segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Religiões Afro-brasileiras/Americanas - Diversidade como Inclusão Total

Resumo
 

No que concernem às religiões afro-brasileiras/americanas, respeitam todas as formas de pensamento humano, todavia não concordam com a linha mestra da pós-modernidade caracterizada pelo anti-humanismo (abandono do sujeito) e ceticismo que se aproxima do irracional. Não obstante, não se nega que a ação humana está sob os guantes da estrutura socioeconômica, como de há muito tem sido denunciada pelas religiões afro-brasileiras/americanas.

Nas religiões afro-brasileiras/americanas não se mantêm a esperança passiva, mas a atividade de uma militância constante na certeza de possibilidade real de mudanças substanciais, manifestas em novos projetos de emancipação da humanidade, onde prevaleça o diálogo como forma de convivência pacífica e justiça social, política e econômica.
 

Palavras-chave: Diversidade, Inclusão Total, Pós-modernidade, Religiões Afro-americanas, Religiões Afro-brasileiras.

Abstract
 

Afro-brazilians/americans religions respect all forms of human thought, however disagree with the mainstream of post-modernity characterized by anti-humanism (abandonment of the subject) and skepticism that approaches the irrational. Nevertheless, there is no denying that human action is under the socioeconomic structure, as has long been denounced by religions afro-brazilians/americans.
In afro-brazilians/americans religions there is no passive hope, but the activity of an ongoing militancy in certain real possibility of substantial changes, manifested in new projects for the emancipation of humanity, where dialogue prevails as a form of peaceful coexistence and social, political and economic justice.

Keywords: Diversity, Total Inclusion, post-modernity, Afro American, Afro-Brazilian Religions



Nas Religiões Afro-brasileiras/Americanas valorizam-se a diversidade, a multiculturalidade, o respeito, o reconhecimento e a valorização da diferença e do outro (alteridade).

Muitos supõem ser esta valorização uma forma de crítica à modernidade, pois a mesma não conseguiu emancipar o homem e sua sociedade por intermédio da razão.

Os críticos, os intelectuais, são tidos como pós-modernistas; sentenciam a falência da razão, pois a mesma não favoreceu a liberação humana, ao contrário racionalizou o controle dos indivíduos, deflagrando formas de opressão que se estabelecem no cotidiano.

No que concernem às religiões afro-brasileiras/americanas, respeitam todas as formas de pensamento humano, todavia não concordam com a linha mestra da pós-modernidade caracterizada pelo anti-humanismo (abandono do sujeito) e ceticismo que se aproxima do irracional. Não obstante, não se nega que a ação humana está sob os guantes da estrutura socioeconômica, como de há muito tem sido denunciada pelas religiões afro-brasileiras/americanas.

Nas religiões afro-brasileiras/americanas não se mantêm a esperança passiva, mas a atividade de uma militância constante na certeza de possibilidade real de mudanças substanciais, manifestas em novos projetos de emancipação da humanidade, onde prevaleça o diálogo como forma de convivência pacífica e justiça social, política e econômica.

Numa ação crescente e madura, os adeptos das religiões afro-brasileiras/americanas têm promovido a divulgação de que  sua vertente principal é a diversidade, é repensar e reatualizar  suas práticas de relacionamentos endógeno e exógeno.

Sim, é histórico que os adeptos das religiões afro-brasileiras/americanas sempre estiveram (mantiveram-nos) apartados, separados, algo que os fragilizava e, ainda na atualidade enfraquecem sua mobilidade social, e principalmente, sua real importância no cenário da cultura e sociedade brasileiras. Nos aspectos religiosos são, ideologicamente, expostos como mero folclore.

Recentemente uma das emissoras da mídia televisiva aberta, reportou-se a Lavagem das Escadas (enredo religioso) da Igreja do Senhor do Bonfim, associando-a de forma pejorativa a uma escola de samba. O pior estava por vir, pois na reportagem anterior haviam mostrado alguns presidentes de escolas de samba sendo detidos em delegacia policial por crime de contravenção. Conclusão: associaram às religiões afro-brasileiras/americanas com o crime, como algo alheio ao bom senso e aos “bons costumes”. Mais uma vez, o preconceito...

Este descaso para os adeptos das religiões afro-brasileiras/americanas tem sua gênese no Brasil colônia. Naquela época não se permitia o encontro de indivíduos de etnias diferentes, pois o que se desejava era conveniente na manutenção do status quo. Aumentavam-se as rivalidades entre eles impedindo que se unissem e combatessem o escravismo. Era só isso!...

Na atualidade não é diferente. Vez por outra se estimula rivalidades entre os adeptos das religiões afro-brasileiras/americanas, pretendendo manter as coisas como sempre foram.

Incita-se discussões estéreis, improducentes e improcedentes que impedem a união, o sentido de pertença e identidade das religiões afro-brasileiras/americanas, adiando a tarefa que a elas competem no cenário de incentivar e proporcionar a mudança social, na defesa dos discriminados e excluídos de todos os matizes da sociedade brasileira.

Mais uma vez a pergunta que não quer se calar: a quem pode interessar tal estado de coisas? A quem? Com toda a certeza não são aqueles que desejam a união (não codificação) a pacificação e uma cultura de paz, com respeito irrestrito a todas as religiões afro-brasileiras/americanas.

Para esses promotores de cizânias deve-se afirmar que não há esse ou aquele “Terreiro”, melhor que os demais. Apenas são diferentes, somente isso. E isso é muito bom. Não há necessidade de concorrência, mas de convivência pacífica que fortalece a amizade, a fraternidade, a identidade (vendo- se no outro) e a pertença.

Reitera-se que não se pode olvidar que variações regionais (espaço) e de várias épocas (tempo) proporcionariam e proporcionam a diversidade, ou seja, diferenças. Há de frisar-se que diferenças são apenas variações de uma mesma coisa, portanto naturais.

Todas as religiões afro-brasileiras/americanas são formas de manifestação da diversidade, e isto significa ter a liberdade de fazer o seu culto segundo seus fundamentos e não desprezar o culto e os fundamentos do outro. O respeito, o reconhecimento de que o outro existe e tem sua real importância no processo da religiosidade.

Aceitar, respeitar e vivenciar a diversidade não significa o individuo mudar seus conceitos ou fundamentos que aprendeu e vivenciou em sua Tradição na Iniciação, pois deve perceber que também ele mesmo, seu ritual faz parte da diversidade, tal qual todos os demais. Portanto viver a diversidade é aceitar e reconhecer o real valor do outro no contexto das religiões afro-brasileiras/americanas.

Todos podem e devem continuar fazendo seus cultos e seguir seus fundamentos o que deve ser natural, todavia não se pode achar que se é melhor que este ou aquele e muito menos alardear que “revelou”, ou resgatou isso ou aquilo, como forma de desejar a hegemonia na religião. Isso é contrário à diversidade, ao reconhecimento do outro e a ética que norteia essa religião.

Tomando como exemplo de religiões afro-brasileiras/americanas, a Umbanda, tem-se na verdade várias “Umbandas”, pois há várias Escolas, cada uma com seus rituais próprios, segundo sua (s) vertente (s) formadora (s) preponderante (s).

A vertente denominada Umbanda Cristã se alicerça em fundamentos próximos ou retirados do kardecismo e Catolicismo. Claro está que há influências de matriz ameríndia ou africana.
A Escola Umbandista (forma de pensar e cultuar os Orixás e Ancestrais) denominada Omolocô tem como vertente principal a matriz africana (mistura angola jejê nagô) tendo laivos do Catolicismo e menor influência Kardecista.

O mesmo acontece com a Umbanda Iniciática ou Esotérica que tem aspectos balanceados das três matrizes formadoras, mas com predominância ritualística da matriz ameríndia, sem descartar a matriz africana e a indo européia.

O mais maravilhoso é que todas têm o mesmo grau de importância, sendo apenas diferentes, atraindo para suas práticas as pessoas mais afinizadas com essa ou aquela matriz. Portanto, não há nexo descaracterizar a Umbanda tentando uniformizá-la ou desejar que uma vertente seja superior ou hegemônica. Isso é impossível na Umbanda, felizmente.

Mais uma vez conclui-se que diversidade é diferença e não desigualdade (hegemonia). Permite que cada um tenha a liberdade de cultuar suas convicções doutrinárias e mágico-liturgicas (toques, rituais), respeitando e reconhecendo a importância de outros grupos.

Os adeptos das religiões afro-brasileiras/americanas estão no inicio do processo do entendimento da diversidade, que deve ser um desafio a ser vencido, um exercício constante, principalmente de não se julgar melhor do que ninguém, ou mesmo querer impor a todos os demais uma forma de ritual.

É necessário, repisa-se, reconhecimento e valorização do ritual dos outros, da forma que cada um deseja fazer e vivenciar as religiões afro-brasileiras/americanas.

Não se pode olvidar que as mesmas são uma idéia que se manifestam em várias linguagens (cultos) e todos com a mesma importância. Isso nos incita a perceber, aceitar e reconhecer como legítimas as múltiplas linguagens das religiões afro-brasileiras/americanas.

No término desse texto em que reiterou-se a necessidade de se vivenciar a diversidade (falou-se demais sobre ela, é hora de vivenciá-la) e para não abortá-la, recordemos a história recente que afirma não ser a sociedade tão democrática como deveria. Portanto, defender a diversidade é assumir uma atitude humanista e política em favor dos que sempre foram marginalizados do poder de se expressar e de se mostrar.

É momento de diversidade sem adversidades. Vamos vivenciá-la? Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 218

Um comentário:

  1. Axé Baba mi
    Lendo esse texto, lembrei-me de quando ouvi pela primeira vez que não bastava falar de diversidade, e que já era hora de viver essa diversidade.
    Agradeço a oportunidade de ter um Pai de Santo que me permite vivenciar a diversidade, e além disso, entender a importancia disso para um mundo melhor em todos os setores, principalmente o social.
    Aradhana

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