segunda-feira, 9 de maio de 2011

Religiões Afro-Brasileiras: O Sacerdote, Mago e Médico – Parte III


Depois de outras publicações necessárias, disponibilizamos a última parte do texto Sacerdote, Mago e Médico.

Recomecemos com o ofício das atribuições do médico, a mais simples de todas. Sim, acreditamos que seja a mais simples porque lida com o corpo físico, algo bem denso e concreto, a despeito de sua maravilhosa constituição e da delicadeza do sistema genético, cujo mapa de íntrons e éxons regula a transcrição de proteínas e a diferenciação das células dando formação aos tecidos, órgãos e sistemas que compõem nosso aparato orgânico.

Para nós o corpo físico é a última e mais densa manifestação do Espírito no plano em que vivemos, sendo conseqüência das instâncias superiores. Com todo o respeito que temos à Medicina e pela dedicação profissional que a ela oferecemos, ainda a vemos como uma profissão, pelo menos da maneira como é exercida pela maioria, bastante humana e até humanitária, o que já lhe confere grande dignidade. Também achamos imprescindível a formação acadêmica tradicional, sendo o exercício dessa arte sem esse requisito qualificada como curandeirismo ou charlatanismo, especialmente daqueles que se querem dizer magos, demiurgos e profetas, pois a Ética dessas funções não permitiria afrontar os cânones da sociedade organizada.

Haveremos ainda de compreender o corpo físico como uma unidade psico-emocional e física, uma tradução do Ser na forma. Aí então seremos capazes de perceber melhor os desarranjos orgânicos em suas causas e conseqüências, compreendendo a integração entre pensamentos, sentimentos e ações.

A Magia, por sua vez, tem três campos de atuação, todos concernentes à realidade da natureza hiperfísica ou invisível. Partindo do campo mais denso ao mais sutil teremos, respectivamente, a magia natural, a psicurgia e a teurgia. Seguem aproximadamente a visão hermética que aborda a realidade como o Universo ou Natureza, o Homem e o Sagrado.

A Magia propriamente dita atua por meio dos elementares e das forças da natureza, bem como da influência dos ciclos e ritmos impressos sobre a Natureza pelos Orixás. Sua ação fundamenta-se na atuação sobre as quatro forças básicas: o Ar, o Fogo, a Água e a Terra. Fazendo-se movimentar a roda dos elementos do mais sutil ao mais denso (Ar-> Fogo-> Água-> Terra) teremos o ciclo de agregação, que pode ser utilizado para imantação e fixação de energias positivas. Fazendo-se movimentar a roda dos elementos do mais denso ao mais sutil (Terra-> Água-> Fogo-> Ar) teremos o ciclo de desagregação, que pode ser utilizado para repulsão e neutralização de cargas negativas. Sua atuação é baseada em correspondências no método analógico, por isso utiliza substratos densos – materiais naturais constituídos de elementos radicais em quantidades e qualidades corretas – para provocar um abalo na dimensão astral e etérea. Para o funcionamento adequado da operação magística são necessários, além dos elementos, a movimentação da vontade do Magista e, preferencialmente, o uso de clichês astrais, signos hieroglíficos conhecidos na Umbanda como Lei de Pemba, capazes de atrair egrégoras, criar formas-pensamento, invocar ou evocar espíritos elementares para atuar na operação efetuada.

A Psicurgia trata da atuação sobre os Seres Humanos em seus centros anímicos por processos que movimentam arquétipos do Inconsciente Individual ou Coletivo, bem como da atração de Seres Espirituais superiores para intercederem por meio de seus poderes sobre os necessitados. Mantras, cânticos sagrados, mudras, danças e outros instrumentos são utilizados para penetrar no campo do inconsciente movimentando seu conteúdo. As ações da Psicurgia são mais profundas, mais difíceis e mais duradouras que as ações da Magia Natural. A utilização do Verbo Sagrado, seja por meio de mantras ou de uma conversa coloquial, permite ao Psicurgo penetrar no íntimo da pessoa, encontrando as origens kármicas de seus sofrimentos e atuando nesse nível. Se entendermos a manifestação do Universo como sendo realizada por meio de Princípios que regem Leis, que por sua vez regulam os Fenômenos, diremos que a Magia atua nos fenômenos, a Psicurgia nas Leis e a Teurgia nos Princípios.

Por fim, a Teurgia atua diretamente nos princípios que regem as Leis que organizam a Natureza, são os Arcanos da Tradição postos em movimentos por quem saiba e tenha ordens e direitos para tanto. Nesta face da Magia, a interação entre o Mago e aquele que recebe sua ação é profunda, de tal forma que não basta um Mago capaz de atuar no campo da Teurgia, mas também o receptor deve estar apto a participar de tal evento. As ações da Teurgia, via de regra, estão restritas ao âmbito iniciático, onde os Tantras ou ritos são capazes de transmitir vivências espirituais, acelerando o processo de liberação dos discípulos de um Mago Tântrico (é sempre bom deixar claro que falamos aqui dos tantras superiores, sem qualquer relação com o que se vulgarizou como magia tântrica sexual).

Tendo visto algo sobre a função de Médico e Mago, vejamos a de Sacerdote, a mais alta delas. O Sacerdote é aquele que aponta o caminho de retorno à Unidade, ao Sagrado. O que restabelece o fluxo bidirecional entre Espírito e Corpo, neutralizando as causas das dores e sofrimentos para si e para seus irmãos planetários. Sua visão é fundamentalmente universalista e ele faz a ponte (ponti-fex) entre o Sujeito e Objeto, entre a Unidade e a Pluralidade, entre o Sutilíssimo e o Denso.

É claro que situamos nossas descrições nas imagens ideais de cada uma das funções citadas. Falamos do Sacerdote superior, de elevados predicados espirituais, mas há sacerdotes de todos os níveis, cada um tentando cumprir seu objetivo utilizando a Sabedoria que adquiriu ao longo de várias existências. De toda maneira, é certo que o Sacerdote só pode dar aquilo que ele mesmo já conquistou. Não se pode esperar que alguém instável emocionalmente, preso a vícios e sensações, de percepção estreita no mundo possa conduzir alguém aos degraus superiores da iniciação. Ainda assim, há pessoas que servem de sacerdote a outras sem terem alcançado essas virtudes espirituais, mas tudo obedece às leis das afinidades, satisfazendo as necessidades kármicas de cada coletividade.

Resta-nos então perguntar: por que na Antiguidade se dizia que o Sacerdote, o Mago e o Médico eram a mesma pessoa? Será que era porque acumulava as três “funções” ou porque não existia ciência? O Médico, o Mago e o Sacerdote eram a mesma pessoa, e isso deveria se aplicar hoje também, porque não existia e não existe separação, de fato, entre a Natureza Visível, a Natureza Invisível e o Sagrado. A separação, fomos nós que a fizemos, já que um é manifestação do outro e tudo é, em última instância, a mesma Unidade ou Sagrado, observado de diferentes ângulos. Esta é a proposição da Tradição de Síntese, que restabelece a não-dualidade, a visão integral da Realidade.

Temos atualmente a possibilidade de romper as barreiras que separam o espírito da matéria. Veremos em breve a Ciência aliada à Religião, assim como a Filosofia e a Arte integrando o conhecimento do Universo, sem fragmentações, sem parcialidades. Cada vez mais as pessoas reconhecem que a realização encontra-se em reunir o concreto e o abstrato sem solução de continuidade, pois ambos encontram-se em nós, como nos encontramos neles.

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico

Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”

Publicação 144

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