segunda-feira, 30 de maio de 2011

A existência na visão das Religiões Afro-brasileiras

AXÉ – PRINCÍPIO PROPULSOR E MANTENEDOR DE EQUILIBRIO

RESUMO

O conceito simplificado colocado à discussão é corrente na maioria das religiões afro-brasileiras, principalmente na Umbanda Traçada, Candomblé de Caboclo, e outros cultos deles derivados.

Acredita-se que a Essência só se manifesta, tem existência efetiva, quando em contato com a Substância. Portanto, a Substância (matéria/energia) permite a Existência da Essência (Espírito).

Prosseguindo o conceito, afirma-se que o corpo (Substância) só é vivo quando respira, tem vida, ou seja, o corpo (Ará) manifesta a alma, o sopro vital (Emi). Disto conclui-se que corpo e alma são princípios de realidades diferentes. Sim, a alma (Emi) se faz presente no mundo físico (aye), sendo sua origem, todavia, no orun (mundo sobrenatural).

Palavras-chave: Axé, Ayê, Existência, Orun, Religiões Afro-brasileiras

ABSTRACT

The simplified concept put to discussion is underway in most african-brazilian religions, especially in Umbanda Traçada, Candomblé de Caboclo, other cults and their derivatives.

It is believed that the essence manifests itself, has real existence, when in contact with the substance. Therefore, the substance (matter / energy) allows the existence of the Essence (Spirit).

Pursuing the concept, states that the body (substance) is only alive when he breathes, has a life, or the body (Ará) expresses the soul, the vital breath (Emi). It is concludedthat body and soul are principles of different realities. Yes, the soul (Emi) is present in the physical world (aye), with their origin, however, in orun (supernatural world).

Keywords: Axe, Aye, Existence, Orun, Afro-Brazilian Religions



A EXISTÊNCIA NA VISÃO DAS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS

AXÉ – PRINCÍPIO PROPULSOR E MANTENEDOR DE EQUILIBRIO

O conceito simplificado colocado à discussão é corrente na maioria das religiões afro-brasileiras, principalmente na Umbanda Traçada, Candomblé de Caboclo, e outros cultos deles derivados.

Acredita-se que a Essência só se manifesta, tem existência efetiva, quando em contato com a Substância. Portanto, a Substância (matéria/energia) permite a Existência da Essência (Espírito).

Prosseguindo o conceito, afirma-se que o corpo (Substância) só é vivo quando respira, tem vida, ou seja, o corpo (Ará) manifesta a alma, o sopro vital (Emi). Disto conclui-se que corpo e alma são princípios de realidades diferentes. Sim, a alma (Emi) se faz presente no mundo físico (aye), sendo sua origem, todavia, no orun (mundo sobrenatural).

Determinou-se, pois, que há duas realidades paralelas ou complementares, sendo que a do mundo físico (aye) é a manifestação, é o duplo, de outra parte que se encontra no orun (mundo sobrenatural).

Seguindo, o processo de entendimento da existência humana e suas conexões com o mundo sobrenatural, na visão teológica das religiões afro-brasileiras, avança-se no princípio denominado Ori, que tem significado de “cabeça”.

O Ori, por mais que seja simplificado, será sempre um conceito complexo, pois é atinente à consciência, inteligência, aos processos cognitivos e sensoriais (órgãos do sentido) do indivíduo. Segundo a Teologia é constituído de porções definidas de conteúdos espirituais próprios da Substância Ancestral, uma fração dela, mas que é parte do inconsciente coletivo e individual, que se traduz por categoria da natureza, simbolizada nos elementos: ar (eólico), fogo (ígneo), água (hídrico) e terra (telúrico).

Continuando, temos o Bará (Obará), o rei ou o senhor do corpo, pois por intermédio dele sabe-se que se está vivo, sendo que ele retira uma parte da substância ancestral (as frações que constituem o indivíduo), permitiu e responsabilizou-se pelo equilíbrio fisiológico, pela reprodução, boca, estômago, sexo, comunicação e fala (Exu).

A existência do indivíduo (Ará, Emi, Bará), só será completa, bem sucedida propiciando o bom destino (onan rerê) por intermédio da conexão com o Orixá – o “Senhor da Cabeça”, “Senhor da Luz Espiritual” ou o “Deus da Criação- Meu Pai Criador” (Eleda mi), é assim que deve ser entendido.

Após descrição sumarizada de como se manifesta e é composto o indivíduo (complexo biopsicosocial) em seus dois planos de existência, natural e sobrenatural ou aye e orun é necessário compreender-se o elo magístico entre as duas dimensões, e mais, como tal elemento proporciona saúde, prosperidade, amor e espiritualidade. O elo magístico é o A muito citado em prosa e verso, mas pouco percebido e vivenciado na prática, no dia-a-dia.

Para vivê-lo na prática ritualística, no cotidiano faz-se necessário conhecê-lo de modo total e não fragmentário, pois não representa o conceito real de Axé, que precisa ser absorvido, armazenado, condensado e multiplicado, processo esse que quando bem direcionado traduz-se em equilíbrio do indivíduo. Há um equilíbrio entre corpo, espírito e relacionamento social.

O A foi discutido intensamente neste blog, todavia, nunca o será à exaustão, pois é complexo seu conceito teórico, na maioria das vezes mal interpretado, e muito pior ainda a sua transmissão; óbvio que com estes escolhos muito difícil de se viver (práxis) de forma harmonizada, estabilizada e equilibrada, tudo decorrência do desconhecimento do fundamento prático do Axé.

É importante se saliente que a noção de equilíbrio entre o corpo (A), o “espírito” (Emi) e a vida social esta atrelado ao principio que denomina-se A- força magística, vital, essencial que é transmissível por quem saiba fazê-lo. Todo o ser, toda coisa viva, objetos simbólicos podem veicular Axé, todavia, a fonte primeva é o Orixá.

Do apresentado pode se inferir que Axé é manifestado na energia em suas várias expressões (matéria), portanto pode-se dizer que as forças da natureza são “Axé”. Essas forças vivas da natureza são conhecidas como: ar (eólico), fogo (ígneo), água (hídrico) e terra (telúrico).

As forças sutis da natureza na verdade são manifestações do Poder Volitivo do Orixá, que com seu “Axé” se tornou o Ser Estruturante do Universo (origem do espaço/ tempo), deu formação ao Cosmo e a vida como conhecemos no planeta.

Sem adentrar nos pormenores dos aspectos cosmogenéticos, planetogenéticos, biogenéticos, filogenéticos e ontogenéticos que legitimam o Orixá e seus poderes volitivos, diz-se que o Axé é a concretização do Poder Espiritual do Orixá no cosmo, primeiro na matéria escura e dessa à formação do cosmo, (desde o espaço/tempo primordiais ou essenciais) e depois a Existência nas várias dimensões (aye e orun).

Com isso entendido, ou como ponto de partida para perceber-se o Axé manifesto nos elementos, deve-se ter em mente a necessidade dos mesmos estarem equilibrados, caso contrário o indivíduo não cumprirá a contento seu destino, não estando em equilíbrio com seu Orixá.

Quando se disse dos elementos, os mesmos em primeira instância devem ser inteligidos como Princípios Espirituais e não somente no sentido literal, o que vem atravancando o progresso dos adeptos das Religiões do Axé, mas muito principalmente, os que não são adeptos, em decorrência de falta de informação precisa sentenciarem ser totêmico, anímico ou outros pejorativos o conceito de Axé.

Encerrando, pois se pretende continuar aprofundando no conceito de Axé e tudo o que dele decorre tal como Ori, Olori, Elemi, Eleda, Arquétipo do Orixá e comportamento do “filho de santo”, exemplifiquemos o ser humano (sujeito) e como atuam nele e com ele os elementos, as forças da natureza.

O homem (Homo sapiens sapiens) tem necessidade premente de respirar, caso contrário tornará sua sobrevivência planetária inviável. Aí se encontra o primeiro elemento, o ar (princípio eólico do Axé).

Necessário se faz por intermédio do ar, principalmente do oxigênio (O) que o organismo tenha seu metabolismo intermediário, transformando alimentos em energia, o que produz temperatura, calor (princípio ígneo do Axé).

Outra substância essencial à vida é água; também os líquidos orgânicos que contém água, o sangue (plasma), liquor, bile, linfa, sêmen e outras secreções (princípio hídrico do Axé).

Depois das três citações restam os órgãos (que podem ser maciços ou vísceras), mas principalmente o sistema locomotor, que permite o homem andar de pé (posição ortostática) e se sustentar, pois possui ossos e músculos (principio telúrico do Axé).

Concluindo, parcialmente, pois se pretende continuar a discussão, diremos que a doença física, ausência de finanças ajustadas, relações sociais-afetivas conturbadas e distúrbios mento-espirituais são decorrência da carência de Axé. Reatualizando e renovando-se o Axé (elementos minerais, vegetais, animais e simbólicos) por intermédio de vários rituais de fundamentos (banhos de descarrego, purificações, amacis, abôs, ritos de Ossain (Asa Ossaim), ebós, boris, sacudimentos, chás, decoctos, cataplasma e outros tantos procedimentos sacerdotais) o indivíduo pode retornar e retomar o equilíbrio, pois equilibra seu corpo, seu Ori e o A que permite a conexão com seu Olori ou Eledá. Axé!


P.S. Continuaremos nas próximas publicações.

Obs: Clique no diagrama para ampliá-lo

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico

Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”

Publicação 150

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