segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras promovendo o diálogo com a Sociedade, Academia e Religião


Antes de dar início ao texto que versará sobre o público alvo das Religiões Afro-brasileiras/americanas mais uma vez entregamos a pena a Pierre Bourdieu, sociólogo francês que muito contribuiu para a sociedade com seus estudos e conclusões.

Enfaticamente afirmou: O homem oficial é um ventríloquo que fala em nome do Estado: assume uma postura oficial – com todo o teatro do oficial – fala para e se coloca no lugar do grupo ao qual se dirige, fala para e se coloca no lugar de todos, fala como representante universal (Bourdieu 1930 – 2002).

A crítica de Bourdieu deve-se ao fato de as pessoas além de falar por elas, quererem falar pelos outros (universalizar ou homogeneizar o discurso). Óbvio que os que assim procedem não são “democráticos”, na verdadeira acepção do termo, querem ser hegemônicos, deterem o poder, por isso negam a diversidade.

São os mesmos que afirmaram que sou pela particularidade, quando deveria ser pela universalização. Ou esses não me entenderam ou deliberadamente querem confundir os outros, pois é cristalino que ser pela particularidade é o mesmo que dizer pela diversidade (de cada Templo) e um sonoro não para a hegemonia e homogenia que defendem.

No que concerne à FTU, sempre foi pólo de diálogo, pelo processo dialógico em vários níveis. O primeiro foi o intra-religioso (respeito incondicional à diversidade religiosa dos terreiros). O segundo diálogo, inter-religioso, faz a aproximação verdadeira com o diferente, o diverso, as várias religiões disponíveis na sociedade (plural). Dialogando com elas com respeito incondicional, convivendo pacificamente, promovendo com todas uma cultura de paz.

O terceiro diálogo – interdisciplinar – fez com que a Teologia das Religiões Afro-brasileiras pudesse dialogar com as várias disciplinas acadêmicas, propiciando ensino teológico de qualidade, pesquisa (iniciação científica) e diálogo com a sociedade.

Isso só foi possível pela visão plural da FTU, por perceber e ser sensível quanto ao público ao qual se dirige.

A FTU – Faculdade de Teologia Umbandista – tem seu curso de graduação, bacharelado em Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras desde que foi autorizada e credenciada pelo MEC em 2003.

A primeira e a única faculdade de Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras, que faz grassar a diversidade respeitando todas as tradições de sabedoria por dentro destas religiões, não homogeneizando, isto é, não tendo ênfase em uma só tradição mas em todas, sendo a que inaugurou esta nova fase por dentro deste universo. A FTU é a primeira e a única, por não ser hegemônica (poder central) que faz grassar que é para todos, o que tem sido provado e comprovado pelas suas atividades nos níveis: Sociedade, Academia e Comunidade Afro-brasileira.

A FTU é uma instituição de ensino superior, autorizada e credenciada pelo MEC. Tem sido elogiada por vários acadêmicos, inclusive por teólogos de outras confessionalidades, pelo fato, também inédito, de possuir dois braços fundamentais.

Suas atividades, por intermédio de seus dois braços ou vertentes tem servido de modelo a outras instituições, pois no mesmo local de funcionamento da FTU (aspectos acadêmicos) há também o Templo que permite, além do conhecimento acadêmico (saber religioso), a práxis, a experiência vivenciada por intermédio de vários rituais, das várias Tradições de Sabedoria das Religiões Afro-brasileiras/americanas.

Esta atividade da FTU, de forma insofismável, demonstra que ela valoriza a cultura do pluralismo, da diversidade das tradições religiosas. Tem no pluralismo, na diversidade um enriquecimento fundamental da condição humana. Defende e faz grassar um pluralismo que obrigatoriamente inclui a afirmação de verdades e dos critérios públicos para tal defesa e publicização.

Encerrando, espero ter deixado claro as duas atividades: religiosa e acadêmica.

A religiosa defende a particularidade, ou seja, a livre expressão dos terreiros, se possível, de todos, por isso se opõe à universalização, ou seja, homogenia (todos doutrinando e praticando a mesma coisa) que invariavelmente termina no processo hegemônico (quer dominar ou centralizar o poder em detrimento de todos).

Eis o porquê em defendermos a particularidade e não a universalização. Todavia, isto não impede a aproximação, amizade e diálogo que todos os terreiros devam ter, contribuindo assim, por um mundo melhor, demonstrando que as Religiões Afro-brasileiras/americanas tem propostas sérias para a comunidade de santo e para toda a sociedade.

Quanto a focar o terreiro, uma única “comunidade terreiro”, apesar das pessoas serem diferentes, todos estão imbuídos em seguir uma Tradição de Sabedoria mediada por sacerdote/sacerdotisa consumado, que tem sua raiz, ou seja, conhece seus ascendentes (Tradição e os transmissores da mesma). No terreiro onde se preconiza uma tradição de sabedoria fortalece-se a identidade do indivíduo e a pertença do grupo, e isto, nessa ocasião, universaliza-se na medida do possível a vivência ritual e estilo de vida de seus prosélitos ou filhos de santo.

Quanto à Teologia defendida pela FTU, ela manifesta-se de forma pública, ou seja, procura atingir três públicos: sociedade, academia e religião.

Público Sociedade: dialoga com aspectos sociais, econômicos, políticos, culturais e do cotidiano, procurando adaptar seu discurso aos seculares, aqueles que não são adeptos das Religiões Afro-brasileiras/americanas, aos ateus, enfim, a todos.

Público Academia: promove o diálogo com as várias disciplinas acadêmicas, por intermédio do saber religioso. Defende o diálogo inter-disciplinar, pois reconhece a necessidade de dialogar com todas as disciplinas, com as ciências várias, filosofias e outras Teologias, portanto, seu discurso deve ser e é público e não privado. Entende-se por público não ser confessional apenas, mas promover diálogos com todos os setores do conhecimento, seja acadêmico ou religioso. Por isso não sou pelo discurso privado, de uma só Teologia.

Público Religião/Terreiro: As Religiões Afro-brasileiras/americanas são de Tradição Oral, doutrinam e defendem, tal qual a diversidade cultural brasileira, o respeito incondicional às diferenças, que não são deficiências ou mistura, muito menos falta de tecnologias. É uma forma inteligente e espiritualizada de prevenir e, se possível, erradicar as discriminações e preconceitos vários. A Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras/americanas dialoga, publiciza com a Sociedade e Academia, todavia, é também uma teologia do terreiro, da Tradição da Sabedoria do Orishá (Ancestral Divino) e dos Ancestrais Ilustres, sendo seus sacerdotes e terreiros considerados sagrados, pois ambos são agraciados em si, dentro de si com a presença das Divindades (Orisha, Vodun, Inquice, Caboclo). Toda Tradição de Sabedoria está calcado na tradição de transe de possessão ou mediúnico, portanto, além do discurso acadêmico e com a sociedade. Assim, além dos discursos anteriormente mencionados, há também o discurso com as divindades do Terreiro. ??

O público Terreiro é um dos mais importantes, ressaltando a fala do Prof Dr. Volney Berkenbrock (UFJF) no I Congresso Internacional das Religiões Afro-americanas realizado pela FTU em 2011 quando bem afirmou que os rituais, fé, crença (terreiro) são os atos primeiros do campo teológico. Com isto, não estamos negando o saber religioso (ato sagrado) que conecta seu discurso com a Sociedade e as disciplinas acadêmicas.

As demais amarrações deixarei para futura discussão, mas reitero que a FTU promove o imbricamento dos três discursos: sociedade, academia e terreiro.

Concluindo, a Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras/americanas torna-se particularista (confessional), sem que com isso se afaste de sua missão maior, qual seja a de demonstrar que toda Teologia tem um compromisso com a Sociedade, e para isso acontecer promove e defende a interdependência inter-teológica, a Teologia como discurso público e não privado ou particular e exclusivo.

Precisamos estar atentos para não sermos vilipendiados e logrados pelos que desejam elevar à categoria de verdades definitivas e absolutas conhecimentos provisórios e parciais afirmando serem de Teologia ou Tradição das Religiões Afro-brasileiras. Acautelem-se os interessados na manutenção da ética e da consistência das verdades das Religiões Afro-brasileiras/americanas. Felizmente estamos noutros tempos! Tempos de luz, do Sagrado presente e atuante em tudo e em todos. Axé!


Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 222

Um comentário:

  1. Olá Pai Rivas

    assisti a um filme no youtube chamado "La Belle Verte". Não tem nada a ver com o tema a seguir mas é um filme que, na minha opinião, todos os umbandistas deveriam assistir.
    Gostaria que o senhor e toda a banda pudesse assistir e refletir

    segue um link do vídeo no youtube

    http://www.youtube.com/watch?v=TTTgefnY6hA&feature=related

    Axé

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