quinta-feira, 10 de março de 2011

Aspectos Teológicos e Religiosos do Candomblé de Caboclo


A Teologia ou Conhecimento Religioso é distinto das “Crenças Religiosas”. O Conhecimento Religioso ou Teologia é o instrumento, o processo privilegiado de interface no dialogo entre Ciência e Religião.

A Religião ou Crenças Religiosas tem sua doutrina que propugna, principalmente, a fé. Além da fé relaciona-se com processos e ferramentas norteadores de vida para seus adeptos. A prática ou ritos é outro braço da religião que reitera, baliza a crença, a ética e os conceitos cósmicos ou de “visão de mundo”.

Apesar dos óbices por nós apontados e discutidos no texto anterior, queremos reiterar que a Teologia e não a Religião deve promover o diálogo com a Ciência, com o Conhecimento Científico propugnando uma interação, não de concordismo, mas de diálogo, pois tanto Religião como Ciência associadas têm muito a oferecer à sociedade.

Como a Teologia faz a interface e cria pontes, percorrendo-as, nela encontramos o local de excelência para intermediar, e, definitivamente, erradicar o conflito entre dois modos de ver o mundo: o da Religião e o da Ciência.

Concluindo sobre a Teologia, ela decodifica as crenças ou Religiões para o Conhecimento Científico. De forma idêntica traduz as contribuições da Ciência para a Religião e para a sociedade.

Por dentro das Religiões Afro-Brasileiras há um denominador comum que é a Tradição oral; o mesmo acontece com a música e canto, transe de possessão ou mediúnico, dança, louvação aos Ancestrais Divinos (Orixás, Inquices e Vodun), louvação aos Ancestrais Ilustres (Guias Espirituais: Caboclo, Mestre, Preto Velho, Exu e muitos outros), comidas votivas, bebidas ritualísticas e outros.

No universo das religiões afro-brasileiras, a guisa de exemplo, selecionemos o Candomblé de Caboclo; penetremos em sua alma, crenças, fé e ritos sagrados.

O Candomblé de Caboclo é oriundo do Candomblé ou Culto de Nação Africano seja ele Ketu ou Banto. Surgiu, pois os adeptos do Candomblé necessitavam de uma assistência e acompanhamento mais próximo e direto. Havia problemas do cotidiano que requeriam consultas para saber qual o melhor caminho a seguir. Eram problemas afetivos-emocionais, de saúde, financeiros e espirituais vários.

Como sabemos de outras incursões, o Candomblé tem por finalidade primeira o culto aos Orixás e a manutenção de sua força mágico-sagrada – o Axé.

Assim muitos pais e mães de santo, pelos motivos aludidos, fundaram os primeiros terreiros desse novo conceito doutrinário-ritualístico, onde as crenças africanas se uniram às da pajelança (crenças e rituais de indígenas brasileiros).

A diferença fundamental do Candomblé de Caboclo é que os Orixás não baixam diretamente entre os filhos de fé (consulentes, simpatizantes). Eles são representados, e isto é fundamental, pelos Caboclos (indígenas brasileiros evoluídos).

Aludindo ao Caboclo (“Orixá do Brasil”) sua performance é praticamente a mesma desenvolvida em outras religiões afro-brasileiras. Falam, dão consultas, fumam (tabaco como remédio xamânico), receitam ervas para várias finalidades e, também, orientam sobre problemas do cotidiano e do espiritual.

As vestimentas, em geral, são as do Candomblé africano, acrescidas de cocares e outros adereços indígenas em comunhão com determinados instrumentos utilizados no Candomblé, por exemplo, o ofá (arco e flecha), preacá e outros.

A orquestra ritualística é a mesma da Umbanda, sendo que os ilús ou tambores rituais são percutidos com as mãos e, mais raramente, com os oguidavis. Os ilequês ou colares de contas são os mesmos do Candomblé e Umbanda, acrescidos de contas ou fio de sementes várias (jarina, sucupira, açaí, pau Brasil, lágrimas ou rosário, capacete de Ogun, entre outros).

O ritual tem início com o Xirê, sendo que as Yaôs e sambas cantam e dançam em roda. Há uma presença marcante do elemento masculino, como sacerdote (padrinho) diferentemente do que há no Candomblé africano cujo domínio de gênero é feminino.

Uma diferença fundamental no Candomblé de Caboclo em relação ao Culto de Nação é que nos seus cultos há a presença da Gira de Exu (interdito no Culto de Nação Africano).

Há também algo que não havia no Culto de Nação Africano, uma inovação, a adoção da “Linha das Almas”, onde se manifestam os “espíritos evoluídos de antigos escravos - os Preto-Velhos”.

No aspecto teológico faremos uma ressalva para reflexão. No caso da Linha das Almas, por que os espíritos de africanos são obrigatoriamente velhos? Não havia escravo evoluído que fosse jovem?

Nos cultos africanos do passado pontificavam quatro sacerdotes de importância ponderadas como: Babalawô (Sacerdote da Sabedoria, do Conhecimento do destino dos seres e do universo); Babalossaim (Sacerdote versado no mistério e fundamento das ervas medicinais e rituais); Babaojé (Sacerdote que proporcionava a ponte entre os vivos e os mortos, o Conselho direto dos Ancestrais – Babá Egun) e o Babalorixá (Sacerdote versado nos mistérios dos Orixás e suas manifestações nos homens).

Depois desta alusão, ousamos afirmar que a Linha das Almas (Eguns), interdita no Culto do Orixá, não é no Candomblé de Caboclo e mesmo na Umbanda. Foi uma maneira inteligente e espiritualizante de integrar o culto aos mortos – em especial dos Babá Egun (cabeça de uma linhagem de Ancestrais), que são negros e velhos, portanto Pretos Velhos. Conciliação adequada e não hierarquizada, pois na Umbanda e no Candomblé de Caboclo apesar da supremacia do Caboclo, os Pretos Velhos tem igual importância, sendo muito queridos e requisitados nos conselhos e mandingas várias.

Portanto, de forma breve, tivemos uma descrição do Candomblé de Caboclo, também denominado de Umbanda Traçada, culto diferente do Candomblé ou Culto de Nação Africano, pois já houve a fusão de várias influências (Pajelança, Espiritismo e Catolicismo), mas que por ser brasileiro, pode ter determinado a formação de Umbanda ou ter sido influenciado por Ela –uma Religião brasileira – de matriz brasileira.

Depois destas ligeiras incursões no Candomblé de Caboclo – uma das Escolas das Religiões Afro-Brasileiras, melhor se entenderá a diferença importante que fizemos entre Teologia e Religião, destacando-se que Teologia é Conhecimento Religioso podendo interfacear com o Conhecimento Científico, ao contrário da Religião que é crença, fé e práticas, naquilo que denominamos Crenças Religiosas.

A Teologia não é melhor que a Religião e vice-versa, entretanto à Teologia compete instrumentalizar e viabilizar o diálogo, há muito interrompido, entre religião e ciência, pois reiteramos a Teologia tem condições privilegiadas e imparciais de promover o diálogo entre Religião e Ciência.

Para tanto, como dialoga com a academia tenta traduzir as Crenças Religiosas para as Ciências. Igualmente, decodifica as teorias científicas para a Religião, promovendo o diálogo e revisão recíproca entre ambas.

A Faculdade de Teologia Umbandista – FTU – tem um papel importantíssimo na reunião dos saberes, do diálogo à exaustão com o saber popular tradicional (com as Crenças Religiosas) e com o saber acadêmico (filosofia, ciências naturais).

A FTU torna-se o local de excelência ou referência no momento que disponibiliza à sociedade a ponte e a transposição da mesma, criar novos mecanismos que permitam a interface do diálogo bidirecional entre a Religião e a Ciência, pois, como já aludimos, ela se encontra na academia e tem também uma visão cristalina da religião, principalmente, com ênfase nas Religiões Afro-Brasileiras.

Continua sua faina empreendedora do diálogo em vários níveis, pois as Religiões Afro-Brasileiras carreiam a Tradição de praticamente todos os povos, culturas e etnias, que proporcionam a aproximação e a interação de saberes, das diferenças, da alteridade, realçando as semelhanças.

As características da FTU citadas permitem formatação e estratégia privilegiadas e, principalmente, isentas e desapaixonadas no diálogo ou interface entre Religião e Ciência, onde todos recebem acréscimos inestimáveis, especialmente, a sociedade como um todo.

É o que a FTU busca e espera proporcionar a todos, sejam religiosos, cientistas, filósofos, artistas, ao cidadão livre pensador enfim, a sociedade planetária. Estamos no início do processo que sabemos ser longo, mas para breve esperamos que todos se privilegiem com as ações teológicas, sociais, culturais, políticas e econômicas promovidas pela FTU, que temos absoluta certeza será paradigmática, balizando e pontuando positivamente a função da Teologia das Religiões Afro-Brasileiras nos diálogos que neutralizem conflitos sejam eles: dos saberes, dos povos, das classes sociais, das etnias, prevalecendo, como é de se esperar, a inclusão e igualdade totais. Axé!




Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico

Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”

Publicação 127

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