segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Religiões Afro-brasleiras - Teologia Ori/Bará


RESUMO

A Teologia das religiões afro-brasileiras tem como objeto de estudo o pensamento, a cosmovisão e os fenômenos sócio-culturais e espirituais das religiões de matriz afro-brasileiras ou simplesmente brasileiras.

As religiões afro-brasileiras têm como característica fundamental a Tradição Oral, ou seja, o conhecimento se encadeia na herança deixada e transmitida de geração a geração, constituindo os núcleos epistêmicos, social, ético e principalmente da fé e rituais que expressam os mitos e as crenças.

Nestas tradições religiosas o conceito fundamental é calcado na vivência coletiva e individual das divindades sobrenaturais – Orixás (no conceito Jejê-Nagô) tidos como Pais ou Genitores Divinos ou dos Ancestrais – Pais de Linhagens.

Palavras-chave: Bará, Cosmovisão, Ori, Religiões Afro-brasileiras, Teologia


ABSTRACT

African-Brazilian religions' theology have as objects of study the thought, the cosmoview and socio-cultural and spiritual phenomena of religions of african-brazilian matrix or simply Brazilian religions.

African-Brazilian religions have as a fundamental characteristic Oral Tradition, that is, knowledge is linked together in inheritance and passed from generation to generation,constituting the epistemic, social, ethical cores and above all the faith and rituals that express the myths and beliefs.

In these religious traditions, the fundamental concept is grounded in individual and collective experience of supernatural deities - Orishas (the concept Jeje-Nago) taken as a parent or Divine genitors or the Ancestors - Parents of lineages.

Keywords: Bara, Cosmoview, Ori, Afro-Brazilian Religions, Theology


RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS-TEOLOGIA-ORI/BARÁ

INTRODUÇÃO

A Teologia das religiões afro-brasileiras tem como objeto de estudo o pensamento, a cosmovisão e os fenômenos sócio-culturais e espirituais das religiões de matriz afro-brasileiras ou simplesmente brasileiras.

As religiões afro-brasileiras têm como característica fundamental a Tradição Oral, ou seja, o conhecimento se encadeia na herança deixada e transmitida de geração a geração, constituindo os núcleos epistêmicos, social, ético e principalmente da fé e rituais que expressam os mitos e as crenças.

Nestas tradições religiosas o conceito fundamental é calcado na vivência coletiva e individual das divindades sobrenaturais – Orixás (no conceito Jejê-Nagô) tidos como Pais ou Genitores Divinos ou dos Ancestrais – Pais de Linhagens.

Tanto uns como outros, assim como tudo que tem existência se manifestam em dois planos: o natural e o sobrenatural. O natural (Aiyê) é manifestação do sobrenatural (Orun). Portanto tudo tem duplicidade, e isto é fundamental no entendimento do pensamento dos afro-brasileiros.

Outro conceito basilar é o de Existência. A existência pode ser genérica (matéria indiferenciada) ou individualizada (matéria diferenciada). É digno de nota, que em outros textos disponibilizou-se o conceito de princípios genéricos manifestos por intermédio da simbologia das três cores: branco, vermelho e preto. Nisto se alicerça o conceito de Axé- Princípio Fundamental, dinâmico, que permite o realizar e ao mesmo tempo seu desenvolvimento.

Após as considerações supra, temos que aditar que o ser humano é constituído por elementos coletivos, representações deslocadas de entidades genitoras míticas ou divinas e ancestrais ou antepassados (de linhagem ou família) e por combinação de elementos que constituem sua especificidade, ou seja, sua unidade individual (ELBEIN)

Segundo conceitos já discutidos podemos associar a existência no aiyê (terra – mundo natural) a:

Ara – matéria – porção ou “corpo”

Bara – oba – ara – “rei do corpo” – A existência – vida – realização

Emi – respiração – ser vivo individualizado – o espírito

Ori – a cabeça (destino – consciência individualizada)

O conceito de Ori está associado a destino. Adquirir um Ori é possuir destino, consciência individualizada, sendo esta a condição necessária e suficiente para o “ser humano” completar seu ciclo existencial – ato primeiro: nascimento.

Quanto ao destino a “modelação” das cabeças associa-se a odu – signo que aponta, não de forma imutável, o destino do indivíduo. Ao contrário, o indivíduo é livre para se manifestar, mas as adversidades podem ser em decorrência de se afastar muito de seu odu-signo, algo que pode ser reescrito, retificado por intermédio de vários rituais de fundamento preceituados por Orunmilá-Ifá – o Orixá do destino.

O presente “discurso” da Tradição Oral do Ori/Bará – Corpo/Cabeça (como unidade indivisível) se propõe discutir relações espirituais (anímicas-ori) com o sistema nervoso, o encéfalo e nele o cérebro, pois além do mesmo estar na cabeça (encéfalo-dentro da cabeça) pode ser o ponto de equivalência do Ori Aiyê ou Ori Inu a contra parte do Ori Orun, representado pela cabaça ritualística ou louça denominada Ibá-ori.

SUMARIZANDO O SISTEMA NERVOSO CENTRAL

O protoplasma, o principio vital, pode ser caracterizado por três propriedades fundamentais: irritabilidade, condutibilidade e contratilidade.

À guisa de exemplo cita-se a ameba (protozoário-unicelular), como o modelo inicial e que explica as modificações no processo filogenético do sistema nervoso central.

A irritabilidade ou sensibilidade permite que a ameba detecte as modificações do meio externo. Quando reage a esse estímulo é que houve a condutibilidade. A resposta pode se manifestar por um encurtamento – contratilidade. Ela foi sensível e conduziu informações sobre o estímulo a outras partes da célula determinando retração de um lado e emissão de pseudópodes do outro.

No processo da evolução filogenética encontra-se basicamente na extremidade das células nervosas (neurônios) situadas na superfície desenvolveu-se uma formação especial denominada receptor (recepção). O receptor transforma vários tipos de estímulos físicos ou químicos em impulsos nervosos que podem, então, ser transmitidos ao efetuador, músculo ou glândula.

O que se deseja discutir de forma sumarizada é que o sistema nervoso central só surgiu após muitas experimentações ou desenvolvimento filogenético, sendo o sistema nervoso central do ser humano, a forma equilibrada e mais desenvolvida.

O que se supõe é que o sistema nervoso difuso (celenterados) foi evoluindo e nos platelmintos e anelídeos foi substituído por um sistema nervoso central (centralização do sistema nervoso).

Assim surgiram os neurônios sensitivos ou aferentes e os neurônios motores ou eferentes. São aferentes os neurônios, fibras que trazem impulsos a uma determinada área do sistema nervoso e eferentes os que levam impulsos desta área. Portanto, aferente é o que entra e eferente ao que saí de determinada área do sistema nervoso.

Depois deste sumário filogenético, onde se observou que o sistema nervoso central é recente no processo de evolução das espécies (o que será importante quando se discutir o “adquirir ori”)

No processo embriológico do sistema nervoso encontraremos três dilatações no tubo neural (que dá formação ao sistema nervoso no embrião): o prosencéfalo (telencéfalo e diencéfalo); mesencéfalo e rombencéfalo, (metencéfalo e mielencéfalo).

Com isto podemos afirmar, calcados na embriologia e anatomia que o sistema nervoso se divide em:


Obs: Clique na imagem para ampliá-la

PARTES COMPONENTES DO SISTEMA NERVOSO CENTRAL

Obs: Clique na imagem para ampliá-la

Fonte: MACHADO, Angelo B.M. Neuroanatomia Funcional. Livraria Ateneu S.A., 1974


Para a demonstração desejada espera-se que o sumário sobre o sistema nervoso, principalmente, o central , seja elucidativa e diretiva.

CONCEITO BÁSICO DO FUNDAMENTO ORI/BARÁ

No estudo ligeiro do Sistema Nervoso observou-se que a evolução foi do sistema nervoso difuso para o central, ou seja, no início da vida planetária não havia “cabeça” ou centro diretor representado pelo Sistema Nervoso Central basicamente: cérebro (telencéfalo e diencéfalo), tronco encefálico (mesencéfalo, ponte e bulbo) e cerebelo. A medula completa as estruturas. O encéfalo compreende todas as estruturas anatomo-fisiológicas citadas, exceto a medula espinhal.

Como se discutiu em outros textos sobre ori/bara, neste deseja-se demonstrar que a evolução biogenética permitiu que os “espíritos” pudessem adquirir um ori/bará, isto é, o corpo humano propicia forma de manifestar o ori (destino) e seu aperê (suporte).

Não se está afirmando que o cérebro é o Ori. Mesmo o ori ayê (cabeça física) não é o cérebro, mas aspectos tangíveis (conscientes) da mente. Claro está que não associamos o cérebro à mente. Quanto muito se afirma que o mesmo é manifestação, veículo da mente.

No que concerne ao Ori-Inu (dentro da cabeça) pode-se associar ao aspecto quintessenciado da glândula pineal ou epífase tida por muitos como a glândula da vida espiritual ou repositório vivo do Ori-Inu ou destino, que é motivo de culto, louvação e oferenda, algo que é consolidado na cabeça (crânio) do indivíduo e no Ibori (cabaça de Ori)

No término desta introdução cita-se um texto do livro – Os Nagô e a Morte – Juana Elbein dos Santos, 1ª edição, onde melhor se entenderá o conceito desenvolvido e como conclusão disponibiliza-se o vídeo “Religiões afro-brasileiras-Teologia- Fundamento Ori-Bará”.

“Eles jogaram Ifá para Ajalá (fazedor de todas as cabeças). Ajalá é aquele que Oludumare designou para modelar ori (no ode orun). É um Orixá antigo. Ele modela ori todos os dias e os põe no solo. Aquele que vai do Ikolé-Orun para o mundo é obrigatório que ele chegue até Ajalá para ter uma cabeça. Quando ele aí chega pode fazer sua escolha.

Os que trabalham com Ajalá são: Orixalá-Ejiogbe, OyeKu-meji, Iwori-meji, Odi meji, Irosun meji, Oworin meji, Obará meji, okanran meji, ogundá meji, Osa meji, Ika Meji, Oturopon meji, Otura meji, irete meji, oxé meji, ofun meji. Eepa à (nosso respeito a todos eles). Todos esses odu que com Axetua são dezessete, trabalham com Ajalá em modelar ori todos os dias.

A porção retirada na qual cada ori é modelado é o Egun Ipori (matéria ancestral). Cada um deverá venerar sua matéria ancestral para prosperar no mundo e para que ela venha a ser seu guardião.” ELBEIN, Juana. Os Nagô e a Morte. Ed. Vozes.1978.


CONCLUSÃO

A conclusão esta disponibilizada no vídeo “Religiões afro-brasileiras-Teologia- Fundamento Ori-Bará. Axé!




Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico

Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”

Publicação 175

3 comentários:

  1. Sua benção, Baba mi! Prostro-me à sua sabedoria e sua ancestralidade! Que meu sangue espiritual possa sempre correr sem interrupção de sua ancestralidade para minha descendência!

    Ouvir suas palavras é cobrir-me de Axé e esperar que seu ofurufu renove meu Kadara! Belíssima explanação, repleta daquilo que hoje se perde na maior parte das estruturas de comunicação espiritual: a aliança entre o que dizem nossos ancestrai e o que diz a ciência. O olhar complacente sobre ambas e a procura da reunião desses saberes promove o reconhecimento de uma verdade há muito esquecida: de que o conhecimento convergente promove cada vez mais a direção correta ao ponto de convergência onde a verdade existe sem temores ou incoerência. Lembrei-me de um Itan que não comprrendia muito bem, mas que foi plenamente esclarecido, agora, ao ver o vídeo, onde Ori, a velha, divindade Funfun, vence todos os orixás e os levanta e os joga para longe, fazendo-os fixar em seus locais de origem: Ogum foi jogado em Irê, Oxossi em Ketu, Xangô em Oyó e assim por diante! Ori assim, estabelece-se como a divindade soberana, comum a todos os seres humanos e como o senhor disse, ela é comum a todos nós! Assim, não se deve confundir fazer "Ori" com "fazer Orixá", algo que em muitos setores foi confundido e esquecido.

    Novamente, comovido, prostro-me, oferecendo minha Ori, minha consciência, minha mente ao poder de emanação de meu ancestral ilustre, meu mestre, pois conhecimento se absorve assim, pelo insight da palavra correta, promovendo destino correto! E esse destino quero percorrer, com vossa orientação e permissão!

    Da Ifa Fun! Adupe O!

    Meu mestre, sua benção!

    Ela´le! Alafia! Alafia!!

    Cada vez mais seu, filho...

    Obashanan

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  2. Axé Baba mi!

    Gostei muito de tudo que li e ouvi e agradeço a oportunidade de poder, gradativamente, entender sobre a "ciência" do Orixá através de suas palavras.
    Graças aos seus ensinamentos que, muito de mim mesma(meu pensar, sentir e agir)não estão mais confusos e dissociados.
    Aprendi com o Sr. que o Orixá é o "Ser" estruturante do Universo, e que quanto mais estamos em consonância com suas forças, mais "estruturados" ficamos.
    E assim ao ficarmos harmonizados, equilibrados e estabilizados com os Orixás(os Senhores de nossos Oris)mais estas forças irão se refletir em todos os âmbitos de nossas vida.
    Tudo o que relatei aqui, nada mais é do que fruto de minha vivência templária,pois hoje vejo o quanto a força do Orixá é primordial para se ter e fazer um bom destino.
    Mais uma vez peço suas bençãos!
    Yaranacy
    (Fernanda Roberti Aterje).

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  3. Axé Babá Mi!
    Saravá a todos os leitores e seguidores do Blog!

    Esta publicação marcou um momento importante da Teologia com ênfase nas Religiões Afro-brasileiras.

    Primeiro pelo seu aspecto de inclusão espiritual/social, quando sacerdotes podem ter acesso ao conteúdo de peso da FTU - nível pós-graduação - independente da formação acadêmica, pois cursam como extensão universitária.

    Depois a discussão sobre Ori/Bará tomando como ponto de partida a própria “evolução” (uso este termo por falta de outro melhor) do sistema nervoso nas espécies e a conexão com os versos de Ifá que falam sobre Ori. Também não passou desapercebido fundamentos importantíssimos como o Igbá Ori.

    Enfim, Teologia das Religiões Afro-brasileiras como a própria Convergência entre Ciência e Religião.

    Estamos numa etapa importante da Teologia do povo do santo. Agradeço imensamente a oportunidade de estar vivenciando tudo isto e que este momento se reflita em profundas discussões acadêmicas e sacerdotais. Cada um contribuindo com o seu olhar.

    E deixa a Gira girar!

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