Na praxis do templo, da doutrina
esposada pelo mesmo, é necessário que seu mandatário tenha como sabedoria
religiosa e mágica a Tradição.
Sim, é necessário conhecer e
viver a memória de seu iniciador (Pai, Mestre...), do pai iniciador, do pai do
pai do iniciador, enfim de sua raiz ou linhagem com as reatualizações devidas.
Considera-se importantíssimo
conhecer e vivenciar a Tradição, pois implica em saber a origem, resgatar a
memória, entender e vivenciar, inclusive no estilo de vida, a Tradição na sua
comunidade-terreiro.
Pode-se associar a Tradição à
origem, à memória resgatada e, muito principalmente, a reatualização, sendo que
o olvido da última, com raras exceções leva o individuo ao desenraizamento. O pior é
que o mesmo não percebe, caso contrário estaria atualizado com os conhecimentos
e práticas de sua raiz ou de seu Mestre-Raiz.
Quando bem vivenciada a Tradição,
por discípulos maduros, que serão Mestres, são eles possuídos de um salutar
sentimento de pertença, o que fortalece sobremaneira sua identidade como ser
individual ou como ser coletivo (comunidade-terreiro).
A Tradição é transmitida, tal
qual a cultura, mas principalmente pela transmissão de valores éticos,
espirituais através das gerações.
Cada comunidade-terreiro de
fundamento ou Tradição tem aquele que “incorporou” a ancestralidade,
vivenciando-a, reatualizando-a tal qual presenciaram e respiraram com seus Mestres (Pais ou Mães de Santo).
O discípulo preparado, longe da
vaidade, do orgulho e da hipertrofia do ego, está sendo a própria Tradição por
intermédio de seu Pai ou Mãe de Santo, detentor e transmissor da mesma. Sim,
ele não só sabe, vive, é a própria Tradição, a ancestralidade rediviva.
A Tradição pode ser entendida
como sendo a transmissão de práticas, valores espirituais de geração em
geração, algo seguido e respeitado no decorrer do tempo.
O étimo do vocábulo em grego, paradosis
e, em latim tradere – significando
entrega, transmissão.
Em continuação é importante
perceber como se “incorpora” a Tradição, vivenciando-a na sua mais pura
acepção, com sua constante, e necessária reatualização.
Quando um Mestre Espiritual consumado
se expressa, o faz em seu próprio nome e de todos os que o antecederam, e isto
é muito importante.
Pai Rivas vivencia seu sacerdócio
há mais de 43 anos, “incorporando” seu primeiro Mestre - Pai Ernesto Xangô Ayrá
– Sacerdote Oluô da Tradição africana
keto. Com ele teve os primeiros contatos com o Opele Ifá e a Tradição de
Santo (Orisha). Em 1971 conheceu seu
derradeiro Mestre – Pai Matta e Silva (W.W. da Matta e Silva) com o qual teve
uma vivência, convivência iniciática de dezoito anos, não sendo apenas Iniciado
no 7º Grau, no 3º ciclo, mas o detentor de mando da raiz, ou seja foi elevado
em 07/12/88 a sucessor de seu Pai Matta e Silva.
Obvio está que ser iniciado em
duas Tradições diferentes poderia ser problemático, mas conciliado as
diferenças, buscou nas semelhanças (ambos preconizavam o oráculo de Ifá –
Oponifá e Opele Ifá) erigir seu templo, a Tradição da qual é o detentor, atualizando-a
constantemente, algo que culminou com a fundação inédita, da Faculdade de
Teologia (FTU) com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras, regulamentada e
autorizada pelo MEC – órgão governamental que normatiza e fiscaliza o ensino
universitário no Brasil.
O meio acadêmico realça tal
empreitada, pois no mesmo espaço há salas de aula (conhecimento acadêmico) e o
Templo (conhecimento religioso, fé, crenças) sendo considerado paradigma a ser
seguido.
Isto só foi possível, pois
acredita-se que a diversidade é uma forma inteligente e ética de convivência
pacífica, de respeito às diferença, e mais, o reconhecimento do outro que é
merecedor dos mesmos direitos, a tão propalada igualdade.
As mudanças ocorreram e
ocorrerão, e com elas reatualizações que manterão viva a “Tradição de Santo”,
algo que não será entendido por todos.
A vida é assim, o importante é
que a Tradição mantida e reatualizada sempre proporcione felicidades àqueles
que a seguem, e àqueles que a deixam. A verdadeira Tradição sempre é e será
provedora de paz e entendimento, permitindo a todos decidirem e escolherem seus
caminhos, sejam com Ela ou sem Ela, mas todos felizes. Ashé!
Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 205

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