segunda-feira, 23 de julho de 2012

O CONCEITO DE ESCOLAS: REVIRAVOLTA NO PROCESSO HISTÓRICO DAS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS


Destinamos nossa última publicação a discorrer sobre as particularidades existentes em cada processo de iniciação das Religiões Afro-brasileiras e como o conceito de Escolas instaura uma nova prática de respeito incondicional a todas elas.
Gostaríamos no texto de hoje de ressaltar alguns pontos, justamente para esclarecer o amigo leitor a fim de que não venhamos a ser mal interpretados. No texto anterior dissemos que cada Escola tinha seu próprio estilo de iniciação segundo sua ética e fundamentos específicos.
Mais uma vez gostaríamos de deixar claro que não somos contrários a qualquer modelo de iniciação, desde que este seja verdadeiro, honesto, siga sua Tradição e Linhagem. Não colocamos nesse universo apenas aqueles grupos que escrevem em nome dos Ancestrais cometendo erros científicos de teorias já amplamente divulgadas pela nossa Ciência. Assim, os grupos que responsabilizam entidades espirituais por erros de seus médiuns não entram em nossa análise. Todos os outros, porém, merecem nossa atenção.
Gostaríamos de chamar a atenção para um ponto de suma importância e que muitas vezes passa despercebido, a crítica que a Umbanda Esotérica sofre por ter preconceituado outras formas de se pensar e praticar as religiões afro-brasileiras. Longe de defender cegamente tal Escola, lembramos que todas as religiões de matrizes africanas e ameríndias, independente de qual sua denominação, sofreram entre os anos 30 e 40 do século passado (ditadura getulista) forte perseguição. Na época o modelo vigente e aceito como de “bom costume” era a prática católica, justamente, pelos vários períodos de acordo entre Igreja e Estado.
Práticas rituais com danças, tambores, oferendas rituais, bebidas, sacrifícios, eram vistas como feitiçaria, macumba ou “baixo espiritismo”, não apenas pelas práticas em si, mas pelo preconceito e racismos contra quem as praticava, até o momento majoritariamente negros, índios e descendentes. Para que pudessem funcionar os terreiros eram obrigados a pagar o que ficou conhecido como “Taxas de Proteção”, valores altíssimos. Claro está que poucos o faziam porque negros, índios, mestiços, mamelucos tinham condições econômicas desfavoráveis, eram excluídos e viviam em condições precárias. Assim, grande parcela dos terreiros era obrigada a viver na clandestinidade, sofrendo o risco de serem surpreendidos a qualquer momento pelas batidas policiais, às quais levavam muitos para a prisão.
Após esse período triste de nossa história as religiões afro-brasileiras foram aos poucos se disseminando e “aparecendo” por todos os cantos do país. Era um processo ainda tímido de praticar sua crença sem que fossem rechaçados e preconceituados. Assim, não fica difícil entender porque após um período de forte repressão, e após tal período, cada terreiro tenha caminhado com suas próprias pernas, tentando levar avante aquilo em que acreditavam e fechando-se em grupos pequenos. Foi um movimento de resistência e preservação. Para prosseguir no campo religioso foi preciso se fechar, criar barreiras para melhor criar sua identidade e força, para melhor enfrentar as várias lutas interreligiosas. Foi um momento em que todos os terreiros, de todas as Escolas afro-brasileiras, buscavam se legitimar e para isso diziam que suas práticas eram melhores que as dos demais terreiros.
 Assim, a Umbanda Esotérica é um entre muitos exemplos que podemos citar de Escola que sentiu necessidade de fechar-se para melhor se estruturar, amparar seus fundamentos e legitimar-se, já que anteriormente havia sofrido combates, ataques e enfrentamentos, os quais, poderiam ter levado ao fim de tal prática.
Dessa forma, levamos o leitor e ver o outro lado da moeda, o lado de quem observa o jogo religioso mediante o processo histórico e vendo neste a possibilidade de compreensão de muitos discursos. Se em algum momento a Umbanda Esotérica julgou outras formas de cultuar o Sagrado nas Religiões Afro-brasileiras, certamente o fez, para dar conta de um processo repressivo imposto. Isso não justifica o preconceito e a falta de respeito com os demais, mas possibilita que nós analisemos o arranjo intrarreligioso a partir dos fatos históricos. Assim, tomando emprestado de um grande pensador do século passado Karl Marx, penso que devemos utilizar o materialismo histórico ou a dialética materialista para analisar o processo de legitimação das religiões afro-brasileiras no Brasil, vendo nesse processo lutas postas em jogo mas que podem ser revistas já que a dialética nos força à transformação.
Finalizando, o conceito de Escolas discutido e difundido por nós é a grande mola propulsora para a reviravolta nesse percurso histórico, abrindo espaço para um olhar equânime entre as religiões afro-brasileiras e que só foi possível, graças ao amadurecimento da sociedade como um todo e do povo de santo em particular para compreender que todas as religiões afro-brasileiras fazem parte do acervo espiritual do Brasil e tem seu motivo de existir. Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 272

Um comentário:

  1. Oi, gostei muito do blog.
    Lembrei-me do Programa De Olho no Mundo(www.deolhonomundo.com), de Aline, da Cidade das Pirâmides, que diz: “O nosso país, a nossa sociedade, a nossa família, são o espelho kármico e genético de nós mesmos.".Abçs.

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