dependência das particularidades de cada indivíduo, ao final de cada ritual, toda a comunidade sai fortalecida uma vez que estão irmanados em uma comunidade de santo e, pelo princípio de interdependência (pela redistribuição de axé) que rege a ética dos terreiros afro-brasileiros, todos recebem um saldo positivo.
Nas próximas publicações continuaremos a discutir o tema.

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 284

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