quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A diversidade imuniza contra o discurso hegemônico


A pluralidade cultural caracteriza a contemporaneidade sendo um desafio a ser enfrentado pelas diversas teologias. Qual desafio?

O desafio seria devido a uma visão preocupada em captar as particularidades e as diversidades do real? Seria ao respeito à diferença do outro – a alteridade?

Talvez consista no imbricamento das possíveis causas aventadas e seus desdobramentos.

Apesar de remeter várias vezes à pluralidade, a diversidade, a particularidade, seriam elas realmente aceitas e vivenciadas? Acredito que não. Por quê?

Porque todas as religiões e suas teologias desejam ser hegemônicas, homogêneas, logo, universalistas. E como tal cada uma deseja e espera representar as demais.

O que não podemos olvidar é que há quem deseja possuir acesso ao privilégio do universal, mas não é possível ter o universal, isto seria monopolizá-lo.

Pierre Bourdieu afirmou claramente: “O homem oficial é um ventríloquo que fala em nome do Estado: assume uma postura oficial – com todo o teatro do oficial – fala para e se coloca no lugar do grupo ao qual se dirige, fala para e se coloca no lugar de todos, fala como representante universal”.

Consequentemente pode-se concluir a consonância com as religiões afro-brasileiras que defendem a diversidade, pois a mesma realça a particularidade de cada “terreiro”, torna-os legítimos, imuniza-os da homogenia e hegemonia promovida pela universalidade.

Pelo aventado parece evidente que os “terreiros” na diversidade estão imbricados num processo relacional e nunca numa linguagem universal (código seja ele qual for).

Quando me propus a elaborar um Fórum[1] Internacional Permanente sobre Diversidade nas Religiões Afro-brasileiras era para que todos que desejassem, sem nenhuma seleção, pudessem opinar, melhor, contribuir. Portanto, não estou falando por nossa comunidade (Religiões Afro-brasileiras/Americanas), apenas fui um canal facilitador para que todos pudessem se expressar, suas particularidades terem voz, uma característica da diversidade, da diferença do outro (alteridade), da pluralidade.

A “verdade” não é minha, mas de todos, eis, pois a diferença. Não quis a opinião de escolhidos, dos melhores (como se isto fosse possível), mas de todos os interessados, que auguro votos, sejam todos os sacerdotes/sacerdotisas do povo de santo.

Não coopto ninguém. Os que se interessaram em contribuir o fizeram de livre e espontânea vontade, pois pregam e vivenciam a diversidade como forma de aproximar a todos, reunindo e remindo a “comunidade de santo”. Discordo in tótum dos que doutrinam e divulgam à socapa: “A verdade dos dominantes se transforma na verdade de todos”.

Sou pela particularidade e não pela universalidade, pois alguns pequenos grupos querem homogeneizar, claro, para terem o poder hegemônico (o grupo – parte falando pela comunidade – todo).

Creio que cada Religião Afro-brasileira/americana precisa dar sentido à sua verdade, e para isto não pode olvidar que o público alvo ou públicos podem ser:
  1. Filhos de santo (linguagem específica ou iniciática) com uma linguagem peculiar à cada religião afro-brasileira.
  2. Clientes ou simpatizantes – linguagem em geral, mágico-religiosa. A seguir, aproximação com a filosofia do “terreiro”.
  3. Sociedade como um todo. Discurso decodificado e traduzido sobre como são entendidos os problemas existenciais, cosmológicos, ecológicos, culturais, sociais, políticos e econômicos.
Tanto teólogos quanto sacerdotes podem imbricar a comunicação aos três públicos, isto é, um discurso que atende a todos, que é o que se deseja.

Só por estes primeiros objetivos melhor pode se entender quando se afirma que a Tradição das Religiões Afro-brasileiras/americanas tem como constante a contínua mudança. Sim, a Tradição é algo que nos remete à continuação, todavia se não houver transformação ou mudança estará fadada a desaparecer. Eis a tarefa de todos os sacerdotes das Religiões Afro-brasileiras/americanas, observar a necessidade do respeito à diversidade, onde não mais haverá eu e outro, mas sim nós, nossa Tradição. Axé!


Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 221



[1] A ideia do Fórum foi além da contribuição de cada sacerdote, um estímulo à aproximação, diálogo e amizade entre todos.

Um comentário:

  1. Acredito que respeitar a diversidade é exaltar a coletividade,pois, como foi dito no texto acima "...não haverá eu e outro, mas sim nós, nossa Tradição."
    Com a criação do Fórum temos a oportunidade de vivenciarmos a força do coletivo expressada na palavra de cada Sacerdote e Sacerdotisa seja nos textos ou nos vídeos postados no blog.
    O povo do santo está podendo falar por si só sem intermediários, pois todos tem autonomia e propriedade para opinar e para dar a sua contribuição.
    Acredito que este movimento é um divisor de águas e que tempos melhores já são realidade.
    Ooxá bori wá. Axé Babá,tori bo mi.

    Yaranacy.

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