quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Foi uma noite para entrar na História...


Nesses quarenta anos a frente de um templo como sacerdote das religiões afro-brasileiras, participamos de muitos rituais, mas poucos deles como o de sábado último (dia 23/10) que ficaria registrado de forma indelével em nosso espírito.

Os motivos do registro são simples e complexos ao mesmo tempo. Sim, vivenciamos neste rito o que há muito tempo buscávamos: o respeito incondicional com as diferenças, com a alteridade. Satisfeitas essas metas (simples e complexas), saltava aos olhos o clima de cordialidade, respeito e fraternidade entre todos os presentes, que demonstravam no sorriso da face a felicidade que transbordava do coração.

A liberdade de expressão e atitude, a confraternização entre as várias Escolas e com os Ancestrais Ilustres, fizeram com que vivêssemos instantes mágicos de equilíbrio, harmonia e fé madura, compartilhada na alegria e na esperança de futuro feliz e promissor às religiões afro-brasileiras e a sociedade planetária.

O preparo do ritual se processou na semana que antecedeu o rito, quase que em tempo integral, onde todos participaram ativamente, em várias frentes, proporcionando mais condições na restituição do axé, que permitiu do início ao fim do rito, como dissemos, um ambiente de paz, harmonia e fraternidade, possibilitando a todos nós maior senso de pertencimento e identificação com nossas raízes. Por isso quero agradecer a todos meus filhos espirituais pela dedicação e trabalho incansável nas lides do bem e pelo enaltecimento que proporcionam às religiões afro-brasileiras.

Todos também auxiliaram na composição e na exteriorização do enredo do ritual, no sucesso do ritual. O enredo do ritual-Exu se apresenta como transportador e distribuidor do Axé, por intermédio das folhas mágicas (17) que Ossaim lhe outorgou, segundo os desígnios de Orumilá Ifá – O Orixá da Sabedoria e do destino.

O Oparerê (osun), o bastão magístico do Babalawô, estava encimado por uma cabaça semi-aberta, de onde emergiam 16 coquinhos de dendê – os ikinifá (de 3 ou 4 olhos) guardados pelas folhas de peregun – folhas do Orixá Ogum, que assim como Exu vai à frente, é asiwaju.

Saindo do Oparerê, apoiados em 16 hastes, 16 pássaros levam os desígnios, os augúrios de Orumilá às folhas de Ossaim, que por sua vez, faz penetrar o seu Poder no pote mágico de Exu, permitindo que Ele (Exu) seja o mensageiro do bom destino (Exu Odara), dos bons augúrios e bons auspícios de paz, alegria, saúde, vida longa, amor e espiritualidade.

Agradecendo a todos os irmãos das religiões afro-brasileiras que estiveram presentes no ritual, vindos de 16 Estados, das 5 regiões brasileiras e mais dois representantes do Uruguai, que em comunhão com seus Ancestrais Ilustres representados pelos seus Exus propiciaram, foram protagonistas de uma noite histórica, que com certeza balizará os novos caminhos que trilharemos doravante. Caminhos de respeito, amizade, fraternidade, alçando as religiões afro-brasileiras à sua real posição no cenário da espiritualidade brasileira e mundial.

Com a mente e coração plenos de paz e alegria, pensei que tudo isso fosse um sonho ou devaneio, mas não foi. Foi numa noite-dia dessas que vi e vivi tudo isso, só isso... Axé!


Fechamento da Av. Santa Catarina
onde foi realizado o ritual de Exu

Sala de recepção de Pais e Mães Espirituais

Sala de recepção de Pais e Mães Espirituais

Pais e Mães espirituais na entrada do Templo

Mestre de Cerimônia - Sr. Robson Baroni,
anunciando a presença dos Sacerdotes

Sacerdote entrando no Templo

Sacerdotisa entrando após ser anunciada

Pai Rivas sendo anunciado

Pai Rivas fazendo a prédica e saudando as autoridades civis e eclesiásticas

Pai Rivas, momento anterior à incorporação

Templo lotado de Pais e Mães Espirituais de várias regiões do País

Exus em plena via pública

Fundanga acesa representando abertura de caminhos e prosperidade

Exó - Tema: Exu concretizador do Destino de Orumilá Ifá
por intermédio das folhas mágicas de Ossaim

Pais e Mães de Santo cantando em homenagem ao enredo do Exó

Pai Rivas na 2ª etapa do rito, no Templo da rua Chebl Massud

Pais e Mães de Santo incorporados com Exu e Pomba Gira

Exu saudando, transmitindo Axé e agradecendo a presença de todos -
encerramento do rito ( 5h45 de domingo de manhã)

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico

Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”

Publicação 86

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O Sagrado nas Religiões Afro-Brasileiras

RESUMO

As religiões são santas em seus propósitos e intentos, todavia não é menos verdade que há verdadeiros duelos, lutas aviltantes pela posse de prosélitos. Como conciliar o aspecto do bem e da luz, com o simples e vulgar comércio que infelizmente se faz com as “coisas divinas”?

Entendemos tais óbices e, como cultor do Sagrado, esperamos o retorno da religião ao seu devido contexto, da mesma forma a filosofia, a ciência e a arte. Todas são formas particularizadas de perceber, entender e vivenciar o Sagrado. O Sagrado é a espiritualidade universal inerente a todo ser humano, vivente no seu interior, independente do individuo ser ou não “religioso”.

Precisamos, urgentemente, em favor da lógica e do bom senso revisar conceitos e promover sua implantação.

Palavras-chave: Espiritualidade, historiografia, Inconsciente, Religiões Afro-brasileiras, Sagrado.

ABSTRACT

Religions are holy in their intents and purposes, however the fact remains that there are real duels, fights for the possession of followers. How to reconcile the aspecto f goodness and light, with the simple and vulgar commerce that unfortunately makes the "divine"?

We understand these obstacles and, as a cultivator of the Sacred, we expect the return of religion to its proper context, just as philosophy, science and art. All forms are particularized to perceive, understand and experience the Sacred. The Sacred is the universal spirituality inherent to every human being living in its interior, regardless of the individual is or is not "religious."

We need, urgently, in favor of logic and common sense, to review concepts and promote their implementation.

Keywords: Spirituality, historiography, Unconscious, Afro-Brazilian Religions, Sacred.


O SAGRADO NAS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS

Temos convicção na fé iluminada que direciona a alma para os planos além da matéria grosseira, convidando a novos patamares de bênçãos de paz e luz, traduzidas em amor e sabedoria.

Sabemos que as religiões são santas em seus propósitos e intentos, todavia não é menos verdade que há verdadeiros duelos, lutas aviltantes pela posse de prosélitos. Como conciliar o aspecto do bem e da luz, com o simples e vulgar comércio que infelizmente se faz com as “coisas divinas”?

Por esse motivo muitas almas “versadas” na inteligência se encolhem, se afastam do salutar medicamento para seus sentimentos, para suas almas, que poderiam encontrar nas religiões disponíveis.

Entendemos tais óbices e, como cultor do Sagrado, esperamos o retorno da religião ao seu devido contexto, da mesma forma a filosofia, a ciência e a arte. Todas são formas particularizadas de perceber, entender e vivenciar o Sagrado.

Venerando a missão das religiões e dos religiosos de maneira geral, não podemos afastar os que se interessam pelo Sagrado de forma não sectária, os livres pensadores.

A eles afirmamos que o Sagrado é a espiritualidade universal inerente a todo ser humano, vivente no seu interior, independente do individuo ser ou não “religioso”.

Entendemos por espiritualidade a capacidade que temos de nos identificar como espíritos. Temos, mas nem todos desejam...

Encerrando, sabemos da necessidade das várias religiões, e acreditamos que seja isso mesmo, todavia carecemos restaurar nossa visão da lida das coisas divinas, deslindando-as dos entraves que levam muitos à incredulidade.

Nós, por dentro das religiões afro-brasileiras, temos proposto com total isenção de ânimos, o conceito de Escola, como forma de se perceber e praticar a doutrina sem precisar entrar em rota de colisão com outras Escolas que seguem princípios diversos e diferentes.

Partimos da premissa que somos diferentes, mas não melhores um que outro. A riqueza de nossa doutrina está na pluralidade de percepções e na diversidade de cultos, algo muito importante em uma sociedade secular e incrédula.

Muitas vezes entramos em diálogo mais agudo com esta ou aquela Escola, pois as mesmas reclamam a supremacia e até desejam codificar a Umbanda, algo que sabemos ser contrário aos princípios que regem a Lei Divina em ação nas religiões afro-brasileiras (forma de gessar, normatizar a Umbanda).

Temos tomado para nós a tarefa de enfrentar tais óbices das intermináveis discussões entre os vários segmentos, pois o conceito de Escola determina que todas têm a mesma importância, não tendo nexo qualquer discussão que fere tal “isonomia”.

As discussões se devem como já afirmamos a determinados segmentos que desconhecem o conceito de Escola e vez por outra querem açambarcar a Umbanda, sentenciando que suas práticas e doutrinas são melhores. Querem tomar a parte pelo todo e, pior, querem que a parte (a sua claro) seja melhor que as demais.

Alguns pesquisadores da academia, em seus recortes historiográficos, cometem tal equívoco, pois identificam como sendo de Umbanda a visão de apenas um segmento. Isso é tomar a parte pelo todo que, insistimos, só tem sentido quando inserido e formalizado no todo.

Precisamos, urgentemente, em favor da lógica e do bom senso revisar conceitos e promover sua implantação.

No término, como complemento de nossas ilações, disponibilizamos o vídeo – As religiões afro-brasileiras e o inconsciente. Axé!





Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico

Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”

Publicação 85

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Teologia Umbandista e a Convergência do Conhecimento


O trabalho de resgate da História Umbandista e do recorte histórico de nossa Escola será intermediado pelo texto que se segue, pois este introduz e em parte justifica nosso tentame que continuaremos em textos ulteriores.

O mundo contemporâneo tem como estandarte o culto ao individualismo, a apologia do ego que sustenta a pluralidade de opiniões como se a mesma fosse sinal de liberdade de expressão. A grande diversidade de filosofias, ciências, artes e religiões, de certa forma, é também consequência desse processo de isolamento em busca da individuação onde, cada vez mais, tornamo-nos distantes uns dos outros, ressaltando as diferenças e olvidando as semelhanças.

O processo de Convergência para a paz no mundo procura não apenas a convivência pacífica, mas principalmente a busca da origem comum de todos, da Ciência do Ser, até alcançarmos a identificação total entre todos.

Apesar de todas as diferenças existentes entre as pessoas, na verdade, temos muito mais em comum do que julgamos. A causa disso é que perdemos o conhecimento da Ciência do Ser, da manifestação do princípio divino em todo o universo, inclusive nos homens. Vivemos na diversidade, e no tempo presente isso é fundamental, por estarmos fragmentados em nossa consciência, distantes de nossa origem, que é também nosso destino final.

A Tradição de Síntese – Aumbhandan ou Umbanda contém em si os princípios que regem toda a criação, seja no nível macrocósmico ou microcósmico. Tudo o que existe obedece às Leis de formação do Universo, que continuam atuando tanto em nós, indivíduos, como em toda a energia-massa do universo, mesmo que não sejamos conscientes das mesmas.

Devido à fragmentação do Homem, essa Tradição de Síntese dividiu-se na compreensão do que é abstrato e do que é concreto, em número e fenômeno. As leis que regulam os fenômenos tornaram-se estudo da Ciência no geral e também da Arte. Quer dizer, toda e qualquer forma de manifestação em energia-massa obedece a leis científicas; compreender a harmonia das formas faz parte da Arte.

Por outro lado, o estudo das causas abstratas que incidem sobre a matéria gerando os fenômenos não pode ser simplesmente apreendida pela ciência concreta, é preciso estar de posse dos instrumentos da Ciência do Espírito para compreender os números, as idéias que antecedem a forma. Isso tudo faz parte do campo de atuação da Religião e da Filosofia.

Infelizmente, após perdermos a Tradição de Síntese, acabamos por perder também a Filosofia, a Ciência, a Arte e a Religião integrais e primevas. Como consequência, passou a existir fragmentação também nesses campos, surgindo várias filosofias, religiões, etc., muitas vezes opostas entre si.

Para exemplificar, vemos que as religiões são formas particulares e parciais de ver o Sagrado que todas buscam. Fica claro que quanto mais nos aproximamos da convergência, menos observações parciais, regionais ou sectárias existirão, predominando a universalidade sobre a individualidade.

Acreditamos piamente que a Paz Mundial se consolida na convergência entre a Filosofia, a Ciência, a Arte e a Religião com todos os seus segmentos convivendo pacificamente, em primeira instância, e compreendendo sua essência una ulteriormente.

Temos muito que pensar, fazer e com certeza, faremos...Axé!





Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico

Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”

Publicação 84

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

História na Umbanda - A Tradição em contínua mudança

RESUMO

Os vários relatos que dispensamos em textos, fotos e vídeos, carreiam vários documentos históricos e retratam em períodos de tempo desde 1954, portanto mais de meio século de vivências e práticas nas religiões afro-brasileiras.

Nessas vivências fomos e somos ator, sujeito pois, mas não deixamos de ser objeto; é dessa interação aporética que nos propusemos a fazer um recorte histórico, óbvio ora retratando, ora criticando, interpretando e estudando, pesquisando e concluindo. Tendo isto em vista, é necessário fazermos uma linha do tempo, e a seguir, desenvolver todos os períodos citados, e mais, os entrelaçamentos harmônicos entre os mesmos que determina de forma insofismável a unidade que se apresenta na diversidade.

Antes da linha do tempo de nossas vivências e práticas nas religiões afro-brasileiras é necessário caracterizar e demonstrar, segundo nossa apreciação o conceito de unidade, o todo e como a parte descontextualizada do todo, perde a sua função.

Palavras-chave: Escolas, História, Religiões Afro-brasileiras, Tradição, W. W. da Matta e Silva

ABSTRACT
Our many reports in text, photos and videos, bring various historical documents and represent periods of time since 1954, more than half a century of experiences and practices in afro-brazilian religions.

On these experiences we were and we are an actor, the subject, but does not stop being the object; it is this aporetic interaction we proposed to make a historical aproach, sometimes portraying, sometimes criticizing, interpreting and studying, researching and completing. With this in mind, it is necessary to make a timeline, and then develop all periods cited, and more, the harmonic twists between them that determines the unit that presents itself in diversity.

Before the timeline of our experiences and practices in afro-brazilian religions it is necessary to characterize and demonstrate the concept of unity, the whole and how a decontextualized part of the whole loses its function.

Keywords: Education, History, Afro-Brazilian Religions, Tradition, W. W. da Matta e Silva

HISTÓRIA NA UMBANDA - A TRADIÇÃO EM CONTÍNUA MUDANÇA

Os vários relatos que dispensamos em textos, fotos e vídeos, carreiam vários documentos históricos e retratam em períodos de tempo desde 1954, portanto mais de meio século de vivências e práticas nas religiões afro-brasileiras.

Nessas vivências fomos e somos ator, sujeito pois, mas não deixamos de ser objeto; é dessa interação aporética que nos propusemos a fazer um recorte histórico, óbvio ora retratando, ora criticando, interpretando e estudando, pesquisando e concluindo.

Acreditamos que o recorte histórico possibilita ao leitor a oportunidade de perceber várias nuanças da história da Umbanda, o pensamento vigente em cada “recorte minor” tece o pano de fundo em que se apóia o nosso “recorte major”.

Objetivamos demonstrar como a tradição oral transita para a tradição escrita, gradativamente num fluxo bidirecional, apresentando as características próprias e singulares das religiões afro-brasileiras, apesar de não serem um bloco monolítico, mas um painel multicolorido que expressa a flexibilidade de sua unidade manifesta na diversidade, sem perder sua característica que exprime sua identidade.

Antes de continuarmos, pois temos muito a referir de nossas práticas, pesquisas e conclusões, de nossa “vivência desde dentro”, é necessário fazermos uma linha do tempo, e a seguir, desenvolver todos os períodos citados, e mais, os entrelaçamentos harmônicos entre os mesmos que determina de forma insofismável a unidade que se apresenta na diversidade.

Antes da linha do tempo de nossas vivências e práticas nas religiões afro-brasileiras é necessário caracterizar e demonstrar, segundo nossa apreciação o conceito de unidade, o todo e como a parte descontextualizada do todo, perde a sua função.

Utilizamos a metodologia dos processos analógicos, que esperamos possa satisfazer nossa concepção. Para tal, tomemos o círculo geométrico. O círculo tem um centro que lhe dá a origem, terminando na periferia, balizado pela circunferência. Portanto, o círculo não é a circunferência. Se à circunferência associamos fator perimetral, no círculo associamos fator de área (bidimensional). Não podemos olvidar que no plano tridimensional temos a esfera, tendo como geratriz a própria circunferência que limita o círculo.

Continuando, dividamos o circulo em vários setores, que partem do centro, terminando na circunferência do círculo citado. A visão é de um circulo todo dividido, mas que mantém sua unidade balizada na circunferência. É possível observar a unidade (círculo) e a diversidade.

Poderia se questionar se a parte não representa o todo. Não representa, pois o fator principal da parte é o “cimento” ou interação que o todo promove entre todas as partes ou segmentos, logo não há possibilidade da parte representar o todo.

Além dos aspectos analógicos citemos a pedra basilar da psicologia da Gestalt desenvolvida por Frederick S. Perls (1893 – 1970).

A gestalt em sentido geral é uma disposição ou configuração – uma organização específica de partes que constitui um todo particular. O princípio mais importante da abordagem gestáltica é o de propor que uma análise das partes nunca pode proporcionar uma compreensão do todo, uma vez que o todo é definido pelas interações e interdependência das partes. As partes de uma gestalt não mantém sua identidade quando estão separadas de sua função e lugar no todo. (FADIMAN, 1986).

DIAGRAMA EXPLICATIVO

Unidade




Por exemplo – setores A, B, C, D – São diferentes entre si, mas fazem parte do todo, todavia quando apartados do todo perdem sua função.

Ex.:



Se transpusermos estes conceitos simples para a Umbanda, verificaremos que temos vários segmentos (Escolas – algo que já definimos, mas aprofundaremos o conceito por nós criado em 1998) que separados da unidade (círculo que representa a Umbanda) perdem sua função, não mais poderão representar o todo, pelos motivos acima aludidos.

Desejar perpetrar essa violência à Umbanda, e vez por outra encontramos vários incautos com esse famélico desejo (Poder Econômico) é querer codificá-la, algo que discutiremos na profundidade e maturidade devidas em futuro próximo.

Pelos fundamentos entabulados em linhas anteriores, chega-se a conclusão que desejar codificar a Umbanda é devaneio, ou querer cindir com Ela, surgindo assim uma seita, que acreditamos já ser vivente em nosso meio, algo que tentaremos demonstrar.

No término deste modesto texto introdutório à linha do tempo histórica, demonstraremos o que pretendemos discutir, segundo nossa vivência, pesquisa e práticas, por dentro da Umbanda e demais religiões afro-brasileiras.

“LINNHA DO TEMPO SOBRE NOSSAS VIVÊNCIAS NAS RELIGÕES AFRO-BRASILEIRAS”

  • Época Pré Matta e Silva

1ª Fase (1954 – 1962)

Fase em que vivenciamos o culto de Nação, da Nação Ketu – com o Pai Ernesto de Xangô Airá - Encantarias

2ª Fase (1963 – 1970)

Encontro e vivências com vários segmentos umbandistas:

a. Tenda de Umbanda Xangô Kaô (Dr. Carlos e D. Helena)

b. Tenda de Umbanda do Caboclo Pedra Branca (Antonio Romero – Pai Toninho de Xangô)

c. Casa de Caridade do Caboclo Guarantan (Roberto Getúlio de Barros – Pai Roberto de Oxossi)

d. Iniciação / Coroação, feita pelos Caboclos Guarantan e Pedra Branca (1962)

e. Fundação do 1º Templo (1968)

f. Mudança de local do Templo para a Via Anchieta, 308 (1970)

g. Vivência com o Babalorixá – Pai Isaias (Sr. Isaias) na casa de artigos religiosos na Rua Bom Pastor (1970)

  • Época Matta e Silva

3ª Fase (1971 – 1978)

Iniciação – Iniciado em Itacuruçá após 7 anos, como Mestre de Iniciação de 7º Grau no 2º Ciclo – segundo os fundamentos de Umbanda Esotérica.

4ª Fase (1979 – 1983)

Mudanças conceituais em Itacuruçá – prolegômenos da sucessão (1983)

5ª Fase (1984 – 1987)

Incumbências de representar Pai Matta:

- Escrevemos artigos durante 52 semanas num matutino paulista;

- Várias palestras e cursos que ministramos em São Paulo, Rio de Janeiro com o Pai Matta;

- A vida através dos Búzios e Dendês (Revista Planeta);

- Reportagem no Estado de São Paulo com o jornalista Jary Cardoso, onde afirmamos: que o banquinho de preto velho fazia as vezes do confessionário;

- Rito da Transmissão do Comando da Raiz.

  • Época pós Matta e Silva

6ª fase (1988-2003)

Retorno aos estudos, pesquisas e práticas por dentro das raízes afro-brasileiras, concomitantemente com fundamentos de Umbanda Iniciática.

1ª obra escrita: 1987 – Umbanda a Proto-Síntese Cósmica - após dois anos foi editada pela Editora Freitas Bastos (1989); atualmente editada pela Editora Pensamento, na 11ª edição.

2ª obra: 1990 – Umbanda – o elo perdido – 1ª edição editada pela Editora do Círculo Cruzado; 2ªs e 3ªs edições editadas pela Editora Ícone.

3ª obra: 1991 – Lições Básicas de umbanda – editada pela editora Ícone atualmente na 4ª edição.

4ª obra: 1993 – O Arcano dos Sete Orixás – Editora Ícone, atualmente na 4ª edição.

5ª obra: 1994 – Exu – o grande arcano – Editora Ícone, atualmente na 4ª edição.

6ª obra: 1996 – Fundamentos Herméticos de Umbanda – Editora Ícone, atualmente na 2ª edição.

7ª obra: 1998 – Cura e auto cura umbandista – terapia da alma – Editora Ícone, atualmente na 2ª edição.

8ª obra: Sacerdote, Mago e Médico – cura e auto cura umbandista – Editora Ícone, atualmente na 2ª edição.

7ª fase (2004 – 2010)

- Fundação da 1ª Faculdade de Teologia Umbandista, autorizada e credenciada pelo MEC, portaria 3864-18/12/2003.

- Início do curso de Bacharelado em Teologia Umbandista (2004);

- Cultos pela União e Paz Umbandistas (2004 até 2010);

- Locutórios intra-religiosos, inter-religiosos e inter-disciplinares (2005, 2006, 2007, 2008 e 2009);

- Fundação do Centro de Cultura Viva das Tradições Afro-brasileiras (2006);

- Vídeo aulas gratuitas – (2008, 2009 e 2010);

- Vídeo conferências nacionais e internacionais (2008, 2009 e 2010);

- Cursos de Extensão universitária presencial e à distância (2004 a 2010);

- I Congresso Brasileiro de Umbanda do Século XXI (2008);

- II Congresso Brasileiro de Umbanda do Século XXI (2009)

- III Congresso Brasileiro de Umbanda do Século XXI (novembro de 2010);

- Outros eventos e/ou atividades.

E a História não pára... Nas próximas publicações descreveremos todas as fases citadas acompanhadas de documentos comprobatórios. E a História continua... Continuará sempre! Axé!






Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico

Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”

Publicação 83

Referências Bibliográficas

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SOUZA, Laura de Mello, O diabo nas Terras de Santa Cruz; Companhia das Letras; 1996).p.36

SOUZA, Leal de; O espiritismo, a magia e as Sete Linhas de Umbanda, Rio de Janeiro-1939, p.41

SOUZA, Leal de. O Espiritismo, a Magia e as sete Linhas de Umbanda, Rio de Janeiro, 1933; p.79

SOUZA, Mariana de Mello; http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=34&id=401;10-04-2008

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A unidade umbandista manifestada na diversidade ritualística

O processo de convergência para a Paz Mundial, conforme aprendemos na Escola de Síntese, cuja casa-raiz é a Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino, implica na reunião de todos os povos em torno de um conhecimento integral, não-fragmentário da Realidade, que compreende as realidades espiritual e material como uma só, sendo esta última a manifestação da primeira.

Sabemos que o conhecimento humano foi setorizado em quatro formas de se observar a Realidade Una, a saber: a Filosofia, a Ciência, a Arte e a Religião. Percebemos que, embora os métodos de desenvolvimento desses quatro ramos do conhecimento sejam diferentes, seu objeto de estudo é sempre o mesmo, qual seja a Realidade em seus aspectos concretos ou abstratos. Considerando que o homem contém em si tanto as realidades concretas como abstratas, sendo ele o microcosmo que representa o macrocosmo. Em última análise, podemos dizer que o objeto de estudo dos quatro pilares do conhecimento é o próprio homem e sua identidade com o Cosmos.

Acontece que em virtude dos conflitos internos, da ignorância, dos apegos e do ódio, o homem fragmentou-se, refletindo-se isso na fragmentação dos quatro pilares entre si e cada um deles em várias subdivisões. A partir daí tivemos as várias escolas filosóficas, os vários setores religiosos, os vários ramos da ciência e as várias maneiras de expressão artística.

O papel da Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino, desde sua reimplantação no plano Terra em 1970, é colaborar para a reversão do processo de fragmentação que ocasiona os conflitos internos (dilemas existenciais de cada indivíduo) e os conflitos externos (guerras, desigualdades sociais e injustiça).

Em obediência às confrarias espirituais do Astral Superior, nossa escola estabeleceu mais um marco dentro do processo de convergência, quando no dia 28/08/2000, anunciou que a partir de então, haverá vários ritos públicos na Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino, no Templo Público da Rua Chebl Massud e no Templo Iniciático na Avenida Santa Catarina.

Esses ritos abrangem uma gama ampla de entendimentos do Sagrado, ou ângulos de interpretação, fazendo a convergência de praticamente todos os setores ou escolas dentro das religiões afro-brasileiras e, no Templo Iniciático, fazendo um rito que promove a união entre todos os setores filosófico-religiosos da humanidade, incluindo budistas, taoistas, shintoistas, hinduistas, muçulmanos, judeus, católicos etc.

Para demonstrar nossa proposição, basta observarmos os vários ritos desenvolvidos, quinzenalmente, conforme o esquema abaixo:

Rito ou Toque de Jurema (contatos com os Encantados ou Encantarias várias – promovendo a união com a Pajelança, Toré, Xambá, Terecô, Tambor de Minas e outros);

Rito de Umbanda Traçada (influências evidentes ameríndias e africanas, promovendo a união com os praticantes do culto Omolocô, do Candomblé de Caboclo e todos os demais que fazem essas ligações).

Rito de Umbanda Mítica ou Mista (influências regionais, com a presença de entidades que se manifestam como baianos, boiadeiros, marinheiros etc., fazendo o entrelaçamento étnico e dos sincretismos que surgiram dentro da Umbanda).

Rito da Kimbanda (Umbanda com fortes vínculos com a Kimbanda, com a presença dos Exus que carregam toda a valência kármica que sua função espiritual representa).

Rito de Umbanda Esotérica (Umbanda segundo os fundamentos preconizados por Mestre Yapacani – W.W. da Matta e Silva).

Fundamentos Básicos do Tríplice Caminho (Criança, Caboclo e Pai-Velho).

Fundamentos Cósmicos do Tríplice Caminho (Mestres da Pureza, Mestres da Fortaleza e Mestres da Sabedoria).

Fundamentos do Ombhandahum (no Templo Iniciático, canalização com os Orixás e identificação com a Realidade-Una)

Como podemos observar, nos vários ritos, existe uma ampla integração entre todas as escolas ou setores do movimento umbandista, algo pioneiro dentro da Umbanda. Isso só é possível pelo conhecimento prático sobre todos esses setores, nunca desdenhando de nenhum deles. Os vários ritos representam exclusivamente uma transição da visão regionalista para a visão universalista, sendo que todos são igualmente importantes e têm suas funções precípuas dentro da coletividade terrena.

Na maior parte dos templos, não existe uma compreensão mais ampla dos pontos em comum entre todos os setores umbandistas. A Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino é capaz de realizar esta interação devido ao seu aprofundamento dentro da visão cósmica da Umbanda. Essa postura de vanguarda foi muitas vezes mal interpretada, como se a O.I.C.D. pretendesse criar uma nova Umbanda ou uma seita elitista. Está claro agora que somente com a compreensão universalista do Sagrado, desenvolvida por nós ao longo dos anos, é possível a integração entre todos os setores do movimento umbandista, das religiões afro-brasileiras. Pelos motivos aludidos, é contrária à codificação.

Finalizando, o rito, realizado no Templo Iniciático, se propõe a fazer convergência não mais dentro da Umbanda apenas, mas principalmente entre os vários setores filosófico-religiosos, mostrando uma forma universal de relacionamento com o Sagrado, que nos remete a paz interna, convivência pacífica, o respeito incondicional às diferenças e a paz mundial. Axé!

P.S. Acompanha vídeo: FTU-Faculdade de Teologia Umbandista, promovendo a diversidade de cultos na Umbanda.




Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 82