domingo, 20 de maio de 2012

RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS



A TRADIÇÃO DE SANTO VIVENCIADA SE MANIFESTA NAS ESCOLAS

Na última quinta-feira, dia 17 de maio, demos início ao módulo “Escolas das Religiões Afro-brasileiras”, da especialização lato sensu em Teologia de Tradição Oral, da Faculdade de Teologia Umbandista. Este módulo contará ainda com a presença do Prof. Dr. Reginaldo Prandi, Prof Dr. Sérgio Ferretti, Profa Dra. Mundicarmo Ferretti e Prof Dr. Luiz Assunção.
Iniciamos o módulo discorrendo sobre Escolas que sistematizamos (sem engessar) em um conceito o que observamos e vivenciamos na prática de terreiro durante quatro décadas.
O conceito de Escolas crê que todas as múltiplas formas de se vivenciar e praticar as religiões afro-brasileiras são importantes e que a parte (uma Escola) não representa o Todo (as religiões afro-brasileiras). “Escola” pressupõe fundamentos que são transmitidos de pai/mãe espiritual para filho(a) de santo em uma relação de oralidade e de vivências, às quais são impossíveis de ser adquiridas em livros técnicos ou cursos. O “conhecimento de santo” só existe vivenciando-o, respirando e trocando o axé em sua comunidade. O “conhecimento de santo” é bem diferente do ensino formal, cuja ênfase maior está na literatura e não na relação dialógica e vivenciada entre sacerdote/sacerdotisa e filhos(as) espirituais. 
Mas esta característica só não define uma Escola. É preciso, portanto, uma Epistemologia (um corpo de fundamentos), um Método (a abordagem ritual escolhida) e uma Ética (forma de vivenciar a Tradição). Todas as comunidades de santo sérias possuem seus fundamentos, os rituais vários próprios da sua Tradição e uma filosofia para seguir no terreiro e na vida.
Aproveitamos o calor das discussões para retomar uma pesquisa realizada em 137 países sobre a relação entre fé e poder econômico. Constatou-se, ao contrário do que se esperava, que os ateus estavam vinculados aos países financeiramente privilegiados. Isto nos impressionou bastante pois o curso da história mostrou que o ateísmo vinculava-se ao comunismo! Os alunos discutiram bastante sobre isto principalmente quando apresentamos um dos resultados da pesquisa sobre a África subsaariana onde menos de 1% é ateu! A reflexão sobre secularização e desencantamento do mundo proposta por Weber continua contemporânea. A partir de então focamos nossa atenção para as religiões afro-brasileiras. Serviriam elas apenas para amortizar os problemas advindos da miséria econômica, seria um refúgio, um caminho para esquecer das dores e incertezas, uma fuga?
Nossa proposição foi a de que em um primeiro momento as pessoas buscavam as religiões afro-brasileiras como clientes, em busca de serviços que solucionassem seus problemas. Nesta etapa as religiões afro-brasileiras são consideradas mágicas, pois visam fins objetivos e rápidos. É um momento emergencial que sabiamente os Orixás, Ancestrais, Encantados e tantas outras entidades ofertam para os adeptos a fim de que eles se aproximem aos poucos de realidades maiores.
Um segundo momento os adeptos não se interessam apenas por serviços (clientelismo) mas sentem-se inseridos e almejam fazer parte da comunidade de santo. Esta é a etapa estrutural em que nasce um senso de pertença e as pessoas veem outras possibilidades, por exemplo, um caminho seguro para alcançar a espiritualidade.
Esperamos ter apresentado algumas das discussões realizadas na Faculdade de Teologia Umbandista, pois o debate é sempre importante e salutar. Somos uma unidade aberta em constante construção e ressignificação!
Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 254

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