segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Religiões Afro-brasileiras - Psicologia do Arquétipo

Resumo

O homem, por intermédio de suas instituições, procura ajustar-se ao meio em que está inserido.

Precisa adaptar-se aos três níveis de ambiente: o natural, o social e o sobrenatural. A adaptação aos níveis natural e social é mais obvia que ao sobrenatural.

A sua natureza física (biológica) se assemelha à natureza, ao natura naturandis, a Physis à qual se adapta. Quanto ao social é a forma de viver harmonicamente em sociedade, com o outro.

Quanto ao sobrenatural talvez não haja tanta obviedade, pois se relaciona ao imaginário e ao conteúdo inconsciente do coletivo e individual, nem sempre acessível, ou quase nunca, por meios conscientes.

Palavras-chave: Arquétipo, Escolas, Inconsciente Coletivo, Psicologia, Religiões Afro-brasileiras.

Abstract

Man, through its institutions, seeks to adjust itself to the environment in which it operates.

Need to adapt to three levels of environment: the natural, social and supernatural. The adaptation to the natural and social levels are more obvious than the supernatural.

Its physical (biological) resembles the nature, natura naturandis, the physis which adapts. As to the social is the way to live harmoniously in society, with the other.

As for the supernatural, it may not be that much obvious as it relates to the imaginary and the unconscious content of the collective and individual, not always accessible, if ever, by conscious means.

Keywords: Archetype, Schools, Collective Unconscious, Psychology, Religions Afro-Brazilian.

RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS – PSICOLOGIA DO ARQUÉTIPO

O homem, por intermédio de suas instituições, procura ajustar-se ao meio em que está inserido.

Precisa adaptar-se aos três níveis de ambiente: o natural, o social e o sobrenatural. A adaptação aos níveis natural e social é mais obvia que ao sobrenatural.

A sua natureza física (biológica) se assemelha à natureza, ao natura naturandis, a Physis à qual se adapta. Quanto ao social é a forma de viver harmonicamente em sociedade, com o outro.

Quanto ao sobrenatural talvez não haja tanta obviedade, pois se relaciona ao imaginário e ao conteúdo inconsciente do coletivo e individual, nem sempre acessível, ou quase nunca, por meios conscientes.

A instituição religião seria o meio pelo qual o homem se ajusta ao seu ambiente sobrenatural (imaginário). Para alguns autores, em especial Keller e Summer, o homem, uma vez que incorre na crença, na existência de “outro mundo”, de espíritos e seres super humanos tem necessidade de a ele se ajustar, da mesma forma que faz com o natural e social.

Na esteira desse conceito deseja-se apresentar a visão de inconsciente coletivo, inconsciente individual e arquétipos associados aos Genitores Divinos (Orishas) e Ancestrais Ilustres (linhagem espiritual).

Reitera-se que a religião em sua mais pura acepção não se baseia apenas em necessidades físicas do homem, sendo a única instituição com tal perfil.

Não por isso, a religião (crenças, fé, rituais) está afeta ao saber mítico, alegórico, enquanto sua vertente crítica, a Teologia se insere no “pensamento racional” (logos), lógico.

Interessante que, apesar de muitos afirmarem que a religião se fundamenta apenas em conceitos absolutos ou metafísicos, ou que o mito se opõe ao logos, tal como a fantasia à razão, como palavra que narra a que demonstra, logos e mito são duas funções igualmente fundamentais da vida do espírito.

Neste aspecto e momento do discurso é necessário evocar o conceito que
Nietzsche trouxe quando afirmou que a filosofia ocidental a partir de Sócrates foi negada a intuição criadora da filosofia pré-socrática. Com isso se faz a distinção e se estabelece dois princípios: o apolíneo e o dionisíaco – a partir de Apolo (deus da razão, da clareza, da ordem, etc.) e Dionísio (deus da aventura, da música, da fantasia e da desordem).

Obvio esta que tais princípios não são opostos, mas complementares da realidade, e é nisso que se apóia a Teologia das Religiões afro-brasileiras, em outras palavras, na razão (consciente) e no irracional (inconsciente que corresponde a maior parte da mente).

A partir do conhecimento supra é necessário reiterar que as religiões afro-brasileiras (as várias Escolas) umas mais outras menos, conceitua suas entidades sobrenaturais como origem e fonte do comportamento (ethos) de seus “filhos de santo”, algo que determina, consolida e fortalece a identidade individual e coletiva (relações sociais positivas).

Conceitua-se de forma simples o inconsciente coletivo para designar parte do inconsciente que contém arquétipos, sendo, portanto, comum a todos os homens. E é no conceito de arquétipo que se alia os fundamentos do Orisha (Olori) e de seu “filho de santo” que lhe segue o perfil comportamental, como forma de identidade normal e não patológica (esquizofrenógena) como era da praxe acadêmica em passado recente.

Arquétipo ou imagem primordial (Jung) não tem sua origem conhecida e se repete em qualquer época e em qualquer lugar do mundo, mesmo onde não é possível explicar a sua transmissão por descendência direta. Os arquétipos nas religiões afro-brasileiras criam mitos dramatizados nos rituais do terreiro e da própria vida cotidiana, da mesma forma que influenciam várias tendências da comunidade ou sociedade como um todo.

Essa energia psíquica muito antiga (arquétipo – arque-antigo e tipo) presente no inconsciente coletivo (de todos os homens) é como se fosse o DNA psíquico, idêntico a todos os homens, mormente em seu aspecto nuclear, sendo o periférico característico a cada indivíduo (como exemplo cita-se o Orisha Ogun (Nuclear) e Ogun Onirê (o periférico) – próprio do indivíduo).

Introduz-se assim o conceito de Consciência que é um atributo humano que permite (re)-conhecer “quem sou” (consciência em si e de si), quem é o outro (que é diferente de mim) e o transcendente (o absolutamente outro).

Esse processo histórico é o de construção da identidade (de uma pessoa, grupo, povo, nação) por meio da consciência.

Com esse ensejo conceitua-se a individuação, processo de tornar-se um indivíduo ou de dar-se conta de que se é um indivíduo. Tal como empregado por Jung, o termo parece incluir não apenas a idéia de aperceber-se de que se é separado ou diferente dos outros, mas também a idéia de que se é uma pessoa integral e indivisível.

Assim se conceitua tais atividades que são robustecidas nos transes de possessão ou outros nas religiões afro-brasileiras, e mesmo como se dizia, fenômenos esquizofrenógenos, tais como fantasias e devaneios vários.

Depois desses conceitos sumarizados não se pode cogitar o que vem sendo teorizado ou pressuposto por várias vertentes científicas, mormente as antropológicas. Tem-se questionado que o período do Homo neanderthalensis ao Homo sapiens sapiens é muito curto para explicar os avanços tecnológicos e científicos alcançados. Do sílex às aeronaves que propiciam as viagens interplanetárias há um abismo de fases que deveriam ser superadas no processo de desenvolvimento psíquico e o período é insuficiente. E, então?

Aventa-se a hipótese de civilização extra-terrestre ter vindo de outros lócus do universo e ter proporcionado aos homens terráqueos condições psícosomáticas superiores, o que explicaria o recorde de transformações que se consubstancia no desenvolvimento da humanidade contemporânea.

A saga aventada pela ciência corrobora com a presença dos Orishas no Aiyê; e, principalmente a de época em que não havia limites entre o Orun (espaços sobrenaturais?!) e o Aiyê (Terra). Segundo o mito, por motivo de transgressão dos homens, Oxalá, de seu Espaço Sagrado lançou seu bastão de Poder Divino (Opashoro), que separou definitivamente o que era Orun do que era Aiyê.

Não seria essa civilização que teria estruturado o processo de desenvolvimento da comunidade planetária terrena? Não seria essa a explicação determinante sobre o arquétipo do Orishá? Isto é, Eles “deuses” se fizeram “homens”, todavia sem retirar as características fundamentais da herança humana, embora hibridizassem nos homens seus mundos de Luz e Sabedoria. Não seria essa a herança que se carrega que se vivencia e se forma a identidade do indivíduo, por intermédio do arquétipo?

Espera-se continuar e a discussão no próximo trabalho, que terá como mote o que foi exposto e se aprofundará no conceito do arquétipo e do fundamento do Orisha das várias religiões afro-brasileiras. Axé!

Obs. Resolveu-se grafar Orisha com sh como se fez nos primeiros textos, desde 1989.


Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico

Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”

Publicação 179

2 comentários:

  1. Muito bem explicado mestre, tenho comigo que muitas das coisas que hoje acontecem são reflexos de nosso sub consciente, pois se tivéssemos acesso a muito mais que o que está exposto viveríamos um caos profundo cheio de homens e mulheres que envaidecidos que tomariam o mundo como seus esquecendo de fato dos Orishas que nos assistem e dosam seus ensinamentos para que tenhamos tempo de nos adequar as coisas superiores que ainda não somos merecedores de sabedoria.
    Aranauam.

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  2. Axé Baba Mi!

    Ajudando o Sr na Botica e assim tendo contato mais próximo com as pessoas que por lá transitam, pude observar e fazer uma triste constatação: a maioria das pessoas perderam a conexão com a natureza, mesmo sendo esta adaptação mais óbvia...
    Por outro lado, vemos as religiões afro-brasileiras promovendo essa re-conexão do homem com a natureza, fazendo da mesma, instrumento de cura, utilizando a força que os orishas deixaram impressas, concretizadas nas folhas, para realinhar o homem consigo mesmo, com o social e com o sobrenatural.

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