segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Introdução à metafísica monista das religiões afro-brasileiras

RESUMO

Na vivência direta de mais de cinqüenta anos de práticas e observações no universo das religiões afro-brasileiras, em seu âmago, no templo, concluímos e escrevemos que o monoteísmo se manifesta no politeísmo, da mesma forma que o espírito (essência) se apresenta na energia /matéria (substância) tendo uma existência. Por meio de observações e deduções concluímos que as religiões afro-brasileiras são de manifestação, e raramente apresentam a revelação, ou seja, re(velar) , “ocultar”.

O “ocultar” como significado de sempre necessitar de revisões, de constantes (re)interpretações, enfim de manifestação. É manifestação constante, pois não raro, o aspecto sobrenatural se apresenta no natural, e também pela interdependência real entre esses dois planos de existência do espírito.

Com a mesma lógica e razão afirmamos que o dualismo é manifestação do monismo. Para melhor entendimento e visualização do que estamos dissertando, necessário se faz discorrer de forma ligeira, sobre o conceito de metafísica e monismo.

A metafísica compreende estudos além da física; estudo do ser enquanto ser (ontologia) e especulação em torno dos primeiros princípios e das causas primeiras do ser. É importante ressaltar os fenômenos cosmogenéticos (cosmologia), ou seja, os processos da Criação do Cosmo, dando ordem ao caos primordial (substância primeva indiferenciada).

Palavras-chave: Doutrina do Tríplice Caminho, Manifestação, Metafísica, Monismo, Religiões Afro-brasileiras

ABSTRACT

In the direct experience of over fifty years of practice and observations of the african-brazilian religions universe, at its core, the temple, we conclude and write that monotheism manifests itself in polytheism, the same way that the spirit (essence) is presented in energy / matter (substance), having an existence. Through observations and deductions we conclude that the african-brazilian religions are expressions, and rarely present disclosure.

The "hide" as meaning to a constant review, constant (re) interpretations, and finally to manifestation. It is constant manifestation, because the supernatural aspect is presented in the natural, real and also the interdependence between these two planes of existence of the spirit.

With the same logic and reason we say that dualism is a manifestation of monism. For a better understanding and visualization of what we are lecturing, it is necessary to talk lightly about the concept of metaphysics and monism.

Metaphysics inclu des studies beyond physics, study of being as a being (ontology) and speculation about the first principles and first causes of being. It is important to highlight the phenomenacosmogenetic (cosmology), ie, the processes of creation of the cosmos, ordering the primordial chaos (primal undifferentiated substance).

Keywords: The Triple Way Doctrine, Manifestation, Metaphysics, Monism, Afro-Brazilian Religions

INTRODUÇÃO À METAFÍSICA MONISTA DAS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS

Na vivência direta de mais de cinqüenta anos de práticas e observações no universo das religiões afro-brasileiras, em seu âmago, no templo, concluímos e escrevemos que o sobrenatural se manifesta no natural, da mesma maneira que o espírito (essência) se apresenta na energia/matéria (substância) que se manifesta na vida (existência).

Por meio de observações e deduções concluímos que as religiões afro-brasileiras são de manifestação, e raramente apresentam a revelação, ou seja, re(velar) , “ocultar”.

O “ocultar” como significado de sempre necessitar de revisões, de constantes (re)interpretações, enfim de manifestação. É manifestação constante, pois não raro, o aspecto sobrenatural se apresenta no natural, e também pela interdependência real entre esses dois planos de existência do espírito.

Com a mesma lógica e razão afirmamos que o dualismo é manifestação do monismo. Para melhor entendimento e visualização do que estamos dissertando, necessário se faz discorrer de forma ligeira, sobre o conceito de metafísica e monismo.

A metafísica compreende estudos além da física; estudo do ser enquanto ser (ontologia) e especulação em torno dos primeiros princípios e das causas primeiras do ser. É importante ressaltar os fenômenos cosmogenéticos (cosmologia), ou seja, os processos da Criação do Cosmo, dando ordem ao caos primordial (substância primeva indiferenciada).

Quanto ao monismo temo-lo como princípio filosófico que compreende a realidade como uma unidade cuja aparência se mostre como diversidade apenas em função da distorção da consciência. Corrigindo-se a distorção da percepção da realidade o indivíduo compreende-se em unidade com o Todo.

Há fundamentos metafísicos, por dentro da Teologia Umbandista que são mais elaborados, precisando de fatores introdutórios para ser inteligíveis, principalmente por aqueles não acostumados com a doutrina e práxis das religiões afro-brasileiras. É o que faremos, introduziremos para, a seguir, aprofundar o conceito.

Para a demonstração que nos propusemos faz-se mister entender a Cosmogênese em seus aspectos genéricos, os quais satisfazem plenamente nossa expectativa.

A ciência oficial acadêmica, a astrofísica afirmam que a cosmogênese se deu há 4,3 bilhões de anos.

Descrevem que havia uma substância ou energia escura (pré-matéria) que num determinado instante (t0=0) se condensou em apenas um ponto. A seguir começou (depois do Big Bang) o processo de expansão. No Big Bang (a grande explosão) três fenômenos cosmogenéticos se manifestaram: movimento, luz e som. Por esse conceito tudo é manifestação do ponto ou ovo cosmogônico. Tudo se originou no ponto (monismo) que se manifestou e ainda se manifesta de forma plural, pela diversidade.

Tomando essa teoria do Big Bang, como modelo, vejamos como a Umbanda ou religiões afro-brasileiras explicam a origem do universo e a manifestação da unidade na diversidade.

Os aspectos cosmológicos ou cosmogônicos se confundem, pois ambos se referem à substância indiferenciada no espaço-vazio, que o poder volitivo do Orixá reduziu a um único ponto.

Por esse mesmo poder volitivo coletivo (dos Orixás) o ponto se deflagrou, iniciando pela formação de três fenômenos: movimento, luz e som. A partir daí a expansão gerou o universo que conhecemos. Na Umbanda iniciática e algumas escolas de Umbanda, os fenômenos cosmogenéticos associam-se a Doutrina do Tríplice Caminho ou dos Três Caminhos-Unos* que são pela ordem: movimento (Doutrina da Ação Cósmica), Luz (Doutrina da Sabedoria Cósmica) e Som (Doutrina do Amor Cósmico). Esta Triunidade cósmica se manifesta na diversidade do mundo concreto (natural) e abstrato (sobrenatural).

O diagrama que representa esse processo cosmogenético e a manifestação da unidade na diversidade é o que demonstramos:


Ps: Para observar melhor a demonstração, clique na figura


Esta é a demonstração que explica como a unidade se manifesta na diversidade, aludindo que esta realidade é virtual, provisória, não definitiva, é pois uma adaptação, manifestação monista.

Esta manifestação da unidade explica o porquê de termos a gnose humana fragmentada, assim como também temos vários níveis de realidade, principalmente a visível e invisível.

Por esta característica é que simbolizamos a gnose humana num círculo subdividido em 4 setores e subsetores.



Dissemos que o conhecimento não somente setorizou-se, mas também surgiram os subsetores.

Se tomarmos como exemplo o setor religião, veremos que há várias religiões, portanto vários subsetores, óbvio que cada um deles representa uma religião. O diagrama explicita o que expusemos:



Na observação do diagrama percebe-se que o vértice é o ponto A’ (projeção da Unidade) que é comum a todos os setores (religião, filosofia, arte e ciência) e também a todos os subsetores.

No caso do setor religião, os subsetores têm em comum o ponto A’, demonstrando de forma fidedigna que todos (subsetores) têm a mesma origem, isto é fundamental para entendimento da unidade manifesta na diversidade.



Estamos referenciando a religião, mas como o ponto A’ é comum aos quatro setores, o que aludimos à religião valerá para os outros três setores (filosofia, arte e ciência).

Observando atentamente cada subsetor, depreendemos que há a periferia (diversidade máxima) e o centro (comum a todos = Unidade).

Por dentro do setor religião há a periferia e o centro. Quanto mais próximo do centro, menos ortodoxia, mais convivência pacífica, diálogo, maior proximidade entre as religiões, na verdade não só entre as religiões, mais próximas de outros setores, da Unidade (Convergência).

Encerrando esta introdução à metafísica que remete à convergência, citaremos recorte do texto do livro de nossa autoria – Sacerdote, Mago e Médico –São Paulo, Editora Ícone, 2002.

A gnose humana, o conhecimento humano dissociado em quatro pilares encontra-se na periferia (vide diagrama), na superfície, distante do ponto comum (A’) que nos remete à Unidade, à Convergência.

Apenas introduzimos os conceitos supracitados os quais norteiam, são o mote da Escola de Síntese onde há muito são praticados; como se percebe, estes esquemas podem ser aplicados em todas as situações. São realmente um canal facilitador ou modelos que explicitam a diversidade como simples manifestação da unidade.

Quando afirmamos que a Umbanda é universal, muitos não entendem ou não aceitam. É universal devido sua flexibilidade de ora estar no centro, ora na periferia, fazendo este movimento oscilatório, diminuindo as desavenças, as desigualdades, até o momento de vencer a dualidade conquistando a Unidade (Convergência).

Depois dos esquemas apresentados, percebe-se facilmente como a Umbanda, por meio do espiritual, atua no cultural, social, político e econômico, diminuindo as desigualdades, trazendo-as para o centro, o que leva a uma quebra de paradigmas do velho modelo, que pede mudanças urgentes.

Que venham as mudanças, estas são a constante do universo, e esse é equilíbrio, estabilidade e harmonia.

No término não podemos deixar de reiterar que a diversidade é mera manifestação da Unidade, pelos motivos aludidos. Importante que se diferencie diversidade e desigualdade. Diversidade é a própria manifestação da Unidade, do Poder Volitivo dos Orixás, enquanto desigualdade é a reação perversa do “mundo” desequilibrado, desestabilizado e desarmonizado, ou reação da ignorância, ódio e apegos vários que esperamos sejam neutralizados no menor espaço de tempo. É o que fazem todos os interessados em trazer ao mundo sabedoria que neutraliza a ignorância, o amor que suprime o ódio e a ação efetiva que dirime todo e qualquer apego ou inação.

Diversidade com sabedoria, amor e diligência é o que desejamos a todos os irmãos planetários. Boa leitura. Axé!

* Doutrina do Tríplice Caminho ou dos Três Caminhos Unos: Doutrina que engloba Epistemologia, Ética e Método referente à manifestação tríplice do Espírito na matéria; a Realidade-Una se apresenta no cosmos como uma Triunidade de Luz, Som e Movimento. Esta maneira trina de constituição do universo se aplica também ao Homem como Pensamento, Sentimento e Ação. As Doutrinas Tântrica (Luz) , Mântrica (Som) e Yântrica (Movimento) visam, respectivamente, reunir o Pensamento individual com a Sabedoria Cósmica, o Sentimento individual com o Amor Cósmico e a Ação individual com o Poder Divino.

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico

Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”

Publicação 105

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