quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Faculdade de Teologia Umbandista e sua linha de pesquisa

Gostaríamos de divulgar um texto acadêmico de nosso filho espiritual Yabauara importante para as religiões afro-brasileiras, que visa esclarecer a função da Faculdade de Teologia Umbandista na sociedade brasileira

Reflexão crítica sobre a FTU

O texto ora apresentado se apóia na minha pesquisa em Ciências da Religião, nível doutorado, pela PUC-SP. Projeto este que foi aprovado na UFJF como requisito parcial para o processo seletivo no programa em Ciência da Religião.

Ainda na pesquisa em Filosofia, nível Mestrado, trabalhei o autor Jürgen Habermas e sua ética do discurso. Uma teoria que passa pelos aspectos intersubjetivos, políticos e éticos propriamente ditos. O discurso em Habermas exercita aos interlocutores no diálogo um encontro constante com o Outro. Ou seja, é uma alteridade real, não apenas idealizada.

Por que evoco isto? Porque esta sustentação filosófica de alteridade é fundamental para penetrar na pesquisa das religiões afro-brasileiras. Excetuando os colegas acadêmicos que se interessaram por estudos de caso com terreiros de forma isolada, conciliar um objeto de estudo tão plural é complexo. Torna-se necessário pensar o(s) Outro(s).

Dentro da teologia com ênfase nas religiões afro-brasileiras existem dois conceitos que facilitam uma compreensão desta diversidade com lógica, o que é fundamental para um filósofo ou mesmo cientista, e contemplam esta necessária alteridade.

O primeiro conceito inédito é o de “Escolas”. Nele o autor F. Rivas Neto sustenta o tripé epistemologia (corpo doutrinário próprio), metodologia (linha de transmissão deste corpo) e ética (interdependência). Afirmo inédito, pois na literatura existente o termo Escola nunca foi apresentado com esta configuração. Aditando a ideia original, o autor insere o sentido de gestalt para defender o argumento de que as Religiões Afro-brasileiras só existem pela co-existência de suas várias Escolas. Desta forma, o adepto das religiões afro-brasileiras possui várias formas (diversidade) de acessar o Sagrado (unidade). Sendo assim, o conceito de Escolas é inclusivo e não excludente

O outro conceito é o de “umbandização”. Termo inicialmente cunhado por Roger Bastide e trabalhado por vários sociólogos e antropólogos, remetia no sentido original a uma ideia de purismo dos cultos “afro” abalado pela presença marcante da Umbanda. Na releitura ampliada de F. Rivas Neto é possível mostrar que tendo como base a formação das religiões afro-brasileiras a mesma do povo brasileiro, este contato e troca entre as mais diversas cosmovisões não só é interessante, como mantém viva a sua tradição.

Um momento importante para o diálogo ciência e religião foi o advento da Faculdade de Teologia Umbandista que é autorizada e credenciada pelo Ministério da Educação (MEC) para formar teólogos, nível bacharelado, com ênfase nas religiões Afro-brasileiras.

Inicialmente poderia ser questionado que diante desta diversidade de Escolas, qual ou quais delas seriam estudadas em sala de aula. Todas as Escolas são contempladas, dada a inserção deste conceito em seu projeto pedagógico. O mote da FTU é pela inclusão total, pois em sua linha de pesquisa procura compreender a diversidade de visões que existem no seio das religiões afro-brasileiras.

Ao citar o MEC, em nossa pesquisa de campo, nos chama a atenção como ele tem se preocupado por criar no curso de teologia do país cadeiras que versem não só sobre o conteúdo confessional, mas também interdisciplinar. Este modelo foi desenvolvido de forma pioneira pela FTU mostrando uma posição de vanguarda nesta área acadêmica. Na linguagem interdisciplinar a FTU busca aproximar o senso crítico do senso comum, passando pelo senso religioso criando pontes entre Filosofia, Arte, Ciência e Religião.

Só que existe um ponto importante nesta constatação. Não basta apresentar os elementos desta teologia umbandista, é necessário testar os seus argumentos. Neste momento as ferramentas filosóficas como metafísica e lógica ganham destaque para compreender visão de mundo e as ciências naturais e sociais podem auxiliar no entendimento sobre suas expressões concretas.

Um teólogo, filósofo, cientista das mais diversas áreas (naturais, sociais e mesmo o da religião) não pode ser conivente com o erro. Quando se utilizado o senso crítico, e em todas as áreas citadas isto ocorre, não é permitido aceitar uma ideia por coerção ou estratégias de persuasão. Apenas o argumento sólido e consistente comprovadamente pode perdurar.

Nada contra as pessoas que venham a produzir erros, mas, como filósofo, não posso ficar alheio. Compreendo as paixões e desejos pessoais, porém existe um compromisso com a pesquisa e principalmente com o objeto de pesquisa que são as religiões afro-brasileiras. A diceologia e deontologia do pesquisador de campo nos alerta para o perigo da falácia ou de olvidar fatos.

Neste sentido é importante citar os ritos realizados pela mantenedora da FTU que exercitam as várias linguagens epistemológicas das Escolas existentes nas religiões Afro-brasileiras. Estive no rito de Exu e constatei in loco a presença de milhares de pessoas o que demonstra a importância quantitativa e a presença de sacerdotes de dezesseis estados do Brasil, reforçando sua abrangência qualitativa.

Isto apresenta uma relação teórica e prática desenvolvida pela FTU de ponta. Quem se beneficia diretamente desta construção é a comunidade das religiões afro-brasileiras, pela inserção cultural, social, político-econômica utilizando a educação teológica como ferramenta. Julgo ser interessante pesquisar o motivo de setores irem contra à faculdade, para compreender os seus motivos.

Em suma, a consistência filosófica sustentada pela FTU foi recentemente reconhecida pela educação pública brasileira. O MEC autorizou e a USP chancelou os primeiros vinte e um diplomas dos teólogos umbandistas, afro-brasileiros, na história do planeta. Com esta marca histórica a FTU reforça sua proposta de inserção social do adepto religioso afro-brasileiro na sociedade contemplando toda a diversidade das religiões afro-brasileiras.


João Luiz Carneiro

Doutorando em Ciências da Religião e Mestre em Filosofia



Ps: No que pese a redação acadêmica, minha dijina é Yabauara. Sou religioso das tradições Afro-brasileiras e, com satisfação, filho espiritual do Pai Rivas (Arhapiagha)


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Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico

Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”

Publicação 114

2 comentários:

  1. Parabéns pelo trabalho!

    Império da Cultura

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  2. estou adorando, mais eu tenho duvidas gostaria de saber se é preciso o sacrificio de animais na iniciação no batuque sou de porto alegre rs. poderia responder ?

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