segunda-feira, 28 de março de 2011

Faculdade de Teologia Umbandista é a própria interface entre as Religiões Afro-brasileiras

RESUMO

A Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino é uma Casa de Iniciação Umbandista (Templo), sem fins lucrativos. Tem como mote principal fazer grassar que a Umbanda é uma idéia (unidade) manifesta em várias linguagens ou Escolas (diversidade – universalidade). Que a constante da Tradição das Religiões Afro-Brasileiras é a contínua mudança, logo uma unidade aberta a contínuas (re)elaborações ou (re)leituras.

É por isso que estamos aproximando as “várias Escolas Umbandistas ou das Religiões Afro-Brasileiras”, principalmente em nosso Templo, onde ritualizamos na teoria e na prática as várias Escolas, pois como vimos fomos iniciados em muitas delas, nos credenciando na Tradição do Orixá e, legitimamente, realizamos e vivemos seus ritos e fundamentos. Fazemos isso com a finalidade de interfacear na paz e na luz o diálogo com todas as Escolas de Umbanda, sem criar novas Entidades Espirituais ou Ancestrais Divinos, enfim, sem ferir os fundamentos ou cânones teológicos das Religiões Afro-Brasileiras.

Palavras-Chave: Faculdade de Teologia Umbandista, Interface, Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino, Religiões Afro-brasileiras, Teologia


ABSTRACT

The Divine Cross Order is a non-profit umbanda initiation House (Temple). Its main motto is to teach that Umbanda is an idea (unit) manifested in several languages ​​or schools (diversity - universality). That the constant Tradition of Afro-Brazilian Religion is constantly changing, just one unit open to continual (re) elaborations or (re) readings.

That is why we are approaching the "Several umbandist schools or Afro-Brazilian Religions, " especially in our Temple, where we ritualized in theory and in practice the various schools, because we started in many of them, qualified in the Orisha Tradition and legitimately perform and live their rites and grounds. We do this with the purpose of interfacing on light and peace and dialogue with all the schools of Umbanda, without creating new entities or Spiritual Divine Ancestors, finally, without damaging the grounds or theological canons of Afro-Brazilian Religion.

Keywords: Umbanda Theology Faculty, Interface, Divine Cross Order, Afro-Brazilian Religions, Theology


FACULDADE DE TEOLOGIA UMBANDISTA É A PRÓPRIA INTERFACE ENTRE AS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS

A Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino é uma Casa de Iniciação Umbandista (Templo), sem fins lucrativos. Tem como mote principal fazer grassar que a Umbanda é uma idéia (unidade) manifesta em várias linguagens ou Escolas (diversidade – universalidade). Que a constante da Tradição das Religiões Afro-Brasileiras é a contínua mudança, logo uma unidade aberta a contínuas (re)elaborações ou (re)leituras.

Fundada em 1970, teve como primeira denominação - Seara de Umbanda do Caboclo Arruda e Urubatão da Guia, templo de Umbanda popular, segundo conceitos expendidos por vários escritores da época. Para eles, a Umbanda dividia-se em popular e esotérica ou iniciática, sendo que esta última possuía uma Iniciação.

A partir de 1956, o insigne Mestre W.W. da Matta e Silva (Mestre Yapacany) “fundou”, formou e consolidou a Umbanda Esotérica ou Iniciática, tendo seguidores por todo o Brasil e no exterior. Suas obras até hoje são discutidas e reinterpretadas.

Depois destas alusões que fizemos, queremos fixar no papel, que iniciamos nossa jornada espiritual no Candomblé – Jeje-Nagô, na infância e lá permanecemos até os 12 anos de idade. No Candomblé do Pai Ernesto de Xangô Airá, que havia se iniciado na Tradição do Orixá com o Babalawô Martiniano do Bonfim, conheci o “Candomblé de Caboclo”, de uma de suas filhas de santo a “Dofina d’Oxum”, que no Candomblé do Pai Ernesto – Obalokandê (Obá Omolakan Adê Oju Obá) era Yabassê (cozinheira das comidas votivas- do Santo).

Com o Baba Obalokandê participei do Culto de Nação, do Cadomblé de Caboclo, e também da Encantaria (Jurema), onde conheci Mestre Serapião, Mestre Marujo dos Sete Mares, e outros Mestres do Catimbó, que acostavam em seus malungos.

Somente em 1962 conheci a Umbanda popular (como se dizia na época) por intermédio de Pai Carlos de Xangô, médium de Pai Julião. Foi nessa tenda – Tenda de Umbanda Xangô Kaô, que pela primeira vez fui mediunizado (transe mediúnico) pela entidade chamada Doum (um erê). No mesmo dia baixou, depois de Doum, o Caboclo Angarê de Ogun, que anunciou vir preparar o trabalho do Caboclo Urubatão da Guia. Para finalizar sobre o terreiro de Pai Carlos, ele "batia" uma Umbanda Mista, com fortes influências do Candomblé de Caboclo ou Umbanda Traçada.

Não posso deixar de citar, a bem da verdade, dois baluartes de Umbanda com quem tive a honra ou primazia de ser iniciado, depois de sete anos de fundamentos e práticas de terreiro: Caboclo Pedra Branca (Xangô), cujo médium era Sr. Antonio Romero (Pai Toninho) e Caboclo Guarantan (Oxossi), entidade do Sr. Roberto Getúlio de Barros, que recentemente completou 80 anos.

Bem, após este pequeno resumo de como chegamos à Umbanda, melhor se entenderá o porquê de fundarmos a Escola de Síntese que legitima e consolida a diversidade, difundida desde a fundação da FTU e que é ensinada em seus bancos acadêmicos, nas disciplinas de Teologia Sistemática, Teologia Prática e, principalmente, de Teologia Umbandista ou Teologia das Religiões Afro-Brasileiras.

Sumarizando o que expusemos, viemos do Candomblé, Jejê-Nago tradicional, lá conhecemos o Candomblé de Caboclo, as Encantarias várias, até que em 1962, conhecemos a Umbanda em suas várias manifestações (Escolas).

Avançando no tempo, em 1971, (re)conhecemos nosso Mestre de várias vidas, Pai Matta (W.W. da Matta e Silva) com o qual tivemos uma convivência iniciática de dezoito anos. Em 1978, após sete anos de Iniciação, no augusto Templo de Itacurussá, fomos iniciados como Mestre de Iniciação de 7º grau. Em 1985, recebemos a complementação iniciática, quando fui elevado a Mestre de Iniciação de 7º Grau no 3º Ciclo, o grau máximo dentro da Raiz de Pai Guiné.

Robusteçamos a História. Em novembro de 1987 estivemos em Itacurussá, pois nosso Astral já vinha nos alertando que a pesada e nobre tarefa do Velho Mestre (Pai Matta e Silva) estava chegando ao fim... Surpreendeu-nos, quando lá chegamos, que ele nos chamou e, a sós e em tom grave, disse-nos:

- Rivas, minha tarefa está chegando ao fim, o Pai Guiné já me avisou... Pediu-me que eu vá a São Paulo e lá, no seu terreiro, ele baixará para promover a transmissão do comando vibratório de nossa Raiz.

Estava completo o ciclo. Mantivemos por sete anos consecutivos os fundamentos a nós transmitidos por Mestre Yapacany (Pai Matta) e confirmados por Mestre Yoshanan (Pai Guiné) em perfeita incorporação no Pai Matta.

No final do ano de 1996, após sete anos do desencarne de Pai Matta, convidei meus irmãos iniciados na Raiz de Pai Guiné a participarem do encontro que denominei “Reunião dos Mestres de Itacurussá”. No dia aprazado comunicamos a eles que a partir daquela data, segundo nos comprometemos com Pai Guiné, iríamos dar prosseguimento à Raiz, por intermédio da Escola de Síntese que revigoraria e refundiria a doutrina e prática da então Raiz de Pai Guiné, e assim fizemos.

Fizemos e fazemos, ou seja, aproximamos a Umbanda iniciática da Umbanda popular e vice-versa, pois na época havia um estremecimento entre os seguidores dos dois lados. A tarefa não foi e não é fácil, mas graças aos Orixás, estamos promovendo na paz e na luz novos rumos para todas as Escolas de Umbanda, para a Umbanda de todos nós.

Reiteramos que a Umbanda é uma idéia que se manifesta em várias linguagens. Que a Tradição Umbandista está alicerçada na contínua mudança, pois a Umbanda é uma unidade aberta que permite releituras várias. É o que fazemos! Uma forma de combater o dogmatismo (endógeno), o fundamentalismo e o engodo de querer (como muitos querem) homogeneizar a Umbanda, ora com os fundamentos da Umbanda esotérica, ora com os fundamentos da Umbanda popular, o que é óbvio, mais uma vez, nos posicionamos contrários. Aliás, sempre nos posicionaremos de forma antagônica à violência da codificação ou homogeneização de Umbanda.

Ficamos perplexos, mais ontem que hoje, quando muitos não perceberam e continuam não percebendo que não invertemos ou adulteramos os fundamentos de nossa Raiz. A esses pedimos a gentileza de lerem atentamente as obras de Pai Matta, em especial “Doutrina Secreta de Umbanda” no trecho em que Pai Matta cita além de Pai Guiné o Caboclo “Velho Payé”. Verão que essas entidades espirituais afirmaram que a Tradição é dinâmica, sendo pois plausível de revisões e acréscimos constantes. Com isso ratificamos que a Escola da Umbanda Esotérica não é melhor do que outras Escolas, como muitos têm afirmado, algo em total desalinho com o momento atual, onde o conceito de Escola propugna que todas as práticas de Umbanda tem a mesma importância.

É por isso que estamos aproximando as “várias Escolas Umbandistas ou das Religiões Afro-Brasileiras”, principalmente em nosso Templo, onde ritualizamos na teoria e na prática os fundamentos das várias Escolas, pois fomos iniciados em muitas delas, nos credenciando na Tradição do Orixá e, legitimamente, realizamos e vivemos seus ritos e fundamentos. Fazemos isso com a finalidade de interfacear na paz e na luz o diálogo com todas as Escolas de Umbanda, sem criar novas Entidades Espirituais ou Ancestrais Divinos, enfim, sem ferir os fundamentos ou cânones teológicos das Religiões Afro-Brasileiras.

Esta foi a condição fundamental, sine qua non, que legitimou, a fundação da FTU, pois os futuros teólogos poderiam ter um conhecimento globalizado da Tradição do Orixá manifesto em todas as Escolas das Religiões Afro-Brasileiras na teoria e na prática.

No que concerne à Academia (vide texto anterior) procuramos dar aos futuros teólogos:

(1) Ensino de excelência, de máxima qualidade, com professores gabaritados e titulados nas diversas disciplinas (sociologia, filosofia, hermenêutica, ontologia, lógica, antropologia religiosa, psicologia, biologia humana, filosofia do direito, estudo das religiões orientais e ocidentais, entre outras).

(2) Pesquisa de ponta – desde o início do curso o futuro teólogo toma contato com as linhas de pesquisa que nortearão sua vida, seja acadêmica (especialização, mestrado e doutorado) ou religiosa.

(3) Aproximar o Saber Acadêmico com o Saber Popular Tradicional passando pelo Saber Religioso – é o Ensino Superior transcendendo as paredes acadêmicas pervadindo, chegando a toda a sociedade.

Encerrando, pode-se notar o ganho que todos tiveram e têm, pois na FTU o estudo sistemático das Religiões Afro-Brasileiras são ministradas na teoria e na prática com total isenção, pois a maioria (ou quase todas) são discutidas e vivenciadas nos bancos acadêmicos da FTU ou nos Templos ou laboratórios (segundo o MEC):

(a) Templo das Religiões Afro-Brasileiras na Av. Santa Catarina, 414.

(b) Templo das Tradições Afro-Ameríndias na Rua Chebl Massud, 157.

(c) Centro de Cultura Viva das Tradições Afro-Brasileiras - cultos: Tradição do Orixá, Candomblé de Caboclo, Umbanda Traçada, Umbanda Mista, Umbanda Cristã, Umbanda Oriental, Umbanda Esotérica, Umbanda Omolocô, Tradição Exu/Elegbará/Bombonjila, Kimbanda, Jurema, Pajelança, Tradição Orunmilá/Ossaim/Exu, entre outras.

(d) Vários templos em suas diversas expressões em todas as regiões brasileiras. O diálogo intrarreligioso, da convivência pacífica com vários sacerdotes de várias escolas

No término, esperamos contar com a boa vontade de todo o Povo do Santo, seja da Umbanda ou Religiões Afro-Brasileiras, o qual convidamos para participar ativamente do processo espiritual, cultural, social desenvolvidos na FTU, que tem proporcionado maior visibilidade (positiva) de nossa gente, promovendo maior mobilidade e inclusão, neutralizando na paz, na lógica e no bom senso os preconceitos que infelizmente ainda assolam nossa sociedade, mas que dia após dia estão se rarefazendo.

A FTU trabalha de forma incansável e obstinada, com a participação ativa de toda a comunidade das Religiões Afro-Brasileiras e da sociedade como um todo, para que no menor espaço de tempo possível não tenhamos mais nenhum preconceito ou desigualdade. Axé!

PS: Para quem quiser saber mais sobre a nossa Iniciação, sugerimos a leitura do livro: “Sacerdote Mago e Médico” de nossa autoria. Nesta obra é demonstrada toda a nossa trajetória iniciática nas Religiões Afro-Brasileiras.




Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico

Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”

Publicação 132

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