segunda-feira, 9 de abril de 2012

FTU E CENTRO DE CULTURA VIVA DAS TRADIÇÕES AFRO-BRASILEIRAS NA ÓTICA DO PROF. VOLNEY BERKENBROCK


O processo de transformação da consciência ordinária e seus sentidos grosseiros (“ser do mundo”) em consciência iluminada e manifestação sublime (“estar no mundo”) deve ser a expectativa de todo ser humano, pois isso transforma o homem, sua humanidade, enfim, o mundo.
Nas religiões Afro-brasileiras esse processo é denominado de Iniciação, o qual permite conectar o homem com o universo interno e externo, neutralizando essa dualidade aparente. Apesar das várias formas de entendimento e práticas (vivência iniciática com o sacerdote) todas as religiões Afro-brasileiras tem como escopo elevar o nível consciencial de seus iniciados ou simples prosélitos, algo que acontece sem traumas e sem atropelar etapas que são vivenciadas pelo tempo. Não há atalhos, todavia isto não impede o marketing religioso, pois há quem acredite no menor esforço e, claro, na ineficiência.
Esta introdução deve-se ao excerto, recorte de texto que postarei do Prof. Dr. Volney Berkenbrock publicado na revista Atualização. Dr. Volney é um profundo estudioso da Teologia e das Ciências da Religião e um dos docentes do curso de pós-graduação da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG-UFJF). Seu objeto de estudo, entre tantos outros, é o das religiões Afro-brasileiras, no qual tem promovido avanços consideráveis no âmbito da pesquisa e do magistério.
O artigo do iminente professor, no que tange ao excerto que postamos, deveu-se a uma palestra que ele proferiu na FTU e de sua visita que muito me honrou no Centro de Cultura Viva das Tradições Afro-brasileiras.
Quero realçar a fala do Prof. Volney, pois o mesmo em seu apostolado, como católico praticante, tem promovido, assim como outros, uma apologia do diálogo interreligioso como forma de um caminhar que proporcione paz, amizade e certeza da religião na vida hígida de todo ser humano.
Parabenizo o Prof Volney e todos os interessados na paz, por dentro das religiões, pois a elas, entre tantas tarefas, nenhuma é tão extremada em importância com a paz, que se desdobra na fé e em práticas vivas de amor e sabedoria. Vamos ao excerto! Boa leitura!
CONHECIMENTO TEOLÓGICO E EXPERIENCIA RELIGIOSA
A república brasileira foi proclamada e construída sob a égide da laicidade. Um dos grandes marcos disto foi justamente a separação entre Igreja e Estado. Até o fim da monarquia, o catolicismo era a religião oficial e o exercício de outros cultos eram apenas permitidos sob circunstâncias especiais. Se Igreja (e igrejas!) e Estado conseguem viver separados até hoje já é uma outra questão que não vem ao caso aqui discutir. Uma das marcas da constituição laica da república foi a construção do sistema de ensino em todos os seus níveis. E consequência disto foi, na constituição das diversas ciências que se transformavam em cursos superiores, a ausência da teologia. A república brasileira não reconheceu a teologia como ciência a receber o status de faculdade.
Os cursos de teologia em todo o país, ligados as instituições religiosas, mesmo que realizado com todas as exigências de cursos superiores, não recebiam a chancela pública da faculdade. Isto é de estranhar especialmente pelo fato de nossas faculdades e universidades terem se inspirado enormemente nos sistemas europeus e nelas ter se pós-graduado inclusive boa parte da elite acadêmica do Brasil. Na maior parte da Europa, a teologia é uma ciência reconhecida em faculdade há muitos séculos. E em não poucos casos, o curso de teologia contribuiu inclusive para a própria constituição das universidades. Mas no Brasil, uma certa ideia de laicidade do Estado mantinha o curso de teologia sem reconhecimento oficial como curso de nível superior. Isto mudou há um pouco mais de uma década. A possibilidade de mudança ocorreu através da aprovação por parte do Conselho Nacional de Educação Superior do Parecer CES 241/99, de 15 de março de 1999 que, embora mantenha clara a separação entre Igreja e Estado, permitia o reconhecimento no Brasil, sob algumas condições específicas, do bacharelado em Teologia. Embora o ministro da Educação tenha titubeado em homologar o parecer e fazê-lo publicar no Diário Oficial da União, isto acabou ocorrendo no dia 15 de julho do mesmo ano*. Muitas instituições de denominações cristãs diversas que mantinham cursos de teologia entraram com pedido de reconhecimento e receberam a autorização para tanto. Neste meio tempo, já são algumas dezenas de cursos de teologia funcionando com status de curso superior autorizado e/ou reconhecido pelo Ministério da Educação. Dentre estes, um curso autorizado – um único até agora – não é de tradição cristã. Trata-se da FTU – Faculdade de Teologia Umbandista. A faculdade foi fundada a partir da atividade religiosa e de pesquisa desenvolvida há muito anos por Francisco Rivas Neto (Pai Rivas) em São Paulo. Após ter tido contatos via e-mail com as pessoas desta instituição, tive a oportunidade de visitá-los e ter sido acolhido com uma generosidade e abertura ímpar. Francisco Rivas Neto (Pai Rivas) e Maria Elise Rivas (Sacerdotisa Yamaracyê) mostraram-me a FTU e o Centro de Cultura, dispuseram de tempo generoso para conversas e, sobretudo me senti incluído com a maior naturalidade naquele centro de estudos. Das muitas coisas que me levaram a refletir naquele diálogo, duas marcaram-me profundamente e sobre elas teço alguns comentários.
A TEOLOGIA COMO “ATO SEGUNDO”: A FÉ COMO FUNDAMENTO DA TEOLOGIA
A discussão sobre a ciência teológica é longa e interessante. Qual é a base do conhecimento teológico? De onde nasce a teologia? Qual o seu método de conhecimento? O grande mestre no Brasil desta questão é Clodovis Boff com o seu livro clássico “Teoria do Método Teológico”. Respondendo à questão de como nasce concretamente a teologia, Clodovis Boff afirma: “A pessoa de fé quer naturalmente saber o que é mesmo aquilo que acredita, se é verdade ou não. Quer saber também o que implica tudo aquilo em sua vida concreta e em seu destino. É que a fé tem isso dentro dela: a curiosidade. Ela quer saber de si mesma. É possuída por um dinamismo interno que a leva a se autocomprometer. Tal é a definição clássica da teologia: fides quaerens intellectum ( a fé buscando entender). É a expressão, já clássica de Sto. Anselmo (+1109). Significa: a fé é desejosa de saber. Ela busca luz”**. A teologia é, portanto, um “ato segundo” é a fé. A fé é o fundamento, o pressuposto da teologia. Teologia só é possível a partir de uma realidade: a realidade da fé. Não se trata aqui necessariamente da fé particular de quem faz teologia (a fé do teólogo), mas a realidade da fé como apriori teológico. A tradição teológica cristã, especialmente a católica que conheço, é bastante longa e tem muitos (e muitos!) escritos e mestres. Todos estes escritos e mestres são importantes para a teologia. Esta tradição carrega consigo, porém o perigo – e talvez mais que perigo, a tentação – de fazer teologia a partir da teologia, esquecendo ou deixando um tanto de lado a fé como fundamento da teologia.Talvez pelo fato de a FTU não ter a obrigação de carregar consigo uma longa tradição  acadêmica e seus escritos, senti ali uma proximidade muito consciente entre o estudo acadêmico e a experiência de fé. O próprio espaço de funcionamento do curso é uma feliz simbiose entre espaços de estudo e espaços de experiência religiosa. Os limites entre academia e templo são muito tênues, proporcionando aos estudantes – assim tive a impressão – uma permanente memória visual e simbólica do “ato primeiro” da teologia. O conhecimento advindo da experiência de fé não tenha (mais) talvez na tradição teológica cristã a importância que deveria ter. Não quero aqui fazer comparações simplistas entre a teologia feita na academia cristã que conheço e a teologia feita na FTU e dizer que esta ou aquela tem vantagens ou desvantagens. Mas o diálogo na FTU me levou a refletir sobre a afirmação de que a teologia é ato segundo em relação à fé, afirmação esta que eu mesmo já fiz diversas vezes ao lecionar teologia fundamental aos meus alunos.
A visita e o diálogo na FTU chamou-me isto novamente à consciência e de maneira que não poderia deixar de notar como fruto do diálogo inter-religioso.
O CENTRO DE CULTURA: O CULTIVO RELIGIOSO VIVO
Na visita à FTU, fui convidado a visitar também o centro de cultura mantido pela instituição, chamado ali de “Centro de Cultura Viva”. Disseram-me se tratar de um centro onde estavam reunidos elementos oriundos das muitas tradições religiosas afro-brasileiras. E assim é: um centro que reúne objetos, estética, instalações, elementos da grande diversidade das tradições religiosas afro-brasileiras. Inicialmente imaginei tratar-se de uma espécie de “museu”. Esta impressão passou logo quando iniciei a visita. Acompanhado de Pai Rivas, ciceroneados por uma guia, eu e muitas outras pessoas (grande parte alunos da FTU) fomos adentrando os diversos espaços que se nos apresentavam com músicas, gestos, danças, bebidas, ritos e passos de cada tradição. Entendi ali que o termo cultura não era usado de forma estática, mas no sentido de cultivar (ou cultuar). Estávamos num centro de “cultivo” das tradições afro-brasileiras, não olhando de fora os elementos, mas tentando nos colocar no sentimento religioso que cada qual emana. Fui informado que todas as semanas os alunos da FTU podem se dirigir ao centro de cultura e tomar parte destes rituais como atividade integrante (mesmo que não obrigatória) da atividade teológica. Lembrei-me da definição de sentido de P. Verger: “sentido é a consciência de que existe uma relação entre as experiências. ¹¹. A construção de sentido religioso ali dada era conduzida pela ideia da experiência religiosa. Em cada passo dado (e sentido, pois a caminhada se faz descalça) no centro de cultura, em cada música entoada, em cada instrumento tocado, em cada ritmo dançado, em cada gesto feito, construiu-se em mim um pequeno sistema de sentido. Experimentei isto como mais uma forma de diálogo inter-religioso: a possibilidade de se construir pequenos sistemas de sentido, dentro do qual nos entendemos com as pessoas que dele participam. E este sentido não precisa ser de totalidade, nem precisa explicar o mundo todo. Mas se conseguir criar espaços onde se pode, por alguns momentos caminhar juntos, este terá sido um momento de diálogo. Depois de algumas horas de participação neste “centro de cultura viva” tanto visitando ritualmente os diversos ambientes, como numa relativamente longa conversa com Pai Rivas, despedimo-nos e voltei para casa. Fiquei pensando num aspecto do diálogo inter-religioso: o de criar espaços onde e pode dar alguns passos em conjunto. Não penso que o diálogo inter-religioso tenha a obrigação de superar   as diferenças, pois a alteridade religiosa é irredutível. Mas ao mesmo tempo, o diálogo é possibilitado por estarmos de algum modo em um espaço comum, onde podemos dar alguns passos em conjunto. E esta experiência tive no “centro de cultura viva”.

O recorte é do artigo “Diálogos com o Candomblé e a Umbanda” de BERKENBROCK, Volney J., constante da Revista Atualização - Diálogo inter-religioso –Ano XLI, NN 348 e 349; jan.-abr-2011, paginas 207-211.

Prof. Dr. Volney J. Berkenbrock  é Doutor pela Rheinische Friedrich-Wilhelm Universität Bonn na Alemanha e professor do Programa de Pós-graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG).

*. Para entender melhor todo este processo de reconhecimento da teologia como saber universitário no Brasil, veja:P.F.CARNEIRO DE ANDRADE, O reconhecimento da teologia como saber universitário: tensões e articulações entre as dimensões confessional e profissional “ in A.M.L.SOARES & J. PASSOS (orgs.), Teologia pública, São Paulo: Paulinas, 2011, pp.21-36.
**. C.BOFF, Teoria do Método Teológico, Petrópolis: Vozes, 1998, p. 25 e  P.BERGER, T.LUCKMANN, Modernidade, Pluralismo e Crise de Sentido:,Petrópolis: Vozes, 2004,p.15


Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 242

2 comentários:

  1. Que maravilha de Texto ..... Isso nos remete mais uma vez que "Religião" não tem forma ..... e sim sentimento .... Estado de espirito .... Consciência Plena da Unidade....

    Parabens a FTU mais uma vez ....

    Jean C. Rocha

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  2. Excelente o artigo do Prof. Dr. Volney Berkenbrock, um olhar isento de qualquer tipo de preconceito. Só desta forma é possível buscar um diálogo entre as diversas religiões praticadas e vivenciadas no Brasil. Com respeito e um elevado nível de consciência. Como estudioso da Teologia e das Ciências da Religião, Prof. Dr. Volney Berkenbrock demonstra de forma humilde e inteligente um caminho concreto de como buscar um mundo de paz e harmonia entre as diversas religiões praticadas e vivenciadas em nossa sociedade. O relato e a percepção do mestre quanto ao papel da fé, como fundamento primeiro da teologia e esta como "ato segundo" se deve muito também a forma de como "Pai Rivas" conduz, ensina, vivencia e faz perpetuar, através dos ritos e da própria FTU a cultura e tradição das religiões Afro-brasileiras. Ao Prof. Dr. Volney J. Berkenbrock, que não conheço pessoalmente, meus parabéns pela sensibilidade e humildade, pertinente somente aos grandes homens, aos sábios, apaixonados pela humanidade e pela vida. Aranauam!!! Ronaldo Saldanha - Petrópolis - RJ

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