quinta-feira, 19 de julho de 2012

O CONCEITO DE ESCOLAS LEGITIMA E VALORIZA OS PROCESSOS DE INICIAÇÃO NAS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS


Esta semana nosso filho espiritual Antonio Luz foi apresentar um trabalho acadêmico em um Congresso Internacional sediado na Universidade de Viena (Áustria). Na ocasião, aproveitou e divulgou nossa obra recém editada Escolas das Religiões Afro-brasileiras – Tradição Oral e Diversidade. Escrevemos esse livro na expectativa de apresentar o conceito de Escolas e seus fundamentos dentro da epistemologia teológica afro-brasileira, mas principalmente para disseminar um valor, o do respeito incondicional a todas as formas de se praticar e viver as religiões afro-brasileiras.
Pensando sobre o conceito de Escolas é impossível não refletir sobre a importância da iniciação nas várias Escolas Afro-brasileiras, cujos processos são particulares e diferenciados.
Em paralelo a outras leituras, líamos recentemente as teorias antropológicas de Louis Dumont, cuja análise principal remonta às origens do individualismo na sociedade moderna. Para realizar tal intento, Dumont (1985) pesquisou a sociedade indiana e percebeu que os indivíduos que pleiteiam a iniciação o fazem renunciando ao mundo hodierno. Não existe processo de iniciação indiana sem a abstenção dos valores do meio social. O social visto como um óbice à escala individual rumo à libertação. Outra característica pontuada por Dumont é que o indivíduo que aspira e adentra em um processo de iniciação pensa apenas em sua iniciação, em como proceder para conseguir atingir sua meta de redenção espiritual, ainda que possa viver com outros iniciantes em mosteiros ou outras moradias coletivas religiosas. Em função disso, Dumont chama esse indivíduo indiano de “indivíduo-fora-do-mundo” a fim de compará-lo com o tipo de individualismo existente na sociedade moderna ocidental, em que os indivíduos vivem em seus meios sociais e, portanto, denomina-os de “indivíduos-no-mundo”.
A partir dessa leitura que ocasionalmente nos chegou às mãos, refletimos sobre os processos de iniciação nas religiões afro-brasileira não a fim de estabelecermos um marco diferencial qualitativo entre um e outro, apenas para mostrar suas características.
A Umbanda Esotérica, por exemplo, possui um modelo de iniciação bastante semelhante ao analisado por Louis Dumont na sociedade indiana. Ainda que a iniciação seja realizada dentro de uma comunidade de santo, com rituais coletivos, inclusive, o pensamento vigente é que o indivíduo busque sua libertação da forma de vida profana estabelecida pela sociedade contemporânea. Ainda que orientado por uma mãe ou pai espiritual, o iniciante conta consigo próprio para atingir seu intento, a partir de uma prática de conduta quase ascética. O iniciante na umbanda esotérica assemelha-se ao iniciante indiano, ele é um “indivíduo-fora-do-mundo”, esse é o modelo que ele busca pensando na sua iniciação e, portanto, libertação espiritual.
Já as iniciações de outras Escolas umbandistas, por exemplo, assemelham-se mais ao modelo da sociedade moderna ocidental, cujo indivíduo mantém-se no mundo, não fica apartado dessa realidade. Assim, nesses processos, o indivíduo não visa separar-se dos valores da sociedade, mas buscar sua iniciação, apesar deles e junto a eles. Da mesma forma que na umbanda esotérica, o indivíduo faz parte de uma comunidade de santo, mas o senso de pertença coletiva e pelo emaranhado de relações que estabelece com a sociedade em nível macrossocial, não pensa apenas no seu processo de iniciação, mas no processo de iniciação coletivo. Muitos integrantes da umbanda esotérica afirmam que seu processo de iniciação é muito mais árduo, difícil. Mas questionemos, não será mais difícil quando a iniciação é processada e praticada em meio ao turbilhão de valores sociais anti-espirituais? E seria justo pensarmos apenas no nosso processo de iniciação, seria possível ser liberto quando muitos seres ainda sofrem, penam e gemem de mazelas materiais?
Assim, muitas pessoas costumavam disseminar a superioridade da iniciação da umbanda esotérica frente a outras, em um discurso neo-evolucionista e preconceituoso com outras práticas. Porém, a introdução do conceito de Escolas faz com que revejamos e repensemos todos os nossos conceitos uma vez que não é possível estabelecermos uma perspectiva comparativa em termos qualitativos. Assim como não podemos mais comparar e escalonar culturas, não o podemos fazer com as práticas religiosas afro-brasileiras.
Assim, nossa intenção não é diminuir o processo de iniciação da umbanda esotérica, até porque o respeitamos muito e sabemos de sua eficácia. Mas convém alertarmos para o cuidado que alguns praticantes da mesma devem ter em seus discursos que podem inferir uma prática discriminatória e, inclusive, elitista.
O conceito de Escolas foi paradigmático pois se tornou impossível privilegiarmos uma prática em detrimento de outras. O conceito de Escolas rompe com toda forma de homogenia e hegemonia, possibilitando que todas as cosmovisões afro-brasileiras sejam valorizadas e respeitadas. Mais uma vez ressaltamos que não pretendemos criticar nenhum processo de iniciação, apenas alertar para a forma com que seus praticantes o entendem e disseminam seus discursos.
Aproveitamos o final da publicação para agradecer a todos os professores doutores em suas áreas do conhecimento que ministraram aulas na pós graduação lato sensu na Faculdade de Teologia Umbandista no módulo Escolas das Religiões Afro-brasileiras, em que abordaram a ampla diversidade religiosa afro-brasileira e sua plêiade de rituais, cumprindo a missão de FTU em formar teólogos e especialistas com uma visão humanizada da sociedade como um todo e do próprio campo religioso afro-brasileiro.
Finalmente, agradecemos ao mundo espiritual pela benção de ofertar variados caminhos para que todos os seres humanos possam encontrar-se em espíritos. Axé!



Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 271

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