segunda-feira, 25 de abril de 2011

Religiões Afro-brasileiras: O Sacerdote, Mago e Médico - Parte I

Resumo

Diz o adágio ocultista que, no passado, o Sacerdote, o Mago e o Médico eram o mesmo, ou melhor, que a mesma pessoa “acumulava” as três funções. A visão antropológica moderna vê essa assertiva como uma condição própria das culturas primitivas, onde as doenças eram tidas como fruto de intercessões malignas e, pela falta de ciência, se atribuíam poderes mágicos à fitoterapia, que era associada a encantos e feitiços para afastar as influências negativas do indivíduo acometido por moléstias. É familiar a todos a figura mítica do pajé ou xamã; em vários povos ele executa os serviços do contato com o Sagrado, com os espíritos da Natureza por meio da Magia e cuida das enfermidades que comprometem os integrantes da comunidade.

Veremos nas próximas linhas o que significa, em sua real essência, a afirmativa de que o Sacerdote, o Mago e o Médico são a mesma pessoa. Compreenderemos, pela visão da Tradição de Síntese, que as separações entre Filosofia, Ciência, Arte e Mística provém da fragmentação do conhecimento imposta pelas academias da Idade Média em diante, tendo seu apogeu com a consagração do paradigma cartesiano. Este, embora afirmando a existência do Sagrado, negava sua relação com a Ciência estabelecia uma separação nítida entre o Corpo, ou Matéria, e o Espírito, garantindo a supremacia política sobre os dois campos do conhecimento estabelecido, respectivamente, a Ciência florescente e a Igreja dogmaticamente estabelecida.

Palavras-chave: Mago, Médico, Religiões Afro-brasileiras, Sacerdote, Síntese

Abstract
The occult adage says that in the past, the Priest, the Mage and the Doctor were the same, or better, the same person "accumulated" three functions.
The modern anthropological view see this statement as a characteristic of primitive cultures, where the diseases were taken as the result of malignant and intersections, and by the lack of science , were attributed magical powers to phytotherapy, which was associated with charms and spells to ward off the negative influences of individuals affected by diseases. The mythical figure of the “pajé” or shaman is familiar to all; in various cultures he runs the services of the connection with the Sacred, with the spirits of nature through magic and takes care of diseases that compromise the members of the community.

We will see in the next lines which means, in its true essence, the assertion that the Priest, Mage, and Medic are the same person. We understand, by the Synthesis Tradition, separations between Philosophy, Science, Art and Mysticism comes from the fragmentation of knowledge imposed by the academies of the Middle Ages onward, taking its apogee with the consecration of the cartesian paradigm. This, while affirming the existence of the Sacred, denied his relationship with the established Science a clear separation between the body, or matter and spirit, ensuring the politic supremacy over the two established fields of knowledge, respectively, the flourishing Science and the dogmatic established Church.

Keywords: Magician, Physician, Afro-Brazilian Religions, Priest, Synthesis

RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS: O SACERDOTE, MAGO E MÉDICO – PARTE I

Diz o adágio ocultista que, no passado, o Sacerdote, o Mago e o Médico eram o mesmo, ou melhor, que a mesma pessoa “acumulava” as três funções. A visão antropológica moderna vê essa assertiva como uma condição própria das culturas primitivas, onde as doenças eram tidas como fruto de intercessões malignas e, pela falta de ciência, se atribuíam poderes mágicos à fitoterapia, que era associada a encantos e feitiços para afastar as influências negativas do indivíduo acometido por moléstias. É familiar a todos a figura mítica do pajé ou xamã; em vários povos ele executa os serviços do contato com o Sagrado, com os espíritos da Natureza por meio da Magia e cuida das enfermidades que comprometem os integrantes da comunidade.

Veremos nas próximas linhas o que significa, em sua real essência, a afirmativa de que o Sacerdote, o Mago e o Médico são a mesma pessoa. Compreenderemos, pela visão da Tradição de Síntese, que as separações entre Filosofia, Ciência, Arte e Mística provém da fragmentação do conhecimento imposta pelas academias da Idade Média em diante, tendo seu apogeu com a consagração do paradigma cartesiano. Este, embora afirmando a existência do Sagrado, negava sua relação com a Ciência estabelecia uma separação nítida entre o Corpo, ou Matéria, e o Espírito, garantindo a supremacia política sobre os dois campos do conhecimento estabelecido, respectivamente, a Ciência florescente e a Igreja dogmaticamente estabelecida.

Faremos um pequeno parêntese para salientar que o estado de consciência espiritual ou de evolução em que nos encontramos predispõe a maioria dos encarnados ao cultivo de um certo grau de fantasia que sustenta a “realidade”. Sim, cada um de nós, na ansiedade de preencher o Vazio deixado pela falta de percepção da espiritualidade, completa o seu universo mental-espiritual com mitos e fantasias que, criados sobre as impressões turvas dos sentidos, tentam explicar as questões abstratas de formas bem concretas.

Se os mitos traduzem de alguma forma verdades mais sutis, é possível, sabendo-se decodificar suas palavras, compreender suas origens e recuperar o conhecimento verdadeiro. É claro que quanto mais longe da fonte original, mais distorcido é o mito e mais difícil fazer o caminho inverso. Também as realidades científicas atuais guardam algo de mitológico, no sentido de se basearem exclusivamente naquilo que podemos apreender pelos sentidos ou seus aparelhos e por considerarem o método científico estabelecido como definitivo e isento de limitações. Mas como procurar enquadrar o espírito, imaterial, atemporal e adimensional no campo das percepções dimensionais que servem de ambiente adequado para a Ciência? Não será essa também uma fantasia para acalmar a ansiedade frente o imponderável? Não deveríamos retomar a possibilidade de investigar de maneira séria as realidades metafísicas?

Compreendemos que no processo da cosmogênese o espírito se manifestou de forma concreta, passando por várias dimensões da existência com densidade progressivamente maior. Ao passar de uma dimensão mais sutil a outra mais densa, mantém-se o mesmo “esquema”; há sempre correspondências. Ainda que não consigamos perceber diretamente os estados de existência mais sutis que o nosso, podemos inferir que o plano denso em que vivemos seja um reflexo de planos mais sutis, lembrando que as dimensões mais densas são mais lentas, mais estáticas que as sutis. Partindo-se desse conhecimento, pelo método da analogia podemos conhecer e mesmo atuar sobre os planos invisíveis movimentando elementos físicos.

É claro que o método analógico pode ser útil para se especular sobre estados e dimensões que se encontram além do nosso alcance sensorial. Sobre esse princípio se apóia grande parte dos fundamentos da Magia Aplicada, uma das matérias estudadas na Teologia Umbandista.

Uma das chaves que podemos abrir neste pequeno colóquio espiritual com o leitor é a de que Espírito não possui matéria ou energia-massa, não sendo regido, por conseguinte, pelas Leis e Princípios que ordenam o Reino Natural ou Universo Astral. Todavia, é exatamente Ele o “sujeito”, sendo o Universo seu “predicado”. Em outras palavras, é o Espírito a razão de existência de todo o Universo, sem Ele não haveria qualquer forma de Existência, pois é d’Ele que se origina a Essência que dinamiza a Substância, realizando-se em Poder de Manifestação.

Sem sair do “lugar”, do seu “centro”, o Espírito faz “girar” em torno de si as realidades relativas denominadas pelo jogo (lila em sânscrito) dos quatro elementos: o Ar, Fogo, Água e Terra. As doenças que apresentamos no corpo físico são o resultado da saída da consciência de seu “centro” ou fulcro espiritual, tornando-se cativa da força centrífuga que arrasta os elementos na Roda dos Tattwas até o ponto de polarização em um ou dois elementos, cujas energias “coaguladas” se traduzem em distúrbios da economia orgânica. As doenças são, portanto, sinônimo de baixas vibrações no campo do Pensamento, do Sentimento e das Ações, as manifestações progressivamente mais densas do Espírito. Axé!

Continua na publicação seguinte.

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico

Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”

Publicação 140

Nenhum comentário:

Postar um comentário