quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Contos, encantos e encontros num ritual de fundamento da Escola de Síntese

Na Umbanda, reiteramos, pela diversidade dos seus adeptos, há também uma diversidade de rituais e de formas de transmissão do Conhecimento. A essas várias formas de entendimento e vivência de umbanda denominamos de Escolas Umbandistas. Apesar de não haver consenso quanto à ritualística, que as são várias formas de manifestar e interpretar a Doutrina, a essência de todas é a mesma e são legitimamente denominadas Umbandistas.

Quanto à Escola de Síntese é o pensamento filosófico doutrinário e propugnado por nosso Templo-Terreiro. Não se trata de Escola como instituição de ensino, mas sim uma filosofia própria de Umbanda baseada em Epistemologia, Ética e Método.

Dentro da Umbanda a Escola de Síntese ocupa uma posição de vanguarda visto que apresenta um enfoque que abrange todas as Escolas de Umbanda. Não discrimina nenhum setor filosófico, religioso, científico ou artístico. Propaga de forma explicita, por todos os meios, que todas as Escolas Umbandistas têm o mesmo valor, sendo todas respeitadas.

Antes de descrevermos sucintamente um dos ritos de fundamento da Escola de Síntese, resumiremos os critérios que caracterizam e determinam uma “comunidade religiosa” como Escola Umbandista.

Os fundamentos, na íntegra, estão disponibilizados na publicação 109, de 16 de janeiro, onde iniciamos citando que das Três Escolas Umbandistas Primevas (Ameríndia ou Americana, Africana e Indo-Européia) por intermédio de releituras, reelaborações e, principalmente, pelo processo que denominamos Convergência (uma realidade nova e superior) propiciaram e propiciam o surgimento de novas Escolas.

Após as explicações devidas que remetem ao texto anterior, resumamos o conceito de Escola Umbandista, na práxis, no dia-a-dia dos Terreiros, Brasil afora.

As muitas Escolas Umbandistas (Umbanda Traçada, Mista, Esotérica, Oriental, Cristã, Jurema, Pajelança e outras) são assim caracterizadas: exemplifiquemos com a denominada Umbanda Branca.

A “Umbanda Branca”, legítima Escola Umbandista, na forma está vinculada, pelo menos na aparência, ao Espiritismo e Catolicismo (sincretismo). Na essência, na sua doutrina interna é Africana (Orixás) e Indígena (Pajelança) ao mesmo tempo.

Como afirmamos é Africana, pois cultua os Orixás (Divindades Africanas) e também Indígena, pois cultua o Caboclo-Ancestral brasileiro, dito também o Orixá do Brasil.

Quais os elementos fundamentais que caracterizam uma Escola? São três: (1) As Escolas não valorizam somente uma Escola. (2) Não desvalorizam nenhuma. (3) Contemplam todas as Escolas. Satisfeitos esses critérios próprios da Espiritualidade, que contemplam a total inclusão, temos aquilo que denominamos Escolas Umbandistas.

Depois desta breve revisão sobre o conceito de Escola Umbandista descrevamos um ritual de fundamento, que é realizado em nosso Templo-terreiro, em que há o transe em suas várias acepções.

ASPECTOS INICIAIS DO RITUAL

1ª Fase - O Ritual do Padê

Tem inicio no dia anterior ao ritual de fundamento. Nesse ritual, invoca-se a presença de Exu em seus vários aspectos, para que ele possa tornar propício o ato a ser realizado.

A oferenda composta de água, aguardente acondicionadas em quartinhas de barro, farinha de mandioca, dendê, acondicionados em alguidar e fumo.

A oferenda permite o aporte do axé para os transes que ocorrerão, da mesma forma, também como elo de comunicação propiciatório entre os dois mundos: o sobrenatural e o natural.

O RITUAL, PROPRIAMENTE DITO

2ª Fase - Invocação ao Ancestral brasileiro

O “Castiço” (catiço) – o Caboclo – é tido em muitas Religiões Afro-Brasileiras como o Orixá do Brasil.

Com a invocação e chegada dos Caboclos em “terra”, que são entidades espirituais de muito poder espiritual e curativo, tem início o ritual, onde dispensam suas bênçãos a todos os presentes ou ausentes mas que estão sob os influxos de sua poderosa corrente.

Assim, abrem-se as portas, as “matas”, os poderes espirituais, as ordens a outras Entidades Espirituais que virão cumprir seu ciclo que mantém ou devolve a harmonia e o equilíbrio.

3ª Fase – Invocação de Exu

Após o “retorno” do Caboclo aos “espaços sagrados” (“Aruanda”) deixando suas “ordens de direitos”, seu comando Espiritual às demais entidades que virão cumprir o ciclo iniciado, prepara-se a invocação de Exu – Senhor das Encruzilhadas, dos Caminhos, Porteiro Sagrado entre várias dimensões. Nada terá sentido ou existência se não tiver Exu. Ele é, representa e conduz o Axé, princípio e poder de realizar e fazer crescer, desenvolver todas as coisas, sendo pois, justo, principalmente na Umbanda Traçada, Omolokô e outras mais, ser o primeiro a ser invocado, antes do próprio Orixá, o mesmo acontecendo com as oferendas. Exu é o primeiro a “comer”, pelos motivos aludidos.

No Templo chega em terra Exu. Mo Ju Ba...Laroyê...Exu!

Faz suas consultas, “resolve” algumas pendências, e tenta neutralizar os quatro principais problemas que assolam as humanas criaturas, que as fazem vir ao terreiro.

Procura administrar remédios mágicos, com suas palavras magísticas e trabalhos teúrgicos que neutralizam:

“Doenças Físicas” – males físicos (doenças de vários matizes)

“Doenças Afetivas” – males emocionais e afetivo-sexuais

“Doenças Sociais” – problemas que impedem a pessoa de exercer função remunerada ; bloqueios financeiros, vida ou caminhos fechados nos aspectos econômico-financeiros. Perdas monetárias e outras mazelas afins. Negócios enrolados, e outros embaraços...

“Doenças Espirituais” Mediunidade desajustada, “encostos”, “quebrantos”, “mal olhados”, perseguição de Eguns, de Arajés, Magia Negra – atuação no campo espiritual bloqueando a espiritualidade e o desempenho na vida social e emotiva-sexual; problemas mentais vários; problemas acompanhados de depressão , ansiedades, manias, distimias e principalmente, o medo, entre outros tantos.

4ª fase – Invocação dos Pais Divinos - Orixá, Inquice ou Vodun

Com Exu no reino, atendendo e encaminhando as pessoas, Ele mesmo, como o primeiro a vir, pode invocar os Orixás (segundo a ordem do Xirê) que trarão suas bênçãos e sua proteção. Após suas bênçãos e transmissão de axé desincorporam de seus “cavalos de santo” na camarinha, completando seus ciclos de vibrações que veiculam axé, iwa e abá.

5ª Fase – Invocação aos Ancestrais

Ainda com o Ancestral Exu no reino, invocam-se os Ancestrais que conhecemos como Baianos, Boiadeiros, Marinheiros, Ciganos e outros menos cultuados, para darem seguimento ao ciclo de ritos que objetivam a harmonia, o equilíbrio e a estabilidade de todos. Com seus métodos peculiares, promovem verdadeiras catarses nos consulentes e naqueles que se encontrem diante deles.

6ª Fase – Invocação dos Encantados

Os encantados de todas as nações – principalmente os Mestres Juremeiros - vem estender seus “saberes”, sua “sabedoria” completando mais uma fase do ciclo, a penúltima.

São oriundos como dissemos do Terecô ou Tambor da Mata, do Tambor de Mina, da Jurema, do Babassuê, enfim dos vários reinos de encantos e encantados.

Seus encantos são poderosos em neutralizar magias negativas várias, principalmente da “fumaça às esquerdas”. Também com as “fumaçadas” (receitas de fumo misturado com ervas para finalidades várias), de suas marcas (cachimbo) que curam tristezas, “dor de amor”, “dores na alma” e tantas outras dores que a “medicina titular” nem conhece, nem desconfia, por isso não pode curar.

O rito vai completando seu ciclo, seus ritmos ditam novos destinos, esperanças renovadas, angústias neutralizadas, dores curadas, e principalmente, feitiçarias, bozós e berundangas quebradas, cortadas e derrubadas.

Assim na alegria e na paz, onde todos já experimentaram um gole de vinho da Jurema, os consulentes podem retornar às suas casas. Pede que não se demorem a dormir, pois os trabalhos, as conversas e os ajustes continuarão do outro lado, lá no pé da Jurema – árvore de ciência, de sabedoria.

Os mestres, reis, príncipes e princesas desacostando, indo para seus “reinos sagrados”, o Exu que está no reino faz os últimos acertos com a curimba, queima sua fundanga, bebe um pequeno gole de seu curiador e, finalmente, com a fumaça proveniente de seu charuto, devolve a todos axé renovado, redobrado e melhorado.

O Exu se despede, e em algum poleiro do mundo o galo esta cantando, anunciando que mais um ciclo esta terminando. Exu Ye... Laroyê... Exu já afundou... Mo Ju Ba Exu Odara, Lonan, Elegbara e Okoto e todos os demais – Axé!

7ª Fase – Os erês

Alguns dos “Cavalos de santo”, após “terminado” o “transe”, retornam às suas personalidades muito lentamente. Eles ficam em estado de erê, “erezados”. Seus comportamentos se parecem com o de uma “criança”, como um candengo, mas em verdade é o retorno do transe, que transita do inconsciente para o consciente. É comum neste período os cambonos ou médiuns iniciantes receberem algumas orientações ou mesmo uma aproximação por intermédio de um abraço, que retoma, refaz a ligação do sagrado com o secular; tudo vai se restabelecendo, vai retornando ao normal.

Importante que se frise, que esse natural é um estado muito superior de felicidade, de alegria e vontade de viver, de viver bem, de bom ânimo que só será sobrepujado pela próxima gira, pelo próximo ritual. Axé!

Encerrando, claro está que resumimos em muito, mas queremos reiterar que o rito para ser realizado precisou contar com o aval do Caboclo ou Preto Velho e sua falange, que estendeu seu agô ao Exu que movimentou , deu caminho e direcionamento a todos os pedidos, como também às ordens recebidas.

Nessa jornada de reconhecimento ao mundo das religiões afro-brasileiras, ao universo das Potestades e Ancestrais Ilustres, nos encontramos com Eles e Deles recebemos bênçãos, bons auspícios espirituais e materiais, e mais, estamos renovados e felizes para continuarmos a seguir nosso caminho. Vamos seguir os caminhos? Os caminhos estão abertos para todos nós! Axé!

P.S. Foi numa noite dessas que esse rito de fundamento ocorreu. Com ele se encerrou um ciclo. É hora de recomeçar. Há muito tempo, já recomeçamos. Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico

Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”

Publicação 110


Um comentário:

  1. Acredito que encontrei o que eu tanto procurava, é maravilhoso tudo isto que li.

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